domingo, 6 de março de 2011

O'Sensei Morihei Ueshiba (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








Toda a tradição marcial e espiritual do Japão aparece registada pela primeira vez nas obras literárias e históricas do século VIII d. C., mais particularmente no Kojiki (Recompilação dos Feitos Antigos) e no Nihongi (Crónica do Japão). Ora, Morihei Ueshiba, Fundador do Aikido («A Via para a Harmonia Espiritual»), foi quem soube manter e conservar, na sua expressão moderna, a tradição das antigas artes travadas no campo de batalha e formalizadas, durante o Período Tokugawa (1603-1868), num legado histórico e cultural traduzido na Via das artes marciais (Budo) bem como nas Vias do sabre, do chá, da poesia, da caligrafia, de Buda e de todas as demais vias susceptíveis de exprimir o perfil e a fisionomia do povo nipónico. Vindo ao mundo a 14 de Dezembro de 1883 em Tanabe, na província de Wakayama, o Fundador do Aikido iniciou os estudos de artes marciais em Tóquio, praticando o ju-jutsu e o Kenjutsu.

Em 1903, alistado no 37.º Regimento da Quarta Divisão de Osaka, Ueshiba manifestou imediatamente a sua destreza e habilidade no manuseio da baioneta, tendo, em 1905, em plena Guerra Russo-Japonesa, sido enviado para a frente de batalha, onde se bateu com bravura e valentia. Ainda militar, ingressou no dojo de Masakatsu Nakai, em Sakai, no qual aprendeu Yagyu-Ryu ju-jutsu (Escola de Goto). Posteriormente, e por diligência do pai (Yoroku), aprendeu judo com Kiyoichi Takagi, tal como era praticado no Kodokan. Enquanto líder do grupo Kishu, constituído por 54 famílias, fundou uma colónia em Shirataki, Hokkaido, onde conheceu, em 1915, o Mestre da Escola Daito-Ryu, Sokaku Takeda, que remontava a Seiwa Saburo Minamoto No Yoshimitsu (1045-1127 d. C.), parente do Imperador Seiwa.

Fora precisamente durante a prática do Daito-Ryu, um estilo tradicional de jujutsu, que Morihei Ueshiba abrira os olhos para o sentido profundo e espiritual das artes marciais. Os princípios do respectivo sistema jamais seriam os que, mais tarde, norteariam o Fundador do Aikido, mau grado diversas técnicas permanecerem comuns, se não mesmo idênticas. No entanto, o abalo psíquico e espiritual mais forte e profundo, para Morihei Ueshiba, dar-se-ia com a morte do pai, prosseguida do envolvimento pouco antes travado com o carismático mestre religioso da seita xintoísta Omoto-Kyo, Onisaburo Deguchi.

Aliás, fora ainda sob a égide de Onisaburo Deguchi que Morihei Ueshiba - praticando o Shinto meditativo e os ritos de purificação - não só se dedicou aos estudos do Koto-dama (ou estudos da palavra-espírito) (1), como também almejou desprender-se das práticas convencionais do Yagyu-Ryu e Daito-Ryu, para então, jamais abandonando os princípios e as técnicas anteriormente aprendidas, se empenhar na criação de um estilo próprio com vista a superar as barreiras e os obstáculos inibidores da união entre o corpo, a «mente» e o espírito. Em 1924, chamou de Aiki-bujutsu a esse movimento de aproximação do composto humano, que o público em geral conhecia por Ueshiba-Ryu ou Ueshiba-ryu Aiki-bujutsu. Nesta fase, já o Fundador do futuro Aikido tomara consciência da possível união entre o Ki universal e o Ki individual, cuja perfeita realização logrou alcançar por via do sumi-kiri, uma mística e misteriosa capacidade do indivíduo para alcançar a iluminação do corpo, da «mente» e do espírito.

