sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Aljubarrota: Símbolo Nacional

Escrito por Miguel Bruno Duarte




Mosteiro da Batalha
















Decorreu, na Pequena Casa Lusitana, mais um espectáculo rocambolesco no contexto das eleições presidenciais de 2011 (1). Os candidatos, procedentes do socialismo pós-revolucionário de 1974, mostraram assim que entre eles não existe nenhuma diferença de natureza, mas tão-só uma diferença de grau traduzida na perseguição mais ou menos feroz e imediata da socialização económica, política e cultural dos Portugueses. Para o efeito, a comunicação social, invadida por uma turma bem-falante de politólogos e arrivistas partidários, mostrou ad finem como se emburra e entontece a populaça ao exibir um rol de comunistas e socialistas que dizem ter lutado pela liberdade em Portugal contra o regime “fascista”, como é o caso de Manuel Alegre armado em valentaças, mesmo quando, num acto de pura e vil cobardia, desertou da guerra então movida contra o Ultramar Português para ir engrossar as fileiras de “companheiros de viagem” na Argélia.

Ora, a verdade omitida no meio jornalístico, político e universitário, é que socialistas e comunistas nunca lutaram pela liberdade em Portugal, mas apenas militaram em prol de poderes estrangeiros adstritos a ideologias revolucionárias responsáveis pelo genocídio de milhões de seres humanos. Nessa realidade também se inclui a carnificina de vidas humanas na Guiné, Angola e Moçambique, cujo processo permanece, aliás, praticamente omisso nos manuais de história do ensino oficial, para não dizer inteiramente silenciado em teses universitárias que jamais atendem ao complexo de forças historicamente empenhadas na destruição da presença portuguesa em África, na Ásia e na Oceânia. Logo, não é por acaso que a traição de agentes económicos, políticos e militares ao serviço do comunismo internacional conduzisse ao estado em que Portugal ora surge como uma província económica e financeiramente absorvida na Europa, e, a partir daí, politicamente dependente de uma burocracia mundial de que o Fundo Monetário Internacional e outras agências afins representam apenas uma ínfima expressão.

Neste comenos, dizem os socialistas no poder que Portugal já enfrentou graves perturbações de ordem nacional e, portanto, saberá sair da presente “crise” por eles próprios potenciada nos últimos quarenta anos. Todavia, não admitem, por ignorância ou má-fé, que uma diferença substancial existe entre as crises históricas da nossa nacionalidade (1383-85;1580) e a catástrofe nacional traduzida na completa subordinação do ideal colectivo português a instituições, poderes e organismos internacionais. E, se no passado, os Portugueses podiam muito bem intuir quem era o inimigo, nem sequer imaginam quem, no presente, o seja. Por conseguinte, a duplicidade e a mentira constituem, sem dúvida, os sinais por demais inquietantes do nosso tempo.

Estátua de D. Nun'Álvares Pereira, do escultor Leopoldo de Almeida, em frente do Mosteiro da Batalha.



Batalha de Aljubarrota












Réplica da espada do Santo Condestável na igreja de Flor da Rosa.









Em contrapartida, é um facto de que, na crise de 1383-85, a voz do sangue se fizera ouvir no povo português, a começar na criação de um sistema jurídico na figura pátria de João das Regras, e a culminar na força das armas personificada em Nuno Álvares Pereira contra seus irmãos partidários d’El-Rei de Castela. O português desse tempo era indubitavelmente uma outra natureza (2) personificada na força física, psíquica e espiritual pronta a sacrificar-se pela Pátria, nomeadamente na Batalha de Aljubarrota à luz de uma desproporção digna de registo: 7 000 portugueses para mais de 30 000 inimigos. E venceu, demonstrando como é possível os poucos vencerem os muitos.

Depois, aquando da centralização filipina, entre 1580 e 1640 – concertada no conde-duque de Olivares -, os Portugueses, com base nos fidalgos conspiradores, restauraram finalmente a sua Independência, pese embora membros da nobreza e do clero penderem mais para a balança dos seus juízos e dos seus interesses do que propriamente para a fonte sempre viva do nacionalismo pátrio. Enfim, o inimigo, fosse Castela ou algum outro poder estrangeiro, estava bem identificado a ponto de a mocidade acorrer num vivo e lídimo espírito de patriotismo, sacrifício, valentia e sentimento de dignidade própria.

Além disso, as virtualidades da dualidade histórica peninsular permanecem no subconsciente português. No caso de Aljubarrota, a independência política de Portugal não só viera na sequência de um dos mais decisivos combates da Idade Média - de que a Inglaterra certamente beneficiou no âmbito da Guerra dos Cem Anos -, como ainda providenciara a aliança luso-britânica no contexto da mundividência atlântica. No fundo, Aljubarrota é, por excelência, o símbolo da reserva moral, histórica e espiritual da Pátria portuguesa perante a traição e o colapso da elite político-económica ao arrepio de interesses, partidos e organizações estrangeiras.

Não por acaso Oliveira Salazar se referira à Batalha de Aljubarrota como a «Festa da Mocidade» (1935), ou como o fenómeno histórico perpetuado na Independência Pátria. Por outras palavras: «Sempre o mesmo Milagre» (1936). E também, não por acaso, se predispôs a fazer valer a aliança luso-britânica durante a Segunda Grande Guerra, bem como durante as vicissitudes que levaram à invasão e ocupação do Estado Português da Índia (Goa) pela União Indiana, ocorrida a 7 de Dezembro de 1961. De facto, Oliveira Salazar - não obstante os acordos de paz e amizade entre Portugal e a Inglaterra numa época anterior a 1372, ou a aliança entre Lisboa e Londres realizada a 9 de Maio de 1386, no Castelo de Windsor -, soube, com tacto e habilidade, fazer uso de alianças mais recentes na prossecução dos objectivos nacionais, como a claramente expressa na declaração de 14 de Outubro de 1899, que ratificara ora a validade do artigo 1 do Tratado de 1642 - concernente à aliança entre o Governo português e o Governo britânico -, ora a do artigo final do Tratado de 1661 relativa à obrigação de o Governo britânico defender os territórios da Coroa de Portugal contra todos os seus inimigos presentes e futuros.



Oliveira Salazar e Francisco Franco



De resto, convém lembrar que, durante a Guerra Civil Espanhola, o iberismo estava em muitos aspectos claramente patente, como nos deixa entrever Franco Nogueira:

«Sem embargo dos protestos de amizade, e da dívida contraída, Oliveira Salazar não tem ilusões sobre os sentimentos de algumas correntes políticas entre os próprios nacionalistas. Sabe que em S. Sebastião começara a publicar-se um jornal falangista cujos prospectos apresentam a Península sem divisão de fronteiras e atravessada, de um lado ao outro, pela palavra "unidade". E sabe que em Valladolid e Palência circula um opúsculo em que se afirma um novo grande destino para a Espanha no mundo, e que o serviço de imprensa das juventudes falangistas edita um cartaz de propaganda em que, abrigadas pelas asas da águia imperial de Carlos V, se dispõem a par as armas de Aragão, Castela e Portugal, tendo por debaixo a legenda: "El Império Español". Os sentimentos assim exibidos, e os seus desígnios, não são expressos, a título imediato, por outras facções políticas que apoiam Franco. Mas Salazar não esquece as "reservas históricas" perante o iberismo que desde o início da guerra tem presentes no seu espírito, e está consciente de que não deve ceder a entusiasmos, nem perder de vista que a ambição ibérica é factor permanente na Península, partilhada por todos os espanhóis, e de que se lhe impõe ser simplesmente português, e cauteloso com frieza» (3).

Convém igualmente notar que, perdido o Ultramar, surgiram em Portugal intelectuais a propugnar pela União Ibérica, entre eles o historiador e maçon Oliveira Marques. Nesse contexto, António Quadros, em A Arte de Continuar Português, relembrou o carácter anacrónico do iberismo do século XIX, bem como o projecto ibérico que, no pós-25 de Abril, grassava nos termos de uma solução comercial, industrial e economicista em que Portugal seria tudo menos Portugal. A. Quadros também expõe, no mesmo livro, a discordância com Agostinho da Silva nessa matéria, porque, em vez de uma confederação ibérica, seria preferível «a criação de uma Comunidade Luso-Hispano-Afro-Americana, porque aí entraríamos mais fortes e apoiados do que numa União Ibérica – e porque a Península manifestaria então claramente a sua vocação trans-europeia, sem deixar de o ser (europeia)» (4).

