sábado, 2 de julho de 2011

A Maçonaria em Portugal (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte





D. Manuel II



Porém, quanto ao papel preponderante da Maçonaria na I República, é óbvio que, pese embora a acção desagregadora de muitos dos seus membros no seio de sucessivos governos constituídos em torno de facções, cisões e demais partidos, outros factores exógenos tivessem igualmente contribuído para a desordem pública e institucional desse período da vida política portuguesa. Estão entre eles a divisão entre moderados e nacionalistas sob a bandeira conservadora; ou a divisão entre católicos a favor ou contra a legitimidade das instituições republicanas de tendência jacobina e maçónica; ou ainda a divisão entre monárquicos de tendências opostas, como os que militavam a favor do regresso de D. Manuel para o restabelecimento da monarquia constitucional e liberal, e os que, tradicionalistas, legitimistas e integralistas (20), seguiam o ramo dinástico de D. Miguel  com vista a apoiar o Príncipe Duarte Nuno a favor de um trono antiparlamentar, antiliberal e anti-maçónico.

De facto, a Maçonaria também representou uma tentativa de descristianização em Portugal. Sobre o perigo maçónico, vejamos então o testemunho do padre Manuel Fernandes de Santana no livro Inquietação da Acção:

[A Maçonaria] «descristianizou o povo, desprestigiou o clero, organizou as massas, apoderou-se do sufrágio universal e do poder… da ruína religiosa de Portugal é a Maçonaria [uma das principais causas], com a sua organização, com o poder que tem em grande parte nas mãos, com as associações populares que promove e dirige, com o jornalismo republicano que está organizando, com a secularização do ensino que já conseguiu em grande parte levar a cabo em toda a sua extensão». «A Maçonaria pretende implantar na nação um regime republicano despótico e anti-religioso»; «hoje há de facto, dentro de cada país, um partido anticatólico – qual é, entre nós, o Partido Republicano – com um estado maior que o dirige – a Maçonaria»; «Para a Maçonaria, a República não é um fim, é apenas um meio para descristianizar a nação e o primeiro passo para isso é a sua descatolização, isto é, a separação da Igreja e do Estado» (21).

Aliás, na base de uma tal descristianização sempre estivera, mais directa ou indirectamente, o socialismo (22) de grande parte dos «filhos da Viúva» (23), entre os quais António José de Almeida, o chefe do partido evolucionista: «Quero uma república ampla, nacional, humana, onde todas as aspirações socialistas caibam, e onde possa até reflectir-se o fulgor estranho da esperança anarquista» (24). Um outro «irmão», Magalhães Lima, dissera por sua vez: «Fui socialista antes de ser republicano». Ou ainda: «Foi na escola proudhoniana que eduquei o meu espírito e fixei a minha orientação democrática. O sentimentalismo dos primeiros tempos cedeu lugar à razão, que me tornou republicano-socialista e livre-pensador» (25).

Depois, temos o caso singular de Leonardo Coimbra, que também pertencera, com o nome simbólico de «Kant», a uma loja maçónica (26). Só mais tarde, em 1923, abandonaria a Maçonaria para se tornar, consoante a expressão de Pinharanda Gomes, «um arauto do direito da escola católica» (27). Entretanto, curiosa se afigura a cerimónia iniciática em que participara um dos discípulos de Mestre Leonardo, a que, aliás, se refere o ilustre paleógrafo: «Em 1927, na Faculdade de Letras do Porto, houvera uma iniciação maciça na Maçonaria, sem efeito. Álvaro foi um dos iniciados, sem continuidade» (28).



Leonardo Coimbra



É certo que Leonardo chegou a perfilhar o socialismo, muito embora se tratasse de um socialismo sui generis, tal qual o que se segue: «Pertence ao socialismo renovar a sua ideologia; coando-se dos excessos marxistas que deixam o homem na altura dos celenterados; vindo até uma humanidade menos abstracta onde as pátrias não apaguem as fisionomias para se poderem concertar; libertando-se de doutrinas, como o darwinismo, que lhe andam ligadas pelo simples acidente de terem sido auxiliares contra dogmas inimigos; tomando consciência de que são conceitos como o da Beleza e Justiça que podem dar marés espirituais de força a comoverem todo o organismo das sociedades» (29).