Por outro lado, a predisposição espiritual de O’Sensei Ueshiba era já, no seu interior, potencialmente notória desde a Guerra Russo-Japonesa, no sentido de conseguir prever ou pressentir ataques iminentes no campo de batalha, vislumbrando rastos de luz branca cintilante à frente das balas, de modo a volver e a girar o corpo a fim de evitá-las. Essa mesma experiência de espantosa clarividência teria igualmente lugar quando, ao lado de Onisaburo Deguchi, embarcara, em 1924, numa perigosa aventura à Manchúria e à Mongólia em busca de um centro planetário místico e religioso de que resultara a prisão às mãos de um déspota chinês que os executaria não fosse a intervenção de um membro do consulado do Japão, responsável pela sua libertação e demais envolvidos em tão estranha quão misteriosa expedição. Após Ueshiba retornar ao Japão, a sua clarividência espiritual continuou a manifestar-se com frequência, se bem que num outro registo (2) daquele que experienciara na Manchúria e na Mongólia aquando das suas experiências sob fogo de artilharia, e onde podia, como na Guerra Russo-Japonesa, reagir antecipadamente por virtude de uma percepção extra-sensorial.



Kisshomaru Ueshiba



«Podemos dizer – prossegue agora Kisshomaru Ueshiba, um dos filhos do Fundador – que o ano de 1924 ou o de 1925 marca o início do desenvolvimento espiritual do Aikido, pois seria desde então que Mestre Ueshiba não somente insistiria que o «verdadeiro Budo é a via da plena harmonia e do mais excelso amor por todos os seres», como também o facto de cada movimento ter a sua origem na unidade do Ki interligado com a «mente» e o corpo.

Na sequência de repetidas propostas do seu protector e admirador - o Almirante Isamu Takeshita -, o Fundador, no Outono de 1925, deslocou-se a Tóquio para realizar uma demonstração perante uma nobre e distinta audiência, na qual se encontrava o Primeiro-Ministro cessante, o conde Gonnohyoe Yamamoto. Ao conde impressionou profundamente a actuação do Fundador, que passou a dirigir um seminário especial de vinte e um dias no Palácio Independente de Aoyama, consagrado a qualificados especialistas de Judo e Kendo da Casa Imperial. Na Primavera de 1922, foi novamente convidado pelo Almirante Takeshita para ir a Tóquio, aí ensinando Aiki-bujutsu a membros da Guarda Pessoal da Casa Imperial, assim como a oficiais navais, oficiais do Exército e a proeminentes figuras do mundo da política e dos negócios. Em 1927, a instâncias do Almirante Takeshita e de Onisaburo Deguchi, deixou Ayabe e foi para Tóquio.

Durante um período de três anos consecutivos, estabeleceu diversos dojos no distrito de Shiba, de modo a instruir inúmeras pessoas no Aiki-bujutsu, entre as quais vários e proeminentes especialistas de artes marciais. Eram já de si visíveis os sinais que permitiam reconhecer o Budo do Fundador como algo mais do que uma arte marcial tradicional, havendo até quem começasse a empregar o termo Aikido para assim o caracterizar. Em Outubro de 1930, Jigoro Kano, fundador do Judo Kodokan (3), deparou-se com a magnífica arte de Mestre Ueshiba, a ponto de a proclamar o Budo ideal e, inclusive, a enviar-lhe alguns de seus melhores alunos [Jiro Takeda e Minoru Mochizuki].

Não obstante a apurada selecção, o número de alunos do Fundador continuou a crescer, de modo a confrontá-lo com a necessidade de um maior dojo. Em 1930 surgiu um novo dojo em Wakamatsu-cho, Tóquio, inicialmente alugado e depois comprado à família Ogasawara. O novo espaço de treino, chamado Ko Bukan Dojo, quedou pronto em Abril de 1931 (4). O Dojo da Sede Central de Aikido ocupa actualmente o mesmo lugar.

