segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Goldfinger

Escrito por Ian Fleming







- Do you expect me to talk? - No mister Bond, I expect you to die! Ora, quem não terá ainda visto e escutado esta troca de impressões entre Sean Connery no papel de 007 e um ourives metalúrgico ao serviço de uma organização responsável por centenas de assassínios em todo o mundo – SMERSH, Smieri Spionam, «Morte aos Espiões»? Ela vem, pois, na sequência de uma criação literária de Ian Fleming adaptada ao cinema em 1964, e cuja trama consiste no boicote do célebre agente secreto ao plano de Goldfinger para roubar o ouro da Reserva Federal dos Estados Unidos.

Curiosamente, a equipa cinematográfica esteve para construir uma réplica de Fort Knox em Portugal (1), entretanto construída nos Estúdios Pinewood, em Londres. De resto, outro aspecto curioso é o facto de a personagem de Goldfinger - cujo guarda-costas (Oddjob) fora, aliás, personificado pelo lutador de wrestling Harold Sakata -, ter sido protagonizada por Gert Fröbbe, um alemão que nem sequer sabia uma palavra de inglês (2). E, no ínterim, não menos curiosa é a passagem em que Fleming descreve no seu livro as preferências de 007 em matéria de sabor:

«- Não costumo beber chá… Detesto o chá e creio que ele é uma das causas da decadência do Império Britânico. Traga-me antes uma boa chávena de café em vez dessa chávena de lama» (3).

De resto, em muito contribuíra a experiência de Fleming no Naval Intelligence Department (4) para a criação do seu agente secreto do MI6 - o serviço de contra-espionagem no estrangeiro (5). Aliás, o primeiro livro de Fleming, Casino Royale, também se baseara na sua passagem, em Maio de 1941, pelo Casino do Estoril onde se familiarizara com os jogos de azar, e onde também conhecera o agente triplo, Dusko Popov («Triciclo»), que trabalhara para o MI5 e, segundo consta, teria inspirado Fleming na criação do seu agente secreto com licença para matar (6).

Em Goldfinger, Fleming procurou aflorar a questão do ouro com base numa entrevista concedida pelo coronel Smithers – o director do serviço de investigação, falsificação e espionagem do Banco de Inglaterra – ao Comandante Bond. Ora, é precisamente nessa ocasião que transparece a importância do estalão-ouro enquanto sistema monetário estabilizador das relações internacionais no plano comercial e económico. No fundo, trata-se de uma questão directamente relacionada com presente crise financeira mundial, que, em muitos e variados aspectos, remonta ao colapso da bolsa de Nova York em 1929.




Vejamos, pois, a este propósito o quadro traçado por Franco Nogueira:

«Depois da crise económica que imediatamente se seguiu à guerra de 14-18, produziu-se um surto de equilíbrio e de prosperidade. Entre 1920 e 1925, era vasto e activo o comércio mundial; com vultosos empréstimos americanos, muitos países da Europa conseguiram estimular a indústria e a agricultura, e iniciar a realização de largos planos de desenvolvimento; e o índice de produtividade subia por toda a parte. Na raiz da nova riqueza encontravam-se os Estados Unidos. Encorajada pelo banco central americano, foi praticada uma política de dinheiro barato; e esta deu origem a investimentos maciços e especulativos e a manipulações da bolsa em escala sem precedentes. Entrou-se na inflação, no aumento de preços e salários. Mas ao dinheiro barato, e que estava disponível sem limites aparentes, não correspondiam a produção real nem o volume do comércio internacional. Por outro lado, os Estados Unidos insistiam com os Europeus para que estes liquidassem as suas dívidas de guerra, e respectivos juros, ao mesmo tempo que se empenhavam em lhes vender o excesso da sua produção, em particular da sua produção agrícola; mas, dentro do seu isolacionismo económico, e em virtude da política tarifária que impunham, os Estados Unidos tornavam inviável aos europeus colocar os seus produtos no mercado norte-americano. Deste modo, a Europa, sem poder vender, não podia comprar na América do Norte, nem tão-pouco solver as dívidas de guerra, a não ser com ouro, e este, por esse facto, acumulou-se nos cofres dos Estados Unidos. Esgotado o ouro, nada mais podiam os europeus pagar a Washington. Mas então os Estados Unidos lançaram-se numa política de investimentos e de empréstimos à Alemanha, para que esta pudesse reconstruir-se e pagar reparações de guerra (7). Com dinheiro americano pagava a Alemanha as reparações devidas à França e à Inglaterra; e com o dinheiro recebido da Alemanha pagavam estas as suas dívidas de guerra aos Estados Unidos; e estes, com aqueles fundos, voltavam a conceder empréstimos ao estrangeiro. Estabelecido o círculo vicioso, não era possível quebrá-lo sem crise. Não podendo a Europa comprar os excessos da produção agrícola americana, nem aliás necessitando da mesma porque entretanto refizera a sua própria agricultura, os preços no mercado interno americano começaram a cair para a produção agrícola dos Estados Unidos. Os fazendeiros reduziam despesas, e a indústria americana sentiu-se logo afectada. De súbito, há uma perda de confiança, e esta arrasta ao pânico. Em 24 de Outubro de 1929 – a quinta-feira negra – inicia-se o colapso da bolsa de Nova York. Em seis dias, os investidores americanos perdem quarenta biliões de dólares. Desmorona-se a economia dos Estados Unidos. São imediatas as repercussões mundiais. Contrai-se brutalmente o comércio internacional; fábricas ficam paralisadas e outras limitam a produção; a indústria do aço americana reduz-se a 10% da sua capacidade; os Estados Unidos retiram os seus empréstimos da Europa; cinco mil bancos americanos encerram as suas portas; bancos europeus da maior solidez, a principiar no Kreditanstalt austríaco, suspendem pagamentos; são por dezenas os milhões de desempregados; e, enquanto vastas populações estavam subalimentadas, eram destruídos os excessos da produção agrícola norte-americana. Estava em escombros a economia mundial. Nos estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Alemanha, por toda a Europa, os governos parecem perder o domínio dos acontecimentos. Há uma crise de confiança nas instituições políticas, na estrutura dos Estados, nos homens públicos. Perante o desastre, angustiados e perplexos, os povos interrogam-se, e é por muitos anunciado o desmoronamento do sistema capitalista» (8).