Seja como for, a Espanha nunca ocultou o desiderato de uma hegemonia geopolítica e geoestratégica no Mediterrâneo e no Atlântico. Desse modo, jamais dispensou os objectivos já prementes nos séculos XVI e XIX quanto à integração de espaços territoriais que não foram e não são politicamente os seus. Não é, pois, por acaso que o seu interesse tenha sido, num tempo ainda relativamente recente, o de assumir comandos militares no âmbito da NATO, ou até mesmo o de promover o seu empresariado em Angola a par de linhas de crédito avaliadas em milhões de dólares.

Hoje, continua latente o princípio das nacionalidades, mesmo quando a unidade política e económica da União Europeia seja, efectivamente, um projecto hegemónico com vista à subordinação das soberanias nacionais à Nova Ordem Mundial. De sorte que o internacionalismo de Jean Monet, impulsionado por inconfessáveis interesses económicos e financeiros multinacionais, prossegue na concertação dos “Estados Unidos da Europa”. Aliás, a suposta unidade europeia não se confina a um mito da actualidade, se, para tanto, recordarmos a Respublica Christiana após a queda do Império Romano do Ocidente, assim como a tentativa de restauração do Sacro-Império Romano de Carlos Magno, ou até mesmo a aventura imperial de Napoleão Bonaparte, Adolfo Hitler e tutti quanti.



Napoleão



Actualmente, Portugal não apresenta um escol capaz de se subtrair às várias forças, partidos e organizações ao serviço do globalismo invasor. E uma tal situação nem sequer é passível de ser comparada às crises nacionais do passado, dada a completa transferência da soberania nacional para centros de decisão europeia e mundial, revertida na perda de moeda própria e na subordinação do ensino às directrizes internacionais, ou na tributação progressiva sobre os bens e a propriedade dos Portugueses, bem como na premeditada, concertada e consumada agressão dos agentes políticos contra a diáspora portuguesa de inspiração armilar. Mais: a revolução comunista de 1974 logrou vibrar, com base na venalidade, fraqueza e traição da corja político-militar, o maior e o mais trágico golpe mortal sobre o altar da Pátria portuguesa e dos que por ela, vertendo o sangue, se sacrificaram desde o Infante Santo em Fez até aos soldados portugueses tombados na Guiné, Angola e Moçambique.

Nesta conjuntura, relembremos que, já antes do 25 de Abril, Veiga-Simão, então ministro da Educação no tempo de Marcello Caetano, vinha preparando a unificação do ensino segundo directrizes internacionais preconizadas pela UNESCO e pela OCDE. Tratou-se, pois, de uma época de transição em que se lançaram as estruturas socialistas para o que viria a ser, na pós-revolução comunista de 1974, a implantação de um ensino igualitário e unificador pautado por programas destinados a excluir os valores patrióticos, poéticos e universais em prol de um economicismo intervencionista. É, de facto, o tempo em que Camões, património cultural e espiritual dos Portugueses, redunda banido de um ensino doravante dominado por intelectuais, arrivistas e revolucionários arregimentados pelo socialismo dominante.

Ora, os estragos dessa alienação revolucionária deixaram até hoje feridas jamais saradas na fisionomia espiritual da Pátria, bastando, como tal, observar como se perpetua todo um sistema de ensino mistificado em programas, métodos e bibliografias que acompanham a agenciação pedagógica e didáctica de professores segundo o modelo marxista de inspiração gramsciana. Um exemplo disso perpassa na compulsiva leitura de Saramago por ora imposta às novas gerações, a rodo de desperdiçarem o seu tempo juvenil à laia de um energúmeno interna e internacionalmente induzido pelo neocomunismo invasor. No fundo, trata-se de algo que só a esquerda poderia forjar nos termos de uma união ibérica, ademais proposta e induzida por Saramago.

Actualmente, perdida a independência política e económica de Portugal, os nossos vizinhos peninsulares certamente vêem com agrado a verborreia antipatriótica de um comunista como Saramago. E não é de todo irrelevante que a historiografia espanhola apresente Portugal como um caso histórico de rebeldia peninsular, ibérica ou hispânica. Atento a essa questão, Franco Nogueira remete-nos, pois, para o essencial:

«Este quadro, reconstituído e endossado pelos contemporâneos espanhóis, corresponde e continuou ao tempo de Filipe II. Era o «Macau espanhol», e a «Angola espanhola»; a «penetração cristã foi católico-hispânica»; Moçambique «incorporou-se no património de Sua Majestade Católica»; Espanha «esteve presente na África Oriental», que formou parte «dessa hispanidade ignorada da Ásia, da África e da Oceânia»; enfim, «Filipe II de Espanha estende o seu domínio a todos os mares e a todos os continentes» (Luís Maria Anson, La Negritud, Madrid, 1971). Angola exerceu especial fascínio: era a «cousa mais grande e rica». Era espanhola na sua «maior parte a obra missionária exercida nos territórios do Oeste de África»; os espanhóis fundaram as «missões do Congo e de Angola em 1645»; é dos reis de Espanha, Filipe II e Filipe III, que Angola recebeu ajuda; os portugueses nada mais faziam além de procurar metais preciosos e praticar a escravatura; e Angola foi «uma verdadeira dependência do Brasil e da América espanhola» (Cf. Claudio Miralles de Imperial y Gomez, Angola en Tiempos de Filipe II y de Filipe III, Instituto de Estudios Africanos, Madrid, 1951). E esta visão está na linha do que pensa a historiografia espanhola: «com a aquisição de Portugal passaram a ser de Espanha os ricos e vastos territórios que aquela nação possuía na África, Ásia, América» (Ricardo Beltran y Rozpide, Compendio de Historia de España, 248, Madrid, 1889). Portugal era tratado como «povo conquistado»; e por isso a sua independência foi «uma rebelião» (ob. cit., 273, 274)» (5).



Estandarte Real de Filipe II de Espanha



Rebelião, não. Sempre o mesmo milagre, pelo qual paciente e profundamente esperamos. Em suma: sentimento de independência nacional, sacrifício, abnegação, domínio do espírito sobre a matéria, eis assim a razão de ser do valor patrimonial, histórico e transcendente de um povo cujas letras, cuja política e cujas armas permanecem à luz do admirável precedente que foi e sempre será a heróica e patriótica Batalha de Aljubarrota.


Notas:

(1) O custo da farsa ultrapassou os 3 milhões de euros (mais de 700 000 escudos em moeda nacional), segundo números oficiais. Quer dizer: o Estado, pela mão dos contribuintes, alimentou quatro candidatos (três socialistas e um comunista) sem que verdadeiramente se contemplassem propostas ou ideias substanciais para Portugal. Passearam, exibiram-se, auto-elogiaram-se até ao limite do messianismo mais balofo enquanto o populacho era vítima da mais vazia omnipotência concentrada em organizações sectárias e partidárias de “centro e extrema-esquerda”. Perante um tal cenário, é cada mais evidente que as eleições presidenciais, a par das eleições legislativas e autárquicas, contribuem para consolidar e perpetuar o domínio dos poderes do Estado por grupos, facções e organizações partidárias ao serviço do socialismo dominante. Por outras palavras, os partidos, detendo o monopólio do Estado, extrapolam criminalmente aquilo que deveriam ser - associações particulares -, na medida em que surgem como extensões financeiras e políticas de um Estado tentacular responsável pela servidão de um dos povos mais pobres da Europa e, a curto prazo, do mundo.

(2) Vem bem a propósito uma passagem dialogante entre António Quadros (o entrevistador) e Álvaro Ribeiro (o entrevistado):

«Quanto ao povo português, sei que a sua opinião desconcerta e perturba os sociologistas, que se baseiam sempre nos elementos mais aparentes e mais superficiais para extrair conclusões não apenas pessimistas quanto ao presente, mas ainda quanto ao futuro. Crê que ele tem simplesmente o direito de existir autonomamente ou vai mais longe?

- Vou mais longe, como sabe. Estudos etnológicos me levaram à convicção da superioridade do povo português… Alberto Sampaio, Martins Sarmento, João Bonança, José Leite Vasconcelos, Mendes Correia…- Mas os sociologistas…

- Bem sei que a observação empírica não é favorável à minha tese. Que miséria fisiológica, a da nossa população!... Isto é hoje. Mas pelo estudo da genética e das ciências afins, cheguei a estar convencido de que, com a educação apropriada, o nosso povo revelaria muito depressa a sua congénita superioridade…

- Superioridade que, embora não sendo evidente, não é pois um mero arroubo lírico de filósofo messiânico…



- A este respeito, penso como Bruno, Fernando Pessoa, Pascoaes… Mas quer uma prova dos malefícios do sistema educativo? Tenho observado que o aldeão é mais inteligente do que o cidadão, a mulher do que o homem, a criança do que o adulto, o analfabeto do que o diplomado com o curso superior. Porquê? Porque os pedagogistas ignoram a realidade dos sexos, porque o nosso sistema de ensino, composto de humilhações, exames e concursos, apenas estimula certo espírito de astúcia, reprime as tendências reveladoras de virtudes latentes na alma do povo. Latentes quer dizer que podem esperar até séculos pela revelação, como os grãos de trigo conservadas nas múmias do Egipto.

