terça-feira, 30 de agosto de 2011

«Vincit omnia Veritas»

Escrito por Miguel Bruno Duarte









«A Rússia é uma charada, embrulhada num mistério, dentro de um enigma».

Winston Churchill



A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre é um livro de Leonardo Coimbra que contém o desenvolvimento de uma conferência que, em 1934, fizera em Lisboa no Teatro de S. Carlos. Convidado no âmbito de um organismo cultural salazarista, a verdade é que Leonardo anuíra conferenciar, não por que se convertera à situação política vigente, mas porque sentira a imperiosa necessidade de defender a liberdade da ameaça mais temerosa que desde logo se impunha: o comunismo.

Leonardo viu, pois, que um tal perigo, no contexto do niilismo e do messianismo eslavófilo, se apoderara da alma apocalíptica russa, quanto mais não fosse mediante a importação de múltiplas ideologias concorrentes para o mesmo fim:

«O socialismo russo tem, pois, duas formas completamente diferentes, ambas elas de importação, mas transformadas logo pelo apocaliptismo russo: a forma sentimental, de origem essencialmente francesa, e a outra forma judeogermânica de aspecto e vestuário cientista, filha do judeu alemão Marx e neta da orgia intelectual de Hegel. Este último representa um fenómeno curioso na história do pensamento humano: um ciclone governado por um cronómetro, dizia Junqueiro da Alemanha guerreira de 1914; pois a paráfrase para Hegel daria – um ciclone de pensamento governado pelo seco e gratuito formalismo do ritmo dialéctico. Hegel influiu directa e indirectamente no pensamento russo bem mais do que é costume dizer-se.

Ainda hoje
– prossegue Leonardo – o chamado materialismo dialéctico, com que os russos pretendem servir o imperialismo duma vontade absorvente, captando para ele as forças da idolatria cientista, é um monstro em que, num hibridismo de quase loucura, se juntam os materialismos polémicos do século XVIII e o cientismo moderno com a dialéctica hegeliana.

Todo o fundo irrequieto, instável e catastrófico do povo russo se acumula no subsolo social, fazendo supor que poderia subir à tensão explosiva dos mais formidáveis cataclismos.

Mas são forças elementares, paixões desordenadas (combates, que quase diríamos pessoais ou de famílias) próprios para gerarem uma atmosfera de irritação e terror, mas pouco capazes duma acção disciplinada, contínua e coerente.

A todas estas forças falta uma resultante consciente e dirigida: são petardos, bombas de alto potencial a que falta o pensamento comandando a mão que as há-de fazer explodir»
(1).

E mais aquilata Leonardo:

«Era o marxismo que naturalmente estava indicado para ocupar o lugar vago deixado na alma russa pela sua não-aceitação cultural, pelo seu radical niilismo e pelo seu sonho idealista, messiânico e apocalíptico da Parúsia.

Foi, com efeito, o marxismo que deu corpo a todo o revolucionarismo russo, que, parafraseando Turgueniev, poderemos dizer que vivia no estado gaseiforme – embora de gazes tóxicos e em pressão explosiva.

A história do marxismo na Rússia é, depressa, a história do leninismo e, mais até, a história do próprio Lenine»
(2).












Para além de Leonardo Coimbra, outros pensadores viram igualmente as consequências que o socialismo implicara para a humanidade sofredora. Frederico Hayek chegara, inclusivamente, a descrever como o fascismo e o nazismo teriam nascido de movimentos socialistas no termo imediato da Grande Guerra, ou de como o socialismo, em sua oposição aos princípios da filosofia clássica, do cristianismo e do direito romano, tivera a sua origem em antigas doutrinas vindas do Leste para, por fim, minar, a partir de 1870, a Alemanha e, com ela, o espírito da civilização europeia. Depois, há ainda o caso de Henri Massis, que, no livro intitulado A Nova Rússia, confirmou de que modo o marxismo fora tão-só um instrumento do imperialismo revolucionário pan-eslavófilo.