Perante este panorama, convém lembrar que Oliveira Salazar, ciente da crise operativa e instrumental da moeda, dos câmbios, do crédito e dos preços na organização da vida económica, procurara, em 1931, a acumulação de reservas para, mediante a restruturação do Banco de Portugal, fazer do escudo português uma moeda sólida e estável face à conjuntura nacional e internacional. E assim pudera, de facto, regulamentar a emissão e circulação de moedas de ouro, bem como as de prata destinadas a substituir as notas do Banco de Portugal de pequena denominação, ou ainda dar conta da circulação fiduciária em 2 200 000 contos mediante uma reserva de ouro de 30%. Enfim, Portugal conseguira retornar ao estalão-ouro a partir de 1 de Julho de 1931.



Oliveira Salazar



Porém, um acontecimento de repercussão mundial chamara gravemente a atenção do ministro das Finanças, conforme relata Franco Nogueira:

«Desde há semanas, o Banco de Inglaterra está a enfrentar levantamentos diários de mais de dois milhões e meio de libras; e há uma crise geral de confiança no esterlino. Demite-se o governo trabalhista; mas o seu chefe, Ramsay MacDonald, consegue formar um gabinete de coligação nacional que inclui liberais e conservadores. Procura-se incutir confiança, e salvar a libra, mas medidas drásticas, que afectam as forças armadas, quase provocam sedição; e agrava-se a corrida ao ouro de Inglaterra. Em 2 de Setembro, o governo britânico abandona o estalão-ouro e o esterlino é desvalorizado em quase trinta por cento. Pela Europa além, as bolsas são encerradas: os governos europeus e os da área do esterlino seguem a Grã-Bretanha (9). Para Portugal, o problema é grave: são em libras as reservas do Estado; na mesma moeda estão escriturados os seus empréstimos; larga percentagem do comércio externo é feita com a Inglaterra. Oliveira Salazar pergunta-se: que fazer? Abre debate no país, e são desencontradas as opiniões nos meios económicos e financeiros: e a maioria defende um estrito controle cambial, maior protecção pautal, dura limitação de importações, manutenção do padrão-ouro com todo o seu prestígio. Estas medidas, além do mais, harmonizam-se com o processo de estabilização iniciado pelo ministro das Finanças, e pertencem à rigorosa ortodoxia doutrinal que o caracteriza. Mas Oliveira Salazar é pragmático, flexível. Considera que a cobertura de uma moeda forte seria garantida por reservas provindas de uma exportação acrescida; para obter esta haveria que aviltar preços, e daí resultaria dano gravoso; e o excesso de importações teria de ser contrariado por barreiras pautais que conduziriam à retaliação. Poderia sobrevir um desequilíbrio. Estes argumentos, no entanto, não são pacíficos entre a opinião pública. Salazar resolve proceder a consultas. Chama os administradores dos grandes bancos de Lisboa; convoca os representantes da indústria, do comércio, da agricultura, dos retalhistas da cidade; depois escuta as forças económicas e financeiras do Porto; e ouve ainda instituições especiais de crédito. Toma a sua decisão: alinhar com o esterlino. E a 6 de Outubro, em Conselho de Ministros presidido por Carmona, o governo endossa a atitude do ministro das Finanças» (10).

Entretanto, Salazar continuara a apostar numa revalorização do ouro a nível mundial, por ser, aliás, a condição sine qua non para o funcionamento de um sistema monetário internacional por oposição à falsificação do dinheiro. Logo, vindas de Nova York, dariam entrada em Portugal, em 1931, três toneladas de barras de ouro para reserva metálica do Banco Central, e que, porventura, tendiam a contribuir para a crescente revalorização internacional do metal mais precioso do mundo.

Ora, o sistema do padrão-ouro é, pois, a garantia universal que permite subtrair à esfera dos interesses plutocráticos a determinação do poder aquisitivo do dinheiro. Por outras palavras, é o sistema em que o dinheiro é, por necessidade, uma mercadoria e não um simples sinal convencional lançado no mercado de uma forma ilimitada e incontrolada. Em última instância, é a melhor garantia de que o papel-moeda emitido não esteja ao alcance das eventuais arbitrariedades dos Estados e seus governantes perante grupos de pressão política e económica.

