quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Seres inorgânicos (ii)

Escrito por Carlos Castaneda






Assegurou-me que, lá porque ele tinha diferentes pontos de vista, isso não queria dizer que as práticas dos antigos videntes eram inválidas; as suas interpretações estavam erradas, mas as suas verdades tinham valor prático para eles. No caso das práticas da água, estavam convencidos que era humanamente possível ser transportado, em corpo, pela fluidez da água, para um qualquer ponto entre este nosso nível e um dos outros sete níveis abaixo; ou ser transportado, em essência, para qualquer parte deste nível, ao longo do curso do rio, em qualquer direcção. Consequentemente, usavam a água corrente para serem transportados neste nosso nível e a água dos lagos profundos ou a das nascentes, para serem transportados às profundezas.

- O que pretendiam, com a técnica que lhe estou a mostrar, tinha dois sentidos – continuou. – Por um lado, usavam a fluidez da água. Por outro, usavam-na para se encontrarem frente a frente com um ser vivo desse primeiro nível. A forma semelhante a uma cabeça, no espelho, era uma dessas criaturas que veio para nos olhar.

- Então, eles existem! – exclamei.

- Claro que existem – respondeu ele.

Disse que os antigos videntes tinham sido prejudicados pela sua insistência aberrante em ficar agarrados aos seus procedimentos, mas o que quer que fosse que eles descobriram, foi válido. Descobriram que o caminho mais seguro para encontrar uma dessas criaturas é através de uma porção de água. O seu tamanho não é relevante; um oceano ou um tanque servem o mesmo propósito. Ele tinha escolhido um riacho, porque detestava ficar molhado. Teríamos obtido os mesmos resultados num lago ou num rio maior.

- A outra vida vem ver o que se passa, quando os seres humanos chamam – continuou. – Esta técnica Toltec é como que bater à sua porta. Os antigos videntes diziam que a superfície brilhante no fundo da água, servia como um chamariz e uma janela. Então, os seres humanos e essas criaturas, encontravam-se à janela.

- Foi o que aconteceu comigo, ali? – perguntei.

- Os antigos videntes teriam dito que você foi puxado pelo poder da água e pelo poder do primeiro nível, mais a influência magnética da criatura à janela.

- Mas eu ouvi uma voz no meu ouvido, a dizer que eu estava morrer – disse eu.

- A voz tinha razão. Você estava a morrer e teria morrido, se eu não estivesse ali. Esse é o perigo de praticar as técnicas dos Toltec. São extremamente eficazes, mas, na maioria das vezes, são mortais.

Disse-lhe que tinha vergonha de confessar que estava apavorado. Ver aquela forma no espelho e ter a sensação de uma força envolvente, à minha volta, tinham sido de mais para mim, no dia anterior.

- Não quero alarmá-lo – disse ele, - mas ainda não lhe aconteceu nada. Se o que me aconteceu a mim for o guião do que lhe vai acontecer, é melhor preparar-se para o choque da sua vida. É melhor tremer que nem varas verdes, hoje, que morrer de medo, amanhã.

O meu medo era tão aterrador, que nem conseguia dar voz às perguntas que me vinham à ideia. Levei algum tempo para engolir. Don Juan riu até se engasgar. O seu rosto ficou vermelho. Quando recuperei a voz, cada uma das minhas perguntas provocava um novo ataque de riso e tosse.

- Você não faz ideia de como tudo isto é divertido para mim – disse, finalmente. – Não estou a rir de si. É toda esta situação. O meu benfeitor fez-me passar pelo mesmo e, ao olhar para si, não posso deixar de me ver a mim mesmo.

Disse-lhe que me sentia agoniado. Ele disse-me que eu estava bem, que era natural estar assustado, e que o controlo do medo seria errado e sem sentido. Os antigos videntes foram apanhados por suprimir o seu terror, quando deveriam ter ficado assustados até perder a cabeça. Como não queriam parar as suas pesquisas ou abandonar as suas reconfortantes construções, resolveram controlar o seu medo, em vez disso.

- Que mais vamos fazer com o espelho? – perguntei.

- O espelho vai ser usado para um encontro frente a frente entre si e a criatura que você viu de relance, ontem.



- O que acontece é que uma forma de vida, a forma humana, encontra outra forma de vida. Os antigos videntes dizem que, neste caso, é uma criatura do primeiro nível da fluidez da água.

Explicou-me que os antigos videntes supunham que os sete níveis abaixo de nós, eram níveis da fluidez da água. Para eles, uma nascente tinha um significado extraordinário, porque pensavam que, nesse caso, a fluidez da água era revertida e vinha das profundezas para a superfície. Achavam que esse era o meio pelo qual as criaturas dos outros níveis, essas outras formas de vida, vinham até ao nosso plano, para nos espiar, nos observar.

- A este respeito, os antigos videntes não estavam enganados – continuou. – Acertaram em cheio. As entidades a que os novos videntes chamam aliados, aparecem perto das nascentes.

- Aquela criatura no espelho era um aliado? – perguntei.

- Sem dúvida. Mas não um que possa ser utilizado. A tradição dos aliados, com a qual o familiarizei no passado, vem directamente dos antigos videntes. Fizeram maravilhas com os aliados, mas nada do que eles fizeram valeu a pena, quando o verdadeiro inimigo apareceu: os seus semelhantes, os homens.

- Dado que essas criaturas eram aliados, deviam ser muito perigosos – disse eu.

- Tão perigosos como nós, homens, somos; nem mais, nem menos.

- Podem matar-nos?

- Não directamente, mas podem, certamente, assustar-nos de morte. Podem atravessar os seus próprios limites, ou, simplesmente, chegar à janela. Como já deve ter percebido, os antigos Toltec também não pararam na janela. Encontraram estranhas maneiras de ir além delas.

O segundo estágio da técnica desenvolveu-se de uma forma muito semelhante ao primeiro, excepto por ter levado, mais ou menos, o dobro do tempo para que eu me relaxasse e parasse a minha agitação interna.

Quando isso aconteceu, o reflexo do rosto de don Juan e do meu tornou-se, instantaneamente, mais nítido. Durante mais ou menos uma hora, passeei o olhar do seu reflexo para o meu. Esperava que o aliado aparecesse a qualquer momento, mas não aconteceu nada. Doía-me o pescoço. As minhas costas estavam tensas e as minhas pernas dormentes. Queria ajoelhar-me na rocha, para aliviar a dor no fundo das costas. Don Juan segredou-me que, no momento em que o aliado mostrasse a sua forma, o meu desconforto desapareceria.

Estava absolutamente certo. O choque de testemunhar uma forma redonda no canto do espelho dissipou todo o meu desconforto.

- Que fazemos agora? – sussurrei.

- Relaxe e não focalize o seu olhar em nada, nem mesmo por um instante – replicou ele. – Observe tudo o que aparecer no espelho. Olhe sem fixar.

Obedeci-lhe. Olhei para tudo, dentro da moldura do espelho. Havia um zumbido peculiar nos meus ouvidos. Don Juan segredou-me que eu deveria rolar os olhos no sentido dos ponteiros do relógio, se sentisse que estava a ser envolvido por uma força incomum; mas, sob circunstância alguma, deveria levantar a minha cabeça para olhar para ele.

Passado um bocado, verifiquei que o espelho estava a reflectir mais do que os nossos rostos e a forma redonda. A superfície tornara-se escura. Pontos de intensa luz violeta apareceram. Ficaram maiores. Havia, também, pontos negro-azeviche. Depois, transformou-se em algo parecido com uma fotografia de um céu nublado, à noite, à luz do luar. De repente, toda a superfície entrou em foco, como se fosse uma imagem móvel.

A nova vista era tridimensional, impressionante vista das profundezas.




Eu sabia que me era absolutamente impossível lutar contra a tremenda atracção daquela visão. Começou a puxar-me lá para dentro.

Don Juan sussurrou-me, energicamente, que eu devia rolar os meus olhos, no sentido dos ponteiros do relógio, para meu próprio bem. O movimento trouxe-me alívio imediato. Conseguia, de novo, distinguir os nossos reflexos e o do aliado. Então, o aliado desapareceu e reapareceu outra vez, no outro canto do espelho.

Don Juan ordenou-me que segurasse o espelho com toda a minha força. Aconselhou-me a ficar calmo e a não fazer movimentos repentinos.

- O que é que vai acontecer? – sussurrei.

- O aliado tentará sair – replicou.

Mal acabou de falar, senti um forte puxão. Qualquer coisa me sacudiu os braços. O puxão vinha por baixo do espelho. Era como uma força de sucção que criava uma pressão uniforme à volta da moldura.

- Segure o espelho com força, mas não o quebre – ordenou don Juan. – Lute contra a sucção. Não deixe que o aliado afunde demasiado o espelho.

A força que nos puxava para baixo era enorme. Senti que os meus dedos se iam partir de encontro às rochas do fundo. Don Juan e eu, a certa altura, perdemos o equilíbrio e tivemos de descer da rocha para o rio. A água era bastante rasa, mas a tensão da força do aliado à volta da moldura do espelho era tão assustadora, que parecia que estávamos num rio enorme. A água à volta dos nossos pés rodava loucamente em remoinhos, mas as imagens no espelho eram inalteráveis.

- Atenção! – gritou don Juan. – Aí vem ele!

O puxão transformou-se num impulso vindo de baixo. Qualquer coisa estava agarrar o canto do espelho, não o canto exterior da moldura, que nós segurávamos, mas o do interior do espelho. Era como se a superfície do espelho fosse, realmente, uma janela aberta e alguma coisa estivesse a subir por ela.