A propósito da abundância de poetas líricos, disse-me várias vezes Leonardo Coimbra que o nosso sistema escolar faz cessar a evolução mental do português aos quinze anos. É verdade. Basta fazer a análise lógica dos compêndios escolares. Depois dos quinze anos tudo é ensinado a martelo, na intenção de reconduzir as novas e mais complexas noções aos esquemas da mentalidade pueril. Outrora, na Idade Média, o povo português atingiu o nível mental dos setenta anos, a tradicional sabedoria de barbas brancas. Estão as provas do que afirmo no folclore e na literatura»
(«O Testemunho de Álvaro Ribeiro», in As Portas do Conhecimento, dispersos escolhidos, IAC, 1987, pp. 185-86).

(3) Franco Nogueira, Salazar, III, Livraria Civilização Editora, 1983, p. 139. Na mesma página, em nota de rodapé, escreve Franco Nogueira: «Convirá neste ponto esclarecer que a atitude do General Franco para com Salazar e para com Portugal foi sempre correcta, e no plano pessoal comportou-se sempre com especial deferência. Contudo, quando cadete em Toledo, Franco escolhera como problema para o exercício do seu final de curso o tema: Como se ocupa Portugal em 28 dias. Para a época, e com os meios convencionais dos princípios do século, foi havido por notável pelo Estado-Maior espanhol. Salazar sabia-o».

(4) António Quadros, A Arte de Continuar Português, Edições do Templo, 1978, p. 202. A posição de Agostinho da Silva, tal como a transmitira a António Quadros, consistia, entre outros aspectos, por não ser «iberista», mas apenas da Língua Portuguesa. Por outro lado, repudiava a ideia da ligação de Portugal com «a Espanha "bloco", a de Carlos V, isto é, com os acrescentos formados no século XVIII». Por fim, afirmava que a «nova Espanha é que vai fazer funcionar bem as ideias do 25 de Abril; a volta ao mundo será dada, como da outra vez, por inspiração portuguesa e capacidade espanhola» (in ob. cit., p. 202).

(5) Franco Nogueira, Juízo Final, Livraria Civilização Editora, 2000, pp. 99-100.







quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A mentira básica do socialismo

Escrito por Olavo de Carvalho








O Globo, 13 de abril de 2002

“Ah! Les intentions, les intentions! Les idéaux, les idéaux!” Sergiu Celibidache, regente de orquestra, budista praticante, comentando as belas intenções com que a China comunista matou um milhão de budistas tibetanos.

“Nous étions des cons.” Yves Montand, referindo-se à militância esquerdista.

O sr. Immanuel Wallerstein, numa obra festejada pela mídia como o nec plus ultra do pensamento esquerdista nos últimos anos, afirma ter descoberto a “profunda irracionalidade” do capitalismo. Ela consiste na idéia do lucro ascendente: ganhar mais para ganhar mais para ganhar mais. Com o objetivo de demonstrar isso ele escreveu um tratado de centenas de páginas, nas quais só se esqueceu de uma coisa: dizer o que a idéia de riqueza crescente tem de irracional, já que justamente ela corresponde a um dos mais naturais instintos humanos e a um dos motores essenciais de todo progresso social.

Mas a intelectualidade marxista, filha de um notório mentiroso, mitômano e charlatão, cujas trapaças científicas são hoje bem conhecidas pelo simples cotejo dos documentos que usou para escrever “O capital”, não poderia ser mesmo muito exigente consigo própria. Daí sua compulsão de celebrar como elevado produto do espírito humano qualquer nova cretinice inventada por alguém de suas fileiras, seja a genética de Lyssenko, a “revolução na revolução” de Régis Débray ou a via gramsciana para o socialismo. Esta, por exemplo, jamais consegue chegar ao socialismo mas, no caminho, vai transformando a sociedade capitalista num inferno mediante a destruição sistemática dos valores culturais, religiosos e morais que a sustentam, substituídos por um cinismo individualista que depois a própria militância gramsciana, sem ver que se trata de obra sua, denuncia como um horror inerente ao espírito do capitalismo.

Já a irracionalidade do socialismo não precisa de muitas páginas para ser demonstrada. Basta-lhe um breve parágrafo. Compreende-a, num relance, quem quer que seja capaz de apreender intelectivamente o conceito mesmo de socialismo tal como expresso por seus apóstolos. Esse conceito é o de um Estado que destitui do poder a classe rica em nome da classe pobre. Ora, para intervir eficazmente numa luta em defesa do mais fraco agredido pelo mais forte é preciso, por definição, ser mais forte que o mais forte. Logo, a vanguarda socialista, para vencer a burguesia, deve acumular mais poder político, militar, policial e judiciário do que a burguesia jamais teve. Porém, como todo poder custa dinheiro, é preciso que a vanguarda detenha também em suas mãos o controle de uma riqueza maior do que a burguesia jamais controlou. Donde a supressão de toda distinção real entre poder político e econômico, que no capitalismo ainda permite aos pobres buscar ajuda num deles contra o outro. Qualquer criança de doze anos pode concluir, desse rápido exame, que a formação de uma nomenklatura politicamente onipotente e dotada de recursos econômicos para levar uma vida nababesca não é um “desvio” da idéia socialista, mas a simples realização dela segundo o seu conceito originário. Infelizmente, nem todo cidadão imbuído de seu sacrossanto direito de expressar opiniões políticas tem a maturidade intelectual de uma criança de doze anos.




Mas mesmo sujeitos desprovidos de capacidade abstrativa para deduzir conseqüências do simples enunciado de um projeto deveriam ser capazes de tirar conclusões de cem anos de experiência socialista, que confirmam repetidamente aquela dedução. Se, incapaz de análise lógica, o indivíduo também se recusa a aprender com a experiência que a confirma, então é porque sua mente desceu ao último estágio do obscurecimento, o que é de fato o único motivo que alguém pode ter hoje em dia para continuar acreditando em socialismo.

A objeção gramsciana, que a muitos ocorrerá automaticamente, de que o Estado socialista será controlado por sua vez pela “sociedade civil organizada”, é apenas um subterfúgio muito desonesto, porque basta ter lido Gramsci para saber que a tal “sociedade civil organizada” não é senão a estrutura do Partido, a vanguarda propriamente dita, que, permanecendo legalmente distinta do Estado, estará “integrada” com ele na estrutura maior que o ideólogo italiano denomina “Estado ampliado” — uma expressão cujo sentido ameaçador e tenebroso pode ser apreendido à primeira vista por quem compreenda o que lê, o que infelizmente não é em geral o caso da militância esquerdista, mesmo universitária.

Também não é intelectualmente respeitável, nem como fantasia passageira, a crença corrente de que as conseqüências lógicas da aplicação da idéia socialista, tal como as acabo de descrever, não estiveram nunca nas “intenções” da militância, inspirada sempre por elevados ideais de justiça e bondade.

O termo “intenção”, no caso, designa o valor (moral, político, jurídico, religioso que seja) que a mente socialista associa à idéia ou conceito a realizar. Mas quem quer que compreenda a idéia socialista percebe, no ato, a contradição insolúvel entre essa idéia e o valor associado. Se o socialismo é o que é, não pode valer o que dizem que vale.

Ora, cultivar uma “intenção” subjetiva que a priori já está desmentida pelo simples conceito daquilo que essa intenção pretende realizar é um estado psíquico de cisão esquizofrênica, que um homem não pode cultivar por muito tempo sem ser levado a uma sucessão de crises insolúveis.

Por exemplo, um sujeito que se case alimentando ao mesmo tempo a “intenção” de conservar a liberdade sexual de um jovem solteiro, ou que contraia muitas dívidas com a “intenção” de manter intacto o seu saldo bancário mês a mês, estará alimentando uma contradição vital que, em breve tempo, o levará a um desenlace trágico. Ele dirá que esse resultado não estava nas suas “intenções”, mas nenhum homem adulto tem o direito de camuflar indefinidamente a absurdidade intrínseca de seus atos com um verniz de belas intenções.






Mais ainda: como qualquer mentira existencial básica prolifera inevitavelmente numa infinidade de mentiras instrumentais necessárias à sua tradução em atos, em breve todo o campo mental do sujeito estará repleto de mentiras que ele já não poderá reconhecer como tais sem uma dolorosa e humilhante tomada de consciência. E desta ele se esquivará enquanto puder, mediante a produção de uma terceira, de uma quarta e de uma quinta camadas de subterfúgios e racionalizações, e assim por diante até à completa fragmentação da psique e à perda da dignidade da inteligência humana.