Hoje, são por demais evidentes as atrocidades cometidas pelo marxismo-leninismo durante o século XX. E tudo fora, por certo, planeado para o triunfo do homem novo que jamais prevaleceria sobre o homem de sempre. Porém, não obstante a aparente falência do eurocomunismo e da revolução mundial suscitada pelo império soviético, eis senão que ora surge uma nova mobilização eurásica de forças direccionadas para a destruição política, económica e militar da já moribunda civilização ocidental.

De resto, consta que o ideólogo revolucionário do 'Império Eurásico', em que também surge incluído Portugal, é o activista e geopolítico russo Aleksandr Dugin. Nesse sentido, a nova estratégia parece ser, na sequência do czarismo e do estalinismo, a implantação de uma autocracia planetária que, dirigida e propagada por Moscovo, visa disseminar a revolução antiliberal, anticapitalista e, por consequência, antiamericana. Assim, o intuito de A. Dugin, já considerado um dos principais conselheiros geopolíticos de Vladimir Putin, é o de estabelecer todo um complexo de forças islâmicas, russas e chinesas para esmagar o individualismo, o ateísmo e o progressismo em prol de um “bolchevismo de direita” radicado numa Igreja ortodoxa estatizada e conivente com as antigas práticas de controlo, vigilância e opressão do KGB.

Ora, isto fora já plena e profusamente traçado por Olavo de Carvalho aquando do debate travado com o prof. Dugin no âmbito do Instituto Inter-Americano. E, de facto, fora manifestamente visível a superioridade olavina por virtude da sua argumentação firmada na filosofia clássica e na política internacional. Logo, não menos visível fora ainda a flagrante contradição do prof. Dugin ao reivindicar uma Tradição primordial e anti-moderna quando, na verdade, aquilo que defende contra o Ocidente materialista e decadente na linha de um René Guénon e tutti quanti, tem precisamente origem na confusão proveniente duma «hipermodernidade», como por vezes lhe chama.

Consequentemente, os sofismas e os paralogismos do revolucionário russo incidem numa série de afirmações tais como: 1. A dualidade entre sujeito e objecto é apenas uma característica própria do pensamento ocidental; 2. A universalidade não existe enquanto princípio subjacente e transcendente a toda a determinação étnica, linguística, artística, científica e filosófica; 3. A lógica é uma estrutura conceptual exclusivamente ocidental a par de outras estruturas conceptuais não propriamente lógicas, como a islâmica, a hindu ou a chinesa; 4. A existência é um dado problemático impossível de experienciar na sua gravidade e profundidade; 5. O Ocidente é a fonte de todos os males; 6. O globalismo é apanágio exclusivo do Ocidente, do americanismo, da modernidade, da «economia de mercado» e do imperialismo unipolar; 7. A ideologia triunfante da elite globalista e norte-americana assenta no individualismo, no liberalismo e no capitalismo; 8. A derradeira alternativa joga-se entre o eurasianismo e o atlantismo cuja batalha final terá lugar entre o Ocidente materialista pós-moderno e as sociedades tradicionais (russos, chineses, indianos, japoneses, islâmicos, etc.); 9. A Cristandade ocidental encontra-se na origem do secularismo moderno; 10. O Estado de Israel é o motor financeiro e conspiratório subjacente ao imperialismo americano; 11. A Direita conservadora americana é uma nulidade e está irreversivelmente condenada ao fracasso; 12. O espírito guerreiro do Ocidente tem a sua origem na Pérsia, na Índia ou na Rússia; 13. A salvação reside na destruição completa do Ocidente para dar lugar à espiritualidade neo-socialista do 'Império Eurásico'.








Ora, perante este panorama, talvez seja ainda possível compreender melhor a alma russa com base na seguinte consideração:

«Com efeito, logo que uma ideia entra no pensamento de um russo deixa de ser uma abstracção; torna-se verdade concreta. E esse russo passa a julgar todas as coisas segundo essa "verdade", não o tolhendo nem obscuridades nem dificuldades de interpretação (3). Nenhumas considerações sobre o desconhecido ou impossível. Por que não pôr à solta todas as impulsões humanas? Por que não escaqueirar em bocados todo o planeta? A semelhante apelo do instinto ébrio de destruição (cujo furor a pior das ideologias veio a exasperar), nenhuma resposta, nenhuma resistência (4).