Don Juan e eu lutámos desesperadamente, ora para empurrar o espelho para baixo, quando estava ser pressionado para cima, ora a puxá-lo, quando estava a ser afundado. Numa posição curvada, movemo-nos do ponto inicial, lentamente, rio abaixo. A água era mais profunda e o fundo do rio estava coberto de rochas escorregadias.

- Vamos tirar o espelho da água e agitá-lo devagar - disse don Juan, com voz rouca.

A agitação da água continuava sem cessar. Era como se tivéssemos apanhado um peixe enorme, com as nossas mãos, e ele nadasse, loucamente, à nossa volta.

Ocorreu-me que o espelho era, na essência, um alçapão. Uma estranha forma estava, realmente, a tentar levantar-se através dele. Estava debruçado no canto do alçapão, com um peso imenso, e era suficientemente grande para deslocar os reflexos do rosto de don Juan e do meu. Já não conseguia vê-los. Apenas conseguia distinguir uma massa a tentar levantar-se.





O espelho já não estava apoiado no fundo. Os meus dedos já não estavam a ser comprimidos contra as rochas. O espelho estava a meia profundidade, seguro pelas forças opostas dos puxões do aliado e dos nossos. Don Juan disse que ia estender as suas mãos sob o espelho e que eu devia agarrá-las rapidamente, de forma a termos um melhor equilíbrio para levantar o espelho com os nossos braços. Quando ele o soltou, o espelho inclinou-se para o seu lado. Rapidamente, procurei as suas mãos, mas não havia nada por baixo do espelho. Vacilei durante um longo segundo e o espelho escapou-me das mãos.

- Agarre-o! Agarre-o! - gritou don Juan.

Apanhei o espelho mesmo quando ia cair sobre as pedras. Tirei-o da água, mas não suficientemente depressa. A água parecia cola. Quando puxei o espelho para fora, puxei também um pedaço de uma substância pesada, tipo borracha, que, simplesmente, fez saltar o espelho das minhas mãos, de novo para a água.

Don Juan, mostrando uma extraordinária agilidade, apanhou o espelho e levantou-o de lado, sem a mínima dificuldade.

Nunca na minha vida, tinha tido um ataque de melancolia. Era uma espécie de tristeza sem fundamento preciso; associei isso à memória das profundezas que tinha visto no espelho. Era uma mistura de pura saudade dessas profundezas e de um medo absoluto da sua arrepiante solidão.

Don Juan comentou que, na vida dos guerreiros, era absolutamente natural estar triste sem razão aparente. Os videntes dizem que o ovo luminoso, como campo de energia, sente o seu destino final, sempre que os limites do conhecido são quebrados. Um mero vislumbre da eternidade fora do casulo é suficiente para romper o aconchego do nosso inventário. A melancolia resultante é, por vezes, tão intensa, que até pode provocar a morte.

Disse que a melhor maneira de se ver livre da melancolia é rir-se dela. Comentou, num tom de troça, que a minha primeira atenção estava a fazer tudo para recuperar a ordem que tinha sido interrompida pelo meu contacto com o aliado. Dado que não havia forma de a recuperar por meios racionais, a minha primeira atenção fazia-o focando todo o seu poder na tristeza.

Respondi-lhe que, de facto, a melancolia era real. Entregar-me a isso, lamentar-me, ficar acabrunhado, não faziam parte do sentimento de solidão que eu experimentei ao recordar essas profundezas.

- Alguma coisa está, finalmente, a acontecer-lhe – disse ele. – Tem razão. Não há nada mais solitário do que a eternidade. E nada é mais aconchegante para nós do que um ser humano. Com efeito, isto é outra contradição, como é que o homem pode manter os laços da sua humanidade e continuar a aventurar-se, alegre e voluntariamente, na absoluta solidão da eternidade? Quando resolver este enigma, estará pronto para a sua viagem definitiva.

Soube, então, com certeza absoluta, a razão da minha tristeza. Era uma sensação periódica para mim, sensação que esquecia sempre, até me aperceber, de novo, da mesma coisa: a insignificância da humanidade perante a imensidão daquela coisa que eu tinha visto reflectida no espelho.

- Na verdade, os seres humanos não são nada, don Juan – comentei.

- Sei exactamente o que está a pensar – disse ele. – É verdade que não somos nada, mas é exactamente isso que dá origem ao desafio supremo; que, não sendo nada, possamos enfrentar, realmente, a solidão da eternidade.




Abruptamente, mudou de assunto, deixando-me de boca aberta, sem oportunidade de pôr a minha próxima pergunta. Começou a discutir a nossa luta com o aliado. Primeiro que tudo, a luta não tinha sido brincadeira nenhuma. De facto, não tinha sido um caso de vida ou de morte, mas também não tinha sido nenhum piquenique.

- Escolhi aquela técnica – continuou, - porque o meu benfeitor ma mostrou. Quando lhe pedi que me desse um exemplo das técnicas dos antigos videntes, ele quase rebentou a rir; o meu pedido tinha-lhe recordado a sua própria experiência. O seu benfeitor, o nagual Elias, também lhe tinha dado uma rude demonstração da mesma técnica.

Don Juan disse-me que, como tinha feito a moldura do seu espelho com madeira, me deveria ter pedido que fizesse o mesmo, mas que tinha querido saber o que aconteceria se a moldura fosse mais sólida que a sua ou a do seu benfeitor. As molduras de ambos tinham-se partido e, de ambas as vezes, o aliado escapou.

Explicou-me que, durante a sua própria luta, o aliado tinha partido a moldura. Ele e o seu benfeitor ficaram com dois bocados de madeira nas mãos, enquanto o espelho se afundava e o aliado saía dele.

O seu benfeitor sabia que espécie de sarilhos devia esperar. No reflexo dos espelhos, os aliados não são realmente assustadores, porque a pessoa apenas uma sombra, uma massa de espécies. Mas, quando saem, para além de terem uma aparência realmente assustadora, são uma enorme chatice. Comentou que, uma vez saídos do seu nível, é muito difícil, para os aliados, voltar atrás. O mesmo acontece com o homem. Se os videntes se aventuram para um nível dessas criaturas, é muito provável que não se volte a ouvir falar deles.

- O meu espelho quebrou-se com a força do aliado – disse ele. – Já não havia janela e como o aliado não podia voltar, então, veio atrás de mim. De facto, ele rebolou atrás de mim. Eu fugi a alta velocidade, gritando de terror. Percorri montes e vales, como um possesso. O aliado estava sempre a centímetros de mim.

Don Juan contou-me que o seu benfeitor ainda correu; entretanto, teve o bom senso de dizer a don Juan que voltasse para trás e, dessa forma, conseguiu tomar medidas para se ver livre do aliado. Gritou que ia fazer uma fogueira e que don Juan deveria correr em círculos, até estar tudo pronto. Foi à procura de galhos secos, enquanto don Juan corria à volta de um morro, louco de medo.

Don Juan confessou que, enquanto corria em círculos, lhe ocorreu o pensamento de que o seu benfeitor estava, realmente, a divertir-se com aquilo tudo. Sabia que o seu benfeitor era um guerreiro capaz de encontrar prazer em qualquer situação. Por que não também nesta? Por um momento, ficou tão furioso com o seu benfeitor, que o aliado parou de o perseguir e don Juan, em termos inequívocos, acusou o seu benfeitor de malícia. O seu benfeitor não respondeu, mas fez um gesto de genuíno terror, enquanto olhava para além de don Juan, para o aliado, que crescia sobre ambos. Don Juan esqueceu a sua raiva e voltou a correr em círculos.


- O meu benfeitor era, realmente, um velho diabólico – disse don Juan, rindo. – Tinha aprendido a rir por dentro. Não o mostrava no rosto, de modo que conseguia fingir que estava a chorar ou cheio de raiva, quando, de facto, estava a rir. Nesse dia, enquanto o aliado me tentava caçar, em círculos, o meu benfeitor ficou parado a defender-se das minhas acusações. Eu só conseguia ouvir bocados do seu longo discurso, sempre que passava por ele, a correr. Quando terminou aquele, ouvi bocados de outra longa explicação: que ele tinha que juntar muita lenha, que o aliado era muito grande, que o fogo tinha de ser tão grande quanto o aliado, que a manobra podia não resultar.

- Só o meu medo enlouquecedor me fazia continuar a correr. Finalmente, ele deve ter concluído que eu estava quase a cair de exaustão; fez a fogueira e, com as chamas, defendeu-me do aliado.

Don Juan contou que ficaram perto do fogo, toda a noite. O pior momento para ele, foi quando o seu benfeitor teve de ir à procura de mais lenha e o deixou sozinho. Teve tanto medo, que prometeu a Deus que ia abandonar o caminho do conhecimento e tornar-se lavrador.

- De manhã, depois de ter esgotado toda a minha energia, o aliado conseguiu empurrar-me para o fogo e queimei-me gravemente – acrescentou don Juan.

- E que aconteceu ao aliado? – perguntei eu.

- O meu benfeitor nunca me contou o que lhe aconteceu – replicou. – Mas tenho a impressão de que continua a correr em círculos, sem destino, tentando encontrar o seu caminho de volta.

- E o que aconteceu à sua promessa a Deus?

- O meu benfeitor disse-me para não me preocupar, que tinha sido uma boa promessa, mas que eu não sabia ainda que não há ninguém para ouvir essas promessas, porque não existe Deus. Tudo o que existe, são as emanações da Águia, e não há forma de lhes fazer promessas.