Aliás, já Winston Churchill tomara a decisão de, a 28 de Abril de 1925, anunciar, na qualidade de ministro das Finanças, o regresso ao padrão-ouro. Porém, não obstante ter consultado economistas universitários, como John Maynard Keynes, a sua decisão seria fortemente criticada no contexto de um crescente e generalizado keynesianismo (11), que, por sua vez, imputava às vicissitudes do câmbio mundial o desemprego e a crise social. E a isso sobreviriam ainda os efeitos devastadores da depressão de 1929 sobre as vantagens que uma libra esterlina estável poderia oferecer, de modo que Churchill viu doravante gorada a possibilidade de um sistema financeiro assente no restabelecimento hegemónico da City como centro do mercado monetário mundial, pronta e devidamente assegurado pela Royal Navy e pelo Império britânico.

Winston Churchill


Nesse sentido, Churchill fora, aliás, bastante explícito ao afirmar: «Fui o último ministro ortodoxo da era vitoriana» (12). Quer dizer: o ministro das Finanças estava perfeitamente a par do que os Estados Unidos e o Japão representavam, como mercados externos recém-chegados em 1924-25, para a tradicional supremacia industrial e comercial do Reino Unido. Ou seja: compreendia que os três «gigantes vitorianos» (13) responsáveis pela antiga grandeza da Inglaterra entravam numa crise criada por uma poderosa concorrência exterior a que nem o crescimento vigoroso de novas indústrias (14) seria capaz de responder em termos plenamente satisfatórios.

A partir de 1933, o padrão-ouro sofreria finalmente um rude golpe por parte de Franklin Roosevelt, na medida em que, o próprio Presidente dos EUA, passara a fixar o preço do ouro à revelia dos interesses económicos e da liberdade de escolha das populações. Daí adviria a falsificação do dinheiro e a desordem financeira que, em grande parte, suscitaria o sistema monetário internacional preconizado pelo Acordo de Bretton Woods (1946), do qual sairiam as estruturas supranacionais destinadas às novas vicissitudes do comércio internacional, tais como: FMI, Banco Mundial e o GATT. Mas, ainda assim, o fundo financeiro, para o qual contribuíam os diversos países reunidos no Acordo de Bretton Woods, tivera que ser entretanto reforçado por moeda americana cuja quantidade doravante emitida seria cada vez maior e, daí, menos estável e confiável, não obstante os EUA conservarem a maior reserva de ouro do mundo capaz de garantir uma certa convertibilidade do dólar.

Porém, uma tal conversão seria suspensa pelo Presidente Nixon em 1971. E com ela viria ainda o período do câmbio flutuante ou, se quisermos, a redução do padrão-ouro ao papel-moeda enquanto instrumento de servidão generalizada. Ou seja: toda e qualquer pátria doravante confrontada com a estatização do dinheiro e a consecutiva perda da sua moeda, ficaria, pois, incapaz de projectar na economia um ethos nacional de que o padrão-ouro e o câmbio fixo são, efectivamente, a melhor garantia contra todo e qualquer intervencionismo. E, de facto, tais instrumentos universais também constituem meios de defesa contra a arbitrariedade aritmética dos economistas que, no mais completo desprezo pela solidariedade universal entre os povos, laboram para a implantação da república mundial.

Entretanto, é hoje manifestamente visível como Portugal perdeu a sua soberania político-económica após a revolução comunista de 1974 (15). E daí o nosso endividamento perpétuo perante estranhas e poderosas forças de concertação europeia e mundial, entre as quais emergem Bruxelas, o Fundo Monetário internacional e o Banco Central Europeu. Logo, temos à cabeça um conjunto de instituições supranacionais que legislam e ditam segundo premeditados planos, esquemas e estratégias conducentes à socialização pela miséria e à aflitiva e ilimitada extorsão de recursos que não lhes pertencem, ou mesmo justificam, em nome de uma suposta ordem mundial, a destruição da soberania alheia.

Enfim, tudo isto nos remete para a origem do dinheiro, e, como tal, para a explicação do coronel Smithers sobre as implicações do ouro nas operações e transacções comerciais. E é o que veremos já de seguida segundo as palavras de quem vivia ouro, pensava ouro, sonhava ouro.

Miguel Bruno Duarte




George Lazenby



Notas:

(1) Num outro filme da série, On Her Majesty’s Secret Service, protagonizado pelo australiano George Lazenby, chegaram a ser filmadas algumas cenas em Portugal, mais particularmente na Azambuja, perto de Setúbal. Outras mais desenrolaram-se na Ponte Salazar, na costa portuguesa e na Serra da Arrábida.

(2) Depois de ter participado em “007 contra Goldfinger”, Fröbe tornou-se um actor popular em filmes prestigiados como “Chitty Chitty Bang Bang”, já, por sua vez, inspirado numa história para crianças de Ian Fleming. Porém, o único resultado desagradável da fama de Fröbe ocorrera quando “007 contra Goldfinger” estava prestes a estrear em Israel, visto circularam boatos infundados de que Fröbe fora um membro leal do partido nazi, na Segunda Guerra Mundial, e de que estava a tentar esconder o seu passado. As acusações provocaram um escândalo e os cinemas recusaram-se a exibir o filme. Mas, entretanto, a sua reputação fora salva quando um judeu não só revelou que Fröbe jamais havia sido nazi, como ainda arriscara a própria vida para salvar aqueles que supostamente perseguira. Fröbe passou então de vilão a herói e “007 contra Goldfinger estreou com receitas recorde. 