Em 1936, o Fundador decidiu finalmente que tinha chegado a altura de distinguir a sua arte das antigas artes marciais em virtude do conteúdo espiritual por si proclamado. Sentindo que a essência da sua nova arte era distinta da velha tradição de artes marciais, abandonou o termo Bujutsu, rebaptizando-o por Aiki-budo. Este inevitável passo lançou os futuros alicerces da sua escola. Enquanto fundador de um novo sistema artístico marcial, sentira a profunda responsabilidade de encaminhar a sua busca pessoal no sentido de uma expansão da via direccionada a todos os potenciais interessados.

Em 1939, solicitou uma petição oficial para o reconhecimento da sua organização enquanto instituição com personalidade jurídica, nomeada Kobukai. A aprovação, no ano seguinte, oficializou o Aikido e marcou o começo da sua Época Dourada. O número de membros cresceu e o nome de Mestre Ueshiba tornou-se mais famoso do que nunca.



Hirohito durante a visita ao couraçado Musashi da Marinha Imperial Japonesa.



Com o rebentar da Guerra do Pacífico em Dezembro de 1941, e a consequente viragem militarista da sociedade japonesa, inibido ficara o crescimento do Aikido em razão da considerável redução de praticantes canalizados para as Forças Armadas. Com a finalidade de mobilizar o país para a guerra, o governo ordenou e tutelou a unificação dos diversos agrupamentos de artes marciais num só organismo [Butokukai] (5). Desta forma, em 1942, o Judo, o Kendo e outras tradições marciais formaram a Grande Associação Japonesa Marcial e Virtuosa.

Não obstante o Fundador nada ter objectado perante a ordem governamental, parece que ficara insatisfeito com o facto de a sua concepção de Budo, superiormente distinta das outras artes marciais, se confinasse àquela organização. Opondo-se a essa fusão, como se de mais uma arte marcial se tratasse, viu que o nome Kobukan Aiki-Budo podia simplesmente sugerir que a sua arte era tão-só a manifestação de uma arte mais ampla, pelo que doravante decidiu proclamá-la por Aikido com o propósito de a identificar com uma forma mais original e distinta de Budo. Em Fevereiro de 1942, já depois de ter feito vingar aquela proclamação dentro de sua associação, o Aikido foi, por fim, oficialmente reconhecido como o nome da escola do Fundador. Haviam passado vinte anos desde o nascimento do Ueshiba Juku em Ayabe [dojo de 18 tatamis que Ueshiba criou em 1922, por instigação de Onisaburo Deguchi]» (6).

É um facto de que os conselhos de Morihei Ueshiba foram bastante requisitados por líderes militares e primeiros-ministros aquando do deflagrar da Segunda Guerra Mundial. Mas também é um facto de que os massacres, as carnificinas e demais atrocidades praticadas pelos japoneses durante a guerra deixaram o Fundador num estado emocional e físico extenuante. Nisto, é preciso não esquecer que a Guerra do Pacífico, iniciada com o ataque japonês a Pearl Harbor (7 de Dezembro de 1941) (7), culminaria, em 1945, na Declaração de Potsdam (divulgada a 2 de Julho), na qual se impunha que o Japão se rendesse incondicionalmente ou se preparasse para a sua «destruição rápida e total” (8).

Em reacção ao clima de guerra, Morihei Ueshiba acabou por se estabelecer em Iwama (Prefeitura de Ibaraki), no nordeste de Tóquio. O seu fim era agora preservar o espírito de Budo, estabelecendo um centro espiritual de que pudessem usufruir as futuras gerações e encarregando o seu filho, Kisshomaru Ueshiba, de liderar o dojo de Wakamatsu-cho. Neste contexto, conta-nos K. Ueshiba:

«Iwama está perto de Mito, centro cultural e artístico no Período Togugawa, então escassamente povoado. As granjas eram poucas e dispersas, sendo toda a zona arborizada, 90 a 100% coberta de pinheiros, árvores de fruto e pequenos bosques das mais variadas espécies. O Fundador limpou cerca de 20 000 tsubo (6, 62 hectares) das propriedades adquiridas ao longo dos anos, começando a cultivar a terra segundo um desejo longamente acalentado de unir a agricultura com a arte marcial. O pequeno edifício convertido em granja, no qual vivia, continha apenas duas habitações pequenas e uma área térrea. Os visitantes desta choça quedavam surpreendidos pelo seu aspecto ruinoso, mas o entusiasmo do Fundador era grande.






