segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Führer

Escrito por Orlando Vitorino



Introdução

O próximo escrito, de Orlando Vitorino, foi publicado no primeiro e último número da revista Bárbara, em 1997. Nele se demonstra como o sozi (1) Manuel Maria Carrilho, catedrático empenhado na intervenção socialista e totalitária do Estado, não passa de um inimigo do pensamento e de toda a tradição clássica e cristã desde Platão a Heidegger. Como tal, nada se omite sobre quem, Ministro da Cultura, não só anunciou, entre nós, a total estatização da cultura, como ainda se dispôs a ampliar essa poderosa e omnipotente empresa a sectores tão vitais como os da economia, da política e da existência social e profissional dos Portugueses.

Entretanto, se o perigo parece ter passado quando Manuel Maria Carrilho deixou cair tão filantrópica Pasta da Cultura - que outros sucessores logo assumiram na condição de não deixar morrer a estratégia gramsciana da organização marxista e comunitária da cultura -, a verdade é que, findo, em 2009, o seu papel de ideólogo activista na Unesco, procura agora uma oportunidade canina para pôr em prática o que vai ensinando na Universidade segundo a ideologia mundialista da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Ora, essa mesma ideologia proclama o fim da filosofia clássica, embora ainda não se exprima nos termos do socialista de cátedra que já deu por literalmente garantido que um jovem de quinze anos sabe hoje muito mais coisas do que sabia Aristóteles (sic).

Para socialistas como Manuel Maria Carrilho, a cultura é, portanto, um fenómeno social e político total desde o património até à produção erudita e monografista das universidades. O liberalismo, ou o sistema da liberdade, não pode, como tal, ter lugar numa cultura e numa sociedade feitas à imagem fáustica e apocalíptica do Führer. Segundo essa imagem, o universo será socialista ou, simplesmente, não será coisa nenhuma.

Enfim, o homem-massa, não obstante sua dissimulada quão vazia retórica da tolerância e da solidariedade, não está verdadeiramente interessado em discutir ideias, já que toda a cultura, sob a pesada e poderosa estatização socialista, representa apenas uma plataforma de consenso tácito mas obrigatório para quem deseje ser reconhecido nos postos-chave de uma sociedade planificada e politicamente totalitária. Assim, para um socialista toda e qualquer discussão, nominalmente democrática, só pode ser admitida desde que directa ou indirectamente atinente aos meios técnicos de confiscação da propriedade e da riqueza alheia. Assim, se já Aristóteles afirmara que não vale a pena discutir com quem não aceita princípios universais, a verdade é que será totalmente inútil e vão procurar dialogar com quem e para quem os princípios, os conceitos e as ideias, uma vez abolidos, estão ultrapassados e fora de todo o consenso politicamente correcto.


(1) Sozi significa socialista. Curiosamente, o termo nazi surgiu historicamente por analogia com sozi (cf. Marlis Steinert, Hitler, Verbo, 2006, p. 127).

Miguel Bruno Duarte


O Führer*

Charlie Chaplin, em O Grande Ditador (1940).






Chama-se Manuel Maria Carrilho e é Ministro da Cultura.

Ao mesmo tempo que tomava o poder nas mãos do Estado, publicava um livro – Aventuras da Interpretação – que nos oferece a rara oportunidade de sabermos o que, não só ele enquanto Ministro da Cultura, mas todo o Governo a que pertence e até todos os poderes do Estado, querem fazer dos Portugueses. É que – diz-nos o livro – nas sociedades contemporâneas a cultura é um fenómeno social total, envolve portanto toda a existência social dos Portugueses. Ao enunciar depois a estatização da cultura, literalmente a intervenção do Estado em todos os domínios da cultura, uma intervenção administrativa e técnica, profissionalizada e competente, tal intervenção envolve, naturalmente, os outros serviços do Estado, isto é, não só o Governo, que é um dos orgãos do Estado, mas todo o Estado. Compreende-se que, em consequência, o Ministro inclua no domínio da cultura onde vai ser feita a estatização, sectores da existência social especificamente não-culturais. Diz literalmente que a estatização da cultura vai desde a escola ao mercado, desde a indústria ao emprego, desde o património ao estímulo da criação. Note-se bem: o mercado, a escola, a indústria, o emprego, que têm, na composição do Governo, seus Ministérios próprios. Todos eles irão sumir-se na estatização a que o Ministro da Cultura vai proceder.

Não se trata de mais um caso de megalomania. Manuel M. Carrilho é Ministro da Cultura, e o Chefe do Governo que o escolheu, no único aceno de bom-tom intelectual que nos fez, já se abonou da autoridade de Rorty e Rawls recomendada por ele.

O Ministro da Cultura não fala ao acaso. Antes acompanha a estatização a que nos vai sujeitar pela doutrina da qual a deduziu. Todos sabemos que as doutrinas da estatização total caracterizaram o nazismo alemão e o comunismo russo e lhes são inseparáveis. Insolitamente, o nosso Ministro vai buscar a sua aquilo a que chama a filosofia contemporânea e identifica com a filosofia dos norte-americanos.


