sábado, 23 de julho de 2011

«Ele há-de vir»

Escrito por António Correia de Oliveira





Ninguém teve, neste mundo,
Amor assim, tão profundo,
Como teve o Rei Soldado,
Trovão de Alcácer Quibir
Desejado, antes de vir;
Depois de ir, mais desejado.

E lá foi! Quem viu? Aonde?
Vivo, ou morto? Onde se esconde?
Ilha? Névoa?... Apenas isto.
Em vão, lá em cima, esperado
Na Corte de Jesus Cristo.

- «Ele há-de vir...» - E reboa,
Tudo reza, ou chama, à toa,
De eco em eco, esta palavra,
Seja o pão, abrindo à mesa;
Seja, ao lar, fogueira acesa;
Seja a terra a quem a lavra.

Sim! há-de vir. Mas, primeiro,
É preciso o Nevoeiro,
E a névoa é água a cismar;
As brumas da sua vinda
São lágrimas; e ainda
As fontes correm ao mar.

(De Hora Incerta, Pátria Certa, Lisboa, S.N.I., 1948).


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Meditação

Escrito por Jiddu Krishnamurti 








A mente meditativa é silenciosa. Não é o silêncio que o pensamento pode imaginar; não é o silêncio de um calmo anoitecer; é o silêncio que vem quando o pensamento - com todas as suas imagens, palavras e percepções - cessa completamente. Esta mente meditativa é a mente verdadeiramente religiosa - religiosidade que não é tocada pelas igrejas, os templos ou os cânticos.

A mente religiosa é a explosão do amor - de um amor que não conhece a separação. Para ele, o longe é perto. Não é o amor de um só, ou de muitos; é, antes, um estado de amor no qual toda a divisão desaparece. Tal como a beleza ele também não cabe na medida das palavras. E só a partir deste silêncio a mente meditativa actua.

(...) A meditação é uma das maiores artes da vida - talvez a maior, e não é possível aprendê-la de ninguém. Nisso reside a sua beleza. Não está sujeita a nenhuma técnica, e portanto a nenhuma autoridade.

(...) É curioso como a meditação se torna uma constante presença: não há um fim nem um princípio para ela. É como uma gota de chuva: nela estão todos os regatos, os grandes rios, os mares e as quedas de água... A gota de chuva alimenta a terra e o homem; sem ela, a terra seria um deserto. Sem a meditação, também o coração se torna um deserto, um lugar abandonado.

(...) Silêncio e amplidão interior andam juntos. A imensidão do silêncio é a imensidade da mente em que não existe centro.

(...) Andar sempre à procura de «experiências transcendentes», mais variadas e intensas, é uma forma de fugir da realidade presente, daquilo que é, ou seja, de nós mesmos, da nossa própria mente condicionada. Uma mente desperta, inteligente, livre, que necessidade tem dessas experiências? A luz é luz; não anda à procura de mais luz.

(...) Se nos esforçamos por meditar, não estamos a meditar. Se nos esforçamos por sermos bons, a bondade não floresce. Se cultivamos a humildade, ela fica ausente.

(...) A meditação é a brisa que entra quando deixamos a janela aberta; mas se deliberadamente a mantemos aberta, com o propósito de atrair a brisa, ela não aparece.

(...) Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação, temos de pôr completamente de lado toda a autoridade.

(...) Não sei se alguma vez reparastes que, quando estais totalmente atentos, há interiormente completo silêncio. E nessa atenção não existe nenhuma fronteira, nenhum centro, ou seja, nenhum «eu» que esteja atento. Essa atenção, esse silêncio, é um estado de meditação.

(...) Meditar é compreender o que é - ou seja, o facto - e ir para além dele.

(...) Meditar é estar inocente do tempo.

(...) Meditar é descobrir se há um campo que não esteja já contaminado pelo conhecido.



A meditação é o desabrochar da compreensão. A compreensão não está dentro das fronteiras do tempo; o tempo nunca traz compreensão. A compreensão não é um processo gradual em que se vá juntando pouco a pouco, cuidadosamente e pacientemente. A compreensão acontece agora ou nunca; é um relâmpago «destruidor», - e não uma coisa monótona; é desse estilhaçar que se tem medo e, assim, procura-se evitá-lo, consciente ou inconscientemente. A compreensão pode alterar o curso da nossa vida, o modo de pensarmos e agirmos; pode ser agradável ou não, e ser um «perigo» para os nossos relacionamentos. Sem compreensão, o sofrimento continua. O sofrimento só finda através do autoconhecimento, através da atenção a cada pensamento e emoção, a cada movimento daquilo que se revela a nível consciente e daquilo que está oculto. Meditação é a compreensão da consciência - a da superfície e a oculta - e é também a compreensão do movimento que está para além de todos os pensamentos e emoções.

(...) A meditação não é um meio para atingir um fim, não há nenhum fim, não há nenhum chegar; ela é um movimento no tempo e fora do tempo. Qualquer sistema, qualquer método, prende o pensamento ao tempo. A atenção, sem escolha, a cada movimento do pensamento e do sentir, a compreensão dos seus motivos, dos seus mecanismos, permitindo que o pensamento e o sentir «floresçam», é o nascer da meditação. Quando o pensamento e o sentir florescem e morrem, a meditação é um movimento além do tempo. Nesse movimento há êxtase; nesse vazio total há amor, e com amor há destruição e criação.

A meditação é aquela luz que, na mente, ilumina o caminho da acção; e sem essa luz não existe amor.

Meditação nunca é prece. A prece, a súplica nascem da autocomiseração. Suplica-se quando se está em dificuldades, quando há sofrimento; mas quando há felicidade, não há qualquer súplica. A autocomiseração, tão profundamente entranhada no ser humano, é a raiz da separação. O que está separado, ou o que a si mesmo se pensa separado, sempre em busca de uma identificação com algo que não esteja separado, apenas acarreta mais divisão e dor. A partir desta confusão, suplica-se aos céus, ou ao marido ou a alguma divindade criada pela mente. Esta súplica poderá encontrar uma resposta, mas a resposta é o eco da autocomiseração, na sua separação. A repetição de palavras, de orações, é auto-hipnótica, fecha a pessoa em si mesma e é destruidora. O isolamento provocado pelo pensamento dá-se sempre dentro do campo daquilo que é conhecido, e a resposta à prece é a resposta desse conhecido.

A meditação acontece longe de tudo isto. Nesse campo, o pensamento não pode entrar, não há lá nenhuma separação e, portanto, nenhuma identidade. A meditação acontece em abertura total; o secretismo não tem nela lugar. Tudo está à vista, tudo é bem claro; então, existe a beleza do amor.

(...) A crença é completamente desnecessária, tal como os ideais. Crenças e ideais dissipam energia que é necessária para perceber o revelar do facto, aquilo que é. Crenças e ideais são meios de se fugir ao facto e, nessa fuga, o sofrimento é infindável. O findar do sofrimento vem com a compreensão do facto, de momento a momento. Não há nenhum sistema ou método que dê essa compreensão; só uma atenção sem escolha ao facto a conseguirá. Meditar de acordo com um sistema é evitar o facto, que é aquilo que somos. Compreendermo-nos a nós mesmos, e compreender a constante mudança dos factos que nos dizem respeito, é de longe mais importante do que «meditar» tendo em vista «encontrar deus» ou ter visões, sensações, ou outras formas de entretenimento.






(...) Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido.

(...) Meditação não é concentração, já que esta é exclusão, resistência e, portanto, conflito. A mente meditativa pode concentrar-se, só que então não há exclusão, resistência. A mente que apenas se concentra não pode meditar.

Na compreensão do que é meditar, há amor; e o amor não é produto de sistemas, de hábitos, de se seguir um método. O amor não pode ser cultivado pelo pensamento. O amor pode surgir quando há completo silêncio, um silêncio no qual aquele que medita está inteiramente ausente. A mente só pode estar em silêncio quando se apercebe do seu próprio movimento como um processo de pensar e de sentir. Para se compreender este movimento de pensar e de sentir, na observação desse movimento não pode haver condenação alguma. Observar desta maneira é disciplina - não a do conformismo, mas uma disciplina fluida, livre.

(...) As palavras «tu» e «eu» separam: esta divisão não existia naquele estranho silêncio e naquela serenidade. E quando olhámos através da janela, espaço e tempo pareciam ter desaparecido; e o espaço que divide deixou de ter realidade. Aquelas folhas, aquele eucalipto e o azul brilhante da água não eram diferentes de nós.

(...) A meditação é um movimento no desconhecido e do desconhecido. Nós não existimos, só o movimento existe. Somos demasiado insignificantes ou sentimo-nos demasiado «importantes» para este movimento. Ele não tem nada atrás dele ou à sua frente. É aquela energia que o pensamento-matéria não é capaz de tocar. Este movimento é pervertido pelo pensamento, porque o pensamento é o conhecido, é produto do ontem; e está prisioneiro de penosos e duros esforços de séculos e, assim, é confuso e tem falta de lucidez. Faça-se o que se fizer, o conhecido não pode atingir o desconhecido. Meditar é morrer para o conhecido.