Quando se instalou em Iwama, tinha em mente três objectivos a fim de realizar o seu ideal no que respeita ao verdadeiro Budo. O primeiro consistia em estabelecer um Santuário Aki que simbolizasse a Via de ai-ki e o espírito do aikido. O segundo em construir um dojo ao ar livre, impregnado do Ki da natureza, em que se pudesse ensinar o Budo ideal de take-musu. O terceiro em levar a cabo o seu almejado sonho de unir a agricultura com a arte marcial. Por conseguinte, aspirava a relacionar o treino de Budo (take), já de si harmonizado com a força vital protectora (muso), com o trabalho agrícola mediante o qual a terra gera o alimento que sustenta a vida.

O Santuário Aiki fora concebido para prestar homenagem aos quarenta e três deuses que sustentam e dão poder criativo ao Aikido, bem como para ser o centro sagrado destinado a todos os praticantes de Aikido comprometidos em promover a Via para todos os seres. Os quarenta e três deuses são as deidades marciais, os reis dragões e as gloriosas encarnações na tradição sapiencial japonesa. O Fundador acreditava firmemente que a sua habilidade no Budo não provinha de si próprio, mas sim dos deuses que o protegiam e garantiam essa mesma habilidade . Esta era a sua crença fundamental, o que demonstra a sua humildade e auto-disciplina; logo, entregando-se a um poder superno, nunca se mostrara arrogante em virtude dos feitos alcançados. Esta humildade, síntese da sua sinceridade e da sua devoção centradas no treino, é algo que todos os praticantes de Aikido devem ter verdadeiramente em atenção.

A disposição do Santuário Aiki está baseada nos princípios do kotodama. Em conformidade com os três princípios do triângulo, do círculo e do quadrado, estão o santuário interior, a sala de culto, a porta de entrada, etc. Estes três signos são os símbolos do exercício de respiração no estudo do kotodama. Nas palavras do Fundador:

Quando o triângulo, o círculo e o quadrado se convertem numa unidade, surge o movimento de rotação esférica em conjunção com o fluxo do Ki, e daí o Aikido de sumi-kiri.

O facto de o Santuário Aiki, produto de uma elaborada visão, ter sido terminado nos difíceis e derradeiros anos da Segunda Guerra Mundial, ficou a dever-se aos esforços do mestre carpinteiro Matsumoto, que vivia em Iwama, bem como ao incansável apoio de inúmeros praticantes dos primeiros tempos do Aikido. Findo, em 1943, o principal santuário de Aiki, o Fundador derramou lágrimas de felicidade. O sonho da sua vida tinha-se tornado realidade, e os alicerces do Aikido estavam lançados. O Santuário era agora a Meca de todos os praticantes da arte.

A principal celebração do Santuário Aiki, a 29 de Abril de cada ano, reúne não apenas adeptos do Aikido, em Tóquio, como em todo o país e no estrangeiro. É uma ocasião festiva que encarna o melhor do Aikido. Em termos pessoais, sinto-me completamente purificado cada vez que rezo e realizo uma demonstração no santuário.

Em consonância com a segunda parte do plano do Fundador, a construção de um dojo ao ar livre teve lugar num ângulo saliente da granja; porém, devido ao incremento do número de alunos, fora necessário construir um pequeno dojo interior com cerca de trinta tsubo. Foi concluído em 1945, imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, pese embora não correspondesse ao objectivo original de combinar a agricultura com a arte marcial; em todo o caso, trouxera inesperados benefícios para o Aikido...