Por outro lado, embora protagonizasse o papel de um génio do mal sem qualquer respeito pela vida humana, Fröbe estava preocupado com a utilização de gás para matar os vilões, já que um actor alemão não devia usar o mesmo método aplicado às vítimas do Holocausto. Contudo, o director Guy Hamilton, um membro da Resistência Francesa durante a Ocupação nazi, convencera Fröbe de que a peripécia era tão-só realizada no contexto de um filme de ficção e fantasia. Por fim, Fröbe rodou a cena com relutância.

(3) Ian Fleming, Goldfinger, Portugália Editora, Lisboa, 1964, p. 59.

(4) Daí que o almirante John Godfrey constituíra o elemento de base para a criação da personagem “M”, o superior hierárquico de James Bond.

(5) O nome de James Bond seria, por sua vez, inspirado no nome de um ornitólogo, autor do livro Birds of the West Indies.

(6) Enquanto operacional do «double cross system», Dusko Popov transmitiu aos ingleses informações sobre o ataque japonês a Pearl Harbor, assim como o plano da Gestapo para raptar o Duque de Windsor em Portugal. De resto, o jugoslavo Dusko Popov também esteve instalado no Hotel Aviz, em Lisboa, aquando da Segunda Guerra Mundial.



Ian Fleming








(7) Esta política financeira e económica dos Estados Unidos tornou-se clássica. Basicamente, foi repetida depois da guerra de 39-45 com o Plano Marshall, e são semelhantes alguns dos desenvolvimentos posteriores.

(8) Franco Nogueira, Salazar, Vol. II, Atlântica Editora, pp. 88-89.

(9) Na altura, apenas continuaram apegados ao padrão-ouro os Estados Unidos e, na Europa, a França, a Holanda, a Itália, a Polónia, a Roménia e a Suíça.

(10) Ob. cit., pp. 125-26.

(11) O ponto de partida de uma tal censura partiria de Keynes, com base no seu panfleto intitulado The Economic Consequences of Mr. Churchill (Londres, Hogarth Press, 1925). E, de facto, também não fora por acaso que Keynes vira no padrão-ouro o «remanescente de uma era de barbárie»

(12) House of Commons Debates, vol. CCCXI, 23 de Abril de 1936, col. 327.

(13) Nomeadamente o carvão, os têxteis e a construção naval.

(14) Mormente a da química, a dos automóveis e a da aeronáutica

(15) Não obstante a quebra dos laços políticos que chegaram a configurar a unidade nacional e histórica de Portugal, é interessante notar como novos laços políticos, económicos e culturais tendem a ganhar forma em virtude de uma comunidade alicerçada em princípios, práticas e sentimentos de convivência e transcendência multissecular. Procura-se assim recuperar, sob novas formas e modalidades existenciais, o sentido de uma unidade perdida à custa de ideologias, interesses e falsas solidariedades que já provaram ter efeitos devastadores no quadro da civilização universal. E, nesse processo, Portugal permanece o ponto de contacto originário e aglutinador que só uma noção de pátria comum a diferentes povos e civilizações, bem como uma língua e uma igualdade de tratamento racial podem verdadeiramente justificar.



Conversa sobre o ouro

Bond subiu alguns degraus que conduziam ao vasto e luxuoso hall do Banco de Inglaterra e olhou em redor de si. Sob os seus pés, cintilavam os mosaicos de Boris Anrep, em padrões dourados; além, através de janelas arqueadas com vinte pés de altura, a relva verde e os gerânios brilhavam no pátio central. Para a esquerda e para a direita, em amplos espaços, pedra polida de Hopton Wood. Por sobre tudo, flutuava o odor neutro do ar-condicionado e a atmosfera pesada e grave de imensas riquezas.

Um dos corpulentos contínuos, com o seu casaco cor-de-rosa, aproximou-se de Bond.

- Que deseja, sir?

- Sou o comandante Bond e tenho entrevista marcada com o coronel Smithers.

- Por aqui, sir.

O contínuo precedeu Bond, entre os enormes pilares à direita do hall. Chegaram a uma porta de bronze que dava acesso a um ascensor. No primeiro andar, percorreram um longo corredor. Uma carpete bege abafava o ruído dos passos. O contínuo bateu à última de uma série de portas de madeira polida, muito mais altas e elegantes que as portas vulgares. Uma mulher de cabelos grisalhos estava sentada a uma secretária. A julgar pela sua expressão, devia ter tomado um whisky duplo poucos momentos antes. Colocados contra as paredes da sala, armários de metal que serviam de arquivos. A mulher estivera a escrever num bloco de apontamentos de papel amarelo de memorando. Ela examinou Bond e esboçou um leve sorriso. Pelo telefone, anunciou:

- O comandante Bond acaba de chegar.




Em seguida, pousou o auscultador no descanso e ergueu-se.