(...) A meditação não tem princípio nem fim; nela não há nem sucesso nem fracasso, nenhuma acumulação e nenhuma renúncia; é um movimento sem finalidade, e para além do tempo e do espaço. Experienciá-la é negá-la, pois aquele que a experiencia está preso ao tempo e ao espaço, à memória e ao re-conhecer. A base para a verdadeira meditação é aquela atenção passiva, disponível, que é libertarmo-nos da autoridade e da ambição, da inveja e do medo. A meditação não tem qualquer sentido sem esta liberdade, sem autoconhecimento; enquanto psicologicamente houver escolha não há autoconhecimento. Essa escolha implica conflito, e este torna impossível a compreensão de o que é. Entregar-se a qualquer fantasia, a quaisquer crenças românticas, não é meditação; o cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda a ilusão e busca de segurança e enfrentar a realidade da falsidade de todos eles.

Não existe qualquer separação; tudo se encontra no movimento do meditar. A flor é a forma, o aroma, a cor e a beleza que é o seu todo. Se a despedaçarmos, de facto ou por palavras, então deixa de existir a flor, fica apenas uma lembrança do que era, o que nunca é a flor. A meditação é a flor inteira na sua beleza, a murchar e a viver.

Meditar é libertarmo-nos do pensamento; é um movimento no êxtase da verdade.

(...) Meditar é transcender o tempo. O tempo (psicológico) é a distância que o pensamento percorre na sua busca de sucesso pessoal. A viagem é assim sempre ao longo do velho caminho, revestido de uma nova aparência, novas paisagens, mas sempre a mesma estrada, que não conduz a lado nenhum - excepto à dor e à infelicidade.

Só quando a mente transcende o tempo é que a verdade deixa de ser uma abstracção. Então, a felicidade profunda não é uma ideia derivada do prazer mas uma realidade não verbal.

Esvaziar a mente do tempo é o silêncio da verdade, e assim ver é agir; portanto não existe nenhuma divisão entre o ver e o agir. É no intervalo entre ver e agir que nascem o conflito, a infelicidade e a confusão. Aquilo que está fora do tempo é eterno.

A meditação é um estado da mente que olha tudo com completa atenção, não fragmentariamente, mas de maneira total.










Meditar é destruir a «segurança», e há grande beleza na meditação, não a beleza das coisas produzidas pelo homem ou pela natureza; é a beleza do silêncio. Este silêncio é o vazio no qual, e a partir do qual, todas as coisas fluem e têm a sua existência. Não pode ser conhecido; o intelecto e a emotividade não podem chegar até ele; não há caminho para o silêncio e um método para tentar alcançá-lo é invenção de um cérebro ambicioso. Todos os caminhos e meios de que se serve o «eu» calculista têm de ser completamente destruídos; todo o movimento para a frente ou para trás, o modo como funciona o tempo, tem de cessar, sem nenhum amanhã. Meditação é «destruição»; é um perigo para aqueles que desejam levar uma vida superficial e uma vida de fantasia e de mito.

A morte a que a meditação dá origem é a imortalidade do novo.

Meditar é algo realmente maravilhoso, quando acontece. Posso falar sobre a meditação, mas a descrição não é o que é descrito. Cabe a cada um de nós aprender tudo isto, olhando para nós próprios - nenhum livro, nenhum professor pode ensinar-nos. Assim, não dependamos de ninguém, não nos juntemos a organizações «espirituais»; temos de aprender tudo isto a partir de nós mesmos. E então a mente descobrirá coisas inacreditáveis. Mas para tal, não pode haver fragmentação e por isso tem de haver imensa estabilidade, percepção rápida e flexibilidade. Para uma mente assim não há tempo e o viver tem, portanto, um sentido completamente diferente (in J. Krishnamurti, Meditações, Editorial Presença, 1999).


segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Arte da Paz

Escrito por O'Sensei Morihei Ueshiba








Todas as coisas, materiais e espirituais, provém de uma fonte e estão relacionadas como se fossem uma família. O passado, presente e futuro estão todos contidos nessa força de vida. O universo emergiu e desenvolveu-se a partir de uma fonte, e nós evoluímos através do processo da unificação e harmonização.

Foi desta forma que o universo se tornou ser. Não havia céu, nem terra, nem universo - só espaço vazio. Nesse vasto espaço vazio manifestou-se subitamente um único ponto. Desse ponto, vapor, fumo e névoa subiram em espiral até formarem uma esfera luminosa, e assim nasceu o som sagrado SU. À medida que o SU se expandiu de forma circular e descendente, para a esquerda e para a direita, apareceram a natureza e a respiração, claras e puras. A respiração desenvolveu vida e apareceu o som.

SU é a palavra mencionada em muitas religiões do mundo.

Todos os sons e vibrações emanam dessa PALAVRA.

(...) Se tens vida em ti, terás acesso aos segredos das eras, pois a verdade do universo reside em cada e todo o ser humano.

(...) A prática da Arte da Paz permite-te ergueres-te acima do louvor ou reprovação e libertar-te do que te prende a isto e àquilo.

(...) Uma boa mistura é constituída por setenta por cento de fé e trinta por cento de ciência. A fé na Arte da Paz permitir-te-á entenderes as complexidades da ciência moderna.

O conflito entre a ciência material e espiritual provoca a exaustão física e mental, mas quando matéria e espírito estão em harmonia, toda a tensão e fadiga desaparecem.

Usa o teu corpo para criar formas; usa o teu espírito para transcender as formas; unifica corpo e espírito para activar a Arte da Paz.

(...) Todas as coisas estão harmoniosamente juntas; esta é a verdadeira lei da gravidade que mantém o universo intacto.

(...) A tua respiração é o verdadeiro elo que te liga ao universo. Respira em espiral para cima, para a direita; expira a espiral para baixo, para a esquerda. Esta interacção é a união do fogo e da água. É o som cósmico de A e UN, Alfa e Ómega.

Pensa na maré baixa. Quando as ondas dão à costa, rebentam e caem, criando um som. A tua respiração deverá seguir o mesmo padrão, absorvendo todo o universo na tua barriga com a inalação. Fica a saber que todos possuímos quatro tesouros: a energia do sol e da lua, a respiração do céu, a respiração da terra e a maré e corrente das ondas.

(...) A vida é uma dádiva divina. O divino não é algo exterior a nós; está presente no nosso âmago, é a nossa verdade. Na nossa aprendizagem aprendemos a verdadeira natureza da vida e da morte. Quando a vida é vitoriosa, há nascimentos, mas quando existem obstáculos, há morte.

Um guerreiro está constantemente envolvido numa luta de vida ou morte pela paz.

(...) Cada árvore que se ergue acima do ser humano deve a sua existência a um âmago de profundas raízes.

Estudai os ensinamentos do pinheiro, do bambu, dos rebentos das ameixoeiras. O pinheiro é verde, tem raízes firmes e veneráveis. O bambu é sólido, resistente, inquebrável. Os rebentos das ameixoeiras são cheirosos e elegantes.






Não te esqueças de todos os dias prestares a tua homenagem às quatro direcções. Este nosso mundo maravilhoso é a criação do divino, e por essa dádiva devemos estar eternamente gratos. Essa gratidão deve ser expressa através de uma qualquer oração. A verdadeira oração não tem forma estabelecida. Oferece simplesmente a tua gratidão sincera de uma maneira que considerares apropriada e serás amplamente recompensado.

(...) A Arte da Paz não é fácil. É uma luta até ao fim, o desfazer de desejos malévolos e de toda a falsidade. De vez em quando a voz da paz ressoa como um trovão fazendo sair os seres humanos da sua apatia.

(...) O único pecado verdadeiro consiste em ignorar o universal, princípios intemporais da existência. Essa ignorância é a raiz de todo o mal e de todo o comportamento desviante. Elimina a ignorância através da Arte da Paz, e até o inferno será esvaziado das almas torturadas.

(...) Os mais fortes nem sempre derrotam os mais fracos. Os pequenos podem tornar-se grandes se trabalharem constantemente para isso; os fortes podem tornar-se fracos se não o fizerem.

(...) O Caminho da Paz é muito vasto, reflectindo o grande desenho dos mundos ocultos e visíveis. Um guerreiro é um santuário vivo do divino que serve esse grandioso desígnio.

(...) Mesmo que o nosso caminho seja completamente diferente das artes guerreiras do passado, não é necessário abandonar totalmente os costumes antigos. Absorve as tradições veneráveis, vestindo-as de forma mais actual e apoia-te nos estilos clássicos para construíres melhores formas.

(...) Aqueles que são iluminados nunca deixam de se querer superar. Os feitos destes mestres não podem ser expressos por palavras ou teorias. As acções mais perfeitas são as dos padrões encontrados na natureza.

(...) Encara um inimigo como se estivesses a defrontar dez mil; encara dez mil inimigos como se estivesses a defrontar um.

(...) O ferro está cheio de impurezas que o enfraquecem; trabalhando-o, torna-se aço e transforma-se numa espada de gume afiado. Os seres humanos desenvolvem-se da mesma maneira.

(...) Não há disputas na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque ele ou ela não disputa nada. Derrotar significa derrotar o espírito de contenção que abrigamos dentro de nós.

A Arte da Paz não é um objecto que alguém possua, nem qualquer coisa que se possa dar a outro. Deves entender a verdadeira essência da Arte da Paz e expressá-la pelas tuas próprias palavras.

(...) Na arte da Paz temos como objectivo ver tudo ao mesmo tempo, abarcando todo o campo de visão com um só olhar.

(...) O centro físico está na tua barriga; se o teu espírito estiver centrado aí também, poderás estar certo da vitória.




(...) As técnicas da Arte da Paz nem são rápidas nem são lentas, não são internas nem externas. Transcendem o tempo e o espaço.