- Que teria acontecido, se o aliado o tivesse apanhado? – perguntei.

- Provavelmente, teria morrido de medo – disse ele. – Se soubesse o que implicava ser apanhado, tê-lo-ia deixado apanhar-me. Naquela altura, eu era um irresponsável. Quando um aliado o agarra, ou tem um ataque cardíaco, ou luta com ele. Então, depois de um momento de grande confusão, com fingida ferocidade, a energia do aliado desvanece-se. Não há nada que um aliado nos possa fazer, ou vice-versa. Estamos separados por um abismo.

- Os antigos videntes acreditavam que, no momento em que a energia do aliado diminui, ele concede o seu poder ao homem. Poder, uma ova! Os antigos videntes tinham aliados a sair-lhes por todos os lados, e o poder dos seus aliados não tinha qualquer valor.




Don Juan explicou que, mais uma vez, coube aos novos videntes esclarecer essa confusão. Descobriram que a única coisa que conta é a impecabilidade, quer dizer, a energia purificada. Houve, realmente, entre os antigos videntes, alguns que foram salvos pelos seus aliados, mas isso não tinha nada a ver com o poder dos aliados de afastar qualquer coisa; pelo contrário, foi a impecabilidade dos homens que lhes permitiu usar a energia dessas outras formas de vida.

Os novos videntes descobriram, também, a coisa mais importante, sobre os aliados: o que os tornou úteis ou inúteis para o homem. Os aliados inúteis, de número incalculável, são os que têm emanações dentro de si, para as quais não há par dentro de nós. São tão diferentes de nós, que se tornam completamente inúteis. Outros aliados, de número notavelmente reduzido, são semelhantes a nós, quer dizer, possuem emanações que, ocasionalmente, combinam com as nossas.

- Como é que o homem utiliza essa espécie de aliados? – perguntei.

- Deveríamos usar outra palavra, em vez de «utilizar» - replicou ele. – Eu diria que o que acontece entre os videntes e este tipo de aliados é uma justa troca de energia.

- Como é que se processa essa troca? – perguntei.

- Através da combinação das suas emanações – disse ele.

- Essas emanações estão, naturalmente, do lado esquerdo da consciência do homem; o lado que o homem comum nunca usa. Por essa razão, os aliados estão totalmente excluídos do mundo do lado direito da consciência, ou seja, do lado da racionalidade.

Disse, ainda, que a consciência das emanações, dá a ambos uma base comum. Então, com familiaridade, estabelece-se um elo comum, que permite que ambas as formas de vida aproveitem. Os videntes procuram a qualidade etérea dos aliados; dão fabulosos espiões e guardas. Os aliados o maior campo de energia do homem e, com ele, conseguem, até, materializar-se.

Assegurou-me que os videntes experimentados conjugam essas emanações compartilhadas, até as colocarem totalmente em foco; a troca faz-se nessa altura. Os antigos videntes não tinham percebido esse processo e desenvolveram técnicas complexas de olhar, de forma a descerem às profundezas que eu tinha visto no espelho.

- Os antigos videntes tinham um instrumento muito elaborado para os ajudar nas suas descidas – continuou ele. – Era uma corda com um entrançado especial, que eles amarravam à volta da cintura. Tinha uma ponta macia, embebida em resina, que se encaixava no umbigo, como uma tomada. Os videntes tinham um assistente, ou vários, que os seguravam pela corda, quando ficavam com o olhar perdido. Naturalmente que olhar directamente o reflexo de um claro e profundo tanque, é infinitamente mais poderoso e perigoso do que o que fizemos com o espelho.

- Mas eles desciam, de facto, fisicamente? – perguntei.

- Ficaria surpreendido com o que os homens são capazes de fazer, especialmente se controlam a consciência – replicou. – Os antigos videntes eram aberrantes. Nas suas excursões às profundezas, encontraram maravilhas. Para eles, encontrar aliados era rotineiro.

- Naturalmente que, neste momento, você já percebeu que falar nas profundezas é uma figura de estilo. Não existem profundezas, há apenas uma manipulação das profundezas. No entanto, os antigos videntes nunca fizeram essa descoberta.

Disse a don Juan que, pelo que ele me tinha contado da sua experiência com o aliado e apoiado na minha impressão subjectiva, ao sentir a força do aliado na água, tinha concluído que os aliados são muito agressivos.

- Não propriamente – disse ele. – Não é que não tenham energia suficiente para serem agressivos, mas o que acontece é que têm um tipo de energia diferente. São mais parecidos com uma corrente eléctrica. Os seres orgânicos parecem-se mais com ondas de calor.

- Mas por que é que ele o perseguiu durante tanto tempo? – perguntei.

- Isso não é mistério nenhum – disse ele. – São atraídos por emoções. O medo inicial é o que os atrai mais; liberta o tipo de energia que melhor lhes serve. As emanações no interior deles são activadas pelo medo animal. Dado que o meu medo era inflexível, o aliado correu atrás dele, ou melhor, o meu medo caçou o aliado e não o deixou escapar.




Disse que tinham sido os antigos videntes que tinham descoberto que os aliados preferiam o medo animal a tudo o mais. Chegaram ao extremo de, propositadamente, o oferecerem aos aliados, assustando de morte todas as pessoas. Os antigos videntes estavam convencidos que os aliados tinham sentimentos humanos, mas os novos videntes viram isso de maneira diferente. Eles viram que os aliados eram atraídos pela energia libertada pelas emoções; o amor é igualmente eficaz; tal como o ódio ou a tristeza.

Don Juan acrescentou que, se ele tivesse sentido amor pelo aliado, o aliado tê-lo-ia perseguido na mesma, embora a caça pudesse ter acontecido de um modo diferente. Perguntei-lhe se o aliado teria deixado de o perseguir, se ele tivesse controlado o seu medo. Ele respondeu-me que, controlar o medo, era um truque dos antigos videntes. Aprenderam a controlá-lo ao ponto de o saber repartir. Caçavam os seus aliados com o seu próprio medo e, ao libertá-lo gradualmente, como um alimento, mantinham os aliados cativos.

- Esses antigos videntes eram homens aterradores – continuou don Juan. – Não deveria usar o tempo passado, ainda hoje eles são aterradores. O seu objectivo é dominar, governar tudo e todos.

- Ainda hoje, don Juan? – perguntei, tentando levá-lo a explicar mais.

Ele mudou de assunto, comentando que eu tinha perdido a oportunidade de ficar realmente assustado, para além dos limites. Disse que, sem dúvida, a forma como eu tinha selado a moldura do espelho, com o alcatrão, tinha evitado que a água penetrasse por trás do espelho. Considerou isso como um factor decisivo, que tinha impedido o aliado de despedaçar o espelho.

- Que pena – disse ele. – Se calhar, você ia gostar daquele aliado. A propósito, não era o mesmo que apareceu no dia anterior. O segundo era parecidíssimo consigo.

- Você também tem alguns aliados, don Juan? – perguntei.

- Como você sabe, eu tenho os aliados do meu benfeitor – disse ele. – Não posso dizer que sinto por eles o mesmo que o meu benfeitor sentia. Ele era um homem sereno, mas profundamente apaixonado, que, prodigamente, dava tudo o que tinha, inclusive a sua energia. Ele amava os seus aliados. Para ele, não era difícil permitir que os aliados usassem a sua energia para se materializarem. Havia um, em particular, que podia assumir uma forma humana um tanto grotesca.

Don Juan continuou a contar que, dado que não era nada parcial em relação aos aliados, nunca me tinha ajudado a saboreá-los devidamente, como o seu benfeitor tinha feito com ele, enquanto estava a recuperar da ferida no peito. Tudo começou com a ideia de que o seu benfeitor era um homem estranho. Acabado de escapar das garras de um pequeno tirano, don Juan suspeitou que tinha caído noutra armadilha. A sua intenção era esperar alguns dias, para recuperar as suas forças e, então, fugir, quando o velho não estivesse em casa. Mas o velho deve ter lido os seus pensamentos, porque, um dia, num tom confidencial, segredou a don Juan que ele tinha que se curar o mais rapidamente possível, para que ambos pudessem escapar ao seu captor e torturador. Então, a tremer de medo e impotência, o velho abriu a porta e um homem horroroso, com cara de peixe, entrou na sala, como se tivesse estado a escutar à porta. Era verde-acinzentado, tinha um único olho, que não piscava, e era grande que nem uma porta. Don Juan disse que ficou tão surpreendido e aterrado, que desmaiou, e levou anos a tentar esquecer o impacte daquele susto.

- Os aliados são úteis para si, don Juan? – perguntei.

- É muito difícil decidir isso – disse ele. – De certa forma, amo os aliados que o meu benfeitor me deu. Eles são capazes de retribuir com uma incrível afeição. Mas são incompreensíveis, para mim. Foram-me oferecidos para minha companhia, para o caso de me ver sozinho na imensidão das emanações da Águia (in ob. cit., pp. 105-119).





segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Seres Inorgânicos (i)

Escrito por Carlos Castaneda






«O mistério está fora de nós. - Dentro de nós só temos emanações a tentar quebrar o casulo. E este facto desvia-nos, de uma forma ou de outra, quer sejamos homens comuns ou guerreiros. Só os novos videntes superam isto. Eles lutam para ver. E, através das deslocações dos seus pontos de conjunção, conseguem concluir que o mistério é perceber. Não tanto o que percebemos, mas o que nos faz perceber».