Martinho Heidegger

Emergirá ela da sociedade contemporânea porque, diz-nos o Ministro, toda a filosofia é o que for a sociedade. Ora a sociedade contemporânea tem características que nenhuma outra sociedade anterior teve e a sua filosofia necessariamente corta com toda a filosofia tradicional, desde Platão a Heidegger. Em vez da tradição, a tradução. Quer o Ministro dizer: a filosofia tradicional ou será traduzida na filosofia contemporânea ou será simplesmente eliminada. Desta eliminação dá, entre outros, o exemplo recente do francês Deleuze, uma espécie de trânsfuga à tradução que começou por esboçar, e o exemplo remoto de Aristóteles que será abolido do ensino uma vez que, assegura seriamente, um jovem de quinze anos sabe hoje muito mais coisas do que sabia Aristóteles (sic). As características inéditas da sociedade contemporânea serão a ecologia, a comunicação cibernética e o homem mediático. A filosofia contemporânea estará determinada por essas características. A ecologia determinará um sistema do Direito no qual não será apenas o homem a ter personalidade jurídica mas também os animais, os vegetais e os minerais (sic). A comunicação cibernética – instantânea e planetária – determinará que as ideias não sejam mais do que convicções partilhadas por todo o mundo. O homem mediático determinará que, perfilhando ele por definição aquelas convicções, a verdade não seja senão o consenso. À margem destas determinações, a filosofia tradicional, que desde a Grécia e o Cristianismo irradiou da Europa, não será mais, já não é senão, nas expressões do nosso Ministro, um ranço, uma tontice, um cemitério de sucata. Chama-lhe também tribal. Não se julgue, porém, que a filosofia contemporânea é uma filosofia a fazer. Ela já aí está, toda feita, e muito segura e convicta de si. É o neo-pragmatismo, irradiante das universidades norte-americanas onde foi formado – sempre segundo o Ministro da Cultura – a partir de certos europeus fugidos ao nazismo que Heidegger caucionou. Expõe-a M. M. Carrilho, não por conta própria mas por conta de autores e livros, quase todos norte-americanos, que se vai aventurando a interpretar ou a usar, pois, para o autor das Aventuras da Interpretação, interpretar é usar.

O neo-pragmatismo tornou-se possível graças ao corte com a filosofia tradicional, corte realizado pelo trio Marx-Freud-Nietzsche, e à consequente extinção da filosofia europeia. A extinção terá sido revelada pelo nihilismo de Nietzsche que será… o quê? Nada mais do que o zero em que acabou aquela filosofia vinda do remoto platonismo.

Desse nada emergindo, a filosofia contemporânea acrescentar-se-á à lei positivista dos três estados como um quarto estado. A lei do positivismo faz suceder ao estado teológico o metafísico, ao metafísico o positivo (ou científico). Assegura-nos o Ministro da Cultura que ao estado positivo sucedeu já, nos nossos dias, o estado neo-pragmático, tal como à ciência sucedeu a tecnologia.

Suceder equivale a ultrapassar. Ultrapassada a teologia, o neo-pragmatismo dá por abandonada toda a transcendência e glorifica-se no anúncio nietzschiano de que “Deus está morto”, anúncio do qual o Ministro da Cultura teve precoce conhecimento, confidenciando-nos ser ateu desde os quinze anos. Ultrapassada a metafísica, dá por abandonado o ranço da discussão dos princípios, das ideias, da verdade, dos conceitos, enfim, das essências. Ultrapassada a ciência, dá por abandonada a necessidade, a causalidade e, com elas, a experiência orientada pela razão. Não mais essencialismos, racionalismos, universalismos. Que fica? Sumariamente fica isto: no lugar onde esteve o que foi ultrapassado ou eliminado e deixou lugar – porque Deus e a transcendência, o imutável e o atemporal, os princípios e os fins, eliminam-se sem deixarem lugar – põe-se: a retórica (onde esteve a lógica), a linguística (onde esteve a filologia), a contingência (onde esteve a necessidade), a linguagem sem significado, sem sentido e sem palavra (onde esteve a consciência), a metáfora (onde esteve o conceito), as consequências e os efeitos (onde estiveram as causas), os hábitos de acção, crenças ou convicções (onde esteve a razão).




É o extermínio do pensamento (um dos livros que o Ministro usa chama-se A Derrocada do Pensamento), o extermínio da filosofia, da arte e da ciência onde o pensamento se manifestou. É o extermínio da civilização, a europeia, que o pensamento criou e suporta, e da sua cultura da qual M. M. Carrilho está sendo, entre nós, o paradoxal Ministro. É o mundo da contingência, inseguro e sem fundamentos, o mundo no qual a existência é uma errância no vazio (única expressão, entre todas as que sublinhámos, que não é de Carrilho).

Como é possível? Como é possível afirmar tais coisas, preconizar-nos a imposição pelo Estado de tais absurdos, e ser tomado a sério seja por quem for, seja pela Universidade na qual o Ministro é professor, seja pelo Governo do qual o professor é Ministro e faz gestos de ser mentor? É certo que o Ministro tem atenuantes. As de nunca falar por conta própria, de não ter ideias, nem conceitos, nem opiniões, o que não ofende nem se estranha pois o Ministro é já o nobre exemplo de estar abolido o pensamento. Nunca falando por conta própria, fala sempre por conta dos neo-pragmatistas americanos. Vale apena, já agora, vermos a estrutura mental que lhes atribui.