(...) O corpo deve ser triangular, o espírito circular. O triângulo representa a geração de energia e é a postura física mais estável. O círculo simboliza a serenidade e perfeição, a fonte de técnicas ilimitadas. O quadrado significa solidez, a base do controlo.

(...) Toda a vida é um círculo que se move sem parar e esse é o ponto central da Arte da Paz. A Arte da Paz é uma esfera inesgotável que envolve todas as coisas.

(...) Não olhes para este mundo com receio e ódio. Enfrenta corajosamente o que os deuses têm para te oferecer.

(...) Encara qualquer desafio que esteja à tua frente. Quando um ataque aparece à tua frente, utiliza o princípio da "lua reflectida na água". A lua parece estar realmente presente, mas se tocares a água, não estará lá nada. Também o teu oponente não encontrará nada sólido para atacar. Tal como a luz da lua, envolve o teu oponente física e espiritualmente, até não haver separação entre vós.

(...) Sê grato mesmo pelos revês e dificuldades. Lidar com os obstáculos é uma parte essencial do treino da Arte da Paz.

(...) O falhanço é a chave para o êxito; cada erro nos ensina alguma coisa.

Em situações extremas, o universo inteiro torna-se nosso antagonista; nessas alturas críticas a unidade do espírito e a técnica são essenciais - não deixes que o teu coração hesite!

Para praticamos a Arte da Paz necessitamos de um valor, um valor que assenta na verdade, bondade e beleza. O valor dá-nos força e torna-nos corajosos. O valor é um espelho que revela todas as coisas e expõe o mal.

No instante em que um guerreiro confronta um adversário todas as coisas se tornam claras.

Mesmo quando chamado por um único adversário, mantém-te em guarda, pois estás sempre rodeado por uma horda de inimigos.

Não desejes evitar um confronto. Quando ele ocorrer desarma-o logo na origem.

Quando alguém estiver em oposição a ti, existe uma possibilidade de cinquenta por cento para cada um. Saúda um oponente que avance; diz adeus a um oponente que recue. Mantém o equilíbrio original e o teu oponente não terá por onde atacar. Na verdade, o teu oponente não o é, porque tu e o teu oponente tornam-se num só. Esta é a beleza da Arte da Paz.



A Arte da Paz consiste em preencher aquilo que falta.

Devemos estar preparados para receber noventa e nove por cento do ataque de um inimigo e encará-o de frente para iluminar o Caminho. Por muito negra que a situação esteja, ainda será possível virar as coisas a teu favor.

(...) Existem dois tipos de Ki: o Ki vulgar e o Ki verdadeiro. O Ki vulgar é pesado; o verdadeiro Ki é leve e versátil. Para que ajas bem tens de te libertar do teu Ki vulgar e inundar os teus orgãos com o Ki verdadeiro. Esta é a base da técnica poderosa. O Ki pode ser uma leve brisa que roça pelas folhas ou um vento indomável que arranca ramos.

(...) Os antigos guerreiros usavam pilares e árvores como escudos, mas isso hoje já não serve. Também podes confiar nos outros para te protegerem. O espírito é o teu verdadeiro escudo.

(...) Não olhes directamente nos olhos do teu opositor: ele poderá desorientar-te. Não fixes o teu olhar na sua espada; ele pode intimidar-te. Não te concentres no teu oponente; ele pode absorver tua energia. A essência do treino é fazer o teu oponente entrar completamente na tua esfera. Então poderás colocar-te onde desejares.

Até o mais poderoso ser humano tem uma esfera limitada de força. Retira-o dessa esfera para a tua e a sua força dissipar-se-á.

(...) Na aprendizagem, não tenhas pressa, pois são necessários pelo menos dez anos para dominar o básico e avançar para o primeiro grau. Nunca penses que sabes tudo, que és um mestre perfeito; deverás continuar a praticar diariamente com os teus amigos e alunos, e a progredir todos juntos na Arte da Paz.

O progresso vem para aqueles que praticam e praticam; confiar em técnicas secretas não te leva a lugar nenhum.

Experimentar esta e aquela técnica não vale a pena. Limita-te a agir com decisão e reserva.

Para aprender a discernir o ritmo dos ataques agarra-te às bases. Os segredos estão à superfície.

(...) A vitória sobre nós próprios é o principal objectivo da tua aprendizagem. Centremo-nos no espírito mais do que na forma, no grão mais do que no envólucro.






(...) Para implementar verdadeiramente a Arte da Guerra, deves poder movimentar-te livremente nos campos divinos, abertos e ocultos.

(...) As técnicas do Caminho da Paz mudam constantemente: cada encontro é único e a resposta apropriada deverá surgir naturalmente.

As técnicas de hoje serão diferentes amanhã. Não te deixes apanhar pela forma e aparência de um desafio. A Arte da Paz não tem forma - é o estudo do espírito.

No fim, deves esquecer-te da técnica. Quanto mais progredires, menos terás a aprender. O Grande Caminho afinal é um Não Caminho.

(...) A Arte da paz que eu pratico tem espaço para cada um dos oito milhões de deuses. E eu coopero com todos eles. O Deus da Paz é grandioso e aprecia tudo que é divino e iluminado em cada terra.

(...) Já não podemos confiar nos ensinamentos externos de Buda, Confúcio ou Cristo. A era da religião organizada que controlava todos os aspectos da vida, acabou. Nenhuma religião só por si tem todas as respostas. Construir templos e santuários não chega. Torna-te à semelhança de uma imagem de Buda. Todos deveríamos ser transformados em deusas da compaixão ou budas vitoriosos.

O Caminho é extremamente vasto. Desde os tempos antigos até aos tempos de hoje, mesmo os maiores sábios foram incapazes de apreender e perceber a verdade completa; as explicações e ensinamentos de mestres e santos exprimem só parte do todo. Não é possível alguém falar de tais coisas na sua plenitude. Limita-te a aproximar-te da luz e do calor, aprende com os deuses e através da prática devotada da Arte da Paz torna-te num só com o divino.

A unificação de corpo e espírito através da Arte da Paz é um estado de exaltação, tão maravilhoso e agradável que te faz sentir lágrimas de alegria.

Quando te curvas perante o universo, Ele curva-se também; quando chamas o nome de Deus Ele ecoa dentro de ti.

A Arte da Paz é a religião que não é religião: completa torna mais perfeita todas as religiões (in Morihei Ueshiba, A Arte da Paz, Coisas de Ler Edições, 2005).










































sábado, 16 de julho de 2011

A oportunidade dos liberais

Escrito por Olavo de Carvalho








Zero Hora (Porto Alegre), 13 de agosto de 2000

A esquerda tornou-se hegemônica porque sabe para onde quer ir e sabe fazer as pessoas pensarem que, ajudando-a a chegar lá, estão indo para onde elas próprias querem. A direita só sabe o que não quer e, mesmo quando luta pelos mais óbvios interesses do povo, dá a impressão de estar agindo no interesse próprio. Isto acontece porque ela própria está enfeitiçada pelo discurso esquerdista e, quando abre a boca para se defender, só sabe repetir palavras que a acusam.

Todo comunista sabe que, no vocabulário da sua ideologia, a expressão "luta pela democracia" tem um significado específico, bem diferente do que tem na linguagem corrente: designa uma etapa do processo revolucionário, a ser superada imediatamente após sua consecução e transformada o mais rápido possível em comunismo explícito. Mas, precisamente, as outras pessoas não sabem disso — e, quando se aliam aos comunistas no combate por um objetivo qualquer, por exemplo "direitos civis", não fazem a mínima idéia de que seus esforços para a obtenção dessa meta específica já foram enquadrados na estratégia mais vasta de seus aliados, à qual acabarão servindo sem perceber.

Por isso mesmo, na luta pela redemocratização do Brasil, o retorno à normalidade democrática foi apenas uma parte dos objetivos alcançados — a parte menor e secundária. A maior e principal foi a hegemonia comunista do processo. Pelos frutos os conhecereis: hoje a esquerda detém não somente noventa por cento do eleitorado nos grandes centros, mas domina a máquina de denúncias e investigações com que destrói, com provas ou sem provas, a reputação de quem a incomode. Em resultado, a guerra contra a corrupção não diminuiu a corrupção em nada, mas fez subir até às nuvens o poder de manipulação esquerdista da opinião pública. Do mesmo modo, campanhas sentimentalóides contra a miséria — feitas com o único propósito de absorver na estratégia esquerdista o aparato nacional de assistência social — não atenuaram em nada a pobreza, mas abriram perspectivas deliciosamente ilimitadas para a dominação moral das consciências pelo "establishment" esquerdista. Pelos frutos os conhecereis.


Para fazer face ao assalto esquerdista generalizado, a direita liberal não conta senão com um recurso ideológico específico e limitado: a apologia da economia de mercado. Os liberais são tão eficientes e valorosos na luta por esse item único quanto são omissos e indefesos em tudo o mais. Ante o avanço simultâneo do adversário em todas as frentes, apegam-se à defesa de uma cidade, de um bairro, de um edifício, com o desespero de quem deu a guerra por perdida e já não deseja salvar senão esse último símbolo da sua honra guerreira.