"Se fosse possível meter um desejo russo debaixo de uma fortaleza – dizia Joseph de Maistre -, a fortaleza iria pelos ares". E ao próprio Michelet assustava a potencialidade de destruição contida nessa tão mal encaminhada nação, considerando-a verdadeiro perigo para o género humano. Verificando que "as fronteiras do mundo da Lei são ainda onde eram na Idade Média: junto do Vístula e do Danúbio", Michelet escrevia em 1863: "Nunca faz sentido, em absoluto, dizer que um de nós, ocidentais, é céptico ou duvidoso. O que é incrédulo em história é resolutamente crédulo em química ou em física. Todo e qualquer homem, no Ocidente, tem fé em qualquer coisa; as almas, aqui, nunca são vazias. O mundo russo, porém – esse mundo absolutamente ignorante e bárbaro –, vazio por tradição, continua a ser mantido espiritualmente vazio. Se tal estado durar, se o homem continuar a descer o plano inclinado da dúvida, nada conseguirá pará-lo, nada poderá contrabalançar esse movimento e teremos o apavorante espectáculo de uma demagogia sem ideia, sem princípio nem sentimento, de um povo que caminhará para o Ocidente, num cego impulso, tendo perdido a alma e a vontade, golpeando ao acaso, terrível autómato, cadáver galvanizado por força irresistível que o fará ferir e matar ainda depois de morto". E algumas páginas mais adiante, Michelet observava: "De nós, a Rússia só assimila o mal. Atrai e absorve todo o veneno da Europa – para o devolver aumentado e ainda mais perigoso. Quando aceitamos a Rússia, aceitamos a cólera, a dissolução, a morte. – 'Que é isso, filósofo? diz-nos com a sua voz mais doce a jovem escola russa que floresce nas nossas revistas. Afastai-vos dos vossos irmãos? Onde pára a filosofia?'" Tal é a propaganda russa, concluía Michelet, infinitamente variada conforme os povos e os países. Ontem dizia-nos: "Sou o Cristianismo". Amanhã proclamará: "Sou o Socialismo"» (5).

A Eurásia, já proclamada pelo prof. Dugin, também fora um dos objectivos preconizados no Mein Kampf, de Adolfo Hitler. Essa criação pressupunha, aliás, um prévio entendimento com a Inglaterra em oposição aos Estados Unidos e a uma Ásia oriental de hegemonia japonesa. Além disso, baseava-se numa concepção geopolítica a que não era certamente estranho Rudolf Kjellén, cuja popularidade também incidira no império do Kaiser pelo facto de ver no eixo Berlim-Bagdade a linha de expansão da Alemanha como grande potência continental.

Ora, Carl Schmitt, jurista alemão ligado ao nazismo e, nomeadamente, uma das influências teóricas de Aleksandr Dugin, fora quem, nos anos trinta do século passado, retomara a tese de Rudolf Kjellén sobre a possibilidade de uma Alemanha enquanto potência representante do Continente europeu. Por outro lado, Carl Schmitt também retomara boa parte da questão relativa à oposição geopolítica entre as potências terrestres e as potências marítimas, desde logo presente na obra do inglês Halford Mackinder, o director da London School of Economics antes da Grande Guerra, e também ele uma das influências teóricas do prof. Dugin.









Rudolf Hess














Há ainda a obra de Karl Haushofer, um professor universitário de geopolítica (6) e amigo íntimo de Rudolf Hess, que, por seu turno, servira de intermediário entre aquele e Adolfo Hitler para a elaboração do Mein Kampf aquando da prisão resultante do fracassado putsch de 1923. Nascera assim o expansionismo imperialista alemão com base naquilo que Mackinder definira como «o coração da terra», ou seja, a Europa oriental e a Rússia europeia tornar-se-iam invencíveis com a conquista da enorme extensão territorial que as protegeria de qualquer ataque. Em suma: a relação entre Hitler, Hess e Haushofer não só radicava na geografia política capaz de abranger as diferentes culturas islâmicas (7) e da Ásia oriental, como também integrar e canalizar a dimensão hermética e astrológica (8) paralela ao ponto de vista histórico e convencional do racionalismo clássico.