O ideal de liberdade é, pois, para Leonardo, a pedra angular sobre a qual o regime da liberdade política se identifica com o republicanismo. Nesse sentido, acusa a «liberdade económica» como sendo fundamentalmente a «licença de tudo fazer», sem olhar, portanto, ao «máximo acordo da produção, distribuição e consumo» (30). E se bem que também defenda um sistema de contribuições que incida sobre as riquezas e as heranças (31), Leonardo recusa, todavia, o colectivismo (32) a favor de um «reformismo» e até mesmo de um individualismo de transcendente afirmação personalista e cristã.

Destarte, será caso para perguntarmos se, porventura, existiria uma identidade entre o «socialismo cristão e monadológico» de Leonardo e o socialismo veiculado por via maçónica? Não parece ser o caso, pois a Maçonaria, de uma maneira geral, já por então manifestava uma crença formal e vazia nos seus discursos de propaganda jacobina e pseudo-liberal que, eventualmente, não combinavam com Leonardo para quem «há sempre uma invencível distância entre a obra e o pensamento da obra», ou para quem «do pensamento à palavra, que é já um desenho mais próximo da acção, vai uma distância sem fim».

Ou seja: para o filósofo criacionista a revolução política era indissociável da revolução educativa, pois só a filosofia podia garantir o sistema arquitectónico e «monárquico» das escolas universitárias, liceais e primárias. Mas, infelizmente, Leonardo não só perdera a questão universitária, como também a do ensino religioso nas escolas particulares. Em todo o caso, o seu procedimento decorrera em obediência, não à doutrina do Partido Republicano Português, mas ao pensamento filosófico ampla e livremente escolhido em prol da fisionomia espiritual da Pátria Lusitana (33).

Por outro lado, também é verdade que, como reconhecera Orlando Vitorino, Leonardo acabou por «conceder à mesquinha realidade e ao poder dominante» (34) alguns traços do seu pensamento, nomeadamente no que toca ao «complexo anti-jesuítico». Ora, sobre este ponto, escrevera Leonardo: «O jesuitismo e a inquisição maculam e deformam a lealdade e a audácia da alma portuguesa» (35). Quer dizer: o filósofo português não sustentava que a Universidade fosse jesuítica, mas, sim, de que os bens espirituais da Pátria dormitavam sob os malefícios de um espírito que lhe era bastante afim (36).



Orlando Vitorino



Sob este ângulo, eis, pois, como Leonardo perfilhou da propaganda maçónica a respeito do pombalismo e, por concomitância, do respectivo antijesuitismo:

«Começa a luta tremenda, com alternativas de sono e vigília, onde a acção pombalina atira os mais formidáveis golpes.

A reforma dos estudos introduz de novo na atmosfera estagnada do país uma forte rajada de realidade e vida.

A liberdade acorda e em 1820 volta a dizer alto as palavras da sua justiça.

Mas a luta continua e, como a liberdade é criação continuada, se ela dorme ou repousa, de novo se perde e afunda» (37).

Leonardo refere ainda o incidente do assassinato de Sidónio Pais, na sequência do qual o Grão-Mestre Magalhães Lima é «pela Reacção apontado como responsável» do mesmo. De modo que, para o nosso filósofo, trata-se de uma guerra aberta à Maçonaria segundo um plano reaccionário de que o Sidónio Pais teria sido, infelizmente, vítima ou instrumento afim. Porém, uma outra leitura do incidente é feita no livro Sidónio Pais e o seu Consulado (1941), de Teófilo Duarte:

«A indignação é enorme, principalmente nos meios militares. Por isso elementos vários da guarnição assaltam o Grande Oriente Lusitano, destroem quanto encontram e levam, como troféus, caveiras, punhais e máscaras. O Presidente, conhecendo bem a mentalidade da seita a que pertencera, e que agora o considerava como traidor, fica preocupado; mas quando os íntimos lhe recomendam novas cautelas, ele responde, num rompante: “Não, ou eles ou eu!”. Oito dias depois caía varado por dois tiros disparados por um segundo assassino. Quem teria organizado os atentados? O Grão-Mestre da Maçonaria portuguesa, Magalhães Lima, foi preso e não se libertou da suspeita de conivência no crime, visto ter confessado que o assassino o procurara dias antes. A prova, porém, de tal solidariedade não se fez, como sempre sucede, visto que tais actos são mais produto de sugestões que de mandatos imperativos das baiúcas em que eles se geram. Há sempre espíritos desvairados que tomam à conta de resoluções suas, independentes de quaisquer ordens, sugestões concebidas em termos vagos, mas tantas vezes repetidas que elas chegam a dominá-los. E, por isso, a aspiração ideológica de libertar um país daquilo que eles classificam de tirania, conjugando-se com o desejo de vingar as perseguições dos seus irmãos de seita, leva-os a executar tais crimes. Vá lá alguém convencer esses desgraçados de que o seu acto representa o termo de uma longa série de manobras subtis de agentes secretos da seita tenebrosa a que pertencem, e que eles foram o simples braço que outras cabeças armaram!» (38).