Don Juan


No dia seguinte pedi, encarecidamente, a don Juan que me explicasse a nossa partida apressada de casa do Genaro. Ele recusou-se, até, a mencionar o incidente. Genaro também não foi grande ajuda. Cada vez que lhe perguntava, piscava-me o olho e ria-se como um parvo.

À tarde, don Juan veio para o pátio das traseiras da casa, onde eu conversava com os seus aprendizes. Como se estivessem combinados, todos os jovens aprendizes saíram imediatamente.

Don Juan segurou-me por um braço e começámos a caminhar ao longo do corredor. Ele não disse nada; por um bocado, cirandámos por ali, como se estivéssemos na praça pública.

Don Juan parou de caminhar e virou-se para mim. Deu uma volta à roda de mim, observando o meu corpo, de alto a baixo. Eu sabia que ele me estava a ver. Senti um estranho cansaço, uma lassidão que não tinha sentido, até os seus olhos percorrerem o meu corpo. De repente, ele começou a falar.

- A razão por que o Genaro e eu não quisemos falar sobre o que aconteceu ontem à noite - começou ele, - deve-se ao facto de você ter ficado muito assustado, durante o tempo em que esteve no desconhecido. Genaro empurrou-o e aconteceram-lhe coisas, ali.

- Que espécie de coisas, don Juan?

- Coisas que ainda são difíceis, senão impossíveis, de lhe explicar, agora - disse ele. - Você não tem energia suplementar suficiente para entrar no desconhecido e deduzir qualquer coisa. Quando os novos videntes organizaram a ordem das verdades sobre a consciência, viram que a primeira verdade consome todo o brilho da consciência que os seres humanos têm, e nem um pingo de energia fica livre. Esse é o seu problema, agora. Assim, os novos videntes propuseram que os guerreiros, dado que têm de entrar no desconhecido, têm de poupar energia. Mas aonde é que vão buscar a energia, se está toda tomada? Conseguem-na, dizem os novos videntes, eliminando hábitos desnecessários.

Parou de falar e solicitou perguntas. Perguntei-lhe o que é que a eliminação de hábitos desnecessários fazia ao brilho da consciência.

Respondeu-me que isso separa a consciência da auto-reflexão e lhe permite a liberdade de se concentrar numa outra coisa.

- O desconhecido está sempre presente - continuou, - mas fora das possibilidades da nossa consciência normal. O desconhecido é a parte supérflua do homem comum. E é supérfluo, porque o homem comum não tem energia livre suficiente para o captar.

- Depois de todo o tempo que você passou no caminho do guerreiro, você tem energia livre suficiente para captar o desconhecido, mas insuficiente para o perceber, ou até mesmo, recordar.




Explicou-me que, no lugar da rocha, eu tinha entrado profundamente no desconhecido. Mas cedi, perante a minha natureza exagerada e fiquei aterrorizado, o que era a pior coisa que uma pessoa podia fazer. Assim, precipitei-me para fora do lado esquerdo, como um morcego para fora do inferno; infelizmente, trazendo uma legião de coisas estranhas, atrás de mim.

Disse a don Juan que ele não estava a chegar ao âmago da questão, que deveria abrir-se e dizer-me exactamente o que queria significar uma legião de coisas estranhas.

Ele segurou-me pelo braço e continuou a dar voltas comigo.

- Ao explicar a consciência - disse ele, - estou, presumivelmente, a encaixar tudo, ou quase tudo, no seu lugar. Vamos conversar um bocadinho sobre os antigos videntes. O Genaro, como já lhe disse, é muito parecido com eles.

Levou-me, então, para a sala grande. Sentámo-nos e ele começou a sua explicação.

- Os novos videntes ficaram, simplesmente, aterrorizados com o conhecimento que os antigos videntes tinham acumulado ao longo dos anos - disse don Juan. - É compreensível. Os novos videntes sabiam que o conhecimento só conduz à total destruição. Contudo, também estavam fascinados por ele - especialmente pelas práticas.

- Como é que os novos videntes sabiam da existência dessas práticas? - perguntei.

- Elas são um legado dos antigos Toltec - disse ele. - Os novos videntes aprendem sobre elas, à medida que progridem. Dificilmente as usam, mas as práticas existem como parte do seu conhecimento.

- Que tipo de práticas são essas, don Juan?


Guerreiros Toltecas (Tula, México).


- São fórmulas, encantamentos, longos procedimentos, que têm a ver com o manuseio de uma força muito misteriosa. Pelo menos, era misteriosa para os antigos Toltec, que a mascararam e a tornaram mais horrível do que realmente é.

- O que é essa força misteriosa? - perguntei.

- É uma força que está presente em tudo o que existe - disse ele. Os antigos videntes nunca tentaram desvendar o mistério que lhes permitiu criar as suas práticas secretas: aceitavam isso, simplesmente, como uma coisa sagrada. Mas os novos videntes olharam-na com mais atenção e chamaram-lhe vontade, a vontade das emanações da Águia, ou intenção.

Don Juan continou a explicar que os antigos Toltec dividiam o seu conhecimento em cinco conjuntos de duas categorias: a terra e as regiões escuras; o fogo e a água; o superior e o inferior; o ruidoso e o silencioso; o móvel e o estacionário. Especulou que deve ter havido milhares de técnicas diferentes, que se tornaram cada vez mais intrínsecas, à medida que o tempo passava.

- O conhecimento secreto da terra - continuou, - tinha a ver com tudo o que existe sobre o solo. Havia conjuntos particulares de movimentos, palavras, unguentos, poções que eram aplicadas às pessoas, aos animais, insectos, árvores, plantas pequenas, pedras, solo.

Eram técnicas que transformaram os antigos videntes em seres horrorosos. E o seu conhecimento secreto da terra foi utilizado, ora para preparar, ora para destruir tudo o que crescia no chão.

- A contrapartida da terra era aquilo que eles conheciam como as regiões escuras. Estas práticas eram, de longe, as mais perigosas. Lidavam com entidades sem vida orgânica. Criaturas vivas que estão presentes na terra e povoam juntamente com todos os seres orgânicos.

- Sem dúvida, uma das mais valiosas descobertas dos antigos videntes, especialmente para eles, foi a de que a vida orgânica não é a única forma de vida presente nesta terra.

Não percebi lá muito bem o que ele tinha dito. Esperei que esclarecesse as suas afirmações.

- Os seres orgânicos não são as únicas criaturas que têm vida - disse ele, e fez uma nova pausa, como que para me dar tempo para pensar sobre a sua afirmação.


Carlos Castaneda


Retribuí com um longo argumento sobre a definição de vida e de estar vivo. Falei de reproduções, metabolismo, crescimento, os processos que distinguem os organismos vivos das coisas inanimadas.

- Você está a basear-se no orgânico - disse ele. - Mas isso é apenas uma instância. Não devia basear tudo o que diz numa única categoria.

- Mas de que outra forma poderia ser? - perguntei.

- Para os videntes, estar vivo significa estar consciente - replicou. - Para o homem comum, estar consciente significa ser um organismo. É aqui que os videntes são diferentes. Para eles, estar consciente, quer dizer que as emanações que provocam a consciência estão presas num receptáculo.

- Os seres vivos orgânicos têm um casulo que encerra as emanações. Mas há outras criaturas cujos receptáculos não têm a aparência de um casulo, para um vidente. Mesmo assim, contêm emanações da consciência e caracterísiticas da vida diferentes da reprodução e do metabolismo.

- Tais como, don Juan?

- Tais como a dependência emocional, a tristeza, a alegria, a ira, e assim por diante. E esqueci a melhor de todas, o amor; um tipo de amor que o homem não pode, sequer, conceber.

- Está a falar a sério, don Juan? - perguntei, com gravidade.

- Terrivelmente a sério - respondeu, com uma expressão neutra e, depois, desatou a rir.

- Se tomarmos como ponto de partida o que os videntes vêem - continuou, - a vida é, realmente, extraordinária.

- Se esses seres estão vivos, por que é que não se dão a conhecer ao homem? - perguntei.

- Estão permanentemente a fazê-lo. E não só aos videntes, mas também ao homem comum. O problema é que toda energia disponível é consumida pela própria atenção. O inventário do homem não só a consome totalmente, como ainda endurece o casulo, a ponto de o tornar inflexível. Nestas circunstâncias, não é possível a interacção.

Recordou-me as inúmeras vezes, no decurso da minha aprendizagem com ele, em que eu tinha tido uma visão directa dos seres inorgânicos. Retorqui que tinha encontrado explicações viáveis para quase todos esses casos. Até tinha formulado a hipótese de que os seus ensinamentos através do uso de plantas alucinogénias, tinham sido criados para forçar uma concordância, por parte dos aprendizes, sobre a primitiva interpretação do mundo. Disse-lhe que não lhe tinha, formalmente, chamado interpretação primitiva, mas que, em termos antropológicos, a tinha rotulado de «visão do mundo mais própria para sociedades caçadoras e recolectoras».




Don Juan riu-se até perder o fôlego.

- Realmente não sei se você é pior no seu estado normal de consciência ou quando ela está intensificada - disse ele.

No seu estado normal, você não é desconfiado, mas aborrecidamente razoável. Acho que gosto mais de si, quando está no lado esquerdo, apesar de ficar terrivelmente assustado com tudo, como estava ontem.

Antes que tivesse tempo de dizer fosse o que fosse, ele declarou que estava a opor as realizações dos antigos videntes às dos novos, como uma espécie de contraponto, com o que pretendia dar-me uma visão mais abrangente das dificuldades que eu teria de enfrentar.