Notas:

(1) Eis um passo sobre o kotodama: «Budo é um caminho divino estabelecido pelos deuses, que leva à verdade, bondade e beleza; é um caminho espiritual que reflecte a ilimitada absoluta natureza do Universo e o grande processo da elaboração da criação. Por meio da virtude adquirida com a devoção à prática, pode-se alcançar a percepção dos princípios do céu e da terra. Tais técnicas se originam da interacção subtil do fogo e da água, revelando o caminho do céu e da terra e o espírito do caminho imperial; essas técnicas também mostram o funcionamento maravilhoso do kotodama, o princípio que direcciona e harmoniza todas as coisas no mundo, resultando na unificação do céu, da terra, de Deus e da humanidade…» (in Morihei Ueshiba, Budo, Editora Cultrix, São Paulo, p. 29).

(2) No âmbito desse registo, consta o desafio feito por um oficial naval a Morihei Ueshiba, corria a Primavera de 1925. Ueshiba aceitou o desafio do oficial que se limitara a desferir golpes com um sabre de madeira (bokken) sem jamais acertar no alvo. De facto, Morihei Ueshiba encontrava-se em sumi-kiri, sentindo e antecipando a direcção dos golpes, de modo a evitá-los.

(3) O Kodokan ou «Escola para o Estudo da Via», começou por ser o dojo de Jigoro Kano, no qual se notabilizaram desde logo Higushi, Nakajima, Arima, Matsuoka, Amano Kai e o campeão Shiro Saigo, vencedor, aliás, de inúmeros adeptos do tradicional ju-jitsu. Entretanto, a escola de Kano expandiu-se em Nirayama, Edajima e Kyoto. Entre os campeões destacaram-se o já mencionado Shiro Saigo e Yoko-Yama, não obstante ter existido um experienciado ju-jitsuka, de nome Tanabé, que logrou derrotar, de uma forma regular, todos os campeões do Kodokan. E tal acontecera porque, não incidindo o Judo na luta de chão, Tanabé soubera aproveitar-se desse facto para, uma vez conduzido o adversário ao solo, finalizá-lo por estrangulamento.

Jigoro Kano, ao mesmo tempo que confiava a direcção do Kodokan aos seus melhores alunos, fez também viagens pelo mundo com o fim de apresentar e expandir o Judo, particularmente na Europa e na América. Outros japoneses fizeram o mesmo, como o mestre Yamashita, que chegou a ter como aluno o futuro presidente norte-americano, Teodoro Roosevelt. No domínio do jiu-jitsu, seria Mitsuyo Maeda quem, estabelecendo, em 1915, uma colónia japonesa no Brasil, passaria a respectiva modalidade a um dos filhos de Gastão Gracie, que a transmitiria, por seu turno, aos irmãos Hélio, Oswaldo, Jorge e Gastão. Estes, por fim, encarregar-se-iam de transmitir o que haviam aprendido aos filhos e a muitos milhares de alunos. Nascia assim, por entre inúmeros desafios, o jiu-jitsu da família Gracie, que se tornou mundialmente conhecido quando Royce Gracie ganhou, em 1994, o primeiro Ultimate Fighting Championship, um torneio de vale-tudo em recinto fechado. De resto, a partir do momento em que os lutadores de outras artes marciais passaram a integrar o sistema Gracie nos seus estilos de origem, a hegemonia dos Gracie nunca mais fora a mesma. Ficou, porém, a marca e o contributo inestimável do clã Gracie para o desenvolvimento técnico das artes marciais.









Rickson Gracie. Ver 1, 2 e 3































Ver 1, 2, 3 e 4






(4) O Kobukan, instalado em Wakamatsu-cho, dispunha de 80 tatamis. Era popularmente conhecido como o “dojo do inferno”, devido à intensidade dos treinos aí praticados. Entre os muitos alunos que se matricularam no Kobukan, temos Hisao Kamata, Hajime Iwata, Kaoru Funabashi, Tsutomu Yugawa e Rinjiro Shirata.