Atravessou a sala, dirigiu-se para uma porta coberta de flanela verde e manteve-a aberta para que Bond entrasse.

O coronel Smithers erguera-se atrás da sua secretária.

- Agradeço muito ter vindo. Queira sentar-se, por favor… Fuma?

O coronel era exactamente como Bond o imaginara. Devia ter sido de facto coronel, provavelmente do Estado-Maior, pois não tinha o aspecto daqueles que adquiriam este posto atrás de uma secretária.

- Segundo fui informado, o senhor vai dar-me algumas explicações sobre o ouro – disse Bond para encetar a conversa.

- O governador pediu-me, com efeito, que o pusesse ao corrente de tudo, sem nada omitir. Escusado será dizer que todas estas revelações são estritamente confidenciais – acrescentou o coronel perscrutando o rosto de Bond.

O rosto de Bond parecia de mármore. O coronel Smithers devia ter compreendido imediatamente que a sua última observação fora supérflua, pois tratava-se de um oficial dos serviços secretos.

- Com um homem como o senhor é com certeza inútil fazer esta recomendação – disse ele por fim, para se desculpar.

- Todos nós imaginamos que os nossos segredos são os únicos que importam. Fez bem em recordar-me esse facto. Não necessita de se preocupar. Falarei disto somente ao meu chefe.

- Muito bem. Fico contente por ter encarado as coisas dessa maneira. Sabe, num Banco adquire-se o hábito de se ser demasiado discreto. Enfim… para voltar à questão do ouro, creio que não é coisa que o tenha interessado de perto.

- A bem dizer não. Tenho-me limitado apenas a vê-lo.

- Bom. A primeira coisa de que uma pessoa precisa de se recordar é de que o ouro constitui a melhor garantia em todas as transacções. Creio poder dizer que, em qualquer país do Mundo, ao apresentar-se ouro, obtém-se imediatamente o que se deseja.

O coronel Smithers estava lançado no seu tema favorito. Bond recostou-se na cadeira para melhor escutar. Ele gostava de ouvir todos aqueles que conheciam a fundo um assunto.




- A segunda coisa de que deve recordar-se é a seguinte: não é possível marcar o ouro como acontece com as notas. Os soberanos não têm número de série. E se as barras possuem cunho, é possível raspar as marcas ou derreter as barras e fazer outras novas. Como se vê, é praticamente impossível seguir os movimentos do ouro no Mundo. No que nos diz respeito, podemos saber com toda a precisão de quanto dispõe o Banco de Inglaterra e os restantes Bancos ingleses e calcular, mais ou menos, quais as reservas dos joalheiros ou das casas de penhores.

- Por que tem tanta necessidade de saber quais são as reservas de ouro de que dispõe a Inglaterra?

- Pela razão simples de que o ouro e todos valores garantidos pelo ouro são a base do nosso crédito internacional. Não podemos definir o verdadeiro valor da libra esterlina se não soubermos que reservas de ouro possuímos.

Os olhos do coronel estreitaram-se.

- Como deve compreender, Comandante Bond, a minha tarefa principal é descobrir todas as fugas de ouro efectuadas para fora da Inglaterra ou da zona do esterlino. E quando descubro uma dessas fugas de ouro para um país onde o precioso metal é adquirido por um preço mais elevado que o fixado no nosso país, é meu dever advertir a brigada especial do ouro, para que ela faça terminar este tráfico e prenda os responsáveis. E o problema é que o ouro atrai os maiores e mais engenhosos criminosos. É muito, muito difícil apanhá-los, Mr. Bond.

- Isto não constituirá somente uma fase temporária? Não chegará um momento em que o ouro será menos raro e, por consequência, menos precioso? Não são encontradas todos os anos grandes quantidades de ouro na África? E este tráfico não está condenado a desaparecer no dia em que o ouro não for raro, à semelhança do que se passou com a penicilina depois da guerra?

- Creio que se engana, comandante Bond. O problema não é tão simples como isso. A população mundial aumenta à razão de 5 400 pessoas por hora. Uma fraca percentagem destas tornar-se-ão grandes proprietários de ouro. Em contrapartida haverá muitos mais que não terão qualquer confiança nos valores fiduciários, preferindo enterrar alguns soberanos no jardim ou escondê-los debaixo da cama. Outros necessitarão de ouro nos dentes, ou comprarão óculos com aros de ouro, relógios, anéis, etc… Todos eles consumirão toneladas de ouro todos os anos. Além disso, nascerão novas indústrias. O ouro tem propriedades extraordinárias, a que serão dados novos usos todos os dias. Não há praticamente nenhum limite ao emprego do precioso metal. É brilhante, maleável, dúctil, quase inalterável e mais denso que qualquer dos metais comuns, excepto a platina. Porém, tem dois defeitos. Não é suficientemente duro; gasta-se rapidamente ficando nos nossos bolsos ou no suor da nossa pele. Todos os anos o stock mundial é invisivelmente reduzido pela fricção. O segundo defeito, que a meu ver é o mais importante, é que ouro tornou-se uma espécie de talismã contra o medo. O medo, comandante, leva as pessoas a retirar o ouro de circulação. E pode-se dizer que aquilo que é extraído numa parte do Mundo é imediatamente enterrado na outra.