Esta tem sido a história do socialismo. É só isso que explica a facilidade com que, de um legado monstruoso de terror e misérias, superior em número de vítimas à produção somada de duas guerras mundiais, a alma socialista pode colher como a mais bela das flores morais a mitologia renovada das “intenções”, e ainda ter a inigualável cara-de-pau de denunciar a “irracionalidade do capitalismo”.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Cavaco é um contabilista

Escrito por Orlando Vitorino




Numa entrevista vinda a lume em Vida Mundial (n.º 5, IV série, 21 a 27 de Jun. 1989), Orlando Vitorino diz-nos o essencial sobre Cavaco Silva e a baixa política subordinada a poderes e organizações internacionais. De resto, o filósofo situava-se numa época prenunciadora de um Portugal sem moeda própria e politicamente amordaçado pela burocracia europeísta em queda vertical. Se tivéssemos que caracterizar, em sua mensagem, o entrevistado, deduzindo o presente, não do passado, mas do futuro, diríamos que, para Orlando Vitorino, o fascismo é um fantasma e o comunismo uma múmia.

O autor de Exaltação da Filosofia Derrotada verberava ainda contra a política do Governo e a inveja da oposição. É, pois, com total desassombro que já então denunciava a insídia do sistema eleiçoeiro
: «O povo não elege coisa nenhuma, quem elege são as direcções dos partidos». E também dizia a verdade quando afirmava peremptoriamente que a «Direita em Portugal tem sido terrivelmente estúpida porque se caracteriza por uma incultura atroz».

Demais, Orlando Vitorino, prosseguindo, a seu modo, a linhagem filosófica de Leonardo Coimbra, José Marinho e Álvaro Ribeiro, fora um candidato singular às eleições presidenciais de 1986. Personalidade verdadeiramente independente, que não acreditava num sistema político em que os partidos detêm o monopólio do poder, defendia a existência de um escol radicado na fisionomia espiritual da Pátria portuguesa. E também sabia perfeitamente o que os intelectuais omitem por tibieza, cobardia e rebeldia à verdade, a saber: que as instituições oficiais de cultura universitária não passam de funestas instituições antipatrióticas desde o Marquês de Pombal.


Miguel Bruno Duarte




Cavaco é um contabilista


V.M. – O Professor foi candidato à Presidência da República em 1986. Passados três anos, o que pensa, agora, de Mário Soares?

O.V. - Que não é capaz, e não quer alterar a política existente.

V.M. – E de Cavaco Silva?

O.V. - Que é o que é: um economista exclusivamente e sem consciência da teoria económica que toda a prática da economia supõe, portanto um contabilista.

V.M. – Mas que política é essa que o P.R. não foi capaz de alterar?

O.V. - É uma política assente na prática do Keynesianismo, que é a última tábua a que se agarrou o socialismo naufragado. O Keynesianismo foi adoptado pelo Instituto Superior de Economia, onde se formou Cavaco Silva que depois foi apurar essa teoria a Inglaterra. O que é certo é que se trata de uma pessoa, como toda a gente sabe e o próprio reconhece, sem preparação cultural, logo não pode aprofundar uma prática económica. Aliás, reconheceu-o num livro, que publicou sobre a sua actividade como ministro das Finanças, no Governo de Sá Carneiro, no qual diz que pôs de parte, logo de entrada, o monetarismo porque nenhum deles sabia o que isso era. Cavaco Silva é, como creio que ele próprio diz, um socialista.




V.M. – Acha que é o neoliberalismo que pode resolver os problemas que preocupam o nosso país em termos económicos, ou mesmo políticos?

O.V. - O liberalismo é a ciência da economia. No sentido em que tal como há uma física na qual os fenómenos naturais e o seu estudo constituem a ciência da física, assim também há uma ciência da economia em que os fenómenos económicos estão sujeitos às regras, finalidades e processos que essa ciência conhece.

V.M. – No entanto, repare, mesmo em Física, e relativamente à luz, por exemplo, existem duas teorias que não se excluem mutuamente: a teoria corpuscular ou quântica e a teoria ondulatória que envolve outro tipo de conceitos. Como é que pode afirmar que a economia só pode ser estudada na perspectiva liberal?

O.V. - Não envolve outro tipo de conceitos, mas outro grau de desenvolvimento dos mesmos conceitos. Por exemplo, a física moderna considera que a matéria é divisível até ao ponto elementar em que se foi considerando, ao longo da história da Física, o elemento indivísivel. Passou-se da molécula ao átomo, até ao quanta, uma pura quantidade. Isto não significa que as teorias anteriores sejam diferentes da actual. Na economia há uma realidade que tem os seus processos e modos de funcionamento que são o objecto da ciência económica. Esta é distorcida por finalidades políticas; surgem então conciliações entre a ciência da economia e uma moral ou sentimentalidade.

V.M. – Mas o neoliberalismo ou qualquer outra teoria económica, tem implícita, em si, uma teoria política...

O.V. - No liberalismo não é a ciência económica que implica uma política. É uma política que implica a ciência económica.

V.M. – Que política é essa?

O.V. - É aquela política que considera as sociedades com todos os seus elementos, que são muito variados. Uma das realidades implícitas na política é a economia, mas a política tem que considerar essa realidade naquilo que ela mesma é. Não pode ser uma realidade distorcida por outros domínios, outras finalidades que lhe são alheias. O socialismo é um sentimentalismo que se exprime na fraternidade, na assistência social, naquilo a que se chama justiça social e não se percebe o que é, etc. Suponha que existe um igualitarismo em termos de salários: isso vai contra as realidades económicas porque as pessoas são todas diferentes e todas ganham consoante a sua diferença.

VM – Em princípio seria mais uma questão de igualdade de oportunidades...

O.V. - Isso são já nuances dadas ao mesmo igualitarismo. Como a ciência económica diz que a realidade é incompatível com isso, o socialismo procurou criar uma doutrina económica em que a realidade era distorcida para estar de acordo com o sentimentalismo socialista.

V.M. – No entanto, a acção de Cavaco Silva, ao implementar as privatizações, por exemplo, foge a esse ideal socialista que lhe atribui...

O.V. - O que acontece é que o socialismo adquiriu muita força política: ficou implantado praticamente em todo o mundo e é a doutrina cujos slogans mais seduzem o eleitorado. De modo que os partidos socialistas, verificando a catástrofe a que levava os povos, foram-se agarrando a soluções liberais, mantendo a designação de socialismo, mas tendo um conteúdo socialista cada vez menor.

V.M. – E mais retórico?

Claro, no mau sentido. Exclusivamente retórico. Deu-se uma transferência da acção socialista da economia para outros domínios. Por exemplo, a Alemanha saiu da guerra completamente destroçada, abaixo de zero. No entanto, com o Governo Liberal de Adenauer, que fez aquilo a que se chama o «milagre alemão», o país regressou à prosperidade. Simplesmente, passados uns tantos anos a sedução das massas pelos slogans levou ao poder o Partido Socialista alemão. Era de tal maneira evidente aquela prosperidade criada pelo liberalismo que os socialistas não lhe puderam tocar, desviando a acção socialista para a cultura. O que é certo é que a cultura alemã atingiu os níveis mais baixos de sempre, a situação em que se encontra hoje. Em Portugal está-se a dar um fenómeno semelhante: o PSD, que é um partido socialista, não tem nenhuma solução diferente da do PS. No entanto, são partidos que se opõem um ao outro.




V.M. – Uma questão de jogos de poder...

O.V. - Pois é. Não podemos esquecer que os partidos são associações privadas. Nesta democracia eleitoralista é-lhes dado o monopólio do poder. Portanto, a associação privada que é o Partido Socialista opõe-se à associação privada que é o PSD, ambos querem ter o poder do Estado.

V.M. – Defende então um regime em que não existam essas associações privadas?

O.V. - As associações privadas podem existir sempre. Até para fins políticos, o que não podem é ter o monopólio dos poderes do estado.

V.M.– E como é que pode ser distribuído esse poder?

Por exemplo, qualquer pessoa se pode candidatar às eleições. Só que, do modo que as coisas estão apenas se podem candidatar aqueles que forem escolhidos pelos partidos. O povo não elege coisa nenhuma, quem elege são as direcções dos partidos.

V.M. – E o senhor, quando se candidatou à Presidência da República?

O.V. - É o único orgão do poder em que é reconhecido o direito de os indivíduos se candidatarem. Só aí este sistema tem uma democracia directa. De resto, são os partidos que mandam. Simplesmente, as máquinas eleitorais estão organizadas e quando um indivíduo aparece é cilindrado por elas.

V.M. – Foi essa a sua experiência?

O.V. - Escrevi um livro, que foi completamente sabotado (é impressionante a eficácia de uma sabotagem), e apresentei a questão em Tribunal Constitucional.