Para complicar, a insistência exclusiva nesse item joga os liberais contra outras correntes de opinião que, sendo tão anticomunistas quanto eles, identificam liberalismo com dominação globalista e olham com temor e desconfiança a possibilidade de maior ingerência estrangeira nos assuntos nacionais. Entre o comunismo que abominam e o neoliberalismo que temem, essas correntes estão hoje isoladas e sem ação. Como nelas há muitos militares, os comunistas já perceberam sua importância vital e fazem esforços diuturnos para conquistá-las. Mas não o conseguiram ainda. Para os liberais ganharem a simpatia delas, basta que saibam distinguir entre o autêntico liberalismo que defendem e a fraude do "neoliberalismo" imperialista, intenvencionista (e, no fundo, socialista) dos srs. Clinton e Blair. O "establishment" globalista mundial está hoje francamente à esquerda. Essa é a melhor oportunidade para um diálogo entre liberais e nacionalistas, de modo a impedir que estes acabem colaborando, por falta de opção, com o velho jogo stalinista de vender o comunismo com embalagem de nacionalismo.

Eu seria o último a desejar a extinção da esquerda ou a sua redução à completa impotência. Já vi esse filme e não gostei. É preciso que exista uma esquerda, que exista uma direita, que ambas consintam em jogar o jogo democrático do rodízio eleitoral e que ninguém se utilize da democracia como meio provisório de chegar a... alguma outra coisa. Não tem sentido falar em estabilidade democrática e ao mesmo tempo fazer da democracia um trampolim para outro tipo de regime, sobretudo para aquele que, eufemisticamente, se autodenomina "democracia popular". O que não pode continuar é essa situação aberrante em que só um dos lados fala, só um dos lados acusa, só um dos lados faz e acontece e, ao mesmo tempo, esse mesmo lado se queixa e se faz de coitadinho, choramingando contra o "discurso único", como se o único discurso em circulação, fora do estreito círculo dos profissionais da economia, não fosse o dele próprio.


Independentemente de decidir se no Brasil do futuro cada um de nós ficará com a direita, com a esquerda ou fora de ambas, fortalecer a direita liberal é hoje o dever número um de quem, tendo conhecido a ditadura neste país ou em qualquer outro, sabe quanto vale a democracia.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Maçonarias e católicos na política

Escrito por Orlando Vitorino





Museu Maçónico (Rua do Grémio Lusitano, Bairro Alto).



«Como se sabe, o lema da Franco-Maçonaria é: "Jura, perjura, mas guarda segredo"».

Carlos Aguiar Gomes (in Agência de Informação e Maçonaria).



Encontrei ontem, por acaso, um importante maçon... Mas a história começa antes.

Há, em Portugal, três grandes "sociedades secretas". Não deixam, porém, de dar notícias públicas da sua existência, o que é paradoxal mas me proporcionou ver-me um dia surpreendido com a descrição nos jornais das exéquias de um Grão-Mestre, celebradas numa sala, que imagino vasta como um templo, de um grande casarão do Bairro que todos conhecemos de passagem na rua. Aí esperaram as altas patentes do Estado - Presidente da República, etc. - que se abrissem as portas e desfilasse o cortejo de altos dignitários maçónicos: à frente o novo Grão-Mestre, de nome Adão e Silva, fundador do PSD, logo seguido pelo Presidente do Conselho Geral, de nome José Eduardo Pisany Burnay... O jornal cai-me das mãos. Eu conheço há muito, desde sempre, um José Eduardo Pisany Burnay. Será possível que seja o mesmo? Aquele Burnay loiro, róseo, imenso, gordo, barrigudo, alto, gastrónomo, que colecciona armas, livros raros e outras preciosidades, e guarda suas colecções num belo palácio na estrada do Lumiar? Aquele Burnay que anda (ainda andará?) pelos Teatros, cursou a Escola de Arte Dramática, se dá até por actor profissional, representa de vez em quando, eu mesmo ensaiei num papel da "Triste Viuvinha", de D. João da Câmara, e casou com a Emilinha que era uma boa actriz. Será mesmo ele? O nome ali estava, inteiro, preto no branco. Todavia... Logo no dia seguinte, poderes do acaso, esbarro com ele ao dobrar da esquina. E travámos este diálogo:

Eu - Burnay! Ainda bem que o encontro. Quero fazer-lhe uma pergunta...

Ele - Já sei o que é. A Maçonaria...

Eu - Exactamente. É então Você mesmo?

Ele - Eu mesmo.

Eu - O Presidente do Conselho Geral? a segunda figura da Maçonaria?

Ele - Enquanto os meus "Irmãos" me mandatarem, assim é.

Eu - E diga-me: que é o Conselho Geral?

Ele - Para V. entender facilmente, digo-lhe assim: o Grão-Mestre é como o Presidente da República, o Presidente do Conselho Geral é como o Primeiro-Ministro.

Eu - Nesse caso, é V. quem manda na Maçonaria?

Ele - Exactamente. Enquanto os meus "Irmãos"...




Eu - Vamos lá ver se entendo. O PS e o PSD são os Partidos que andam sempre no Governo e diz-se que ambos estão integrados na Maçonaria.

Ele - É como diz.

Eu - Então é V. quem manda no PS e no PSD?

Ele - De certo modo, é como diz.

Eu - Ora se esses Partidos é que mandam em Portugal, V. é quem manda em Portugal.

Ele - É lógico. Enquanto os meus "Irmãos"...

Eu - Já sei. Enquanto os seus "Irmãos" o mandatarem.

Uns três ou quatro anos passaram, e aqui estou eu candidato a Presidente da República, o que deve ter causado ao Burnay menos surpresa do que me causou a mim a notícia de ser ele um tão alto dignitário da Maçonaria. E eis que novamente o encontro. E logo ele me diz de chofre:

Ele - já sabe? A cisão acaba de se dar.

Eu - Qual cisão?

Ele - A da Maçonaria. Ficamos nós para um lado, com o rito escocês. Ficam eles, os politiqueiros, para outro lado, com o rito francês.

Eu - Não entendo, explique melhor...

Ele - Você compreende, eles são ateus, chegam a rir-se do ritual, só tratam da política, dos Partidos, ignoram tudo da simbologia e da verdade maçónicas. Era preciso acabar com isto. E deu-se a cisão. Você não lê os jornais?

Eu - De facto não leio. Mas... a cisão, como foi? Ficaram metade para cada lado?

Ele - Não. Eles têm uma pequena vantagem. Connosco ficaram sete "lojas". Mais do que esperávamos. É muito significativo. Bem vê, num total de 17 "lojas"...

Eu (sempre avesso a contas) - com quantas lojas ficaram eles?

Ele (também fraco a contas) - Isso não lhe digo. A Maçonaria sempre tem os seus segredos.

Eu - Vejo que está contente?

Ele - Se estou! E olhe que eles vão tramar-se. Porque o rito escocês é dominante em quase todo o mundo. Olhe: os países da CEE. Com excepção da França, são todos do nosso rito. E eles vão tramar-se...




Eu - Então o Jacinto Simões, de que lado ficou?

Ele - Ainda está do outro lado, mas vamos a ver...

Eu - E o António Valdemar?

Ele - Um pé cá, um pé lá. Você sabe, o Valdemar tem dificuldades financeiras... e isso prende muito.

Eu (tentando lembrar-me de mais maçons que porventura conheça, e não conseguindo) - Bom, vou andando. E parabéns. Já agora, não sei se sabe, também tem vindo nos jornais... estou candidato à Presidência da República.

Ele - Pois sei, pois sei. Tenho lido.

Eu - Então veja lá se me dão uma ajuda.

Ele - É muito possível, olhe que é muito possível...

E lá foi, rua acima, grande, pesado, lento, voltando-se ainda uma e outra vez, risonho e satisfeito, a abanar a cabeça e repetindo: "É muito possível, olhe que é muito possível..."

Aviso aos que vêem em tudo maçonarias: nunca mais encontrei o Burnay.




Católicos na política

[«... um homem de grande saber e excepcional inteligência, confundia, num artigo publicado na revista Laikos, liberalismo, maçonaria, militarismo e anti-clericalismo. Pinharanda Gomes representa, sem dúvida, aquele sector, ou ordem, do pensamento eclesiástico que fica a meio do caminho que separa os católicos progressistas, ou socialistas, como o Cardeal Suenens, dos católicos tradicionalistas, ou tridentinos, como Monsenhor Lefebvre, e, ao alimentar aquela confusão, não faz mais do que igualmente servir o que há de errado nas duas posições extremas, a dos socialistas e a dos tridentinos»].

Orlando Vitorino («O Neo-Liberalismo», in Escola Formal, 1978, n.º 6, pp. 6-7).








Não, não é para entender.

Segundo a palavra dos Papas, a incompatibilidade entre o catolicismo e o marxismo é irredutível. Segundo os cânones da Igreja, a simples concordância com o marxismo é motivo de excomunhão. Mas leio nos jornais que o Arcebispo de Braga fez o elogio de uma mulher [Maria de Lurdes Pintasilgo] que, candidata a Presidente da República, afirma publicamente e por escrito: "professo o marxismo".

Não, não é para entender.

Dando-lhe, com a filosofia portuguesa, uma dimensão que ela não possui nos seus mais famosos teorizadores estrangeiros, situámos a doutrina da nossa candidatura no signo do neo-liberalismo. Valeu-nos isso que os meios intelectuais católicos a revertessem para domínios que não são propriamente os políticos e contra ela tivessem manifestado, de vários modos, uma franca hostilidade. Primeiro, foi a hierarquia: sucessivas pastorais condenaram, de uma só penada, liberalismo e comunismo. Depois, foram as organizações de leigos: o boletim de uma delas, "A Voz da Verdade", com sede no Palácio Patriarcal, publica uma espécie de aviso contra a "revivescência" do liberalismo - o maçónico, anti-clerical, novecentista - em termos que revelam claramente sermos nós os visados. Por fim, são os lefebvristas: escrevem-nos uma carta repudiando o liberalismo que defendemos como se nós não soubéssemos o que ele é e nada tem a ver com maçons, luteranos e mata-frades do século passado.