Tudo começa pela negação da realidade das ideias e do que só por elas se dá: princípios, formas, conceitos, essências. Em vez das ideias, o que há são convicções que, assegura-nos o Ministro, é o que as ideias sempre foram (sic). As convicções formam-se e firmam-se pelas perspectivas e pelos consensos. Em certo momento, alguém – um homem de talento senão de génio – colocado num certo ponto de vista, obtém uma certa perspectiva que o leva a formar uma certa convicção, a qual pode adquirir, senão impor (mediante a comunicação cibernética e o homem mediático característicos da sociedade contemporânea) um certo consenso, com isso se alargando, como crença, ou hábito da acção, a uma certa contextualidade e aí valendo como um certo paradigma. Este processo de formação das convicções é o mesmo para todos os domínios do conhecimento, para todas as disciplinas. E como todo o conhecimento é hoje interdisciplinar, o processo poderia dizer-se universal se esta palavra não fosse daquelas que estão banidas do vocabulário neo-pragmático. Como chamar-lhe então? Comunista, comunitário, solidário parecem ser as designações que o Ministro escolheria.

Cada disciplina deriva de um dos momentos do processo cujas designações sublinhámos. A ética, por exemplo, dado o saudável abandono da religião pela moral (o Ministro não distingue entre ética e moral), deriva do consenso e o consenso é, para o efeito, o bem-estar (sic). O direito, abandonados os princípios, deixa de se deduzir da justiça ou da liberdade para derivar da contextualidade (é aqui que o Ministro fala do ranço dos princípios e enaltece a justiça sem metafísica recomendando um livro de Rawls). A ciência, eliminada a experiência segundo o método da razão (aliás, todo o método é para abolir), deriva do paradigma ao qual se atribui a origem das revoluções científicas como fez T. Kuhn, autor que é estranho o Ministro não recomendar. Último exemplo, a política, domínio por excelência de interdisciplinaridade, provém de todo o conjunto do processo e é aí que M. M. Carrilho privilegia o tal homem de talento senão de génio que forma as convicções e as faz partilhar comunitariamente como hábitos de acção em toda a existência social do homem mediático que somos todos nós. Aquele homem de talento senão de génio é, afinal, o FÜHRER de que fala Heidegger, o FÜHRER a quem os homens desejarão entregar todos os poderes quando a sua existência, exterminado o pensamento, não for mais do que uma “errância no vazio”.

Reconhecer-se-á o Ministro da Cultura neste Führer? Ou guardá-lo-á, prestável, para que nele se reconheça o Chefe do Governo que já, na sua pegada, cita Rorty e Rawls? Reconhecer-se-ão os norte-americanos, tão ciosos da sua democracia, na imagem que, para os servir, o Ministro da Cultura dá dos seus filósofos? Reconhecer-se-ão estes nessa sinistra imagem tão surpreendente como um absurdo que encontre quem o ouça? Continuarão os paupérrimos editores da nossa praça a ser financiados – por quem? – para publicarem livros sem mercado como aqueles em que o nosso Ministro se autoriza louvando por prodigiosas as respectivas traduções? E a União Europeia da qual o nosso Governo recebe o seu sustento? Não está ela empenhada, como já publicamente anunciou, em defender a cultura da Europa dos avanços que sobre ela faz o imperialismo americano? Com que olhos verá um Governo, cujo mentor, este Ministro da Cultura, a dá, no que ela tem de essencial, por um cemitério de sucata? (in Bárbara, Revista Liberal, 1, Setembro de 1997, Edições Ledo, pp. 5-7).







* Todas as palavras e frases em itálico transcritas neste artigo são literalmente expressões usadas pelo Ministro da Cultura. M. M. Carrilho, no seu livro.

Este artigo foi escrito há coisa de dois anos e entregue para publicação a um dos jornais portugueses de mais leitores, do qual, durante alguns anos, o autor deste artigo foi assíduo colaborador. Aliás, como o leitor já observou, o artigo é do mais actual e profundo interesse, exposto com uma objectividade que nenhum sectarismo macula e com uma discursividade literária exemplar. O assunto documental de que trata é de primeira importância para os portugueses, pois constitui uma ameaça à sua liberdade mais íntima. Assunto documental, dizemos, porque expõe a doutrina defendida e preconizada em livro pelo Ministro da Cultura, cujas funções não podem deixar de ser os de mentor do actual governo socialista. Precisamente porque se abona ou documenta com as afirmações de um membro do Governo, a Redacção do Jornal teve de sujeitar a sua publicação à aprovação do respectivo Director, o que só demonstra que os membros do Governo são intocáveis, nesta democracia socialista sem censura. Desde então, já lá vão 10 ou 11 meses, o Director do Jornal tem o artigo retido, o que demonstra que o medo das represálias do Governo é asfixiante e abafa toda a comunicação social.

Ingénuo salazarismo que tivemos. O controlo secreto da comunicação social é muito mais eficaz do que a Censura legalizada, não tem que dar satisfações a ninguém pois não há rosto a quem as pedir, espalha, com seu secretismo, um medo que só aproveita aos medianos e incapazes e permite badalar que vivemos com perfeita liberdade de expressão a qual, de facto, não existe.








sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Categorias de Aristóteles (iii)

Escrito por Aristóteles



Akropolis de Atenas

 Ver aqui 

15. Cada locução de per si não exprime, nem afirmação, nem negação. Porém, mediante a ligação de umas com as outras, resulta afirmação ou negação, porque toda a afirmação ou negação é julgada verdadeira ou falsa. Mas das locuções desligadas nenhuma é verdadeira, nem falsa.