Bond admirava a eloquência do coronel Smithers. Este homem vivia ouro, pensava ouro, sonhava ouro. Porém, o assunto era interessante. Quando lutara contra os traficantes de diamantes, Bond tivera também de aprender tudo sobre o mito das pedras preciosas.

- Que devo saber mais antes de podermos discutir o nosso problema imediato?



- Esta conversa não lhe causa tédio? Bem, sugeriu que a produção actual de ouro era tão vasta que devia satisfazer as necessidades correntes. Infelizmente, porém, não é assim. Não pense que restam ainda regiões inexploradas do ponto de vista do ouro. Cometeria um erro grosseiro. Resta somente o fundo dos mares, e o fundo dos mares contém uma grande quantidade deste metal, é certo. Há milhares de anos que os homens esgaravatam a superfície do globo para dela retirar ouro. Pense nos tesouros do antigo Egipto, em Micenas, em Moctezuma e nos Incas. Na Europa, nos vales do Reno e do Pó, em Málaga e nas planícies de Granada, em Chipre e nos Balcãs. Na Índia, os hindus foram contagiados pela febre o ouro ao ver as formigas transportar grãos deste metal e subiram até aos campos aluviais. Os romanos retiraram ouro do País de Gales, do Devon e da Cornualha. Na Idade Média houve as corridas ao ouro no México e no Peru, a que se seguiu a pesquisa na Costa de Ouro e noutros pontos da América. Entretanto, a Austrália, Bendigo e Ballart iniciavam uma nova produção e os russos, do seu lado, com os depósitos do Lena e dos Urais, tornaram-se os maiores produtores de ouro do Mundo nos meados do século passado… Depois, surgiu a segunda era do ouro – as descobertas na Witwaterstand. Estas foram incrementadas pelos novos métodos com o cianeto em vez da separação do ouro das rochas pelo mercúrio. Hoje, estamos na terceira era do ouro com a abertura dos depósitos do Estado Livre de Orange.

O coronel Smithers fez uma pausa.

- O ouro está novamente a ser retirado em grandes quantidades da terra – continuou ele. – Toda a produção de Klondike e Homestake, e do Eldorado, que outrora constituiu uma maravilha do Mundo, perfez talvez dois ou três anos da produção actual da África! Apenas a título indicativo, dir-lhe-ei que entre 1500 e 1900, numa época em que as contas não eram em geral absolutamente exactas, extraíram-se cerca de 18 000 toneladas de ouro. De 1900 aos nossos dias a produção foi de 41 000 toneladas! A esta cadência, comandante Bond, não ficaria surpreendido se se extraísse um dia a últimas parcela de ouro do planeta.

Bond escutava gravemente esta exposição, fascinado pela eloquência e pelos conhecimentos do coronel Smithers.

- A história que contou é certamente fascinante. Portanto, a situação não deve ser tão crítica com declara. Extraiu-se já petróleo do mar e talvez venha a extrair-se dele ouro. Agora, quanto a este contrabando…

O telefone retiniu. O coronel pegou nervosamente no auscultador.

- Fala Smithers, sim.

Escutou e o seu rosto reflectiu imediatamente a mais viva irritação.

- Estou certo de lhe ter enviado a composição da equipa, Miss Philby. O próximo desafio será contra a Secção de Desconto, no sábado.

O coronel tornou a escutar.

- Bem, se Miss Flake não quiser jogar na baliza não fará parte da equipa, eis tudo. Não temos outro posto para lhe confiar. E temos muito mais avançados-centro que aqueles de que necessitamos… Sim, concordo. Explique-lhe que nos fará um grande favor se jogar na baliza, nem que seja só esta vez. Ela é muito boa, sim. Obrigado, Miss Philby.

O coronel Smithers tirou um lenço do bolso e passou-o pela testa.



- Perdoe-me esta interrupção, mas parece-me que os desportos ocupam um lugar cada vez mais importante no nosso Banco. E não me arranjaram nada melhor que a direcção da nossa equipa feminina de hóquei. Como se eu não tivesse já muito com que me preocupar! Enfim… como dizia, é tempo de abordar a questão do tráfico. Para falar só da Inglaterra e da zona do esterlino, representa já uma actividade em que se manejam somas consideráveis. Saiba que o nosso Banco emprega três mil pessoas e que um bom milhar de entre elas fazem parte do departamento de controle de câmbios. Entre estas, incluindo o meu departamento, quinhentas ocupam-se do controle de câmbios de investigações relativas às tentativas de tráfico de ouro.

- Isso é muita gente – disse Bond ao pensar que o Intelligence Service não empregava mais de duas mil pessoas. Pode dar-me um exemplo deste tráfico?

- Certamente – volveu o coronel Smithers, que falava com a voz suave mas fatigada de um homem sobrecarregado de trabalho para o seu governo. Bond conhecia bem este género de voz, que era a de um funcionário público de primeira classe. Apesar da sua prosápia, Bond começava a gostar do coronel.