Vamos tentando... como dizer?... corrigir? esclarecer? distinguir?... Enviamos uma carta ao lefebvristas, mandamos uma nota ao boletim dos leigos, apelamos para os hierarcas junto de quem temos amigável acesso. Tudo em vão. As pastorais dos Bispos continuam a condenar o liberalismo, o boletim dos leigos insere uma nota à nossa carta como se dissesse que eles, leigos, não se deixam levar; e os lefebvristas guardam silêncio talvez desdenhoso.


Como poderei eu dizer, com inequívoco respeito e natural delicadeza, o que vou dizer? O caso é que, em certo sector de católicos, o liberalismo é abominado por ser o oposto do socialismo, o oposto sem concessões, e por aí se tender a aproximar do socialismo a "doutrina social da Igreja" apurada pelo Vaticano II; noutro sector, porque o liberalismo abre feridas de má consciência; num terceiro sector, porque é aí muito reduzida a actualização cultural e se ignora tudo o que ao neo-liberalismo se refere, até o facto de o seu principal e mais polémico teorizador actual ter sido nomeado consultor do Papa; num último sector, por fidelidade ao Syllabus, mas fidelidade tal que dispensa de reler o documento pontifício que tanto escandalizou os progressistas da época, católicos e não-católicos (Guerra Junqueiro, por exemplo); se o relessem, verificariam, primeiro, que o Syllabus, condenando radicalmente todo o socialismo e todo o comunismo como intrinsecamente maus, apenas condena quatro erros daquilo a que chama (sinal de uma sabedoria que os católicos parecem ter perdido) "0 liberalismo contemporâneo", o de 1869; verificariam, depois, que o reaccionarismo da época é quase um modelo de tolerância e compreensão se comparado com a mentalidade e a prática do "progressismo contemporâneo", este de 1985.

Motivo de ironia na sanha de certos campeões católicos contra o liberalismo é que não tenham eles perdoado ainda, ao liberalismo do século passado, as "nacionalizações" (então chamadas "confiscações") dos bens da Igreja e já tenham esquecido as "nacionalizações" que o socialismo fez, há uns dez anos [1975], dos bens particulares. O que torna o caso mais divertido é que muitos desses campeões devem os prazeres da vida que usufruem ao avó liberal de quem herdaram a fortuna obtida com aquelas confiscações inesquecíveis e imperdoáveis. É, então, de suspeitar que, assim como o avó se instalou no tal liberalismo para roubar a Igreja, assim eles se instalam agora no socialismo... para quê?

Amigos meus da "democracia cristã" abordam-me com incontestável simpatia pela minha candidatura. Em certo momento da conversa, aludo ao individualismo e logo eles: "Individualismo, nunca!"

Os santos estão por mim. Ao serão enfio-me na biblioteca sem outra finalidade que não seja a de escapar ao hipnotismo da televisão. Percorro com os olhos uma prateleira de livros e, sempre sem finalidade, retiro a famosa obra de Heimsoeth, "Os Seis Grandes Temas da Metafísica Ocidental". Um dos temas é, precisamente, "O Indivíduo". E logo leio: "Só com o cristianismo se tornou possível conceber o indivíduo sem o absorver, como valor secundário, no conceito de universal..." Em que mundo andam os meus amigos da democracia cristã?

Meditação interrogativa:

Poderá haver católicos que confiem a perduração da Igreja à sua adaptação aos sucessivos e diversos senhores do mundo do que à palavra de Cristo que lhe assegurou a perpetuidade? (in O processo das Presidenciais 86, pp. 59-62).






segunda-feira, 11 de julho de 2011

Grau de Aprendiz

Escrito por António Telmo






«Na realidade, (...) a verdade é que os elementos não se transformam uns nos outros, aquilo que sucede prende-se antes com o facto de a matéria corporal, por efeito do calor, do frio, da humidade ou da estiagem, vir a passar por todos os estados elementares».

Titus Burckhardt





O AR NÃO É ELEMENTO

Tendo, enquanto aprendiz, a minha estação ou estado no Norte, até o Sul, onde estão os que receberam o grau de companheiro, me está vedado, e aqui cabe lembrar as palavras de Dante no primeiro canto do Purgatório:

«Ó região do Norte, tu que não podes contemplar os astros resplandecentes do Cruzeiro do Sul, como eu te lamento na tua viuvez!».

Será, pois, do ponto de vista do Aprendiz e de acordo com o que lhe foi mostrado durante a iniciação e durante o trabalho na Loja, que reflectirei sobre o que seja para nós o Oriente. Ora acontece que, desse ponto de vista do Aprendiz, que percorreu apenas a três regiões elementares, o quaternário não se lhe pode revelar em toda a sua completude, isto é, como dando origem, no próprio ser e não só especulativamente, à totalidade simbolizada na década por 1+2+3+4=10. No meu grau, o quaternário apresenta-se e representa-se como 3+1. O ar não aparece como elemento, o ar que está em correspondência com o Oriente. Esta observação parece confirmada pelo Mestre Maçon Jean Ursin no seu livro História do Rito Escocês Rectificado, onde esta aparente anomalia de haver no nosso rito de iniciação apenas três regiões elementares é explicada como o que Willermoz terá ele trazido do ensino alquímico de Martins Pascoal. "As provas pelos elementos", escreve Jean Ursin, "às quais o recipiendário é submetido, durante as suas três viagens simbólicas, aquando da sua recepção, mostram que não há senão três elementos, em vez dos quatro habituais, como não há senão três princípios fundamentais:


- O Enxofre que corresponde ao fogo;
- O Sal que corresponde à água;
- O Mercúrio que corresponde à terra".


E mais adiante escreve:

«O ar que alguns colocaram entre os elementos não é um elemento. É-lhes infinitamente superior pela sua natureza. É ele que por uma salutar reacção conserva a vida de todo o ser vivente, vegetal ou animal, como acelera a dissolução daqueles seres que são privados do seu princípio vital. Enfim, embora penetre em todos os corpos, não se amalgama com os Elementos de que eles são compostos e não constitui a forma destes corpos».

Se o ar não é um elemento, o que é que ele é?

Como, enquanto aprendiz, não me é possível sabê-lo por meios operativos, isto é, por um processo efectivo de realização na ordem do ser, recorro ao método filológico, que não só me não afastará desse processo como o pode preparar em estádios ulteriores. Veja-se pois.

A palavra ar é a palavra aor, a palavra hebraica para luz sem o o intermédio, relação esta entre as duas palavras que podemos fundar na intimidade que há entre a propagação da luz e a atmosfera. É certo que se poderá objectar que, sendo ar uma palavra latina e aor uma palavra hebraica, a relação que proponho é, do ponto de vista linguístico, insustentável. Pode ser que seja, mas então é necessário explicar como é que a raiz hebraica aor está presente noutras palavras latinas, todas igualmente conotadas com a luz, como aurum ("ouro"), aurora, aura, auréola.

Por outro lado, há uma relação com o som combinada com a que observámos para com a luz. É Henry Corbin quem chama a atenção para a conotação de aurora com aures, que, como se sabe, significa orelhas ou ouvidos. A atmosfera não é só o meio de propagação da luz, é, ao mesmo tempo, o meio de propagação do som. E o que é espantoso é que a palavra grega atmosfera significa, em concordância com o sânscrito - língua na qual atma é o nome para espírito - a esfera do ar ou do sopro, e que, em inglês, ouvido seja ear que é, por troca das vogais, uma transformação de aer, que é como quem diz ar em latim. É evidente que há uma língua primordial presente na forma de inúmeros vestígios nas diversas línguas e é isso que justifica as relações que se nos vêm mostrando.


Devemos, de seguida, considerar o que se segue da observação de Jean Ursin sobre a mediação do ar na conservação da vida, o qual, penetrando embora em todos os corpos vegetais e animais, não se amalgama com os elementos de que eles são compostos e não constitui a forma destes corpos. Assim, no que diz respeito ao corpo humano - que mais fundamentalmente nos interessa por ser o nosso e constituir o primeiro suporte do nosso trabalho -, vemos que sem o ar não há respiração e, portanto, vida, não haveria também audição nem visão e nem sequer a possibilidade de cheirar. O ar é, por excelência, um intermediário, não é um elemento estrutural do corpo. Observe-se de passagem que a palavra aroma tem por raiz a palavra ar.

O que se verificou para com os três sentidos superiores, cuja actividade depende da mediação do ar, é menos evidente para com os restantes dois sentidos, o do paladar e o do tacto, embora aí também pela mistura dos sopros no amor, pela sua recíproca conversão durante o beijo, ao mesmo tempo que se dá o contacto dos corpos, vê-se a mesma verdade.

Há, depois, a palavra. A fala está intimamente ligada à respiração.

Dado tudo isto, o que é que tudo tem a ver com o Oriente, com o seu conceito e com a sua realidade, tal como aparece do ponto de vista do Aprendiz?

Não é difícil observar que a palavra Oriente tem como raiz a mesma palavra hebraica aôr. Ex Oriente Lux.

Nós voltamo-nos para o Oriente, para donde nasce o Sol, mas, na verdade, não é pela vista, mas pelo ouvido que temos o sentido das direcções do espaço. É em plena treva que somos conduzidos junto do altar oriental. Nada vemos, mas ouvimos quem nos conduz.