Exemplo: Homem, Branco, corre, vence.

16. Primitiva e principalmente, chama-se essência primária aquela que nem se diz de nenhum objecto, nem está em nenhum objecto.

Exemplo: um determinado homem, um determinado cavalo.

17. E chamam-se essências secundárias, tanto as espécies, a que pertencem as essências primárias, como os géneros dessas mesmas espécies.

Exemplo: um determinado homem é compreendido na espécie Homem, e o género desta espécie é animal. São pois as essências secundárias tais, como Homem e Animal.

18. Do que fica dito se segue que tudo o que se diz de um objecto, é necessariamente categoria dele, não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome.

Exemplo: um determinado homem é um determinado objecto, que se compreende na categoria de Homem, primeiramente quanto ao nome, porque de qualquer determinado homem se diz ser Homem, e em segundo lugar, a razão categórica de Homem é aplicável a qualquer determinado homem, porque qualquer determinado homem é Homem e Animal e, portanto, é categoria do objecto, não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome.

19. Mas as coisas, que estão em algum objecto, pela maior parte não são categorias do objecto, nem quanto ao nome, nem quanto à razão do nome.

20. Porém algumas podem-no talvez ser quanto ao nome, posto que jamais o podem ser quanto à razão do nome.

Exemplo: a brancura, que está em um objecto (qual é o corpo) é categoria em que se compreende o corpo, porquanto o corpo se diz branco, mas a razão categórica de brancura não é aplicável ao corpo.




21. Todas as outras coisas, ou se dizem das essências primárias, como de outros tantos objectos, ou estão nelas, como em outros tantos objectos.

Isto se faz manifesto da consideração de cada uma das coisas per si, por exemplo: Homem contém-se na categoria de Animal e, por conseguinte, também qualquer determinado homem se conterá nessa mesma categoria, porque se algum determinado homem se não contém nela, então também se não compreenderá o Homem em geral. Do mesmo modo a cor existe no corpo, e logo também em determinado corpo porque, se não existe em algum corpo, então também não existe no corpo em geral. E, portanto, todas as outras coisas ou se dizem das essências primárias, como de outros muitos objectos, ou estão nelas, como em outros tantos objectos.

22. De modo que, não existindo as essências primárias, seria impossível existir nenhuma das outras.

23. Ora, das essências secundárias a espécie é mais essência do que o género.

Porque está mais próxima à essência primária. Porquanto, querendo-se designar o que seja uma essência primária, se designará mais clara e propriamente apontando-se a sua espécie, do que o seu género. Por exemplo: querendo-se designar o que seja um determinado homem, se designará mais claramente, dizendo-se que é Homem, do que dizendo-se, que é Animal. Porque aquela primeira designação é mais própria desse determinado homem, entretanto que esta é mais comum. E querendo-se designar uma determinada árvore, se designará mais claramente, dizendo-se ser uma árvore, do que dizendo-se ser um vegetal. Além disso, as essências primárias não se dizem principalmente essências, senão porque são objectos de todas as outras coisas, e todas as outras coisas são categorias, em que elas se contêm.

24. O que das essências primárias são a respeito de todas as outras coisas, isso mesmo é cada espécie a respeito do género.

Porque a espécie passa a ser objecto relativamente ao género, visto que a espécie se compreende na categoria do género e não inversamente o género na da espécie. E, por isso também, é a espécie mais essência do que o género.

25. De duas espécies, das quais nenhuma é género da outra, também nenhuma é mais essência do que a outra.

Por isso que, querendo-se designar um determinado homem, não se denotará mais propriamente dizendo que é Homem, do que se, querendo-se dizer um determinado cavalo, se dissesse Cavalo.




26. O mesmo é das essências primárias, que nenhuma delas é mais essência do que outra.

Porque um determinado homem não é mais essência do que um determinado boi.

27. Com razão, pois, entre todas as coisas, que não são as essências primárias, somente os géneros e as espécies se denominam essências secundárias.

Porque de todas as categorias, em que a essência primária se compreende, nenhuma a designa tão bem, como os géneros e as espécies. Porquanto, se se quiser designar o que é um determinado homem, designar-se-á com propriedade denotando-se a sua espécie, ou o seu género, e designar-se-á mais claramente dizendo-se que é Homem ou Animal. Mas se apontasse qualquer outra coisa, designar-se-ia de um modo estranho, como se se dissesse ser branco, ou que corre, ou outra coisa semelhante. Por onde com razão, de entre todas as coisas, a elas só se lhes tem dado o nome de essências. E mesmo as essências primárias não se chamam com especialidade essências, senão porque são objectos, que se compreendem em todas as outras coisas, como em outras tantas categorias.

28. O que as essências primárias são a respeito de todas as outras coisas, isso mesmo são a respeito de tudo o mais, os géneros e as espécies, a que as mesmas essências primárias pertencem.

Porque todas as outras coisas são outras tantas categorias, em que elas se contêm. Porquanto, assim como de um determinado homem é que diremos ser gramático, assim também do que é o homem, do que é o animal, é que diremos ser gramático. O mesmo acontece em tudo o mais.

29. É comum a todas as essências o não estarem em nenhum objecto.