V.M. – E qual foi o resultado?

O.V. - Nenhum. Veja bem, a Constituição admite-me capacidade para concorrer à Presidência da República, o Tribunal Constitucional negou-me personalidade jurídica para impugnar os actos eleitorais desta máquina cilindradora que são os partidos. Está a ver a contradição?...

V.M. – Sente que foi, de algum modo, boicotado pela Imprensa?

O.V. - Tudo isso está escrito no tal livro sabotado, mas que aliás teve larga distribuição. Tudo muito bem documentado.

V.M.– Mas porquê?

O.V. - Porque eu era de fora. Não pertencia a nenhum partido.

V.M.– então quem não está nos partidos não tem possibilidade de se exprimir?

O.V. - Claro. São os partidos que têm o monopólio dos poderes do Estado.

V.M. – Que lugar pode ter um independente neste sistema?

O.V. - Não tem possibilidade. Pode, por exemplo, dar uma entrevista como esta que estou a dar, mas sem a certeza de que vai ser publicada. Dei uma entrevista à RTP-Madeira que não foi transmitida, bem como uma outra aos jornais da Madeira que não foi publicada.

V.M. – Por defender o separatismo...

O.V. - Eu não defendia o separatismo, mas que as Regiões Autónomas fossem Estados. Eu entendo que o Estado não é o que há de mais importante na existência de um povo. É a efectividade do Direito. Depois há toda a vida de um povo para a qual existem as grandes entidades como a Nação, a República e a Pátria. Ora a Pátria continuava a ser a mesma, tal como a República e a Nação.

V.M. – Então o Estado limita-se ao Direito?

O.V. - À efectivação do Direito. Nem sequer o faz.


V.M. – É então meramente executivo. E quem é que legisla?

O.V. - Eu admito a criação de orgãos especiais para a elaboração de leis.

V.M. – Como é que se constituem esses orgãos?

O.V. - Trata-se de um colégio recrutado entre as pessoas de reconhecido saber que existem num povo.

V.M. – Defende pois o poder de uma élite?

O.V. - Pois evidentemente. Há sempre uma élite, já que o poder está nas mãos de uma minoria. Neste momento são as direcções dos partidos.

V.M. – Mas esses estão no poder legitimados pelo sistema legal, foram eleitos segundo a lei...

O.V. - Nenhum jornalista ignora que as eleições são uma farsa. Todos têm disso experiência. A legitimidade não reside no facto de haverem documentos que têm a forma literária de leis, provém da lei autêntica.

V.M. – Não percebo como é que legitima o facto de um pequeno grupo de homens, uma minoria, detenha o poder e decida sobre a vida dos outros.

O.V. - Há sempre uma minoria a decidir tudo. Quem nos governa hoje em Portugal é uma minoria. Quando se reconhece que a minoria é que governa ela tem de ser qualificada. Não há pessoas a candidatarem-se para lhe pertencerem, mas pessoas chamadas para fazerem parte dela. São os que reúnem as qualificações pessoais para lhe pertencerem. O sábio é que vai determinar e esclarecer as medidas a adoptar nos domínios da sua especialidade.

V.M. – Mas isso não se tem revelado perigoso ao longo da história?

O. V. - Nunca se fez. O único caso são os marxistas que se consideram como senhores de toda a verdade e saber.

V.M. – O que pensa da Direita em Portugal?

O.V. - Em Portugal, ou temos que considerar que não há uma Direita, ou considera-se de Direita aquelas pessoas que são de algum modo críticas em relação às finalidades do socialismo. Admitamos que, por exemplo, a CIP é uma organização de Direita. O que acontece é que a Direita em Portugal tem sido terrivelmente estúpida porque se caracteriza por uma incultura atroz, a todos os níveis, desde o multimilionário até ao pequeno empregado. São, não só ignorantes, muito incultos, como para eles a cultura é incómoda, qualquer coisa que deve ser tratada desdenhosamente...

V.M. – Porque a cultura é de esquerda?

O.V. - Não. Os esquerdistas é que têm tendência a valorizar a cultura. Mas só na medida em que fazem dela seu instrumento, o que é outra maneira de a negar. Mais eficaz que o procedimento da Direita.

V.M. – É que a Direita quer conservar a cultura para a sua élite, não a dá às massas.

O.V. - A direita não tem elites. As minorias que a comandam são compostas de argentários ou de esperançosos em ser argentários

V.M. – Em termos de partidos, não encontra um de Direita em Portugal?

O.V. - Pois não. Há quatro partidos, nenhum deles de direita.

V.M. – Então o CDS não é de Direita?

O.V. - O CDS é uma coisa evanescente. O Lucas Pires tem sido de tudo, tem feito todo o percurso, chegou a ir a Maputo dizer que o marxismo é que estava certo. A sua acção como ministro da Cultura foi mais marxista que a de Vasco Gonçalves. Trata-se de falsos neoliberais, desde o sr. Ferraz da Costa até ao sr. Lucas Pires. Deixam de se dizer quando o partilham e usufruem.

V.M. – Como analisa a questão da CEE e da integração de Portugal?

O.V. - A CEE tem aquele mesmo equívoco de que falei há pouco relativamente ao socialismo naufragado que se agarra ao liberalismo. Os socialistas, que foram tomando o poder em toda a Europa, trataram de socializar a CEE. Política e economicamente. Por isso a sra. Thatcher diz a verdade quando afirma que a CEE é socialista e socializante, e quando diz que não quer que o socialismo lhe entre pela porta da CEE quando ela o expulsou através da sua política.







V.M. – Seria a favor ou contra a unificação política europeia?

O.V.- Isso é algo que vamos esperar para ver o que acontece. O que eu defenderia é que Portugal estivesse positivamente na CEE, isto é, que se aliasse a acções como a do Governo inglês para que a CEE fosse um órgão de economia liberal e não de economia socialista.

V.M. – Não considera o perigo de, com a integração, Portugal perder os seus contornos culturais próprios?

O.V. - Isso depende do poder da cultura de cada povo. Em França, Inglaterra, Alemanha ou Itália, ninguém pensa que vão perder a sua identidade cultural com a integração na CEE. Porque têm culturas fortes.

V.M. – Então porque é que em Portugal se pensa isso? Temos uma cultura fraca?

O.V. - Em Portugal temos tudo a negar a nossa cultura: as universidades estão há dois séculos a trabalhar para isso, os partidos políticos a procederem na ignorância do que é a cultura e na sua destruição. Não há em Portugal a consciência e a segurança de uma autonomia cultural que lhe permita manter-se no xadrez das culturas europeias.

V.M. – Vai votar nestas eleições?

O.V. - Não. A abstenção também é um voto. Se amanhã aparecerem mais de 50 por cento de abstenções, este sistema político, em consciência e verdade, tem de ser substituído.

V.M. – E qual é o sistema que vem?

O.V. - Um sistema em que os partidos não detenham o monopólio do poder de Estado.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O português em coordenadas de caracterologia étnica (ii)

Escrito por Francisco da Cunha Leão




Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage


Não resistimos a uma incursão no campo das letras, susceptível de nos mostrar outra face da psique portuguesa e a libertação dos aspectos melancólicos e abissais que tantas vezes contracenam ou transparecem na acção.

Entre os nervosos destaquem-se os poetas Bocage, Gomes Leal, Sá-Carneiro e Eugénio de Castro, o prosador Fialho de Almeida.

Bocage, um nervoso indisciplinado, inactivo, boémio, de comoção repentista, ao sabor da maré, em fogo de amor, escárneo e desespero. Sá-Carneiro inadaptado narciso («E eu, a Estátua!» «O meu desdém Astral»), hiper-sensitivo em que as imagens se tornam estridentes, se copulam hibridamente em orgias de cor e sexo, numa luxúria aberrante e luxuosa, entre megalómanos assomos («Lord que eu fui de Escócias de outra vida», «Mitrado de oiro e lua», «Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África») e obsessões da sua pessoa («Cais de me cismar», «Catedrais de ser Eu», «ó pântanos de Mim?», «Pra que me sonha a beleza...?).

Nervoso altivo deveria ter sido Eugénio de Castro, sobretudo esteticista, aristocrata da palavra e da atitude, com sua joalharia de vocábulos selectos. Expressão precisa, recortada com nitidez e um comportamento menos primário e mais compatível com a vida prática. Certo discolismo ressuma de alguns dos seus poemas.

Em Gomes Leal manifesta-se o nervoso «dissoluto» (influenciável segundo a escala de Paulhan). Presentista, entregue ao momento, muito inactivo mas de consciência larga, volúvel e aberto aos ventos de todas as direcções - ideológicas, místicas, ou simplesmente exóticas. Tão poeta como vagabundo, vai do janotismo à indigência, oscila entre satânico e piedoso. Tanto apedreja como se comove infantilmente. Vive e poeta sem auto-crítica, anarquicamente, com a liberdade que têm as aves.