Continuou, então, com as suas explicações sobre as práticas dos antigos videntes. Disse que outra das suas grandes descobertas tinha a ver com a categoria seguinte de conhecimento secreto: o fogo e a água. Descobriram que as chamas têm uma qualidade muito peculiar; podem transportar o homem em corpo, tal como o faz a água.

Don Juan considerava isso como uma descoberta brilhante. Fiz-lhe notar que há leis da física que podem provar que isso é impossível. Pediu-me que esperasse que ele acabasse a sua explicação, para tirar as minhas conclusões. Comentou que eu devia controlar a minha excessiva racionalidade, porque ela estava constantemente a afectar os estados de consciência intensificada. Não de reagir de qualquer maneira às influências externas, mas de sucumbir aos meus próprios artifícios.

Continuou a explicar que os antigos Toltec, embora, obviamente, vissem, não conseguiam perceber o que viam. Limitavam-se a usar as suas descobertas, sem se preocupar em relacioná-las com um quadro maior. No caso da sua categoria de fogo e água, dividiram o fogo em calor e chama, e a água, em humidade e fluidez. Relacionaram calor e humidade, e chamaram-lhes propriedades menores. Consideravam as chamas e a fluidez como propriedades mais elevadas e mágicas, e usaram-nas como um meio de transporte corpóreo para o reino da vida não-orgânica. Entre o seu conhecimento desse tipo de vida e as suas práticas de fogo e água, os antigos videntes ficaram atolados num pântano sem saída.

Don Juan assegurou-me que os novos videntes concordavam que a descoberta de seres vivos não-orgânicos era realmente extraordinária, mas não da forma como os antigos videntes a julgavam. Encontrar-se numa relação face a face com outro tipo de vida, deu aos antigos videntes a falsa sensação de invulnerabilidade, o que provovou a sua queda.

Pedi-lhe que me explicasse as técnicas do fogo e da água mais pormenorizadamente. Ele disse que o conhecimento dos antigos videntes era tão intricado quanto inútil, e que ia apenas delineá-lo.

Depois, fez um resumo das práticas do superior e do inferior. O superior lidava com o conhecimento secreto sobre o vento, a chuva, os relâmpagos, as nuvens, os trovões, a luz do dia e o Sol. O conhecimento do inferior tinha a ver com o nevoeiro, a água de fontes subterrâneas, os pântanos, os raios, os tremores de terra, a noite, o luar e a Lua.


O ruidoso e o silencioso, eram uma categoria do conhecimento secreto que tinha a ver com a manipulação do som e da quietude.

O móvel e o estacionário eram práticas que lidavam com aspectos misteriosos do movimento e da imobilidade.

Perguntei-lhe se me podia dar um exemplo de algumas das técnicas que estava a delinear. Replicou-me que já me tinha dado dúzias de demonstrações, ao longo dos anos. Insisti que eu tinha explicado racionalmente tudo o que ele me tinha feito.

Não me respondeu. Parecia estar, ou muito zangado comigo por lhe fazer perguntas,ou seriamente concentrado a procurar um bom exemplo.

- A técnica que eu tenho na ideia deve ser posta em acção no baixio de um rio - disse ele. - Há um, perto da casa do Genaro.

- O que é que vou ter que fazer?

- Tem de arranjar um espelho de tamanho médio.

Fiquei surpreendido com o seu pedido. Comentei que os antigos Toltec não conheciam os espelhos.

- Realmente não conheciam - admitiu ele, sorrindo. - Isto é um acréscimo do meu benfeitor à técnica. Os antigos videntes precisavam, apenas, de uma superfície reflectora.

Explicou-me que a técnica consiste em submergir uma superfície brilhante na água pouco profunda de um rio. A superfície podia ser qualquer objecto chato que tivesse alguma capacidade de reflectir imagens.

- Quero que construa uma superfície sólida, feita de folhas de metal, para um espelho de tamanho médio - disse ele. - Tem de ser à prova de água, de forma a que você o possa selar com alcatrão. Quando estiver pronto, traga-o e continuaremos.

- O que é que vai acontecer, don Juan?

- Não fique apreensivo. Você mesmo me pediu que lhe desse um exemplo das práticas dos antigos Toltec. Eu pedi a mesma coisa ao meu benfeitor. Acho que todos pedem, num certo momento. O meu benfeitor disse que ele próprio tinha feito o mesmo. O seu benfeitor, o nagual Elias, deu-lhe um exemplo; por sua vez, o meu benfeitor, deu-me o mesmo exemplo a mim e, agora, eu vou dar-lho a si.

- Quando o meu benfeitor me deu o exemplo, eu não percebi como o fez. Um dia, você mesmo vai perceber como as técnicas funcionam; vai compreender o que está por detrás de tudo isto.

Pensei que don Juan quisesse que eu fosse até casa, em Los Angeles, e aí construísse a moldura do espelho. Comentei que me seria impossível recordar a tarefa, se não permanecesse em estado de consciência intensificada.

- Há duas coisas erradas no seu comentário - disse ele. - A primeira, é que não há qualquer forma de se manter em estado de consciência intensificada, porque não seria capaz de funcionar, a não ser que eu, ou o Genaro, ou qualquer um dos guerreiros do grupo nagual, cuidássemos de si minuto a minuto, como eu estou a fazer agora. A outra, é que o México não é a Lua. Há lojas de ferragens aqui. Podemos ir até Oaxaca e comprar tudo o que precisa.

No dia seguinte, conduzimos até à cidade e eu comprei todas as peças para a moldura. Consegui-as numa oficina mecânica, por um preço irrisório. Don Ruan disse-me que as pusesse na mala do meu carro. Mal olhou para elas.

Voltámos para casa do Genaro, ao fim da tarde, e chegámos lá na manhã seguinte. Procurei o Genaro. Não estava lá. A casa parecia deserta.

- Por que é que o Genaro mantém esta casa? - perguntei a don Ruan. - Ele vive consigo, não vive?



Don Juan não respondeu. Olhou-me de uma forma estranha e foi acender a lanterna. Fiquei sozinho na sala, totalmente às escuras. Senti um grande cansaço, que atribuí à longa e tortuosa viagem, montanha acima. Na escuridão, não conseguia ver onde don Juan tinha posto as esteiras. Tropecei numa pilha delas. E, então, percebi por é que Genaro mantinha aquela casa; ele tomava conta dos aprendizes-homens: Pablito, Nestor e Benigno, que ali viviam, quando estavam em estado de consciência normal.

Senti-me rejuvenescido; já não estava cansado. Don Juan voltou com a lanterna. Contei-lhe a minha descoberta, mas ele disse que isso não tinha importância, que não iria lembrar-me disso por muito tempo.

Pediu-me que lhe mostrasse o espelho. pareceu contente, e fez notar que era leve, embora sólido. Reparou que eu tinha usado parafusos de metal para fixar a moldura de alumínio a uma folha metálica, que tinha usado como apoio de um espelho de 45 por 35 centímetros.

- Eu fiz uma moldura de madeira para o meu espelho - disse ele. - Esta parece muito melhor que a minha. A minha moldura era muito desajeitada e, ao mesmo tempo, frágil.

- Deixe que lhe explique o que vamos fazer - continuou, depois de ter examinado bem o meu espelho. - Ou talvez deva dizer, o que vamos tentar fazer. Nós dois vamos colocar este espelho na superfície do rio, perto de casa. É suficientemente largo e pouco profundo, para servir aos nossos propósitos. A ideia é deixar que a fluidez da água exerça pressão sobre nós e nos transporte.

Antes que eu pudesse fazer quaisquer comentários ou perguntas, recordou-me que, no passado, tinha utilizado a água de um rio parecido com aquele e tinha realizado extraordinários feitos de percepção. Referia-se aos efeitos posteriores à ingestão de plantas alucinogénias, que eu tinha experimentado várias vezes, enquanto estava submerso na vala de irrigação, nas traseiras da sua casa, no Norte do México.

- Guarde quaisquer perguntas para depois de eu lhe explicar o que os videntes sabiam sobre consciência - disse ele.

- Nessa altura, perceberá tudo o que vamos fazer, de um ponto de vista diferente. Mas, primeiro, vamos continuar com a nossa experiência.

Caminhámos até ao rio mais próximo e ele escolheu um lugar com pedras lisas, expostas. Disse que, ali, a água era suficientemente lisa para os nossos propósitos.

- O que espera que aconteça? - perguntei, no meio de uma forte apreensão.

- Não sei. Tudo o que sei é que vamos tentar. Vamos segurar o espelho com muito cuidado, mas com firmeza. Suavemente, vamos colocá-lo na superfície da água e, então, deixá-lo submergir. Depois, vamos segurá-lo no fundo. Já o examinei. Há limo suficiente, para nos permitir enterrar os dedos sob o espelho e segurá-lo com firmeza.

Disse-me que me acocorasse numa rocha lisa, sobre a superfície, no meio da suave corrente do rio, e fez-me segurar o espelho com ambas as mãos, à beirinha dos cantos, do meu lado. Ele acocorou-se à minha frente e segurou o espelho da mesma maneira. Deixámos o espelho afundar e, depois, segurámo-lo, mergulhando os nossos braços, quase até aos cotovelos, na água.

Ordenou-me que me esvaziasse de pensamentos e olhasse fixamente a superfície do espelho. Repetiu, vezes sem fim, que o truque era não pensar em nada. Olhei intensamente para o espelho. A corrente suave do rio desfigurou, ligeiramente, o reflexo do rosto de don Juan e do meu. Depois de alguns minutos a olhar fixamente para o espelho, pareceu-me que, gradualmente, a imagem dos nossos rostos começava a ficar muito mais nítida. E o espelho cresceu de tamanho, até ficar com, aproximadamente, um metro quadrado. A corrente parecia ter parado e o espelho parecia tão nítido como se estivesse colocado em cima da água. Ainda mais estranha era a vivacidade dos nossos reflexos. Era como se o meu rosto tivesse sido ampliado, não em tamanho, mas em foco. Podia ver os poros da pele da minha testa.