Porque as essências primárias nem estão em nenhum objecto, nem se dizem de nenhum. E quanto às secundárias também é claro, que nenhuma delas está em objecto algum. Pois homem, sim, se diz de algum objecto, que é qualquer determinado homem, mas não está em nenhum objecto, porque homem não está em nenhum determinado homem. Do mesmo modo, animal, sim, se diz de algum objecto, que é qualquer determinado homem. Além disso, as coisas, que estão em algum objecto, nada obsta a que sejam categorias dele quanto ao nome, mas, quanto à razão do nome, é impossível que o sejam.

30. Ora as essências secundárias são categorias do objecto, não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome.

Porque a razão categórica (1) de homem é aplicável a qualquer determinado homem, e do mesmo modo a razão categórica de animal. De tudo o que se segue, que nenhuma essência pode ser do número das coisas, que estão em algum objecto.

31. Mas isto não é particular às essências, porque também as diferenças (2) são do número das coisas, que não estão em nenhum objecto.

Porque o ter pés, e o ser bípede, diz-se do homem, como objecto, mas não está em nenhum objecto, porquanto não está no homem o ter pés, nem o ser bípede.




32. E as diferenças são categorias do objecto a que se referem, até mesmo quanto à razão do nome.

Exemplo: se se diz do homem o ter pés, é porque ao homem é aplicável a razão categórica desta expressão, pois que o homem é um animal dotado de pés.

33. Nem nos faça confusão o estarem as partes das essências nos todos a que pertencem, de modo que nos julguemos obrigados a dizer, que elas não são essências. Porquanto, nós não dissemos que as coisas, que estão em algum objecto, existem em algum, como partes dele.

34. Verifica-se, pois, tanto nas essências, como nas diferenças, que todas as outras coisas derivam delas os seus nomes de uma maneira unívoca.

Porque todas as categorias, que delas se derivam, ou compreendem indivíduos ou espécies, visto que das essências primárias se não deriva nenhuma categoria, sendo assim que se não dizem de nenhum objecto. E quanto a aquelas, que se derivam das essências secundárias, a espécie compreende os indivíduos, e o género compreende as espécies e os indivíduos. Do mesmo modo, as diferenças fornecem outras tantas categorias, em que se compreendem as espécies e os indivíduos. Além disso, a razão categórica, tanto das espécies, como dos géneros, é aplicável às essências primárias, porque tudo o que se diz do objecto se há-de dizer das categorias, em que ele se compreende. Semelhantemente a razão categórica das diferenças é aplicável às espécies, e aos indivíduos. Ora unívocos eram os que tinham o mesmo nome, e a razão do nome idêntica. Logo todas as coisas, que se compreendem nas categorias das essências e das diferenças, tiram delas os seus nomes de uma maneira unívoca.

35. Toda a essência parece significar o que alguma coisa é. E quanto às essências primárias, é verdade indubitável que significam o que alguma coisa é, porque cada uma delas significa um objecto indivisível, e um em número. Quanto às essências secundárias, sim, parece, pela forma do seu enunciado, que também significam o que alguma coisa é, como quando se diz Homem, Animal, mas isto é mera aparência, porque tais expressões denotam antes qual seja a coisa a que se referem; nem se aplicam a um só objecto, como as essências primárias, porquanto Homem, Animal, dizem-se de muitos. Contudo, não denotam uma simples qualidade, como Branco, que nada mais significa do que uma simples qualidade.

36. Assim que, tanto a espécie, como o género, determinam as qualidades das essências, porque determinam, de uma dada essência, qual ela seja.

37. Mas esta determinação é mais ampla no género do que na espécie.

Porquanto, quem diz Animal, abrange a mais, do que quem diz Homem.

38. Também se verifica nas essências, o não terem nada que lhes seja contrário.




Porque quanto às essências primárias, que é o que lhes poderia ser contrário? Por exemplo: a um determinado homem? A um determinado animal? Sem dúvida que nada lhes é contrário. Tão pouco têm contrário Homem, ou Animal.

39. Mas isto não é particular às essências, mas também se verifica em muitas outras coisas, como nas quantidades.

Porque a ser de dois côvados ou a ser de três côvados, nada é contrário, bem como nem a dez, nem a outra nenhuma coisa semelhante. Excepto se alguém disser, que muito é contrário a pouco, e grande a pequeno. Mas às quantidades nada é contrário.

40. Parece outrossim, que as essências não são susceptíveis de mais, nem de menos.

Eu não digo que não há uma essência mais ou menos essência do que outra, porque isso já fica ensinado afirmativamente. O que eu digo, é, que cada uma das essências, isso que é, não se pode dizer que o é mais, nem menos. Por exemplo, se a essência de que se trata é um homem, não pode ser mais, nem menos homem do que outro, pois um homem não é mais homem do que outro, do mesmo modo que uma coisa branca pode ser mais ou menos branca do que outra; ou uma coisa formosa, pode ser mais ou menos formosa do que outra, e até cada uma delas em si mesma mais e menos; por exemplo, um corpo que é branco diz-se agora mais ou menos branco do que antes; um que está quente, diz-se estar mais ou menos quente. Mas as essências não se dizem ser nem mais nem menos essências, porque se não diz que um homem seja agora mais ou menos homem do que antes. E assim todas as demais coisas, que se chamam essências. Donde se segue, que nenhuma essência é susceptível de mais, nem de menos.

41. Porém, o que principalmente parece ser particular às essências, é, que um e o mesmo indivíduo é susceptível de ser em um tempo o contrário do que era em outro tempo.