A linguagem de Fialho reflecte o sensível frenético, ocioso, de múltiplos interesses e a tudo vibrátil. Rebrilhante, expressiva, morde o exagero, cheia de rebusques nervosos; é deformado espelho da agudeza e mobilidade das impressões e da inconstância do temperamento.

Continuando pelos emotivos primários, se agora considerarmos os activos (coléricos), várias figuras prestes ressaltam: Santo António de Lisboa, José Agostinho de Macedo, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra.

A vida do taumaturgo português é movimento e luta. «Martelo de Deus», assim chamavam ao pregador franciscano. Duro, contundente fustigador de erros, deveria ter sido. Justo nos parece por isso o comentário de Jaime Cortesão ao dizer que o «franciscano nascera na pele de um irmão de S. Domingos», e ao marcar a distância que vai entre esse colérico apóstolo e a visão popular portuguesa do Santo Antoninho, curiosa filtragem através da nossa pieguice de um dos mais violentos defensores da Fé (2).

José Agostinho constitui protótipo de colérico polemista. Desregrado, truculento, pletórico de energia, como que criava as dificuldades para ter ensejo de lutar (3).

À família dos «coléricos poetas» (em que é classificado Vítor Hugo) pertence Guerra Junqueiro. Poesia enfática, não raro panfletária, ritmos badalados, mesmo em lirismo. Verbo extravasante de ataque, trombeta de Gedeão a comandar a marcha.

Também o filósofo Leonardo Coimbra nos parece de enquadrar nos coléricos. Sempre empenhado, aproveitando todas as oportunidades para agir, talento demonstrativo e oratório manifesto. Espírito largo convivente, de feição optimista e luminosidade solar. Dado à acção pessoal directa, mas assistemático, ressumam da sua vida e obra emotividade primária e a febre da acção. Pedagogo apóstolo por excelência, vivia o imediatismo e a dialéctica das relações humanas; deixou por isso discípulos.

Passando aos emotivos secundários, estes, numerosos entre nós, dão-nos talvez de preferência a outros caracteres, a nota mais lídima da sensibilidade portuguesa.

Entre os sentimentais: Bernardim, Soares de Passos, Cesário Verde, Eça de Queiroz, Antero de Quental, António Nobre, Raul Brandão, Pascoaes, Afonso Lopes Vieira.

Nos apaixonados: Camões, Agostinho da Cruz, Fernão Mendes Pinto, António Vieira, Herculano, Camilo, Oliveira Martins.


Padre António Vieira



O poeta do «Só» é um sentimental puro, introversivo, com aspectos para-nervosos. Se por um lado exibe a espontaneidade da poesia pura, uma espontaneidade fresca, adolescente, e o culto do eu (a torre de Anto, etc...), António Nobre apenas impulsivamente é presencista; por mais voltas que dê, mesmo em Paris, sente-se apegado à terra onde nasceu, aos velhos afectos, à humanidade que o rodeou na infância; o que vê, ainda que pintado ao vivo, não passa de pretexto para saudades. Reflexivo fora dos repentes, sempre nostálgico (os «males de Anto»), a sua emotividade é retentiva, nutre-se do já vivido.

Teixeira de Pascoaes, um pouco menos emotivo, ainda mais secundário, contempla e vive a natureza em todos os seus elementos, propende a um filosofar cosmogónico, mítico. Insere-se no sub-grupo dos sonhadores, agarrado à sua montanha (o Marão) e ao seu vale (do Tâmega) numa constância de afectos que lhe dissolve os impulsos. Faz da vivência da Saudade a primeira e última substância de tudo quanto existe.

E Antero deu mesmo em sófico poeta, coisa a que são atreitos os vates sentimentais, dado que no sentimental há algo que transita do nervoso ao fleumático, mais ou menos distante de um ou de outro destes dois contra-pólos. No autor dos «Sonetos» e das «Odes Modernas», a secundaridade pendeu ao filosofema e à devoção social. Este o Antero a que Sérgio chama apolíneo. O primeiro será o nocturno (4).

Outro sentimental foi Raul Brandão, contemplativo, hiper-sensível à natureza e às agruras dos humildes. Não só há discolismo na sua obra, como sentido trágico. A tragédia do grotesco ninguém a percebeu como ele. O seu gosto da quietude, a elaboração a que sujeitava as impressões, são de um emotivo já secundário, não activo.

Cesário Verde e Eça de Queiroz, a nosso ver, fazem parte da mesma família caracterológica. Ambos emotivos mas secundários, de actividade moderada, sentindo a sedução da novidade bastante contemplativamente, porque no fundo amavam os hábitos e as comodidades do sedentarismo. Aguda sensibilidade, um ou outro impulso de nervos; mas, a par disso, poder de observação objectiva, ironia, e a implacável contenção dos rasgos emotivos. A secundaridade levou Eça de Queiroz ao equilíbrio das proporções e à magistral arquitectura do romance, à disciplina das efusões sentimentais; na mesma, em Cesário, ao domínio dos desabafos no espartilho das formas lapidares, com perfeito senso da medida, já que as não dilata nem sufoca. Também os levou à análise social. Um e outro puderam ver como de fora os seus próprios sentimentos, contê-los e valorizá-los. Situam-se no grupo dos sentimentais para-apáticos, dominando quais artífices pacientes uma substância de emotividade rica. Os elementos delongantes do estilo de Eça, com a adjectivação dilatória e a condescendente ironia, e bem assim os comentários tão naturais de Cesário nas suas deambulações, ora de admiração retida («Milady, é perigoso contemplá-la»), ora de carinhosa troça («A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia/Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...»), («Os querubins do lar flutuam nas varandas») denotam a finura e a mestria da sensibilidade.



 Camilo Castelo Branco



Muito emotivo e activo nos aparece Camilo, com obra vastíssima e vida tormentosa. A despeito de certos aspectos primários (improvisação, assistematismo, talento para a peripécia romanesca), a importância que dá ao pretérito, a vivência das recordações, o comprazimento na expansão sentimental e na glosa melancólica levam-nos a valorizar-lhe a secundaridade e a alinhá-lo, portanto, nos apaixonados. Seu humor é desigual, eruptivo, indominado, avesso a proporções. Seja. Mas uma vis interior, de apaixonado, caldeia as desconexões numa constância trágica, muito pessoal, que sobressai dos lances nervosos e coléricos do seu génio tão desconcertante.

De apaixonado para-nervoso (Sub-grupo dos proféticos), podemos classificar o Pe. António Vieira. Ardoroso, activo, praticando um cristianismo de promoção de raças e um patriotismo ucrónico, votado ao futuro, à redenção do mundo. Barroco da palavra e orador de vocação, os seus objectivos situam-se distantes, inserem-se num plano ideal de transformação ecuménica. Pertence à família de Santo Agostinho, Carlyle e Nietzsche.

Fernão Mendes Pinto, outro apaixonado. Verdadeira curiosidade pelo Mundo, gosto da aventura, uma existência plerótica de incríveis vicissitudes. Mas não foi só isso que seria de molde a enquadrá-lo na família dos coléricos aventureiros. O autor da «Peregrinação» não se limitou a viver com intensidade o exotismo das terras novas e a descrevê-las incomparavelmente; manifesta, a cada passo, uma tendência reflexiva profunda, serena e a compreensão dos homens, meios sociais, a um tempo repassada de humanismo e sentido crítico. Isto sobreleva-o da mera literatura de viagens ou de aventuras, faz do seu longo livro tão fértil em peripécias, um documento humano ímpar (5).

Pela sua forte secundariedade expressa em avidez pelo documento histórico e gosto de ordenador, a que presidia um espírito extremamente sério e um carácter íntegro, pela coerência, gravidade e amor ao trabalho probo, Herculano cabe nos apaixonados severos. Já Oliveira Martins, menos secundário na emotividade, imaginativo, inclinado à história, aos temas sociais e à intermitência política, está bem nos apaixonados laboriosos.

E Luiz de Camões? Com intenção o deixámos para o fim nesta galeria de apaixonados insignes, dado que propendemos a crer, de acordo com Marques Braga, que a psicologia dos portugueses eminentemente se encontra no maior dos seus poetas. Em visão caracterológica imediata, o seu recorte é de apaixonado-sentimental, classe a que pertence Miguel Ângelo, na qual se evidencia a força do agrupamento ES [emotivo-activo-secundário], com actividade A [apaixonados] que, excedendo a média dos homens, é inferior à dos considerados activos. Oscilou «entre o sentimento da existência íntima e a realização mais ou menos sistemática de uma ordem de determinação» que segundo La Senne é o traço mais profundo deste carácter. A emotividade de Camões faz impressão, embebe toda a sua obra, forma o substracto e o nexo profundo, enebriante de todas as peças, ainda que articuladas; irrompe da própria epopeia como nascente irreprimível, «excesso definitivo da alma sobre a acção». Ígnea personalidade que em si ardendo destruía todos os círculos limitadores (Agostinho da Silva). A par do fôlego passional em que os eventos do amor e da condição humana sentidos na carne são transportados ardentemente, em largos degraus, aos páramos da sublimação ideal, avultam a capacidade sistematizadora e o poder de concepção do autor de Os Lusíadas.