Don Juan sussurrou-me que não me fixasse nos meus olhos ou nos seus, mas que deixasse o meu olhar vaguear, sem o focalizar em qualquer parte dos nossos reflexos.

- Olhe fixamente, sem encarar! - ordenava-me, repetidamente, num sussurro forte.

Fiz o que ele me dizia, não deixando de ponderar a aparente contradição. Nesse momento, qualquer coisa dentro de mim foi apanhada pelo espelho, e a contradição, realmente, fez sentido. «É possível olhar fixamente, sem encarar», pensei e, no mesmo instante em que formulava esse pensamento, outra cabeça apareceu perto da de don Juan e da minha. Estava na parte de baixo do espelho, à minha esquerda.

Todo o meu corpo tremeu. Don Juan sussurrou-me que me acalmasse e não mostrasse medo ou surpresa. Ordenou-me, novamente, que olhasse o recém-chegado, sem o encarar. Tive que fazer um esforço inimaginável, para não me sobressaltar e não largar o espelho. O meu corpo tremia dos pés à cabeça. Don Juan sussurrou-me, outra vez, que me controlasse. Tocou-me, repetidamente, com o seu ombro.

Lentamente, controlei o meu medo. Olhei para a terceira cabeça e, gradualmente, dei-me conta de que não era uma cabeça humana, nem sequer uma cabeça de animal. De facto, não era mesmo uma cabeça. Era uma forma que não tinha mobilidade interior. Mal me ocorreu este pensamento, verifiquei que não era eu que estava a pensar. Essa conclusão também não era um pensamento. Tive um momento de tremenda ansiedade e, então, algo incompreensível tornou-se conhecido, para mim. Os pensamentos eram uma voz no meu ouvido!

- Estou a ver! - gritei em inglês, mas não houve qualquer som. - Sim, está a ver - disse a voz no meu ouvido, em espanhol.

Senti que estava preso por uma força maior que eu. Não estava em pânico, nem sequer angustiado. Não sentia nada. Sabia, sem sombra de dúvida, porque a voz mo dizia, que não podia quebrar as cadeias dessa força, com uma acção de vontade ou esforço. Sabia que estava a morrer. Automaticamente, levantei os meus olhos, para olhar para don Juan e, no momento em que os nossos olhos se cruzaram, a força libertou-me. Eu estava livre.

Don Juan sorria-me, como se soubesse exactamente pelo que eu tinha passado.

Apercebi-me que me levantava. Don Juan segurava o espelho de lado, para deixar a água escorrer.

Voltámos para casa, em silêncio.

- Os antigos Toltec eram, simplesmente, hipnotizados pelas suas descobertas - disse don Juan.

- Posso perceber porquê - disse eu.

- Também eu - replicou don Juan.

A força que me tinha envolvido, tinha sido tão poderosa, que me deixara completamente incapacitado de falar, durante horas. Tinha-me enregelado, com uma total ausência de vontade. E eu só tinha descongelado alguns graus.

- Sem qualquer intervenção deliberada da nossa parte - continuou don Juan, - esta técnica dos antigos Toltec foi dividida, por si, em duas partes. A primeira foi suficiente para o familiarizar com o que acontece. Na segunda, tentaremos realizar o que os antigos videntes perseguiam.

- O que é que aconteceu, realmente, lá fora, don Juan? - perguntei.

- Há duas versões. Primeiro vou dar-lhe a versão dos antigos videntes. Eles achavam que a superfície reflectora de um objecto brilhante submerso na água, aumenta o poder da água. O que eles costumavam fazer, era olhar para porções de água, e a superfície reflectora servia para os ajudar a acelerar o processo. Eles acreditavam que os nossos olhos eram a chave para entrar no desconhecido; olhando para a água, estavam a permitir que os olhos abrissem o caminho.

Don Juan disse que os antigos videntes observaram que a humidade da água apenas molha ou ensopa, mas que a fluidez da água move. Ela corre, acreditavam eles, em busca de outros níveis abaixo de nós. Acreditavam que a água nos tinha sido oferecida não apenas para a vida, mas também como um elo de ligação, um caminho para outros níveis abaixo.

- Há muitos níveis abaixo? - perguntei.

- Os antigos videntes contaram sete níveis - replicou ele.

- Você conhece-os, don Juan?

- Sou um vidente do novo ciclo, consequentemente, tenho um ponto de vista diferente - disse. - Estou só a mostrar-lhe o que os antigos videntes fizeram e estou a contar-lhe aquilo em que acreditavam (in Fogo Interior, Editorial Presença, 1998, pp. 92-104).




Continua


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A ciência da dedução

Escrito por Sir Arthur Conan Doyle






Consta que a personagem ficcional de Sherlock Holmes, criada por Arthur Conan Doyle, tenha sido particularmente inspirada num cirurgião de Edimburgo, chamado Joseph Bell (1837-1911). Professor do afamado contista e romancista, Bell parece ter realmente marcado o espírito do discípulo mediante a sua capacidade para, com base na observação cuidada e extremamente minuciosa, deduzir os hábitos e o percurso de vida de uma qualquer pessoa nunca antes vista. Ora, são precisamente tais atributos que estão na base do método de observação e dedução do mais inusitado e extravagante detective alguma vez conhecido.

De resto, um tal método exige que o espírito se liberte de toda e qualquer suposição perante o desenrolar da investigação criminal. E daí o facto de o observador  permanecer numa atitude expectante e o mais discreta possível para não perturbar, obscurecer ou desvirtuar a espontaneidade sinalética da percepção. Deste modo, importa que o factor subjectivo jamais prevaleça sobre a objectividade da relação cognoscível.

No fundo, as circunstâncias do caso configuram mais uma orientação do que um obstáculo. Depois, segue-se a análise, uma vez que a catálise não permite desvendar a simplicidade implícita do caso pendente. Um
 exemplo do processo analítico pode, aliás, ser encontrado num conto de Sherlock Holmes editado e publicado pela revista Beeton’s Christmas Annual (Novembro de 1887), intitulado «Um Estudo em Vermelho». Vejamos, pois, um trecho do mesmo:

«…o essencial – diz Sherlock Holmes – é saber raciocinar retrospectivamente. É um processo muito útil, e muito fácil, mas poucos se servem dele. Nos assuntos quotidianos é mais útil raciocinar para a frente, na direcção do tempo, de maneira que o processo inverso vai sendo esquecido. Há 50 pessoas que raciocinam sinteticamente para cada uma capaz de raciocinar analiticamente.

- Confesso que não o compreendo muito bem – disse eu
[Watson].

- Já o esperava. Vejamos se me faço entender melhor. A maioria das pessoas, depois de você descrever uma série de acontecimentos, dir-lhe-ão quais as suas consequências. Como podem concatená-los mentalmente, são capazes de deduzir o que provavelmente se passará. Mas há alguns que, conhecendo apenas as consequências, são capazes de deduzir os acontecimentos que as provocam. Refiro-me a essa capacidade, quando falo em raciocinar retrospectivamente, ou analiticamente.

- Compreendo agora» (cf. Sir Arthur Conan Doyle, «Um Estudo em Vermelho», in Histórias Completas de Sherlock Holmes, Marujo Editora, 1986, Vol. I, p. 137).





Ver aqui

Porém, convém notar que o raciocínio dedutivo de Sherlock Holmes é o raciocínio de um especialista em matéria de sindicância policial. Logo, permanece aquém do raciocínio silogístico prenunciador da arte de filosofar. Mas, ainda assim, permite-nos reverter para a seguinte analogia: se a dedução de Sherlock Holmes é inversamente proporcional à metodologia científica da Scotland Yard, a lógica de Aristóteles é, por seu turno, uma lógica proporcionalmente inversa ao positivismo triunfante. E, por isso, se Holmes, divisando as consequências de um acontecimento, parece, de facto, alcançar, por recurso à dedução retroactiva, as causas que mais propriamente o determinam, à lógica de Aristóteles caberá, por fim, o movimento retrógrado do logismo da conclusão para o conceito mediador.

Fica assim, a par da analogia, o enigma. E, no ínterim, fica outrossim a transcrição do capítulo II tirado do conto «Um Estudo em Vermelho», já depois de Holmes e Watson se terem conhecido e acordado partilharem as despesas de um apartamento no 221-B da Baker Street.

Miguel Bruno Duarte




A CIÊNCIA DA DEDUÇÃO

Encontrámo-nos no dia seguinte conforme combinado, e fomos ver o apartamento no 221-B da Baker Street, que consistia de dois confortáveis quartos de cama e de uma espaçosa sala de estar, alegremente mobilada e iluminada por duas amplas janelas. Ele preenchia tão bem as nossas necessidades e o preço era tão módico, assim dividido por dois, que imediatamente o alugámos e recebemos a chave. Nessa mesma tarde mandei vir do hotel as minhas coisas, e na manhã seguinte Sherlock Holmes chegou com as suas caixas e maletas. Durante um dia ou dois estivemos ocupados com a arrumação dos nossos objectos pessoais. Feito isto, começámos, pouco a pouco, a adaptar-nos no nosso novo ambiente.