Que é o que jamais se pode verificar em nenhuma outra coisa, que não for essência, porque, apesar de ser uma em número, nem por isso é susceptível de contrário, por exemplo: uma determinada cor, apesar de ser uma em número não pode ser branca e preta; uma e a mesma acção, apesar de ser uma em número, não pode ser boa e má, e assim em todas as demais coisas, que não são essências. Porém, as essências, sendo cada qual delas uma e a mesma em número, são susceptíveis de estados contrários. Por exemplo, um determinado homem, sendo um e o mesmo, ora é branco, ora denegrido, ora está quente, ora frio, ora é mau, ora é bom. Porém, nada disto parece verificar-se em nenhuma das outras coisas. excepto se alguém quisesse insistir dizendo que o discurso e a opinião são susceptíveis de contrariedade, porque parece, que um mesmo e determinado discurso pode ser verdadeiro e falso. Por exemplo: se fosse verdade o dizer-se que alguém está sentado, logo que ele se levante, este dito passa a ser falso. E o mesmo é de qualquer opinião, porque se alguém julgasse com verdade que outrem estava sentado, logo que este se levantasse, julgaria erradamente, formando a respeito dele o mesmo juízo. Porém, ainda admitindo isso, há total diferença quanto ao modo. Porque, quanto às essências, elas não são susceptíveis de estados contrários, senão quando mudam, como, por exemplo, o que está frio, depois de ter estado quente, passou por uma mudança; o que está denegrido, depois de ter sido branco, varia; bem como o que é bom, depois de ter sido mau. E assim de todas as outras, que só admitem estados contrários, quando experimentam mudança. Mas o discurso e a opinião ficam absolutamente imudáveis, e passam a ser o contrário do que eram, quando muda o objecto a que se referem, como o dito de que alguém está sentado fica sempre sendo o mesmo, e só pela mudança do sujeito é que ora é verdadeiro e depois falso. O mesmo se pode dizer da opinião. Donde se segue, que é particular às essências o admitirem pela sua própria mudança estados contrários.


Mas é de advertir, que quem admitisse, que o discurso e a opinião são susceptíveis de contrariedade, admitiria um erro, porque nem o discurso, nem a opinião, passam a ser o contrário do que eram, porque lhes sobreviesse alguma coisa, mas porque se aplicam a outro caso, pela simples existência ou inexistência do facto, é que o discurso que a ele se refere se diz ser verdadeiro ou falso; e não porque o mesmo discurso em si admitisse estado contrário ao que era antes; porque em nada absolutamente se acha ter mudado, nem o discurso, nem a opinião. Ora, não tendo eles recebido mudança alguma em contrário, não se podem dizer susceptíveis de passarem a ser o contrário do que eram. Ao contrário porém, as essências, que por isso que recebem modificações contrárias, é que se dizem susceptíveis de estados contrários, como por exemplo, porque é susceptível de doença ou de saúde, de brancura ou de negridão, e assim de resto, é que se diz ser susceptível de contrariedade. Logo é particular às essências, que sendo cada qual delas uma e a mesma em número, pela sua própria mudança passam a ser o contrário do que eram.

42. De modo que é próprio das essências o admitirem estados contrários, vindo elas mesmas a mudarem. Mas o que fica dito bastará a respeito das essências (ob. cit., pp. 38-43 e 57-68).


Notas

(1) Isto é: a razão do nome, ou o carácter da ordem, classe, género, espécie, etc. - Nota do Tradutor.

(2) Isto é, as diferenças específicas (V. Af. 11) ou os caracteres da espécie. E é sempre neste sentido, que se deve tomar a palavra diferença, nas obras de Aristóteles. - Nota do Tradutor.

Continua

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Da psicologia portuguesa

Escrito por Francisco da Cunha Leão


Francisco da Cunha Leão

Brandura e violência


A brandura do temperamento caracteriza os Portugueses, particularmente emotivos, coisa que anda no Brasil, com muito açucar, «cravo e canela» dos trópicos. «Molezas ternas do carácter» segundo Fialho de Almeida, em observação comum às duas bandas do Minho.

Uma das nossas palavras-tipo, das que Unamuno considera definidoras e intraduzíveis, é meiguice.

A afectividade marca-nos, forma o tesouro da nossa psicologia, está na base da compreensão e do querer. A suprema evidência da vida, o que a torna bela e digna de ser vivida, é o amor, que atinge o absolutismo (1). O português compreende e age por comoção.

O outro grande pólo da evidência situa-se na morte. Amar e morrer são os estados plenos do ser.
Morrer, já nos cancioneiros medievais equivale a desejar muito (v. José Joaquim Nunes «Cantigas de Amigo», vol. III) e está ligado intimamente à elocução amorosa.

Amor e morte são para a mundividência portuguesa as duas únicas alternativas, excluem o termo médio.

Amor idêntico a vida. Fora dele outra dignidade não há que a da morte. E a morte vem a ser o cumprimento da existência que tem no amor e no heroísmo as cordas mais tensas, as máximas provocações.

O amor é uma absorção no Português, facto notado pelos Espanhóis e pelos nossos compatriotas conhecedores de Espanha (por ex. Lope de Vega e D. Francisco Manuel de Melo). Outra constante lhe foi reconhecida por esses e outros em todas as épocas: o valor guerreiro.