Os seus vastos, pungentes desalentos, a elaboração filosofada dos estados de alma, opõem-se à primaridade de um lendário trinca-fortes, por alguns sobrevalorizada.

Túmulo de Luís de Camões no interior do Mosteiro dos Jerónimos.


Não faltaram à vida do poeta aventura e as mais variadas ocorrências - zaragata, guerra, prisão, tempestade e naufrágio. Para uma definição caracterológica e de estilo, que representa isso perante a magnitude de uma obra onde se estampam grandes e experimentados sofrimentos, congeminações transcendentais e ardorosa vivência idealista? Por certo só uma inteira vida interior, leitura, reflexão, isolamento, - mais do pendor natural de Camões do que forçados - poderiam ter conduzido o seu estro a realizar-se em tão perfeitas criações. Português complexo e completo, ele sintetiza, em estrato genial, uma tendência para a acção logo que preciso intrépida e a propensão reflexiva, profunda, melancólica de um povo no qual o heroísmo enreda as ternuras do coração. O elemento líquido da maior Odisseia - a dos Lusíadas - anda nas almas em desassossego e lágrimas.

Quanto aos não-emotivos na seara das nossas letras parece-nos mínima a sua participação nas maiores alturas.

Ramalho Ortigão é de inscrever nos sanguíneos. Espírito claro, objectivo, interessado em progresso e bem estar-social, sadio, desapaixonado. Amante da ordem, da arte, do ar livre, da vida saudável, capaz de contundência, mas sem emoções febris ou deprimentes. A «ramalhal figura» nada fanática, pouco se dava à lucubração; vivia de poros abertos, impressionável sem desequilíbrio nem nervosismo.

Temos porém a assinalar um caso espantoso, em antítese idiossincrática da generalidade portuguesa, no entanto de altíssima expressão nacional, estranho fruto de um país de paradoxos: Fernando Pessoa, um grande poeta fleumático.

Homem laborioso, discreto e de hábitos, embora avesso a obrigações de horário, pouco expansivo, sentimentalmente instável mas de humor sempre igual, a quem o isolamento não impressionava, tão cumpridor «correspondente estrangeiro» como constante e exímio letrado, no entanto desprendido de dinheiros, sem pressas de publicação nem de glória literária, espírito isento, ensimesmado, capaz de aturada elaboração.

Não emotivo, activo, secundário são os caracteres do fleumático. Como explicar o grande poeta, a sua riqueza de fundo e formas e a variedade dos aspectos, concedendo-lhe apenas fraca emotividade (abaixo da média)? Por uma inteligência, ao que se vê excepcional, que o levou à mais esclarecida compreensão dos outros. A compreensão dos emotivos é instintiva, a dos fleumáticos cerebral. Lorca apreendeu a expressão cigana e a galega, mediante genialidade intuitiva; Fernando Pessoa criou os heterónimos por genialidade inteligente. Facetas da sua maneira de ser? Sem dúvida, mas corporizadas e exploradas, postas a viver e sentir por quem, frio e inteligente, era capaz de se despersonalizar, a ponto de fotograficamente se imprimir por outrem e genialmente «fingir» com base numa fracção emotiva mínima.

Pôde ser um médium da psicologia portuguesa, da alma colectiva nacional que superiormente vazou em termos épicos e míticos, a ponto de, a tal respeito, se tornar um dos autores padrões. De onde resulta contrapolarmente neste país de opostos que o outro dos seus máximos porta-vozes, espécie de Camões da modernidade, veio a ser um ciente jogador de mitos: «sebastianista racional».

O núcleo AS (activo-secundário) existe nos dois. A oposição emotivo-não emotivo explica todo o contraste. A carência de calor emocional impediu a unidade do segundo grande poeta, impediu a fusão das facetas numa só direcção dinâmica.



Fernando Pessoa



Tirada a paixão a Camões ficou Fernando Pessoa. «A diferença que há entre Camões e Pessoa é a diferença que há entre um homem e a sua inteligência», diz um ensaísta (6). Dois pólos geniais de uma Pátria, - o apaixonado e o fleumático -, entre a acção e a sua consciência estreme enfeixam os dilatados meridianos de um longo ciclo histórico. O outro Camões que profetizou Pessoa abriria um novo ciclo a consciencializar. E assim tem acontecido na História: Homero - Aristóteles; Cervantes - Unamuno; Shakespeare - Toynbee, etc... (ob. cit., pp. 200-211).


Notas:

(2) «O Humanismo universalista dos portugueses» - p. 56-57.

(3) Ver Carlos Olavo - «A vida turbulenta de José Agostinho Macedo».

(4) «Ensaios» - vol. IV.

(5) Ver Le Gentil - «Fernão Mendes Pinto e Jaime Cortesão, ob. cit.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O português em coordenadas de caracterologia étnica (i)

Escrito por Francisco da Cunha Leão




D. Pedro e D. Inez de Castro


(...) Povo mesclado, poliétnico, porventura dos contingentes francos e romanos lhe adveio a quota-parte sanguínea, dos nórdicos algo de fleuma, e dos mediterrâneos e arábicos a emotividade primária, movediça de muitos dos seus homens.

Alguns dos condutores da nossa história representam excepções temperamentais que denotam hibridismo, em numerosos casos conhecido.

Percorramos algumas figuras, tentando a sua classificação caracterológica:

Pedro o Cru, rei itinerante, caçador e monteiro sempre rodeado de muito cão, muita ave e muita gente, amando a boa mesa cujas iguarias a todos franqueava, dadivoso, rápido nas decisões, frenético para a burocracia, «amador de trigosa justiça» (Fernão Lopes), implacável em castigar os erros - o seu retrato é o de um colérico puro. Emotivo, activo, entregue ao momento, cordeal e bailador, o louco amante de Dona Inez que o povo tanto amou, surge no friso da primeira dinastia como força da natureza indómita que prestes criou a pátria.

Sob calma aparente, Nun'Álvares descobre rasgos de emotividade primária, frenesim de acção e luta, uma pujança expressa em destemor, não sofreados repentes e rapidez de estratégia, o que tudo leva a inseri-lo também no tipo caracterológico denominado colérico - grupo dos condutores («meneurs»), pelo poder da simpatia, feita de misticismo e desembaraço do que foi um verdadeiro condestável. A vivência religiosa de igual modo intensa e a bondade da sua índole, refrearam-lhe contudo, e com o tempo, os impulsos, acentuando aspectos secundários do seu carácter. O «colérico fiel», acabou por vencer o colérico lutador nesse extraordinário «guerreiro e monge».

Colérico também, ainda que de outro estofo, deveria ter sido o Marquês de Pombal. Activo e agindo frequentemente debaixo dos estados emocionais. Autoritário e renitente no ódio. Cioso de honrarias, cúpido, infatigável em ditar a lei indiscutida, arbitrária que ela fosse. «Tudo fazia por pedaços e a retalhos» segundo António Ribeiro dos Santos, o que revela a primaridade do seu temperamento. A frieza de que era capaz, denotando falha de afectividade atesta, bem como certa visão objectiva, um aspecto para-sanguíneo dentro do tipo definido. Uma compleição psicológica de assalto, servida por grande capacidade de trabalho, e movendo-se ao sabor de emergências e obstinações pessoais.

É notável a galeria dos apaixonados e importante a sua participação nos eventos primaciais da história portuguesa. Quer nas vastas concepções e porfiadas empresas, como até na correcção dos nossos defeitos, enquadrando nervosos e coléricos.

O Mestre de Aviz foi um deles. O filho de D. Pedro e Teresa Lourenço herdou a audácia dos afonsinos temperada com a prudência e a arte de saber viver da mãe galega. Caracterologicamente apresenta-se-nos um apaixonado equilibrado. Emotivo sem ardor, activo mas não febril, secundário e no entanto só inibido pelo senso das oportunidades. O conjunto de altas virtudes médias que reunia granjeou-lhe a devoção popular sem que alertasse a inveja dos grandes. Tornou-se o homem do grave momento histórico de que sagazmente soube aperceber-se, em que se operou a conjugação da vitalidade urbana e burguesa como novo arranque do patriotismo. Não devemos ter por mediocridade a ausência de excessos numa pessoa que assegurou ponderadamente a metamorfose do meio nacional sem ruptura entre oposições profundas, tais o romanismo de João das Regras e a ética medieval de Nun'Álvares, os interesses de uma nobreza embora renovada com os da ascensão da classe popular. Obra de serena paixão foi essa que o feliz casamento do rei favoreceu, ao longo de um reinado cuja duração roçou meio século.