Fora, porém, deste quadro simbólico, sabemos pela medicina da outiva que no ouvido reside o sentido da orientação e a base do nosso equilíbrio na vertical. Todavia, muito antes de a ciência médica ocidental, já a doutrina hindu ensinava que o ar, sem o qual não há vibração sonora, é "o que produz e determina as direcções e o movimento". É, na tradição ocidental, o que está bem manifesto no símbolo sintético das direcções do espaço. Refiro-me, evidentemente, à Rosa dos Ventos.











Os ventos vêm. Vêm das regiões marcadas por oito pontos no horizonte. O símbolo inverte a perspectiva natural. Nele, as direcções dos ventos têm origem no ponto central da Rosa, donde irradiam para todas as partes do Universo. Não é ainda a rosa perfeita, porque essa é, para lá do mundo subtil, a rosa de treze pétalas, como nos ensina um nosso Irmão, autor do Portugal Iluminado.

Tal ponto, enrolado no centro como uma pétala, é que é a verdadeira origem ou o verdadeiro Oriente, produtor dos ventos ou das energias subtis. Ele mesmo é que situa, sendo insituado, porque presente em toda a parte e iluminando todo o homem, consoante o ensino de São João sobre o Espírito Santo.

Nós prestámos o nosso compromisso sobre o Evangelho de São João, com a Bíblia aberta na primeira página desse Evangelho.


SOBRE OS PONTOS CARDEAIS

As palavras portuguesas para os pontos cardeais (Norte, Sul, Este e Oeste), como não se lhes encontra nenhum étimo latino, são pelos linguistas explicadas pelo inglês North, South, East e West, com ulterior passagem pelo francês antes de serem adoptadas em Portugal. Com efeito, pelo latim, seriam setentrião, meridião, Oriente e Ocidente. Esta origem anglo-saxónica dos nomes dos pontos cardeais foi o que os linguistas acharam para explicar o que não sabem. E, no entanto, é interessante verificar que por este caminho não se está longe de imaginar uma origem celta para aqueles nomes.

Independentemente do rigor linguístico, mas não do rigor lógico, o Norte é explicável como non ortus, isto é, sem origem ou nascimento, já que ortus é particípio passado de orior, nascer. Por esta falsa etimologia (falso é o que imita o verdadeiro e dele participa em certa maneira), está significado o principial, o que por si mesmo é, não sendo produzido por outro, assim como se diz de Melchisedec que não tem genealogia. Ao Norte, com efeito, é referida a tradição primordial e eterna, donde derivam por adaptação e por imitação as outras tradições regulares.

Todavia, a tradição esotérica hebraica dá o Norte como "o outro lado", como a região de onde vem o mal, o que não deixa de ser uma estranha contradição com a afirmação daqueles que no Norte vêem o lugar imutável da presença divina, à volta do qual todo o Universo gira.

Na Maçonaria, diz-se que não deve haver porta no lado norte da loja e é, nesse mesmo lado, que se realiza a prova pela água e onde se sentam os Aprendizes, a quem foi apenas dado um pequeníssimo raio de luz. Tal facto está de acordo com o ensino de Dante, Irmão Kadosh na Ordem da Fé Santa, no primeiro canto do Purgatório:

«Ó região do Norte, que não podes contemplar as estrelas fulgurantes do Cruzeiro do Sul, como te lamento a tua viuvez!».

Na verdade, do ponto de vista cosmológico, no Norte se determina o solstício de Inverno, ele é a região do Capricórnio, o ponto em que é mínima a luz do ano. É o lugar das trevas e da Lua Nova e o seu mínimo de luminiscência. Todavia, é aí que, ao mesmo tempo, os dias começam a crescer. Ao Capricórnio está referido o nascimento na terra dos Avatares. Jesus Cristo nasceu no dia 24 de Dezembro, no Capricórnio, signo que Homero diz ser a porta dos Deuses.

Em ciência sagrada, sempre que deparamos com uma evidente contradição, evidente ou aparente, julgo dever pensar que há uma coisa muito importante e muito decisiva que se esconde à nossa compreensão e que, uma vez aprendida, se faz no nosso espírito uma luz inesperada. A ciência sagrada não pode enganar-se a si mesma. Posto isto, posso passar adiante.

Os pontos cardeais têm a sua representação sensível no horizonte terrestre. O lugar onde todos os dias nasce o Sol recebe o nome de Oriente. Nasce e faz depois o seu percurso pelo Sul, antes de mergulhar na noite a Ocidente.

Mosteiro dos Jerónimos



Torre de Belém











Há, porém, um ensinamento profético ou iniciático, segundo o qual, no termo do ciclo, o Sol nascerá a Ocidente por uma mutação brusca, simultânea com a inversão dos pólos. É o que se representa no lado sul do claustro dos Jerónimos. Os nautas, consumada a viagem, contemplam um sol de dezasseis raios, nascendo a Ocidente. Então, no fim do ciclo ou no início de outro, o Ocidente é que será o Oriente, porque ali terá lugar a origem da luz.

No nosso rito, ao contrário do Rito Escocês Antigo e Aceite, como de muitos outros, durante as três viagens iniciáticas não se ascende da terra, pela água e pelo ar até ao fogo. Não há o elemento ar, e desce-se do fogo no Sul, pela água no Norte, até à terra no Ocidente. Descemos até ao fundo terroso de nós mesmos e é lá, vencida a prova, que começa a despontar a luz do Oriente.

Esta descida que, por mais de um aspecto, é análoga à descida de Dante pelas esferas tenebrosas, donde, atingindo o ponto mais baixo, sai e vê as estrelas, deve ser interpretada como uma descida no poço do nosso próprio ser, no qual são reais, e não uma mera aparência sensível, o Norte, o Sul, o Este e o Oeste.

O Ocidente de mim é esta minha pessoa física, terrestre e grosseira, fundada nos meus preconceitos e nas minhas paixões. Queimados e ardidos os preconceitos pela prova do fogo, dissolvidas as minhas paixões pela prova da água, fui depois tocado pela lama que é o meu corpo. É como se ensina no catecismo do grau do Aprendiz, os elementos não regeneram, mas corrompem o que está corrompido e isto nos três planos do ser terrestre que somos, os preconceitos no plano mental, as paixões no plano emocional, e os conglomerados energéticos no plano físico.

O que regenera e dá vida é o ar e o Oriente, desde que não fiquemos presos à ideia de que o primeiro é apenas um elemento como os outros e o segundo apenas uma determinação espacial análoga às outras determinações.

Tal é a minha visão de Aprendiz. Espero que, no grau de Companheiro e no grau de Mestre, se alguma vez porventura lá chegar, uma maior luz a torne perfeita (in A Aventura Maçónica, Zéfiro, 2011, pp. 35-41).


António Telmo no Mosteiro dos Jerónimos



sexta-feira, 8 de julho de 2011

"Associações secretas" (ii)

Escrito por Fernando Pessoa





Retrato de Fernando Pessoa, de Mestre Almada (1954).



Assim a Maçonaria necessariamente toma aspectos diferentes - políticos, sociais e até rituais - de país para país, e até, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, se houver mais que uma. Dou um exemplo. Há em França três Obediências independentes - o Grande Oriente de França, a Grande Loja de França (prolongada capitularmente pelo Supremo Conselho do Grau 33) e a Loja Regular, Nacional e Independente para França e suas Colónias. O Grande Oriente limita-se a ser liberal e anticlerical; a Grande Loja Nacional não tem política nenhuma. Dou outro exemplo. O Grande Oriente de França tem uma grande influência política, mas, excepto através dessa, pouca influência social. A Grande Loja de Inglaterra não se preocupa com política, mas a sua influência social é enorme.

Conquanto, porém, a Maçonaria esteja assim materialmente dividida, pode considerar-se como unida espiritualmente. O espírito dos rituais, e sobretudo o dos Graus Simbólicos (nos quais, e sobretudo no Grau de Mestre, está já, para quem saiba ver ou sentir, a Maçonaria inteira), é o mesmo em toda a parte, por muitas que sejam as divergências verbais e rituais entre graus idênticos, trabalhados por Obediências diferentes. Em palavras mais perspícuas, mas necessariamente menos claras: quem tiver as chaves herméticas, em qualquer forma de um ritual encontrará, sob mais ou menos véus, as mesmas fechaduras.

Resulta desta comunidade de espírito profundo, deste íntimo e secreto laço fraternal, que ninguém quebrou nem pode quebrar, uma Obediência, ainda que tenha poucas ou nenhumas relações com outra, não vê todavia com indiferença o ser esta atacada por profanos. Os maçons da Grande Loja de Inglaterra não têm, como disse, relações com os do Grande Oriente de França. Quando, porém, recentemente, surgiu em França, a propósito dos casos Stavisky e Prince, uma campanha antimaçónica, de origem aliás ultra-suspeita, a vaga simpática, que potencialmente se estava formando em Inglaterra pelos conservadores que atacavam o Governo Francês, desapareceu imediatamente. O Times, conservador mas acentuadamente maçónico, relatou as manifestações contra o Governo Francês com uma antipatia que roçou pela deturpação de factos. E há muitos casos semelhantes, como o de certo escritor maçónico inglês, que em seus livros constantemente ataca o Grande Oriente de França, mudar completamente de atitude ao responder a uma escritora inglesa antimaçónica, que afinal, dissera pouco mais ou menos o mesmo que ele havia sempre dito.