Evidentemente, a convivência com Holmes não era difícil. Tinha hábitos tranquilos e regulares. Era raro vê-lo em pé depois das dez horas da noite e invariavelmente já preparara o seu pequeno-almoço e saíra quando eu me levantava da cama. Às vezes passava o dia no laboratório químico, outras, na sala de dissecação e ocasionalmente em longos passeios, que pareciam levá-lo aos bairros mais sórdidos da cidade. Nada era capaz de ultrapassar a sua energia quando tomado por um acesso de actividade.

À medida que as semanas passavam, o meu interesse por ele e a minha curiosidade quanto aos seus objectivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até o seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador. Quanto à estatura, passava de um metro e oitenta, mas era tão magro que parecia mais alto ainda. Os olhos eram agudos e penetrantes e o nariz delgado, aquilino, acrescentava às suas feições um ar de vigilância e decisão. Também o queixo, quadrado e forte, indicava nele o homem resoluto. As mãos andavam invariavelmente salpicadas de tinta e manchadas por substâncias químicas, mas possuíam uma extraordinária delicadeza de tacto, como frequentemente tive ocasião de notar ao vê-lo manipular os seus frágeis instrumentos de alquimista.


Jeremy Brett no papel de Sherlock Holmes


Sob pena de ser considerado um grande intrometido, confesso que aquele homem instigava a minha curiosidade, e que muitas vezes procurei vencer as reticências com que guardava tudo quanto lhe era pessoal. Todavia, tenho a meu favor a circunstância de que a minha vida era inteiramente desprovida de objectivo e, consequentemente, bem poucas eram as coisas que me podiam atrair a atenção. A minha saúde impedia-me que me aventurasse a sair de casa, a menos que o tempo estivesse excepcionalmente benigno, e não tinha amigos que, visitando-me, quebrassem a monotonia da minha existência quotidiana. Em tais circunstâncias, o pequeno mistério que cercava o meu companheiro constituía para mim uma rara oportunidade de interesse, e eu passava a maior parte do tempo procurando resolvê-lo.

Holmes não estudava medicina. Ele próprio, em resposta a uma pergunta minha, confirmara a opinião de Stamford sobre esse ponto. Também não parecia ter feito qualquer curso regular que o habilitasse a integrar-se em algum ramo da ciência ou a penetrar nos umbrais do mundo erudito. Contudo, o seu zelo por outros estudos era notável, e, dentro de limites excêntricos, o seu conhecimento era tão extraordinariamente amplo e minucioso, que as suas observações me causavam grande espanto. Evidentemente, nenhum homem trabalharia tanto para adquirir informações tão precisas se não tivesse em vista um objectivo bem definido. Leitores desorganizados dificilmente se fazem notar pela exactidão dos seus conhecimentos. E ninguém sobrecarregava o cérebro com minudências especiais, a menos que tenha um bom motivo para fazê-lo.

Por outro lado, a sua ignorância era tão notável quanto a sua cultura. Sobre a literatura, filosofia e política contemporânea, parecia saber pouco ou nada. Ouvindo-me citar Thomas Carlyle, perguntou-me com a maior ingenuidade quem era ele e o que tinha feito. A minha surpresa atingiu o máximo, no entanto, quando verifiquei por acaso que ignorava a teoria de Copérnico e a composição do sistema solar. Ver uma pessoa civilizada, em pleno século XIX, desconhecer que a Terra girava em torno do Sol parecia-me um facto tão extraordinário que eu mal podia acreditar nele.

– Você parece atónito – disse ele sorrindo ante a minha expressão de surpresa. – Pois agora que sei disso, tratarei de esquecê-lo o mais depressa possível.

– Esquecê-lo?!

– Veja – explicou-me: – Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobilar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de um conhecimento a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Consequentemente, é da maior importância não ter factos inúteis a ocupar o espaço dos úteis.





– Mas o sistema solar! – protestei.

– Que importância tem para mim? – interrompeu-me ele com impaciência. – Você diz que giramos em torno do Sol. Se girássemos em volta da Lua, isso não faria a menor diferença para o meu trabalho.

Estive a ponto de perguntar-lhe qual era esse trabalho, mas qualquer coisa na sua maneira me indicava que a pergunta não seria bem recebida. Reflecti, no entanto, sobre a nossa breve conversação, e esforcei-me por tirar algumas deduções. Ele dissera procurar exclusivamente os conhecimentos que se relacionassem com o seu objectivo. Por conseguinte, todos os conhecimentos que possuía eram-lhe necessariamente úteis. Enumerei mentalmente todos os diversos pontos sobre os quais se revelara excepcionalmente bem informado. Servi-me mesmo de um lápis e fui-os anotando. Não posso deixar de sorrir ao ver o documento resultante das minhas observações. Ei-lo:


CONHECIMENTOS DE SHERLOCK HOLMES

1. Literatura: zero.

2. Filosofia: zero.

3. Astronomia: zero.

4. Política: escassos.

5. Botânica: variáveis. Conhece a fundo a beladona, o ópio e os venenos em geral. Nada sabe sobre a jardinagem e horticultura.

6. Geologia: práticos, mas limitados. Reconhece à primeira vista as diversas qualidades de solo. No regresso dos seus passeios, mostra-me manchas nas calças, e diz-me pela sua cor e consistência em que parte de Londres as apanhou.

7. Química: profundos.

8.Anatomia: exactos, mas pouco sistemáticos.

9. Literatura sensacional: imensos. Parece conhecer todos os pormenores de todos os horrores perpetrados neste século.

10. Toca bem o violino.

11.É habilíssimo em boxe, esgrima e bastão.









Sherlock Holmes versus Professor Moriarty. Ver aqui


















12. Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.

Quando cheguei a este ponto da minha lista, perdi o ânimo e atirei-a para o fogão. “Se a única maneira de descobrir o objectivo deste homem consiste em conciliar tais qualidades e depois buscar uma profissão que as exija – disse comigo –, mais vale renunciar de uma vez a semelhante tentativa”.

Já me referi aos seus dotes de violinista. Eram, com efeito, notáveis, mas tão excêntricos quanto as suas demais habilidades. Que ele tocava peças difíceis, sabia-o eu, pois a meu pedido havia executado alguns Lieder de Mendelssohn e outras músicas da minha preferência. Todavia, quando entregue a si próprio, raramente interpretava alguma peça ou melodia conhecidas. Recostado na sua poltrona, ao cair da tarde, fechava os olhos e ficava a passar o arco no violino que tinha sobre os joelhos. Às vezes os acordes eram sonoros e melodiosos, outras vezes fantásticos e vivazes. Reflectiam, evidentemente, os pensamentos que o ocupavam, mas se a música ajudava esses pensamentos, ou se tocar era apenas o resultado de capricho ou fantasia, eis o que eu não podia determinar. Teria os meus motivos para protestar contra semelhantes solos, se não fosse a circunstância de ele, geralmente, acabar por tocar em rápida sucessão toda uma série das minhas peças predilectas, como que para recompensar a minha paciência. Durante uma ou duas semanas, não recebemos visitas, e eu começava a pensar que o meu companheiro tinha tão poucos amigos como eu. Mas pouco depois descobri que ele possuía muitas relações, e nas mais diferentes classes da sociedade. Havia, por exemplo, um homenzinho pálido, de olhos escuros, com cara de rato, que apareceu três ou quatro vezes numa semana, e me foi apresentado como o Sr. Lestrade. Certa manhã surgiu uma jovem, elegantemente vestida, que se demorou cerca de meia hora ou mais. Na mesma tarde veio um homem grisalho, cansado, com tipo de negociante judeu, que parecia muito alvoraçado, e foi imediatamente seguido de uma senhora idosa e mal vestida. Noutra ocasião, um senhor de cabelos brancos teve uma entrevista com o meu companheiro; e ainda noutra, um chefe de caminhos-de-ferro com o seu uniforme de belbutina.

Quando surgia algum desses estranhos visitantes, Sherlock Holmes costumava pedir-me a sala de estar e eu recolhia-me no meu quarto. Nunca deixava de pedir-me desculpa por tal inconveniente.

– Tenho de usar esta sala como escritório – dizia-me ele. – Todas estas pessoas são meus clientes.

Era uma excelente oportunidade para lhe fazer uma pergunta directa, mas a minha discrição novamente me impedia de forçar a ter confiança em mim. Parecia-me, então, que devia ter fortes motivos para não aludir à sua profissão, mas rapidamente dissipou semelhante ideia ao referir-se espontaneamente ao assunto.

Estávamos no dia 4 de Março (e tenho bons motivos para me lembrar). Levantei-me um pouco mais cedo do que de costume e encontrei Sherlock Holmes a tomar o seu café. A nossa criada estava tão habituada aos meus hábitos de dorminhoco que ainda se não preocupara com o meu lugar à mesa nem preparara o meu café. Com a desarrazoada petulância do género humano, toquei a campainha e anunciei que a esperava. Depois, tirei uma revista de cima da mesa e tentei passar o tempo com ela, enquanto o meu companheiro mastigava silenciosamente a sua torrada. Um dos artigos tinha o cabeçalho sublinhado a lápis, e eu, naturalmente, comecei a percorrê-lo com os olhos.