Sidónio Pais, o «Presidente-Rei».


Rocha Martins, por seu turno, diz de sua lavra em Memórias sobre Sidónio Pais: «Instalara-se a Loja maçónica Portugal e dali saíam as maquinações que de Paris corriam mundo. Oficiais da expedição militar estavam filiados e lá se maquinaram coisas tão singulares que oscilam entre a difamação e a ânsia do assassinato» (…) «no Ministério dos Estrangeiros existe uma carta demonstrativa das falsidades dos seus inimigos, dos demagogos aniquilados, que na Loja Portugal, da Rue Cadet, andavam preparando, a este tempo, o seu descrédito, enquanto não enviavam, ao que corre, alguém para o assassinar, um oficial, ébrio, sem coragem, mas que no seu delírio se prontificara à acção. Vieira; mas um telegrama cifrado de um monárquico dedicado prevenira o golpe que só outra mão, nanja a do aliciado de Paris, deveria executar» (…) «soubera-se, num coro de espanto, da nota mandada pelo capitão Vasco de Carvalho, de Paris, relativa a ter sido votada a morte de Sidónio na Loja portuguesa da Rue Cadet» (39).

Enfim, há toda uma série de circunstâncias históricas e políticas em que a Maçonaria portuguesa se encontra directa ou indirectamente implicada. Actualmente, uma tal Ordem comporta várias Obediências, entre as quais a do Grande Oriente Lusitano (40) fundado em 1802 e reconhecido, em 1804, pelo Grande Oriente de França. Assim, o GOL apresenta-se, hoje mais do que nunca, como uma Ordem universal, progressista e «filosófica» com vista à construção de uma «sociedade justa e igualitária».

Atente-se, porém, que a pretensão universal e «filosófica» encobre e ramifica as aspirações socialistas que informam a dita Ordem (41). Esta faz, inclusive, finca-pé de um espírito anti-dogmático (42) que, paradoxalmente, proibe que se discuta entre «irmãos» posições e «convicções íntimas» que não sejam a título meramente genérico, e, portanto, susceptíveis de congregar e dissipar todas as opiniões e ideologias à margem da verdade objectiva e principial. Daí que a mesma Ordem não só reduza o simbolismo do Grande Arquitecto do Universo (G.A.D.U.) à esfera puramente abstracta e subjectiva (43), como também se preste a desvirtuar esse mesmo simbolismo ao admitir que seja interpretado numa escala periclitante que vai do Deus pessoal ao Sol (44), à natureza ou a lei moral stricto sensu (45).

Ocorre ainda notar o a-fundamento ateísta que caracteriza o Grande Oriente Lusitano, se bem que, de permeio, se adorne de ocas e vazias declarações a favor da religiosidade e até da eventual inclusão de crentes, bispos e cardeais no redil maçónico. Desse modo, dizendo-se nominalmente laico ou «liberal», o GOL distingue-se de toda a Maçonaria Regular, Tradicional ou de Via Sagrada, como a anglo-saxónica crente em Deus e na imortalidade da alma (46).


Mozart



Em contrapartida, surgiu a Grande Loja Regular de Portugal a 29 de Junho de 1991 - o ano, diga-se de passagem, do bicentenário de Mozart, que também fora Mestre maçon da Loja de Viena de Áustria. Ora, esta nova Obediência alegou representar, sob os auspícios da Grande Loja Nacional Francesa, o regresso ou o retorno aos princípios da Maçonaria consignados nos Landmarks e «Antigos deveres» abandonados pelo Grande Oriente Lusitano. Não obstante, uma outra cisão se daria em 1996 por ocasião do escândalo da Universidade Moderna (47), cujo resultado foi a criação de mais uma Obediência: a Grande Loja Legal de Portugal.

Para além destes dois ramos maçónicos em terra lusa, existe ainda a Grande Loja Feminina de Portugal (48), fundada em 1997. Segue-se O Direito Humano, uma Ordem Maçónica Mista Internacional cujo início remonta a 1923, e que, como o nome sugere, congrega homens e mulheres (49). Por fim, temos a Ordem Maçónica Internacional do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim, inspirada em Ritos do Antigo Egipto e em comunidades herméticas pré-cristãs (50).