Nisto tudo, que serviu de exemplos, trata-se de coisas de pouca monta, simples campanhas de jornal, e por certo de atitudes espontâneas e individuais da parte de maçons que as tomaram. Quando porém se trate de factos maçonicamente graves, como seja a tentativa, por um governo, se suprimir ou perseguir uma Obediência maçónica, já a acção dos maçons não é tão individual e isolada, nem se resume a uma maior ou menor antipatia jornalística. Provam-no diversas complicações, de origem aparentemente desconhecida, que encontrou em países estrangeiros o governo de Primo de Rivera, e que encontraram, e ainda encontram, os governos da Itália e da Alemanha. Esses, porém, são países grandes e fortes, com recursos, de várias ordem, que em certo modo podem contrabalançar aquelas posições. Vem mais a propósito citar o caso de um país que não é grande nem influente na política europeia em geral. Refiro-me à Hungria e ao que passou com o célebre empréstimo americano.






Aqui há anos, pouco depois da Guerra, o Governo Húngaro decretou a supressão da Maçonaria no seu território. Pouco depois negociava um empréstimo nos Estados Unidos. Estava o empréstimo praticamente feito quando veio da América a indicação final de que ele não seria concedido se não se restabelecessem «certas instituições legítimas». O Governo Húngaro percebeu e viu-se obrigado a entrar em transacções como o Grão-Mestre; disse-lhe que autorizava a reabertura das Lojas, com a condição (que parece do sr. José Cabra!) de que nelas pudessem assistir profanos. É escusado dizer que o Grão-Mestre recusou. O Governo manteve, portanto, a «supressão das Lojas...» e o empréstimo não se fez. Ora isto sucedeu com a Maçonaria Americana, que não faz propriamente política nem mantém relações muito intensas com as Obediências europeias, à excepção das britânicas. Tratava-se, porém, de uma grave injúria à Maçonaria, e o resultado foi o que se vê.

Não venha o sr. José Cabral dizer-me que não precisamos de empréstimos do estrangeiro. Nem só de empréstimos vive o país. Precisa, por exemplo, de colónias, sobretudo das que ainda tem. E precisa de muitas outras coisas, incluindo o não incorrer na hostilidade activa dos cinco e tal milhões de maçons que, por apolíticos, ainda não nos têm hostilizado.

Creio que disse o suficiente para que o sr. José Cabral e os outros senhores deputados compreendam perfeitamente qual pode e deve ser o alcance da aprovação deste projecto na vida e no crédito de Portugal. Antes de acabar, porém, quero dar-lhes uma pequena amostra da espécie de gente em cuja antipatia activa incorreríamos.

Tomarei por exemplo a Grande Loja Unida de Inglaterra, não só pela importância que para nós têm as nossas relações com aquele país, mas também porque qualquer acção dessa Grande Loja - a Loja-Mãe do Universo, com cerca de 450 000 maçons em actividade - arrasta consigo todos os maçons de fala inglesa e todas as Obediências dos países protestantes. Do resto da Maçonaria não é preciso falar.

São maçons, sob a Obediência da Grande Loja de Inglaterra, três filhos do Rei - o Príncipe de Gales, Grão-Mestre Provincial de Surrey, o Duque de York, Grão-Mestre Provincial de Middlesex, e o Duque de Kent, antigo Primeiro Grande Vigilante. É maçon o genro do Rei, Conde de Harewood, Grão-Mestre Provincial de West Yorkshire. São maçons, em sua maioria, os fidalgos ingleses, sobretudo os de antiga linhagem. São maçons, em grande número, os prelados e sacerdotes da Igreja de Inglaterra, o clero mais profundamente culto de todo o mundo, a Igreja protestante que mais perto está, em dogma e ritual, da Igreja de Roma. Não prossigo, porque já basta... Lembro, todavia, que os três grandes jornais conservadores ingleses - o Times, o Sunday Times e o Daily Telegraph - são ao mesmo tempo maçónicos...

Acabei. Convém, porém, não acabar ainda. Provei neste artigo que o projecto de lei do sr. José Cabral, além do produto da mais completa ignorância do assunto, seria, se fosse aprovado: primeiro, inútil e improfícuo; segundo, injusto e cruel; terceiro, um malefício para o País na sua vida internacional. Não considerei, porque não tinha que considerar, se a Maçonaria merece o mau conceito em que evidentemente a tem o sr. José Cabral e outros que nada sabem da matéria. Esse ponto estava fora da linha do meu argumento. Como, porém, a maioria da gente não sabe raciocinar, pode alguém supor que me esquivei a esse ponto. Vou por isso tratar dele embora protestando contra mim mesmo. Quem sofre com isso é o leitor.


A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano - isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época, reage, quanto à atitude social, diferentemente.

Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria - como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não - apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa.

Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia - a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama «doutrina maçónica» são opiniões individuais de maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São diversíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos eles tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos antimaçons consiste em tentar definir o espírito maçónico em geral pelas afirmações de maçons particulares, escolhidos ordinariamente com grande má fé.

O segundo erro dos antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias - as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas do momento, que a Maçonaria não criou.

Resulta de tudo isto que todas as campanhas antimaçónicas - baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente - estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério - o de avaliar uma instituição pelos seus actos ocasionais - que haveria neste mundo senão abominação? Quer o sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida, em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo), ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.

 Castelo de Montségur (França).


Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século XVII - quando, expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio papa - pelo maçon Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellington e Blücher eram ambos maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados - a Entente Cordiale, obra do maçon Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna - o Fausto, do maçon Goethe. Acabei de vez. Deixe o sr. José Cabral a Maçonaria aos maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma luz. Deixe a antimaçonaria àqueles antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém.

Deixe isso tudo, e no próximo dia 13, se quiser, vamos juntos a Fátima. E calha bem porque será 13 de Fevereiro - o aniversário daquela lei de João Franco que estabelecia a pena de morte para os crimes políticos.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

"Associações secretas" (i)

Escrito por Fernando Pessoa





Aleister Crowley. Ver aqui



Aleister Crowley e Fernando Pessoa




Boca do Inferno (Cascais).


























«O inspirador sempre presente e exaltado dos nossos ocultistas é Fernando Pessoa. O ocultismo de Fernando Pessoa é de carácter erudito ou, como ele próprio dizia da erudição, parasitário, mas revela-se com originalidade na poetização de uma imagética para a história de Portugal».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).



«Há (...) uma tradição a que eu próprio dei guarida na minha "Introdução à Maçonaria", que liga o poeta [Fernando Pessoa] ao rito inglês, e o certo é que o maçon Álvaro Ribeiro teria dito a António Telmo, autor da "História Secreta de Portugal" que o também maçon Ferreira Gomes era "Companheiro de Pessoa na Loja do Arco Real"».


António Arnaut (in «Fernando Pessoa e a Maçonaria», Grémio Lusitano, 2005).






DIÁRIO DE LISBOA, 4 DE FEVEREIRO DE 1935


Estreou-se a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, com a apresentação, por um deputado, do projecto de lei sobre «associações secretas». De tal ordem é o projecto, tanto em sua natureza como em seu conteúdo, que não há que felicitar o actual Parlamento por lhe ter sido dada essa estreia. Antes há que dizer-lhe Absit omen!, em português, Longe vá o agoiro!

Apresentou o projecto o sr. José Cabral, que, se não é dominicano, deveria sê-lo, de tal modo o seu trabalho se integra, em natureza, como em conteúdo, nas melhores tradições dos Inquisidores. O projecto, que todos terão lido nos jornais, estabelece várias e fortes sanções (com excepção da pena de morte) para todos quantos pertençam ao que o seu autor chama «associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização».

Dada a latitude desta definição, e considerando que por «associação» se entende um agrupamento mais ou menos permanente de homens, ligados por um fim comum, e que por «secreto» se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar ao sr. José Cabral uma associação secreta - o Conselho de Ministros. De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente. Se não reúnem em público os conselhos de ministros, também o não fazem as direcções dos partidos políticos, as tenebrosas figuras que orientam os clubes desportivos, ou os sinistros comunistas que formam os conselhos de administração das companhias comerciais e industriais.

Embora uma interpretação desta ordem legitimamente se extraia do frasear pouco nacionalista do sr. José Cabral, creio, tanto porque assim deve ser, como pelos encómios com que o projecto foi afagado pela imprensa pseudocristã, que as «associações secretas», que ele verdadeiramente visa, são aquelas que envolvem o que se chama «iniciação», e portanto o segredo especial a esta inerente.

Castelo de Tomar


Ora no nosso país, caída há muito em dormência a Ordem Templária de Portugal, desaparecida a Carbonária - formada para fins transitórios, que se realizaram -, não existem, suponho, mais do que duas «associações secretas» dessa espécie. Uma é a Maçonaria, a outra essa curiosa organização que, em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus, exactamente como, na Maçonaria, a Ordem de Heredom e Kilwinning usa o nome profano de Real da Escócia.

Dos chamados jesuítas não tratarei, e por três motivos, dos quais calarei o primeiro. Os outros dois são: que não creio, por mais razões do que uma, que eles corram risco de, aprovado que fosse o projecto, lhe serem aplicadas as suas sanções; e que não creio, por uma razão só, que o sr. José Cabral tenha pretendido que tal aplicação se fizesse. Presumo pois que o projecto de lei do urgente deputado se dirija, total ou principalmente, contra a Ordem Maçónica. Como tal o examinarei.