Entretanto, em profundo e assinalável contraste com o sobredito, distingue-se a filosofia portuguesa nas palavras de Álvaro Ribeiro:

«Meditando sobre a ambição dos povos germânicos e eslavos, que pretendiam estabelecer e dominar o caminho continental que liga o extremo Ocidente com o Oriente extremo, saibamos ver a superioridade do caminho marítimo que devemos às tradições conservadas pelos navegadores portugueses. Deixemos ao contento dos medíocres a interpretação técnica, científica ou metafísica da aventura; sempre as explicações exotéricas hão de servir para quem não for capaz de alcançar as intuições esotéricas. Saibamos ver no simbolismo aquático a melhor transição do Ocidente para o Oriente, do morrer para o nascer, enfim, do renascimento ou da ressurreição.

A libertação
 do pensamento humano terá de ser religiosa. Para além dos quatro elementos, apresentados ao homo viator e ao povo navegador, existe um quinto elemento a considerar. A tradição clamante na bandeira das quinas exerce sobre todos nós um apelo imarcescível, ao qual só a impiedade e a ignorância podem resistir» (9).

Porém, à margem desta libertação, existe um complexo e renovado processo com vista ao aproveitamento ideológico de autores assaz «críticos» da «civilização» moderna e pós-moderna. Entre esses autores destacam-se René Guénon, Julius Evola e Frithjof Schuon, que, de um modo geral, repudiaram ideologias populistas como o fascismo, ou, inclusivamente, denunciaram o pseudo-orientalismo e falsas doutrinas afins. Nesse sentido, é, pois, compreensível que não perfilhassem afirmações do tipo:

«Os intelectuais difamadores da nossa civilização, virados para o espírito das antigas épocas, sempre foram inimigos do progresso técnico. Por exemplo, René Guénon ou Gurdjieff, ou os inúmeros hinduístas. Mas o nazismo foi o momento em que o espírito de magia se apossou das alavancas do progresso material. Lenine dizia que o comunismo é o socialismo mais a electricidade. De certa maneira, o hitlerismo era o guenonismo mais as divisões blindadas» (10).









Neste ponto, é óbvio que estrategas, como Aleksandr Dugin, estão explorando tudo o que, de uma forma vaga e imprecisa, possa ser arremessado contra o Ocidente. No caso particular de René Guénon, a questão é inteiramente outra, porquanto centrada na clarividência espiritual já entretanto perdida pela humanidade decaída, a ponto de não haver como «recuperá-la» senão com base na iniciação supra-individual. Aliás, a expressão por ele empregue é a de rattachement initiatique, desenvolvida nos seguintes termos:

«On peut dès lors comprendre que la nécessité du rattachement iniciatique est, non pas une nécessité de principe, mais seulement une nécessité de fait, qui ne s’en impose pas moins rigoureusement dans l’état qui est le nôtre et que, par conséquent, nous sommes obligés de prendre pour point de départ. D’ailleurs, pour les hommes des temps primordiaux, l’initiation aurait été inutile et même inconceivable, puisque le développement spiritual, à tous ses degrés, s’accomplissait chez eux d’une façon toute naturelle et spontanée, en raison de la proximité oú ils étaient à l’égard du Principe; mais, par suite de la "descente" qui s’est effectuée depuis lors, conformément au processus inévitable de toute manifestation cosmique, les conditions de la période cyclique où nous nous trouvons actuellement son tout autres que celles lá, et c’est pourquoi la restauration des possibilités de l’état primordial est le premier des buts que se propose l’initiation. C’est donc en tenant compte de ces conditions, telles qu’elles sont en fait, que nous devons affirmer la necessité du rattachement initiatique, et non pas, d’un façon générale et sans aucune restriction, par rapport aux conditions de n’importe quelle époque ou, à plus forte raison encore, de n’importe quel monde» (11).