De tudo isto resulta que, por um lado, o Grande Oriente Lusitano, sendo a Obediência maçónica mais directa ou indirectamente presente na sociedade portuguesa em geral e nos partidos políticos em particular, não só reclama para si um estatuto «liberal» em nome da liberdade de consciência política, «filosófica» e religiosa, como também, por outro lado, actua, em termos práticos e concretos, segundo directrizes ideológicas ostensivamente socialistas, de que figuras como João Soares (51), António Vitorino, Almeida Santos, António Reis, António Arnaut e outros mais falam por si mesmas. Em suma: a «liberdade», para tais iluminados, é somente lícita e recomendável quando eles próprios usam e abusam da técnica socialista em prol de ambições partidárias e sobejamente pessoais; porém, já não se aplica a quem procure denunciar e desmascarar o domínio do Estado por tais agentes socialistas ao serviço de organizações internacionais de que a Maçonaria francesa (52) constitui, por si mesma e a título de exemplo, uma expressão sui generis.

Demais, não deixa de ser um facto lamentável ter sido o liberalismo histórico um falso liberalismo. Dele, na realidade, pouco sabiam D. Pedro IV ou o Duque de Palmela, ou até mesmo o próprio Mouzinho da Silveira que se limitara a importar as instituições jurídicas do liberalismo francês. De modo que, em Portugal, ainda hoje se ignora o que seja o verdadeiro liberalismo, jamais confundível ou identificável com a história do domínio do Estado pelo Exército, ou com a história do anticlericalismo e, como tal, com a história da Maçonaria.

António Sardinha



Notas:

(20) Convém notar que, no contexto da Grande Guerra, António Sardinha desejara a derrota da França por ver nela o esmagamento do republicanismo, da maçonaria e do jacobinismo. Na verdade, fora inclusive na França que a admissão de sindicalistas e operários na Maçonaria tivera por fim travar o influxo da doutrina social católica nos meios revolucionários. Assim, já em 1893 haviam baixado as taxas de quotização para ingresso nas lojas, a ponto de, em 1911, a influência socialista e anti-capitalista estar praticamente garantida no Grande Oriente de França.

(21) Cf. A. C. Carvalho, ob. cit., pp. 163-164).

(22) Até no que toca à revolução bolchevista de 1917, o Grão-Mestre adjunto, António Maria da Silva, rejubila que «a autocracia foi derrubada pela vontade popular» com a contribuição de liberais russos, muitos deles maçons (cf. ob. cit., p. 86).

(23) A expressão é da autoria do abade Barruel (in Mémoires pour Servir à l’Histoire du Jacobinisme, 1797).

(24) Ob. cit., p. 165.

(25) Ob. cit., pp. 165 e 148. Aquando da morte de Magalhães Lima, o Conselho da Ordem não perdera a oportunidade para mais uma vez cantar loas ao socialismo mediante a idolátrica projecção do Grão-Mestre: «Com Magalhães Lima, pode dizer-se, caiu o último romântico da República, que perdeu nele o seu apóstolo mais convicto e o seu mais ardente defensor (…) É que Magalhães Lima não era apenas um grande português e um intemerato republicano. Era um desses visionários que fazem da Humanidade um culto e da perfectibilidade dos povos uma religião. Pertencia à luminosa falange dos Rousseau, dos Fourier, dos Proudhon, dos Marx, dos Tolstoi, de todos esses generosos idealistas que abrasam as almas no amor da Humanidade (…)» (in ob. cit., p. 144).

(26) Há também, entre outros, o caso de Teixeira de Pascoaes, iniciado em 1905.

(27) Cf. Cidade Nova, p. 65.

(28) Cf. Pinharanda Gomes, «Álvaro Ribeiro: da «Renascença Portuguesa» à «Filosofia Portuguesa», in Nova Renascença, Porto, 1993, vol. XIII, p. 30.

(29) Leonardo Coimbra, A Questão Universitária, Lisboa, 1919, p. 18.

(30) Ob. cit., p. 23.

(31) Cf. «A Crise Social (o Bolchevismo) – II», in A Tribuna, Porto, Ano I, n.º 57, de 23.6.1920, p. 1.







(32) Avesso à Revolução bolchevique de 1917, diz-nos Leonardo: «Não acreditamos muito num triunfo mais que aparente (como o 19 de Outubro) de simples revoluções políticas; acreditamos mais facilmente no possível triunfo nacional, é claro, duma revolução social» (in «As revoluções e a disciplina social», in O Primeiro de Janeiro, Porto, 56º ano, n.º 219, de 18.9.1924, p. 1).