Tal supervivência do amor domina a Poesia - «a coisa mais séria que há em Portugal» na opinião de Afonso Lopes Vieira.

Estranho é que o verbo amar e o substantivo amor pululem na palavra escrita, enxameando alguns géneros literários, e sejam evitados, em especial as formas verbais, na linguagem oral, ao contrário do que acontece na conversação francesa. Vê-se que há pudor no uso do verbo amar, substituído quase sempre por gostar, querer e até adorar, (no afectado calão de Lisboa-Cascais).


Vista do Castelo de S. Jorge (Lisboa).


A nosso ver isso provém da idealidade posta no amor, algo de sagrado que na fala quotidiana exige discrição, defesa da trivialidade. O caso é tanto mais notório quanto o Português não receia as palavras, propende a chamar as coisas muito naturalmente pelos seus nomes, razão porque o seu idioma dificilmente se amolda à tradução de textos amorosos franceses.

Significativo é o emprego frequente dos diminutivos, mormente da terminação inho, denunciadora de extremos de ternura.

Muitos acham ridícula, piegas, essa costumeira luso-galega. Cada povo fala, porém, conforme sente, imprime aos idiomas, que são sedimentares, o jeito da sua alma. Claro que a diminuição poderá obter-se com o qualificativo pequeno, qual o fazem os Franceses com petit. Mas pequeno, petiz significa redução, ao passo que o sufixo inho, as mais das vezes não minimiza, envolve ternura, e nas províncias do Norte, consideração, respeito afectuoso, como por exemplo chamar senhor Antoninho a um proprietário criado e radicado na terra, independentemente da estatura e idade.

O diminutivo nessas condições não é usado em relação a qualquer pessoa, revela certa escolha social, mediante o filtro afectivo de que o íncola se serve.

A moda foi de Norte a Sul, invadiu as terras de Além-Mar, Cabo Verde, o Brasil. No Algarve abundam os apelidos em diminutivo.

A sensibilidade complexa e o espírito irónico levaram a inflexões semânticas subtis. Aumentativos com intenção diminutiva, diminutivos ampliadores.

Tal brandura do temperamento impregnou as instituições, e joga contra os justiceiros quando exageram estribados na fria razão.

Assim a escravatura, entre nós, tornou-se moderada. O próprio Toynbee o reconhece. O quadro patriarcal em que se inseriu nos territórios portugueses e a tendência não segregacionista, quer pela indiscriminação das relações sexuais, quer por motivos de afectividade religiosa e de política unitária, levou à humanização do tratamento dos escravos e à alforria destes.

Se fomos dos primeiros a abolir a escravatura na generalidade, e não para ferir interesses rivais como a Grâ-Bretanha, muito antes disso algumas disposições parciais a haviam abolido (por exemplo: a carta de alforria dada por D. Manuel I aos escravos de S. Tomé e a disposição idêntica para os índios do Brasil no tempo do marquês de Pombal). O padre António Vieira, pensador lusíada por excelência, é decerto o mais estreme procurador do movimento antiescravocrata moderno.

Contamo-nos também na primeira linha dos que baniram a pena de morte - coisa que soberbas nações, tão ciosas de comandos mundiais, ainda não fizeram. Orgulham-se da sua colossal engenharia, do poder económico e militar, da mecanização generalizada, sem que tenham conseguido institucionalizar um princípio básico em civilização que se diga cristã ou pelo menos humana (2).



































O toureio da Lusitânia, conforme se fixou, tanto reflecte a bravura peninsular como um específico sentimentalismo, correndo o forcado com galhardia os riscos da luta contra o animal, opondo-lhe apenas o seu físico, e sem que haja o remate cruento da morte do touro.

A tourada «à portuguesa» é fruto do temperamento nacional. Desse ângulo nos cabe focá-la.

Entre nós jamais poderia ser um caso de vida ou de morte com o touro, como na Espanha, país das oposições frontais e dos extremos dramáticos. A nossa sensibilidade não concede que se derrame sangue por mera distracção.

Temos um jogo, um passatempo, já tradicionalmente evoluído, a que não dispensamos arte, fantasia e lealdade. O duelo do homem com a besta exerce-se, todavia, sujeito a um mínimo de convenção que o despoja dos aspectos mais bárbaros. Serram-se os cornos ao boi, mas dispensa-se a espada morticida; serram-se os cornos ao boi porque o homem também não pretende matá-lo, nem é preciso mortes para que haja lide; serram-se ainda porque os cavalos, os nobres cavalos que custam a amestrar não possuem arma equivalente e dói-nos vê-los esventrados, tripas de fora.

O forcado vai para a cabeça do touro de peito exposto, e desarmado. O cavaleiro floreia, volteia com destreza, movimentos amplos, galantaria.

Será barroco? Seja. Arte marialva, «entronização do amo» (3)? Antes do mais, veja-se a causa psicológica, modeladora do público e do consenso nacional, que assim consagrou, humanizada, a «festa brava» dos portugueses.