- Suponha que tem no bolso uma placa de ouro do volume aproximado de dois maços de cigarros Player’s – continuou Smithers. – Esta placa pesará cerca de 2 400 g e representará mais ou menos 24 quilates. Bom. A lei diz que, se deseja vender o seu ouro, tem de se dirigir ao Banco de Inglaterra, que o pagará ao preço oficial, isto é: 12 000 libras por onça, o que perfará mais ou menos 1000 libras. Mas o senhor quer mais e tem um amigo que vai à Índia ou conhece um piloto ou um steward que faz regularmente a linha do Extremo Oriente. Entra em contacto com ele e, mediante uma comissão, propõe-lhe o transporte de um cinto contendo ouro cortado em finas folhas. Poderá facilmente oferecer-lhe até 100 libras pelo serviço. Em Bombaim, será suficiente dirigir-se a um joalheiro, que lhe comprará o seu ouro por 1 700 libras. Com isto, terá um benefício de 70%, o que não é mau. Porém, note que depois da guerra este benefício podia ir até aos 300%. Nessa época, bastava efectuar algumas destas operações para se poder retirar do negócio com uma boa fortuna.

- Por que motivo é o preço do ouro tão elevado na Índia? – perguntou Bond, que disse a si mesmo que M provavelmente lhe formularia esta pergunta.

- É uma longa história, mas em resumo pode-se dizer que a Índia tem falta de ouro sobretudo para jóias, que fabrica em quantidade considerável.

- E este tráfico com a Índia é importante?

- É enorme. Para lhe dar uma ideia da sua vastidão, saiba que em 1955 os serviços secretos da Índia e as alfândegas indianas conseguiram apreender 43 000 onças de ouro. E isso não representa senão um por cento de todo o ouro que entra ilegalmente na Índia. A última invenção em matéria de tráfico é carregar o ouro a bordo de um avião ou lançá-lo de pára-quedas destinado a um comité de recepção, que pode receber desta maneira até uma tonelada de ouro de cada vez. Exactamente como nós fazíamos quando lançávamos de pára-quedas víveres e munições aos resistentes durante a guerra.

- Compreendo. Existe outro país onde se possam conseguir tais benefícios com o tráfico de ouro?

- Podia ganhar qualquer coisa vendendo-o por exemplo na Suíça. Porém, a Índia é o mercado ideal.

- Vejo mais claro agora – disse Bond. – Então, qual é o vosso problema?

Bond recostou- se na cadeira e acendeu um cigarro. Estava impaciente, pois desejava que o coronel Smithers falasse agora de Mr. Auric Goldfinger. O olhar do coronel Smithers tornou-se mais impenetrável.



- Em 1937 um homem chegou a Inglaterra. Era um refugiado que vinha de Riga e chamava-se Auric Goldfinger. Tinha apenas vinte anos, mas devia ser extremamente inteligente, pois pressentira que os russos iam anexar o país. Ourives de profissão e por tradição – o pai e o avô eram-no igualmente – dispunha de pouco dinheiro quando cá chegou. Porém, devia trazer um destes famosos cintos cheios de ouro que provavelmente roubara ao pai. Como era um tipo inofensivo, obteve rapidamente a naturalização e começou a comprar pequenas lojas de penhores em todo o país. Colocou a dirigi-las homens de sua confiança, a quem pagava bem, e pôs a cada loja o nome de «GOLDFINGER». A pouco e pouco, transformou as suas lojas em pequenas ourivesarias que vendiam jóias baratas e anunciou que comprava ouro. Recordo-me de um dos seus slogans: «Adquira o seu anel de noivado com o medalhão da avozinha». Os negócios deste homem prosperavam, pois ele tinha a arte de escolher bons locais para as suas lojas. Como se recusara sempre a comprar ouro roubado, começou a gozar de excelente reputação junto das autoridades e da polícia. Vivia em Londres e inspeccionava todos os meses os seus estabelecimentos, para recolher o ouro que fora comprado. Ele não estava interessado em jóias e deixava aos seus empregados a incumbência de se ocuparem disso.

O coronel Smithers lançou um olhar interrogativo a Bond.

- Pode pensar que estes medalhões não deviam representar um grande peso de ouro. É verdade, mas pense também que este total aumenta rapidamente quando se é proprietário de vinte estabelecimentos que compram cada um meia dúzia de peças ou mais por semana. Por fim, chegou a guerra e Goldfinger, como todos os ourives, teve de declarar o seu stock de ouro. Verifiquei a sua declaração da época, nos nossos arquivos. Declarara 50 onças referentes a toda a sua organização, e isso representava exactamente a reserva de que tinha necessidade para exercer a sua actividade. Foi naturalmente autorizado a conservar o ouro. Conseguiu empregar-se numa fábrica manufacturadora de ferramentas, no País de Gales, evitando assim que o enviassem para a frente. Porém, mantinha em actividade o maior número possível de estabelecimentos. Certamente, fez bons negócios com os soldados americanos, que guardavam em geral uma águia de ouro ou uma peça de cinquenta dólares de ouro mexicano, como última reserva. Foi assim que, quando a guerra terminou, Goldfinger adquiriu uma residência bastante pretensiosa em Reculver, na embocadura do Tamisa. Adquiriu igualmente um barco de bom calado e um velho Rolls Royce blindado que fora especialmente fabricado para um presidente sul-americano assassinado antes de poder receber o carro. Montou também uma pequena fábrica que denominou de «Sociedade Thanet para a Pesquisa de novas Ligas» e confiou a direcção a um metalurgista alemão, prisioneiro de guerra, que não desejava voltar à pátria. Uma meia dúzia de coreanos recrutados entre antigos estivadores do porto de Liverpool completaram o pessoal. Estes coreanos não sabiam uma palavra de inglês ou de qualquer língua civilizada e Goldfinger assegurava-se assim de uma completa discrição sobre o que se passava na fábrica. Em seguida, tudo o que sabemos é que durante dez anos ele fez uma viagem por ano à Índia, a bordo do seu barco, e algumas outras à Suíça com o seu Rolls. Goldfinger não é talvez um homem honesto, mas conseguiu manter-se em bons termos com as autoridades e sempre se mostrou de tal modo discreto que ninguém jamais lhe prestou atenção.