(33) No discurso parlamentar em defesa das suas realizações como ministro da Instrução Pública, Leonardo é bastante explícito: «Povo de Portugal: amei-te, quis dar-te a melhor e mais bondosa atenção, saíram-me ao caminho homens que dizem te não soube amar; eu creio firmemente, e pela bênção do meu sacrifício e pelo firme propósito do meu amor, que um dia a obra será fecunda e, em troca e excesso, eu receberei a alegria de ver multiplicado o meu carinho nos braços da tua fraternidade!...» (A Questão Universitária, p. 50).

(34) Orlando Vitorino, «Leonardo e a Política», in Leonardo Coimbra, Filósofo do Real e do Ideal, IAC, Colectânea de Estudos, 1985, p. 236.

(35) Cf. A Questão Universitária, p. 31.

(36) Contra um tal espírito, averba Leonardo: «Eu quis hospedar na Universidade portuguesa, casa cerimoniosa e pesada, a própria alegria, para que uma manhã os velhos claustros ressoassem ressurreição e vida, revoadas de canto, como se a primavera tivesse metido pelas janelas partidas, ramos de flores, frescura, cor, alacridade…» (in A Questão Universitária, p. 43). De resto, a posição leonardina atinente à Universidade era mais que justificada pelo facto de, enquanto instituição herdeira do ensino e da censura eclesiástica, continuar a projectar novas formas de limitação intelectual, cultural e científica.

(37) Ob. cit., p. 32.

(38) Cf. A. C. Carvalho, ob. cit., p. 160.

(39) Ob. cit., pp. 161-162.

(40) Em 1869 foi fundado o Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU), à volta do qual se agrupou a maioria das Obediências maçónicas portuguesas.

(41) O socialismo vem muitas vezes expresso na alegada construção de um «Homem novo» e de uma «Sociedade Nova» apostada no fim da «desigualdade» e da «injustiça social».






(42) Este espírito anti-dogmático decorre de um «espírito crítico» refractário aos princípios de fé da Igreja Católica. Curiosamente, Manuel Gonçalves Cerejeira atesta, no que respeita à questão da autoridade na educação, que não «se pode aprender, não sendo "dócil", isto é, como a própria etimologia bem ensina, senão por um acto de fé (docilis, docere e dogma são palavras da mesma família)». E mais adita: «O que repugna ao espírito crítico não é o culto, quando penetrado de espírito, como o católico; mas um formalismo insincero, que mente igualmente a Deus e ao homem (como o ritualismo maçónico), ou quaisquer formas de superstição, em que se pretende encadear a acção divina e o curso das coisas, mediante fórmulas mágicas, (desconhecendo ao mesmo tempo a transcendência de Deus e o determinismo das leis naturais), como na feitiçaria e na magia» (in A Igreja e o Pensamento Contemporâneo, Coimbra Editora, 1944, pp. 118 e 142).

(43) Leia-se, relativamente a Deus e à Religião, o primeiro preceito maçónico tirado das Constituições introduzidas pelos reverendos Anderson e Desaguliers: «Um Maçon é obrigado, pela sua condição, a obedecer à lei moral. E se, compreender correctamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Mas, embora, nos tempos antigos, os maçons fossem obrigados, em cada país, a ser da religião desse país ou nação, qualquer que ela fosse, julga-se agora mais adequado obrigá-los apenas àquela religião na qual todos os homens concordam, deixando a cada um as suas convicções próprias: isto é, a serem homens bons e leais ou homens honrados e honestos, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir. Por consequência, a Maçonaria converte-se no Centro de União e no meio de conciliar uma amizade verdadeira entre pessoas que poderiam permanecer sempre distanciadas».

(44) Leia-se a título histórico e simbólico o seguinte: «Em 1918, o emblema do Grande Oriente Lusitano Unido sofre uma modificação significativa: desaparece o "olho de Deus", substituído por um triângulo com um sol nascente no interior» (cf. A. C. Carvalho, ob. cit., p. 88).