Não faço, creio, ofensa ao sr. José Cabral em supor que, como a maioria dos antimaçons, o autor deste projecto é totalmente desconhecedor do assunto da Maçonaria. O que sabe dele é, porventura, pior que nada, pois, naturalmente, terá nutrido o seu antimaçonismo da leitura de imprensa chamada católica, onde, até nas coisas mais elementares na matéria, erros se acumulam sobre erros, e aos erros se junta, com a sua má vontade, a mentira e a calúnia, senhoras suas filhas. Não creio, que o sr. José Cabral conviva habitualmente com os livros de Findel, Kloss ou Gould, ou que passe as suas horas de ócio na leitura atenta da Ars Quatuor Coronatorum ou das publicações da Grande Loja de Iowa. Duvido, até, que o sr. José Cabral tenha grande conhecimento da literatura antimaçónica - Barruel ou Robinson ou Eckert - tão admirável, aliás, do ponto de vista humorístico. Nem terá tido porventura noção, sequer de ouvido, do artigo célebre do Padre Hermann Grüber na Catholic Encyclopaedia, artigo citado com elogio em livros maçónicos, e em que o doutor jesuíta por pouco não defende a Maçonaria.

Ora se o sr. José Cabral está nesse estado de trevas com respeito à natureza, fins e organização da Ordem Maçónica, suponho que em igual condição estejam muitos dos outros membros da Assembleia Nacional, com a diferença de que se não propuseram legislar sobre matéria que ignoraram. Sendo assim, nem o deputado apresentante, nem os seus colegas de assembleia, estarão talvez em estado de medir claramente as consequências nacionais, internas e sobretudo externas, que adviriam da aprovação do projecto. Como conheço o assunto suficientemente para saber de antemão, e com certeza, quais seriam essas consequências, vou fazer patrioticamente presente da minha ciência ao sr. José Cabral e à Assembleia Legislativa de que é ornamento.

José Cabral é o primeiro da esquerda nesta foto de 24 de Outubro de 1936. Oliveira Salazar está ao centro.


Começo por uma referência pessoal, que cuido, por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, antimaçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me habilitam a poder ser imparcial na matéria, acresce a de que, por virtude de certos estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria - parte que nada tem de político ou social -, fui necessariamente levado a estudar também esse assunto - assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora. Tendo eu, porém, certa preparação, cuja natureza me não proponho indicar, pude ir, embora lentamente, compreendendo o que lia e sabendo meditar o que compreendia. Posso hoje dizer, sem que use de excesso de vaidade, que pouca gente haverá, fora da Maçonaria, aqui ou em qualquer outra parte, que tanto tenha conseguido entranhar-se na alma daquela vida, e portanto, e derivadamente, nos seus aspectos por assim dizer externos.

Se falo de mim, e deste modo, é para que o sr. José Cabral e os colegas legisladores saibam perfeitamente quem lhes está falando, o que vão ler, se quiserem, é escrito por quem sabe o que está escrevendo. Não que o que vou dizer exija profundos conhecimentos maçónicos: é a matéria puramente de superfície, da vida externa da Ordem. Exige, porém, conhecimentos, e não ignorâncias, fantasias ou mentiras.

Começo a valer. Creio não errar ao presumir que o sr. José Cabral supõe que a Maçonaria é uma associação secreta. Não é. A Maçonaria é uma Ordem secreta, ou, com plena propriedade, uma Ordem iniciática. O sr. José Cabral não sabe, provavelmente, em que consiste a diferença. Pois o mal é esse - não sabe. Nesse ponto, se não sabe, terá de continuar a não saber. De mim, pelo menos, não receberá a luz. Forneço-lhe, em todo o caso, uma espécie de meia-luz, qualquer coisa como a «treva visível» de certo grande ritual. Vou insinuar-lhe o que é essa diferença por o que em linguagem maçónica se chama «termos de substituição».

A Ordem Maçónica é secreta por uma razão indirecta e derivada - a mesma razão por que eram secretos os Mistérios antigos, incluindo os dos primitivos cristãos, que se reuniam em segredo, para louvar a Deus, em o que hoje se chamariam Lojas ou Capítulos, e que, para se distinguir dos profanos, tinham fórmulas de reconhecimento - toques, ou palavras de passe, ou o quer que fosse. Por esse motivo os romanos lhes chamavam ateus, inimigos da sociedade e inimigos do Império - precisamente os mesmos termos com que hoje os maçons são brindados pelos sequazes da Igreja Romana, filha, talvez ilegítima, daquela maçonaria remota.

Feito assim o meu pequeno presente de meia-luz, entro directamente no que verdadeiramente interessa - as consequências que adviriam, para o País, da aprovação do projecto de lei do sr. José Cabral. Tratarei primeiro das consequências internas.

A primeira consequência seria esta - coisa nenhuma. Se o sr. José Cabral cuida que ele, ou a Assembleia Nacional, ou o Governo, ou quem quer que seja, pode extinguir o Grande Oriente Lusitano, fique desde já desenganado. As Ordens iniciáticas estão defendidas, ab origine symboli, por condições e forças muito especiais que as tornam indestrutíveis de fora. Não me proponho explicar o que sejam essas forças e condições: basta que indique a sua existência.




De resto, têm os senhores deputados a prova prática em o que tem sucedido noutros países, onde se tem pretendido suprimir as Obediências maçónicas. Pondo de parte a Rússia - onde nem eu nem os senhores deputados sabemos o que verdadeiramente se passa, e onde, aliás, quase não havia maçonaria -, poderemos considerar os casos da Itália, da Espanha e da Alemanha.

Mussolini procedeu contra a Maçonaria, isto é, contra o Grande Oriente da Itália mais ou menos nos termos pagãos do projecto do sr. José Cabral. Não sei se perseguiu muita gente, nem me importa saber. O que sei, de ciência certa, é que o Grande Oriente de Itália é um daqueles mortos que continuam de perfeita saúde. Mantém-se, concentra-se, tem-se depurado, e lá está à espera; se tem em que esperar é outro assunto. O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vasadas num metal que procede da Alquimia.

Primo da Rivera procedeu mais brandamente, conforme a sua índole fidalga, contra a Maçonaria Espanhola. Também sei ao certo qual foi o resultado - o grande desenvolvimento, numérico como político, da Maçonaria em Espanha. Não sei se alguns fenómenos secundários, como, por exemplo, a queda da Monarquia, teria qualquer relação com esse facto.

Hitler, depois de se ter apoiado nas três Grandes Lojas Cristãs da Prússia, procedeu segundo o seu admirável costume ariano de morder a mão que lhe dera de comer. Deixou em paz as outras Grandes Lojas - as que o não tinham apoiado nem eram cristãs - e, por intermédio de um tal Goering, intimou aquelas três a dissolverem-se. Elas disseram que sim - aos Goerings diz-se sempre que sim - e continuaram a existir. Por coincidência, foi depois de se tomar essa medida que começaram a surgir cisões e outras dificuldades adentro do partido nazi. A história, como o sr. José Cabral deve saber, tem muito destas coincidências.

Como tenho estado a apresentar razões e factos até certo ponto desanimadores para o sr. José Cabral, vou desde já animá-lo com a indicação de um resultado certo, positivo, que adviria da aprovação do seu projecto. Resultaria dele - alegre-se, o dominicano! - um grande número de perseguições a oficiais do exército e da armada (excepto em Cascais) e a funcionários públicos. Perderiam os seus lugares os que não quisessem ter a indignidade de repudiar a sua Ordem. Resultaria, portanto, a miséria para as suas famílias, onde é possível - isto é que é grave - que se encontrassem pessoas devotas de Santa Teresinha do Menino Jesus, personagem que ocupa, na actual mitologia portuguesa, um lugar um pouco acima de Deus. Resolver-se-ia, é certo, no estilo inesperado do roulement que não rola, o problema do desemprego - para aqueles actuais desempregados, bem entendido, que têm por Grão-Mestre Adjunto o sr. Conselheiro João de Azevedo Coutinho.

Seriam essas as consequências internas da aprovação do projecto: dois zeros - um para o efeito antimaçónico da lei, outro para a barriga de muita gente. Seriam essas as consequências internas. Vou tratar agora das consequências externas, isto é, das consequências que adviriam da aprovação do projecto para a vida e o crédito de Portugal no estrangeiro. Esse aspecto da questão, esse resultado, não só possível mas quase certo, creio bem que não ocorreu ao sr. José Cabral. Presto homenagem - e a sério - ao seu patriotismo, embora lamente que seja um patriotismo tão analfabeto.


Existem hoje em actividade, em todo o mundo, cerca de seis milhões de maçons, dos quais cerca de quatro milhões nos Estados Unidos e cerca de um milhão sob as diversas Obediências independentes do Império Britânico. Assim, cinco sextos dos maçons hoje em actividade são maçons de fala inglesa. O milhão restante, ou conta parecida, acha-se repartido pelas várias Grandes Obediências dos outros países do mundo, das quais a mais importante e influente é talvez o Grande Oriente de França.

As Obediências maçónicas são potências autónomas e independentes, pois não há governo central da Maçonaria, que é por isso menos «internacional» que a Igreja Romana. Há Obediências maçónicas que poucas relações têm entre si; há até Obediências que estão de relações suspensas ou cortadas. Dou dois exemplos. A Grande Loja de Inglaterra cortou em 1877, por um motivo técnico, as relações, que ainda não reatou, com o Grande Oriente de França. A mesma Grande Loja cortou, em 1933, as relações com a Grande Loja das Filipinas, em virtude de divergências - cuja natureza não sei mas presumo - quanto à maneira de desenvolver a Maçonaria na China.

Continua