O título um tanto pretensioso era O Livro da Vida, e ali se procurava demonstrar quanto um homem observador podia aprender por intermédio do exame aturado e sistemático de tudo que encontrasse. Aquilo dava-me a impressão de uma curiosa mistura de argúcia e absurdo. O raciocínio era denso e penetrante, mas as deduções pareciam-me rebuscadas e cheias de exagero. O autor pretendia que uma expressão momentânea, o repuxar de um músculo ou um volver de olhos eram o bastante para que se pudesse sondar os pensamentos mais íntimos de um homem. Na sua opinião, era impossível iludir a observação e análise de quem nelas se exercitasse com método e afinco. As conclusões de tal pessoa seriam tão infalíveis como outras proposições de Euclides. E os resultados seriam de tal maneira surpreendentes para os leigos que, antes de aprenderem os processos pelos quais o observador os obtivera, haveriam de considerá-lo como um adivinho.

“De uma gota de água – afirmava o autor – um raciocinador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos que a compõem. Como todas as outras artes, a Ciência da Dedução e Análise só pode ser adquirida por meio de um demorado e paciente estudo, e a vida não é tão longa que permita a um mortal o aperfeiçoar-se ao máximo nesse campo. Antes de passar aos aspectos morais e mentais de um assunto que apresenta as maiores dificuldades, o pesquisador deve principiar por se assenhorear dos problemas mais elementares. Ao encontrar um semelhante, aprenda a distinguir imediatamente qual a história do homem e o mister ou profissão que exerce. Por mais pueril que este exercício possa parecer, aguça as faculdades de observação e ensina para onde se deve olhar e o que procurar. Pelas unhas de um homem, pela manga do seu casaco, pelos seus sapatos, pelas joelheiras nas calças, pelas calosidades do seu indicador e polegar, pela sua expressão, pelos punhos da camisa… em cada uma destas coisas a profissão de um homem é claramente indicada. Que o conjunto delas deixe de esclarecer um indagador competente, em qualquer caso, é virtualmente inconcebível”.

– Que grande aldrabice! – examinei, batendo com a revista na mesa. – Nunca li tamanha tolice em toda a minha vida.

– De que se trata? – perguntou Sherlok Holmes.

– Ora, deste artigo – respondi, indicando-o com a colher, ao sentar-me para comer o meu ovo. – Vejo que já o leu, pois está sublinhado. Não nego que esteja escrito com inteligência. Contudo, irrita-me. Trata-se, evidentemente, das teorias de algum desocupado, que elabora todos esses paradoxos sem deixar a poltrona do seu gabinete. Não têm aplicação prática. Eu gostaria de o ver encerrado num vagão de terceira classe do caminho-de-ferro subterrâneo a fim de lhe perguntar quais as profissões de todos os demais passageiros. Apostaria mil por um contra ele.

– Perderia o seu dinheiro – observou Holmes calmamente. – Quanto ao artigo, fui eu que o escrevi.

– Você?!

– Sim, tenho certa queda tanto para a observação como para a dedução. As teorias que expus aí, e que lhe parecem tão quiméricas, são na verdade muitíssimo práticas… tão práticas que dependo delas para viver.

– Como? – perguntei involuntariamente.




– Eu tenho cá o meu ofício. Suponho, aliás, que seja o único em todo o mundo. Sou um detective de consultas, se compreende o que estou a dizer. Aqui em Londres, temos uma grande quantidade de detectives oficiais e particulares. Quando esses cavalheiros ficam desorientados, vêm ter comigo e eu trato de os pôr na pista certa. Expõem-me todos os indícios e eu, geralmente, com a ajuda dos meus conhecimentos da história criminal, aponto as suas falhas e esclareço-os. Entre os delitos há um acentuado ar de parentesco, e quem possui todos os pormenores a respeito de mil deles dificilmente falhará ao desvendar o milésimo primeiro. Lestrade é um detective muito conhecido. Recentemente ficou às cegas num caso de falsificação, e foi isso que o trouxe aqui.

– E as outras pessoas?

– Na maior parte são mandadas por agências particulares de investigação. Trata-se de gente que tem uma dificuldade qualquer e precisa de esclarecimentos. Ouço-lhes as histórias, elas ouvem os meus comentários, e depois embolso os meus emolumentos.

– Por outras palavras, você afirma que sem sair do seu quarto é capaz de desatar certos nós que outros homens não conseguem desfazer apesar de terem visto todos os pormenores com os seus próprios olhos?

– Exactamente. Tenho uma certa intuição nesse sentido. De quando em quando surge um caso mais complexo do que os outros. Só então é que preciso de andar um pouco por aí a fim de ver as coisas de perto. Como vê, disponho de conhecimentos especiais que aplico aos problemas surgidos, conhecimentos que facilitam maravilhosamente a minha tarefa. Essas regras de dedução expostas no artigo que provocou o seu desprezo são-me preciosas e eu aplico-as praticamente no meu trabalho. A observação é em mim uma segunda natureza. Você pareceu surpreso quando eu lhe disse, ao vê-lo pela primeira vez, que voltara do Afeganistão.

– Foi informado, sem dúvida.

– Nada disso. Eu vi que você voltava do Afeganistão. Devido a um longo hábito, a concatenação do raciocínio é tão rápida no meu espírito que cheguei àquela conclusão sem ter consciência dos elos intermediários. Mas esses elos lá estavam. E o fio que o meu raciocínio seguiu foi mais ou menos este: “Eis aqui cavalheiro com ar de médico, mas ao mesmo tempo com gestos de militar. É evidentemente um médico do exército. Acaba de chegar dos trópicos, porque tem o rosto amorenado e essa não é a cor natural da sua pele, visto que os punhos são brancos. Sofreu privações e enfermidades, conforme o demonstra o rosto emaciado. Além do mais, recebeu um ferimento no braço esquerdo, visto que o mantém numa posição rígida e pouco natural. Em que lugar dos trópicos um médico do exército inglês poderia ter passado tantas dificuldades e ser ferido no braço? No Afeganistão, naturalmente”. Toda essa série de raciocínios não ocupou mais do que um segundo. Observei-lhe, consequentemente, que você regressava do Afeganistão e vi a sua surpresa.

– Explicada dessa forma, a coisa parece bastante simples – disse eu, sorrindo. – Você faz-me lembrar o Dupin, de Edgar Allan Poe. Não fazia a menor ideia de que tais pessoas existissem na vida real.


Edgar Allan Poe


Sherlock Holmes levantou-se e acendeu o seu cachimbo.

– Julga, sem dúvida, fazer-me um cumprimento comparando-me a Dupin – observou. – Pois, na minha opinião, Dupin era um tipo medíocre. Aquele seu estratagema de intervir nos pensamentos do seu amigo, depois de um quarto de hora de silêncio, é pretensioso e superficial. Concedo-lho, sem dúvida, certa capacidade analítica, mas não era de modo nenhum o fenómeno que Poe poderia imaginar.

– Já leu as obras de Gaborian? – perguntei. – Lecoq corresponde à sua concepção de um detective ideal?

– Lecoq era um grande trapalhão – disse com veemência. – Só uma coisa o recomendava: a sua energia. A leitura de Monsieur Lecoq causou-me náuseas. O problema consistia em identificar um prisioneiro desconhecido. Eu tê-lo-ia feito em vinte e quatro horas. Lecoq precisou de mais ou menos seis meses. Esse livro bem poderia ser um manual para ensinar aos detectives o que não devem fazer.

Senti-me um tanto indignado ao ver tratados dessa maneira duas personagens que eu admirava. Caminhei até à janela e fiquei a olhar para o movimento da rua. Talvez aquele homem fosse muito arguto, pensava eu, mas não havia dúvidas que era pretensioso.

– Não há mais crimes que criminosos nos nossos dias – disse ele em tom queixoso. – De que serve possuir inteligência na nossa profissão? Sei perfeitamente que tenho qualidades para tornar o meu nome famoso. Não há nem houve até agora no mundo um homem que tenha dedicado à investigação criminológica tamanho estudo e vocação natural como eu. E qual é o resultado? Não há nenhum crime a desvendar, ou, quando muito, só alguma vilania grosseira e com um móbil tão transparente que até um funcionário da Scotland Yard é capaz de enxergá-lo.

Aborrecia-me também aquela sua maneira presunçosa de falar, e por isso resolvi mudar de assunto.

– Que estará procurando aquele tipo – perguntei, apontando para um homem forte, modestamente vestido, que caminhava vagarosamente pela calçada fronteira, examinando os números das casas. Trazia na mão um grande sobrescrito azul e era evidentemente o portador de uma mensagem.

– Refere-se àquele sargento aposentado da Marinha? – perguntou-me Sherlock Holmes.
“Grande fanfarrão!”, pensei com os meus botões. “Ele sabe perfeitamente que não posso verificar semelhante afirmação”.

Tal pensamento mal me havia passado pela mente quando o homem que estávamos a observar, vendo o número da nossa porta, atravessou a rua rapidamente. Ouvimos pancadas enérgicas no rés-do-chão, uma voz grave e em seguida ruído de passos decididos na escada.

– Para o Sr. Sherlock Holmes – disse ele ao entrar na sala, entregando a carta ao meu amigo.

Ali estava uma oportunidade para lhe desmascarar a presunção. Ele certamente a não previra ao fazer aquela observação a esmo.

– Posso perguntar-lhe, meu amigo – disse eu com a maior brandura possível –, qual é a sua profissão?

– Estafeta, senhor – respondeu ele de mau modo. – Uniforme em conserto.

– E antes disso, que fazia? – perguntei, lançando um olhar malicioso para o meu companheiro.

– Era sargento, senhor, sargento de infantaria da Marinha. Não tem resposta, Sr. Holmes? Perfeitamente, senhor.

Bateu os calcanhares, fez uma continência enérgica e saiu (in ob. cit., pp. 16-26).









Arthur Conan Doyle









Houdini e Arthur Conan Doyle