Muitos outros dojos estavam igualmente a cargo de Morihei Ueshiba, nomeadamente em Tóquio e Osaka. O principal dojo «era o Otsuka Dojo, em Koishikawa (patrocinado por Seiji Noma, chefe administrativo do Kodansha), o Fujimi-cho Dojo, em Iidabashi e, em Osaka, o Sonezaki Dojo, o Suida Dojo e o Chausuyama Dojo. Os ushi-desshi (estudantes que moravam no dojo) mais destacados nessa época eram Shigemi Yonekawa, Zenzaburo Akazawa, Gozo Shioda e Tetsumi Hoshi» (in M. Ueshiba, Budo, p. 16).

(5) O Butokukai, a escola nacional de todas as artes marciais, foi criado pelo governo japonês em 1897. A partir de 1938, num clima político que deixava antever a guerra, tornou-se numa instituição cada vez mais poderosa no sentido de reabilitar e centralizar as virtudes guerreiras segundo o espírito do código dos samurais, o Bushido. O Judo, o Kendo, o Karaté, o Kenjutsu, o Kyudo (tiro ao arco) foram assim, entre outras especialidades, canalizados para o esforço de guerra.

(6) K. Ueshiba, El Espiritu del Aikido, Editorial Eyras, Madrid, 1988, pp. 111-113.

(7) «A primeira ofensiva [a Pearl Harbor] foi constituída por uma vaga de 183 bombardeiros. Uma segunda vaga de 176 bombardeiros atacou aproximadamente uma hora depois. As forças americanas estavam completamente desprevenidas. Sofreram cerca de 4500 baixas (das quais três quartos eram mortos ou desaparecidos presumivelmente mortos). A América também perdeu quatro couraçados, aproximadamente 180 aviões e três contratorpedeiros. Para além disso, houve danos graves em quatro outros couraçados, e em cerca de 80 aviões e três cruzadores ligeiros. Do lado japonês, as perdas foram apenas de cinco submarinos, 29 aviões e cerca de 60 homens» (in Kenneth Henshall, História do Japão, Edições 70, 2004, pp. 172-173).

(8) Não há dúvida de que o espírito guerreiro dos japoneses foi algo que os americanos estavam prontos a enfrentar materialmente mas não psicologicamente. Por outras palavras, os japoneses estavam dispostos a lutar até à morte, raramente se rendendo perante o inimigo que viam como que enfraquecido pelo egoísmo e pelo materialismo. Em Okinawa, por exemplo, a luta foi renhida e feroz, tendo caído a 21 de Junho de 1945, com um total de 110 000 militares japoneses e aproximadamente 150 000 civis mortos. E a somar estão ainda os 2000 pilotos kamikaze [“Vento Divino”, por referência à tempestade que protegera o Japão das invasões mongólicas, no século XIII] e inúmeros suicídios em massa. Do lado dos americanos, houve 13 000 mortos e 40 000 feridos.




Os americanos, perante um tão feroz espírito guerreiro, tiveram sérias dúvidas sobre se a raça japonesa (que o próprio Hitler designava por untermenschen ou “homens inferiores”) não estaria a caminho da sua cabal destruição, «num desejo de morte em massa conhecido como ichioku gyokusai (“autodestruição dos cem milhões que são como jóias”)» (in K. Henshall, ob. cit., p. 176). Aliás, basta ver como a utilização sistemática dos pilotos kamikaze (os princípios suicidas aplicavam-se simultaneamente aos aviões e aos mini-submarinos), oficialmente designada por Shinpu Tokubetsu Kogekitai (Força de Ataque Especial “Vento Divino”), jamais fora compreendida à luz dos princípios ocidentais de guerra, a avaliar pelo modo como os Aliados se referiam aos “aviões suicidas”, a saber: bombas baka (“bombas estúpidas”). Seja como for, uma coisa é certa: se os americanos não tivessem tido à sua disposição uma máquina de guerra superior à dos japoneses, aterradoramente exibida no uso da bomba atómica (Hiroxima: cerca de 90 000 mortos; Nagasáqui: 50 000 mortos no imediato e 30 000 nos anos posteriores), não teriam, decerto, ganho a guerra.




O'Sensei Morihei Ueshiba (1883-1969).




Continua


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