(45) Sobre o relativismo maçónico, adianta Manuel Guerra: «Na "tirania do relativismo" (Joseph Ratzinger) não existe a possibilidade de chegar à verdade objectiva, que fica liquefeita na ideia de que "tudo é consoante a cor da lente com que é olhado"; admite-se a existência da "tua verdade", da "minha verdade" ou da "sua verdade", mas não pode existir "a" verdade. Cai-se assim no subjectivismo, e a verdade torna-se subjectiva, dependente do que cada qual quiser pensar. Recordemos os versos de António Machado: "Não a tua verdade: a verdade./E vem comigo procurá-la./A tua, guarda-a para ti"». Mais: «(…) ao jeito do deus distante, transcendente, do gnosticismo, os traços do "deus" da maçonaria regular, o "Grande Arquitecto do Universo"», costumam corresponder aos do deísmo, uma divindade distante e inactiva, sem influência na vida dos homens nem na história dos povos» (in A Trama Maçónica, Princípia, 2012, pp. 86 e 98).

(46) Neste contexto, é de salientar o Rito de York, que é o rito predominante da Maçonaria Norte-Americana. Trata-se, pois, de uma Maçonaria teísta, pese embora a sua origem iluminista.






(47) O escândalo levou ao julgamento de 13 arguidos acusados de associação criminosa, gestão danosa, burla, falsificação de documentos, corrupção e apropriação ilícita. As investigações em torno do caso centraram-se em actividades de colombianos e russos ligadas ao crime organizado, a redes de prostituição e tráfico de droga em Portugal. Outras ligações foram igualmente estabelecidas entre a Universidade Moderna, a Maçonaria Regular de que era Grão-Mestre Nandim de Carvalho e a Câmara Municipal de Lisboa. Veio ainda a público a existência de contas na Suíça de dirigentes da Dinensino (a cooperativa ou a empresa proprietária da instituição), bem como a existência de pagamentos mensais e a entrega de um Jaguar e de um Mercedes a políticos ligados ao centro de sondagens da instituição, como Paulo Portas e Santana Lopes.

(48)«A maçonaria feminina cresceu e multiplicou-se. Hoje, são cerca de 400 mulheres – e 14 lojas – sob a égide da Grande Loja Feminina de Portugal (GLFP). (…) De resto, como na maçonaria masculina, também há nomes «famosos» ligados ao poder e aos partidos políticos… mas especialmente a um. Antigas grã-mestras, como Manuela Cruzeiro, Júlia Maranha ou Maria Belo, foram todas militantes do Partido Socialista – tal como Leonor Coutinho (antiga secretária de Estado da Habitação, num dos governos de António Guterres), outra mestra maçónica, que disse ao DN já não fazer parte da instituição». (in O Poder da Maçonaria, Diário de Notícias/Gradiva Publicações, 2012, pp. 73-74).

(49) «(…) hoje tem oito lojas espalhadas pelo País: duas em Lisboa (Humanidade e Athanor), e uma no Porto (Fraternidade), em Évora (Liberalistas), no eixo Nazaré/Alcobaça (União), em Vila Nova de Gaia (Gaia), Braga (Adelaide Cabete) e Aveiro (Estrela da Manhã)» (in O Poder da Maçonaria, p. 75).

(50) Em 21 de Maio de 2011, foi instalada e consagrada a Grande Loja Simbólica de Portugal, do Rito Antigo e Primitivo Memphis Misraim, no Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano (Lisboa). Do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim resultou ainda uma estrutura maçónica exclusivamente composta por mulheres.

(51) «São, aliás, vários os deputados socialistas que pertencem (ou pertenceram) à obediência que tem sede no Bairro Alto. Desde logo João Soares, que, ao contrário do pai (Mário Soares chegou a ser iniciado numa loja francesa durante o exílio em terras gaulesas, mas nunca pertenceu à obediência portuguesa), aderiu ao GOL em 1974.

João Soares pertence à Loja Sympatia e União – onde tem o nome simbólico do humanista Thomas More…» (in O Poder da Maçonaria Portuguesa, p. 28).

(52) Sobre as relações históricas entre a Maçonaria portuguesa e a Maçonaria francesa, leia-se antes de mais: «…a Maçonaria portuguesa, tal como todo o Portugal do século XIX e até do século XX, sofreu directamente a influência francesa. Entre as duas principais potências maçónicas europeias, a Inglaterra e a França, os Maçons portugueses optaram por seguir o exemplo francês praticamente a par e passo. Afinal de contas, era de França que tinha vindo o estímulo da Revolução de 1789, assim como o modelo liberal, arvorado como estandarte das tropas francesas (recebidas pelos Maçons não como invasoras mas como libertadoras, não o esqueçamos…)» (in A. C. Carvalho, ob. cit., p. 69).







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