Por conseguinte, um tal processo também passava, segundo o autor francês, por uma ligação efectiva a uma organização de ordem iniciática. Ora, em Portugal foi, sem dúvida, António Telmo quem procurou assumir essa ligação de um modo simultaneamente filosófico e kabbalístico, a avaliar pela forma como, na esteira de Fernando Pessoa, se considerava um médium literário de uma ordem Templária activa mas completamente encoberta (12). Logo, não por acaso interpretou a sua História Secreta de Portugal à luz dos ensinamentos tradicionais de Guénon, entre eles o referente ao Omphalos como «umbigo» ou Centro do Mundo (13).

Nesse contexto, o Kabbalista de Extremoz também nos diz que Guénon se remetera ao silêncio quanto ao que se passara em Portugal após a destruição da Ordem do Templo (14), o que, aliás, não constitui motivo de espanto na exacta medida em que a Tradição Templária em Portugal mantinha aspectos gnósicos, písticos e sóficos que naturalmente escapavam a quem partia de uma hermenêutica simbólica mais eurocêntrica do que propriamente transatlântica. E sobre isso, diz-nos ainda Álvaro Ribeiro:

«Da Fundação da Nacionalidade à fundação da Universidade por D. Dinis, decorre um período de filosofia mediterrânea em que consideramos as vicissitudes da Europa na mediação entre o Ocidente e Oriente. Com a transferência dos segredos dos Templários para a Ordem de Cristo cessa a vigência do simbolismo do túmulo e da pedra para assumir regência o simbolismo da água, do peixe e da nave. A dúvida quanto à significação da pedra sobre a qual haveria Cristo de edificar a sua Igreja, pedra de ara ou pedra filosofal, suscitando livre discussão dentro da ortodoxia, excitava a razão a aperfeiçoar-se em inteligência.

Sem o estudo da obra de Dante, de toda a obra e não só da
Divina Comédia, dificilmente compreenderemos as tradições que no fim da Idade Média preparam o Renascimento. O século XIII marcava o apogeu da filosofia eclesiástica, apresentando ao mundo cristão as obras de S. Boaventura e de Santo Tomás de Aquino. A obra de Dante dera-nos, porém, uma nova tradição interpretativa de Aristóteles que muito influiria na cultura portuguesa.



Dante Alighieri






































Convém aproximar a doutrina dos três planos teológicos – Inferno, Purgatório, Paraíso com a doutrina dos quatro elementos, incluída na cosmologia de Aristóteles. Se o simbolismo da terra é inferior ao simbolismo da água, se o simbolismo pagão da agricultura é inferior ao simbolismo cristão da pescaria, se o simbolismo do túmulo é inferior ao simbolismo da nave, a navegação portuguesa, utilizando os elementos superiores da física, correspondia à tradição de mais fluído e subtil simbolismo. A Terra é uma nave, e as viagens em demanda do Oriente pelo Ocidente visaram a promessa cristã de reintegração do Homem e da Natureza no plano primitivo ou original» (15).

Contudo, Dante também parece ter permanecido à margem de todo o processo implícito na transferência da fortuna, das propriedades e dos tesouros da Ordem do Templo para a Ordem de Cristo (16). Deste modo, é, pois, compreensível como a missão histórica e espiritual de Portugal transcende larga e profundamente a óptica de autores em grande parte periféricos à tradição política e religiosa de uma cultura transfigurada pela cruz templária de Cristo. E, nesse caso, de uma cultura profundamente estranha a renovadas formas de ódio e destruição à escala planetária.

Aliás, já Orlando Vitorino, confrontando por vezes António Telmo sobre os equívocos do ocultismo e do esoterismo sem mediação filosófica, e, portanto, sem o «sentido interior, autónomo, real em si, da "concepção"» (17), resumia a questão em termos lapidares:

«(...) Há hoje entre nós numerosos ocultistas, fenómeno que, além de extensivo e diversos povos europeus, é o equivalente intelectual do revivescer da religiosidade por desprezo para com os activistas políticos e por agressividade para com a vazia cultura oficial. Esses ocultistas de origem e expressão intelectual chegam a organizar-se em agrupamentos “tradicionais”, como os de simbologia “templária”, e realizam cerimónias e simpósios internacionais a que dão, paradoxalmente, a mais desocultante publicidade e ocupam, ainda mais paradoxalmente, cátedras universitárias. A sua via de iniciação mais frequente é a obra do francês René Guénon, obra de leitura muito fácil e sugestiva, sobretudo para adolescentes. Constitui ela um constante e azedo, embora fundamentado e justificável, requisitório contra a civilização ocidental, que reduz ao que resultou da ciência moderna, considerando-a uma profanação desvirtualizadora mas substituindo-lhe um sistema de rememorações orientalistas que desenvolve em círculos viciosos de semelhanças, sincretismos e identidades simbólicas. Os iniciados são, deste modo, levados a afastar, das imagens e dos símbolos, os conceitos e as noções, ou seja, a filosofia e o pensamento. Ficam a braços com símbolos vazios e imagens sem legenda. Ficam ignorando que a única iniciação intelectual na verdade que a religião guarda ou de que dá imagem e símbolo, é a filosofia, e disso temos o mais eloquente exemplo na biografia espiritual de Leonardo Coimbra da qual Santana Dionísio acaba de publicar o admirável e indispensável guia.

O inspirador
 sempre presente e exaltado dos nossos ocultistas é Fernando Pessoa. O ocultismo de Fernando Pessoa é de carácter erudito ou, como ele próprio dizia da erudição, parasitário, mas revela-se com originalidade na poetização de uma imagética para a história de Portugal. O que o ocultismo procura como sua finalidade é o que, não Pessoa (e ele bem o sabia e disse), mas Pascoaes, criou desde a origem e para além da erudição, em símbolos poéticos com vivida experiência e conceptualizada intuição. Os nossos ocultistas preferem, porém, o poeta-artista (para empregar uma distinção de Régio), que vai da imagem para o conceito, ao poeta-pensador, que vai do conceito para a imagem. E porque ao poeta-artista muitas vezes acontece ficar pelo caminho, se dispensam eles de seguir o caminho até ao fim...» (18).






De resto, a imagem apocalíptica de uma Eurásia inimiga do Ocidente pouco ou nada parece simbolizar do ponto de vista supra-conceptual. Ela sugere, na melhor das hipóteses, uma dialéctica confinada a uma actividade destrutiva e anti-humana decorrente do neocomunismo invasor. Mas, seja como for, uma coisa é certa: Vincit omnia Veritas («A Verdade tudo vence»).


Notas:

(1) Leonardo Coimbra, A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, Livraria Tavares Martins, 1962, pp. 349-350.

(2) Idem, p. 362.

(3) Falando da influência que os Stuart Mill, os Darwin, os Strauss exerceram sobre a mocidade russa, Dostoievsky refere-se ao que chama «o aspecto russo das suas doutrinas». «Esse aspecto» - escreveu - «existe realmente. Consiste nas conclusões que na Rússia reduzem essas doutrinas, com a forma de indiscutíveis axiomas. Na Europa não se suspeita sequer da possibilidade de semelhantes deduções» (Diário de um escritor).

Encontra-se em Máximo Gorki um exemplo flagrante deste fenómeno: «Certo professor russo, filho de camponeses, elaborou um projecto que visava a supressão dos velhos e dos inválidos, dado que a sua existência saía muito cara ao povo e dirigiu às autoridades soviéticas um relatório sobre o caso, o qual começava assim: 'Considerando que o célebre sábio Darwin demonstrou a necessidade de se lutar implacavelmente pela existência e que não faz qualquer objecção à supressão dos homens fracos e inúteis, etc., é preciso reduzir a zero esse género de despesas!'» (Lénine et le paysan russe).

(4) Dostoievsky mostra-o «arrebatado pela torrente fatal da auto-negação e da auto-destruição, naturais no carácter russo, torrente que se solta com fulgurante rapidez em certas épocas da existência deste povo» (Diário de um escritor).

(5) Cf. Henri Massis, A Nova Rússia, Livraria Tavares Martins, Porto, 1945, pp. 45-48.

(6) Karl Haushofer deu à estampa, em 1923, a obra intitulada Geopolítica da Autodeterminação, e fundou, no final do mesmo ano, a revista «Zeitschrift für Geopolitik».