O Infante de Sagres encarna um caso feliz e superior da mistura de sangues, como aliás a «ínclita geração» a que pertenceu. Entre latino e anglo-saxão, o seu génio, dos mais completos da História, é o de um «apaixonado metódico». Nele se confunde monoliticamente a sonhadora ebulição e o ardor da vontade dos meridionais, com a persistência e o espírito prático dos fleumáticos, capaz de subordinar a afectividade aos rumos intelectuais de acção e às exigências desta.

Místico e negociante, cruzado e sábio, motor imóvel de navegações, sonhador e calculista da Aventura, teve de fazer a ciência, os homens e o dinheiro que um sorvedouro implacável consumia. Até o monopólio da indústria dos sabões obteve, a braços com enormes despesas, num orçamento que as altas receitas jamais equilibrariam, tão ilimitada era a empresa.

Metido no seu promontório de onde custava arrancá-lo, torre de comando feita de rochas a pique avançando sobre o mar, aí lhe principiava o mundo só de oceanos e terras virgens. Espírito fervente e solitário, movia sistematicamente uma devassa geográfica sem par e a valorização das terras novas. Em tudo pensava numa entrega total.

Ocorre duvidar-se dos sentimentos desse homem, sacrificando um irmão cativo em Tânger, não diligenciando o bastante para evitar o desastre do outro em Alfarrobeira. A sua aborção na empresa marítima porém explica tudo, mesmo essas falhas de afecto. Deu-se com o Infante uma especialização da emotividade pelo estreitamento do campo da consciência que naturalmente o inibia para o que não estivesse no interesse fundamental.

(...) No rei D. João II observemos o apaixonado muito secundário (grupo dos «circunspectos», já para-sanguíneos) conseguindo a objectividade e o sentido prático dos extrovertidos, pelo domínio de si próprio e os dotes da inteligência. As suas intrépidas intervenções pessoais não destroem este juízo, pois foram rodeadas de todas as cautelas e maduramente premeditadas. O espírito de previsão e de planear à distância, a retenção do despacho (Garcia de Resende) confirmam a sua pronunciada secundaridade.

Não lhe quadra a frieza atribuída por Oliveira Martins. A força interior do Princípe Perfeito é a dum apaixonado, bem como a veemente prossecução dos fins; os pequenos episódios relatados pelos cronistas, a ternura filial, o fervor religioso traiem o emotivo; nas palavras, nas obras há o apego ardente aos desígnios da lei e da grei.

Afonso de Albuquerque, pela grandiosa concepção global e uma energia de acção que o levava a correr obstáculos só para os esmagar, ressalta das odisseias quinhentistas como o protótipo do herói consciente quando os heróis foram enxame. A sua decisão de ataque em sequência combativa que estafava os capitães, a propensão à discordância, poderiam levar-nos a enquadrá-lo nos coléricos, se tudo isso não obedecesse, não se dispusesse em geratrizes de uma construção ideada em grande. Terá justo lugar entre os «apaixonados» e, discriminadamente, nos «imperiosos» - família de Napoleão e Alexandre. Assim Fernão de Magalhães, no qual se verificou uma atitude a que tais apaixonados imperiosos e impetuosos são atreitos, sacrificando o interesse da própria pátria às exigências de uma realização que se lhe apodera do espírito («procedimento de Coroliano»).

Convento de Mafra















Desconcertante é a figura de D. João V. O gosto do fausto, a vaidade, a prodigalidade, o desregramento sexual intervalado com fervor religioso e culto das artes, parecem evidenciar uma psicologia presencista instável. Contudo, além de se lhe não poder negar laboriosidade (assídua presença e intervenção na gerência dos negócios do Reino), verifica-se que tudo se subordinou ao empenho dominante de efectivar uma concepção, por certos considerada megalómana, da primazia de Portugal entre as nações. O interesse pelas exterioridades não consegue ocultar radicações mais profundas, de ordem cultural, patriótica e teocrática, aliás bem patentes na sua obra. De onde resulta que ao Rei Magnânimo, a despeito de alguns traços de emotivo primário, melhor quadra o tipo caracterológico apaixonado, com aspectos não raramente imperiosos.

Apaixonado para-sentimental parece-nos ter sido D. Pedro V. Meditativo de propensão, mas exigindo de si próprio uma ordem de determinações que o impedia de abster-se, e da simples entrega à vida interior e ao estudo. Espírito profundamente sério, capaz de dedicação metódica de um fleumático, sensibilidade aguda e plena de sentido social. D. Pedro V exprimiu-se no entanto como activo secundário (nada assinava que não lesse e compreendesse primeiro). O apaixonado está patente nesses caracteres confluindo na tensão com que exerceu a sua missão de rei.

Mouzinho da Silveira, reformador do liberalismo exemplifica o apaixonado laborioso. Da sua grande capacidade de trabalho não se pode duvidar. Nem faltam episódios na sua vida a provar que, além de activo, era emotivo. A secundaridade desse legislador também nos parece manifesta, descontentando às vezes os revolucionários extremistas, com o seu espírito ponderado, resistente às imposições da política partidária.

Na psicografia dos «nervosos» é de situar o rei D. Fernando, versátil, dado aos prazeres («amador de mulheres e achegador a elas, «cavalgante e torneador»), brando, inconsequente nos propósitos. O seu reinado tornou-se perigoso para a independência do soberano, suprimindo-lhe em partes os defeitos, promoveu mais um passo, e decisivo, na estruturação da sociedade portuguesa.

As características do «sanguíneo» ajustam-se a João das Regras. Trabalhador, positivo e objectivo, oportuno, ágil em discernir, hábil no encontro das soluções adequadas. «Sotilidade e clareza de bem falar» conforme Fernão Lopes, tinha esse «grão-doutor» de rosto florentino que assimilava brilhantemente na Itália a nova ciência dos legistas. Possuía a visão clara e fria dos extravertidos, a primaridade das reacções imediatas. Não será arriscado classificá-lo entre os sanguíneos (e no sub-grupo dos vivos) que detêm os máximos valores nas respostas aos quesitos sobre «talento oratório» (9.39), «presença de espírito» (9.83) e «rapidez de concepção» (9.27) (1). Apresentam-se especialmente dotados de sentido prático pelo que se adaptam às novas situações. João das Regras soube encontrar e impor mediante argumentos jurídicos e morais pertinentes na época, a solução que convinha ao interesse do País na sucessão do trono, vago pela morte de D. Fernando. Lúcido se mostrou quer em política exterior, quer na organização jurídica interna, em defesa do poder real contra os privilégios.

O rei D. Duarte aparece-nos como sentimental. Emotivo muito secundário, hesitante e frouxo de vontade. A sua verdadeira vocação era o estudo, o espírito pendia-lhe à melancolia. O desastre de Tânger e especialmente o cativeiro de D. Fernando levantaram-lhe problemas morais que, incapaz de resolver, lhe amarguraram a vida que assim foi breve. Príncipe esclarecido e justo, deixou-nos a marca da sua sabedoria em livros e leis.

O Infante D. Fernando feito prisioneiro e arrastado pelo souk de Tânger e humilhado pela população nativa (pintura de Eugene Delacroix, designada "Os Fanáticos de Tânger").


Traços evidentes de fleumático apresenta o Infante D. Pedro. Activo, pouco emotivo, extremamente secundário. Avesso à demagogia, interessado mas isento, desprezando as honrarias, com a consciência perfeita, sempre igual, dos ditames do dever e das obrigações sociais dos dirigentes. Constante no trabalho e no temperamento, incorreu, ao menos uma vez, na desastrada explosividade dos frios, feita de ressentimentos dominados. O valor intelectual e moral fez dele uma das figuras mais nobres e clarividentes da época, vitimada contudo pelas ambições que não reconheceu e pelas intrigas de que se alheava. A mesma ordem de ideias exigiria o temperamento mais forte de seu sobrinho neto, D. João II, com actos de raposa e de tigre, a fim de ser imposta ao nosso meio.

Na rainha D. Maria I vemos uma sentimental, piedosa em extremo, para-apaixonada; no rei D. João VI um apático, pouco activo, pouco emotivo, mas extremamente secundário (in Ensaio de Psicologia Portuguesa, Guimarães Editores, 1971, pp. 192-200).


(1) Trata-se de quesitos do questionário de G. Heymans e E. Wiersma.

Continua