- O coronel Smithers interrompeu-se e lançou um olhar de constrangimento a Bond.







- Devo estar a maçá-lo com todas estas histórias. No entanto, queria fazer-lhe um retrato tanto quanto preciso deste homem. Não lhe prestámos atenção, na verdade, até 1954, mas no decurso deste ano ele sofreu um pequeno acidente… Ao voltar da Índia, o seu barco embateu nos rochedos de Goodwins. Ele vendeu-o para a sucata à Dover Salvage Company. Quando esta companhia começou a desmantelar o barco e chegou ao porão, os operários verificaram que o madeirame estava impregnado de um pó castanho. Não conseguindo determinar de que espécie de pó se tratava, a companhia decidiu enviar uma amostra deste pó ao laboratório local. Para sua surpresa, verificaram que se tratava de pó de ouro. Para não entrar em pormenores, dir-lhe-ei que o ouro é apenas solúvel numa mistura de ácido nítrico e de ácido clorídrico, e que um agente redutor, como o ácido oxálico, pode precipitar o metal num pó castanho. Este pó só pode ser reconvertido em ouro quando o fazem fundir a uma temperatura de cerca de mil graus centígrados. Com efeito, é um processo bastante simples. Bem, sucedeu que um dos operários da Dover Salvage Company falou do incidente a um dos seus amigos que era funcionário alfandegário em Douvres. Foi feita uma comunicação à polícia e depois ao CID, que por fim chegou à minha secção acompanhada de uma cópia dos documentos marítimos referentes a cada viagem efectuada pelo barco à Índia. Os documentos estavam perfeitamente em ordem e precisavam que o barco transportava fertilizantes que continham substâncias minerais. Tudo se tornou claro. Goldfinger transformava o seu ouro em pó castanho enviava-o para a Índia como fertilizante. Teríamos alguma possibilidade de lhe deitarmos a mão? Nenhum! Fizemos uma investigação em diversos Bancos onde ele tinha conta e verificámos as suas declarações de impostos. A conta mais elevada era a do Banco Barclay, em Ramsgate, onde tinha um depósito de 20 000 libras, e os seus impostos eram devidamente pagos todos os anos. Os números mostravam-nos um aumento regular de lucros provenientes da sua cadeia de ourivesarias. Enviámos dois homens da brigada do ouro à fábrica de Reculver. Eles disseram serem inspectores do Ministério do Trabalho e inspeccionaram a fábrica para verificar se tudo estava de acordo com as disposições da lei. Goldfinger acolheu-os quase calorosamente. Note que talvez tivesse sido prevenido por um dos seus Bancos. De toda a maneira, os homens não encontraram senão material que podia ser considerado normal numa fábrica onde se faziam pesquisas sobre ligas de metais. Havia naturalmente os fornos, que podiam alcançar uma temperatura de 2000 graus, mas isso era absolutamente natural, pois Goldfinger não ocultava o facto de que fazia fundir o ouro para a fabricação de jóias. Após este malogro, as autoridades decidiram não prosseguir o inquérito, considerando que o pó castanho recolhido no madeirame do barco não constituía prova suficiente. Porém, eu não quis fechar o dossier e comecei discretamente a fazer sondagens em diversos Bancos estrangeiros.

Smithers fez uma pausa. Pela janela entreaberta chegava o ruído surdo da rua. O coronel ergueu-se, pousou as mãos espalmadas em cima do tampo da secretária e, fitando Bond, continuou:

- Foram-me necessários cinco anos para descobrir que Goldfinger era o homem mais rico de Inglaterra. Ele possuía mais de 20 000 000 de libras em barras de ouro em cofres de Zurique, Nassau, Panamá e Nova Iorque. E estas barras, Mr. Bond, não são oficiais, pois não contêm cunho oficial. Foram todas fundidas pelo próprio Goldfinger. Fui a Nassau e vi os 5 000 000 de libras-ouro que ele depositara nos cofres-fortes do Royal Bank of Canada. Como muitos artistas, não resistira à tentação de assinar a sua obra e cada barra contém um minúsculo G, que é necessário descobrir ao microscópio. Este ouro pertence à Inglaterra, Mr. Bond, e o Banco não nos é de nenhuma utilidade para o recuperar. Eis porque nos dirigimos a vós. Sabe muito bem que atravessamos uma crise financeira. É absolutamente necessário que este ouro entre no tesouro inglês… e quanto mais cedo melhor (in Goldfinger, Portugália Editora, pp. 69-82).















































































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