(7) Daí a decorrente criação das divisões SS islâmicas. Aliás, Heinrich Himmler é outra das personagens por quem Dugin já manifestou profunda admiração, e a qual, de acordo com o testemunho do seu médico pessoal (cf. Memoirs of Doctor Felix Kersten, New York, 1946) considerava-se a encarnação de Henrique o Passarinheiro. De resto, sobre as SS ressalta o seguinte: «Central de energia edificada em redor da central principal, a Ordem Negra isola do mundo todos os seus membros, seja qual for o grau iniciático a que pertençam. "Bem entendido, escreve Portel, não era mais do que um pequeno círculo de altos graduados e de grandes chefes S.S. que estavam ao corrente das teorias e das reivindicações essenciais. Os membros das diversas formações 'preparatórias' só foram informados quando lhes foi imposto, antes de contraírem matrimónio, que pedissem autorização aos seus chefes, ou quando os colocaram sob uma jurisdição própria da Ordem, extremamente rigorosa aliás, mas cujo efeito era de os subtrair à competência da autoridade civil. Verificaram então que fora das leis da Ordem não tinham qualquer outro dever, e que já não havia para eles existência privada".

Os monges (monge = grego
monos = só) combatentes, os S.S. com o emblema da caveira (que é preciso não confundir com outras organizações como a Waffen S.S., compostas por irmãos leigos ou por terciários da Ordem, ou ainda por mecânicas humanas construídas à semelhança do verdadeiro S.S., como reproduções côncavas de modelo), receberão a primeira iniciação em Burgs. Mas primeiro terão passado pelo seminário, a Napola. Ao inaugurar uma dessas Napola, ou escolas preparatórias, Himmler reduz a doutrina ao seu mais pequeno denominador comum: "Crer, obedecer, combater e é tudo". São escolas onde, como diz o Schwarze Korps de 26 de Novembro de 1942, "se aprende a dar e a receber a morte". Mais tarde, se disso são dignos, os cadetes recebidos nos Burgs compreenderão que "receber a morte" pode ser interpretado no sentido de "matar o seu eu". Mas se não são dignos, é a morte física que receberão sobre os campos de batalha. "A tragédia da grandeza é ter de pisar cadáveres". E que importa? Nem todos os homens têm existência verdadeira e há uma hierarquia da existência, do homem-fingido ao grande mago. Mal sai do nada, o cadete volta para lá, depois de vislumbrar, para a sua salvação, o caminho que conduz à figura esplêndida do Ser…

Era nos Burgs que se pronunciavam os votos, e que se entrava num "destino sobre-humano irreversível". A Ordem Negra traduz em actos as ameaças do doutor Ley: 'Aquele a quem o partido retirar o direito à camisa negra – é preciso que cada um de nós o saiba -, não só perderá as suas funções como ainda será aniquilado, na sua pessoa, nas pessoas da sua família, de sua mulher e de seus filhos. Tais são as duras leis, as leis implacáveis da nossa Ordem'» (in Louis Pauwels e Jacques Bergier, O Despertar dos Mágicos, Bertrand Editora, 1987, pp. 386-387).








































(8) Convém notar que não interpretamos o nazismo num sentido estritamente esotérico, como fazem alguns historiadores do oculto fantástico. No entanto, também não o interpretamos do ponto de vista da historiografia oficial.

(9) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Portugália Editora, 1955, pp. 242-243.

(10) Louis Pauwels e Jacques Bergiers, O Despertar dos Mágicos, p. 351.

(11) René Guénon, Initiation et Réalization Spirituelle, Éditions Traditionnelles, Paris, 1990, pp. 52-53.

(12) Cf. António Telmo, Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005, p. 75.

(13) Cf. António Telmo, História Secreta de Portugal, Veja, Colecção Janus, pp. 37-38.

(14) Idem, pp. 35-36.

(15) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, pp. 139-140.

(16) Cf. António Quadros, Portugal, Razão e Mistério, II, Guimarães Editores, 1987, p. 128.

(17) Cf. António Telmo, Arte Poética, Guimarães Editores, 1993, p. 121.

(18) Orlando Vitorino, «Os Camitas», in O processo das Presidenciais 86, Lisboa, 1986.


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