Se o temperamento suave, comovível, como factor de plasticidade nos abre à compreensão do alheio e, desta sorte, ao universalismo, à tolerância, ele não deixa de comportar negativo reverso. A tão apreciada «brandura dos nossos costumes», descamba amiúde para amolecimento moral, condescendência em relação aos abusos, à vagabundagem e outras pechas de longa data aninhadas no meio social português. Uma delas está na generalização do empenho, a um tempo credencial e gazua, na «cunha» como verdadeira instituição nacional. Corrente pedir-se tudo, os mais altos cargos, as honrarias, o passar nos exames e a preferência nos concursos, as situações monopólicas, e desde o simples cumprimento do dever à mais grossa ilegalidade. Há mesmo quem considere um acto de cortesia a pessoa «recomendar-se», e desatenção não o fazer. É um dos aspectos que mais impressiona os estrangeiros.

Todavia o costume, por muito que se radique na nossa sensibilidade, alega motivos de justificação, a cada passo fundamentados pela demora e atropelos a que muitos assuntos, até de expediente, estão sujeitos em burocracias chinesas ou ronceiras, muito condicionadas e pouco selectivas, mesmo nas empresas particulares.

Também esta «brandura dos nossos costumes» leva a esquecer depressa, após o transe emocional. A própria justiça no caso de tardia ou muito rigorosa chega a desagradar aos mesmos que a reclamaram. Aceita-se melhor a violência fulminante, a sanha de ofendido ou traído que a impessoal, fria razão judiciária.

Sendo o Português no geral bondoso, sofredor, espanta que se transmude intrepidamente em violento e cruel.

É a «ira do manso», a pior, segundo Unamuno. Outros autores assinalaram esse aspecto revelado em certas páginas breves, mas extremamente brutais da nossa história, em que há lances de cólera cega. Tais episódios parecem desmentir a brandura do carácter e dos costumes, a baixa criminalidade do nosso povo.


Miguel de Unamuno

A contradição equivale às que se verificam noutro campo, entre a veia lírica e a satírica, entre um idealismo do «amor-adoração» e a obscenidade boçal da chalaça amorosa.

Oliveira Martins chega a falar em força aliada ao terror, demonstração extrema e extremo desconcertante da psicologia portuguesa, que também lhe serve para se não vergar à intimidação terrorista como ainda há poucos anos aconteceu em Angola, cuja população, espontaneamente, e sem aguardar o apoio da Metrópole, afrontou com a maior bravura, a bárbara, selvagem explosão.

A ferocidade é inscrita por Sampaio Bruno como distintiva de Portugal antigo. Di-lo a propósito da Inquisição, apoiado em narrativas de autos-de-fé no seu livro «O Encoberto». Associa o facto a um «religiosismo intransigente». Incide a crítica, efectivamente, sobre uma época de intenso fanatismo, entre acções e reacções reformistas heterodoxas como ortodoxas que geraram uma atmosfera de excessos, até e principalmente, nos países considerados hoje mais livres e tolerantes.

Aliás, haverá história que se meça com a da Inglaterra, em especial nos séculos XVI e XVII, nas múltiplas manifestações endógenas de violência configuradas em perfídias cruas, odiosas, incansáveis perseguições, intolerância, esbulhos, descaroáveis assassínios e matanças?

Ter-se-iam modificado os Portugueses de Oitocentos, após a sangreira fratricida das guerras liberais? Modificaram-se os Ingleses, Franceses, Italianos?

A dificuldade está em discernir o que é temporal do que é idiossincrático, ou melhor, os processos evolutivos da conjugação desses factores.

A brandura, o carácter amoroso, a generosidade humana dos Portugueses parece-nos uma constante, certificada em todas as épocas, mediante literatura, arte, obras pias e o trato com a restante humanidade. Outra constante, por igual certificada pelos séculos, é a do heroísmo, da bravura no combate.

Já a violência é intermitente, por explosivismo dos recalques de um povo sofredor e resignado, por atiçamento passional sobre as circunstâncias que destemperam a nossa peculiar sensibilidade, quais sejam o cálculo pérfido, a traição, a usura desapiedada. Isso exprime-se em condescendência beneficiária daqueles que, perdendo a razão por decepções sentimentais, acaso foram cruéis; dos violentos cheios de razão; dos que, possuídos por um idealismo apaixonado, esquecendo-se de si próprios, também puderam incorrer nalgumas desatenções ou desvios de sensibilidade.


Rio Tejo visto da Torre de Belém


Dispensamo-nos de apresentar exemplos, visto que são flagrantes; de uma História Pátria que é das menos sangrentas ressaltam com nitidez as violências perdoadas e as não perdoadas. E pelas razões expostas (in Ensaio de Psicologia Portuguesa, Guimarães Editores, 1971, pp. 96-104).


Notas:

(1) «Não pode haver duas leis. E a do Amor é absoluta. Por isso creio ainda na vida futura» - Leonardo Coimbra (Revista «A Águia, 1.4.1911).

(2) É de considerar terem propiciado o Habeas corpus as tradicionais «cartas de seguro» do Direito Português. Veja-se «Cartas de Segurança por Carlos Araújo Lima (Edições Fundação Cultural Amazonas, 1969).

(3) Expressão de José Cardoso Pires.


domingo, 21 de novembro de 2010

Actualidade da filosofia portuguesa

Escrito por Miguel Bruno Duarte

«Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


Raríssimos são, hoje, os que, com frontalidade e coragem, revelam compreender que um abismo sem fundo existe entre o saber parasitário das instituições universitárias e o pensamento vivo, espontâneo e criador de filósofos portugueses. Uma coisa são apenas duplicados do que no passado foi o pensamento vivo e especulativo de indivíduos espiritualmente superiores, outra coisa é, na actualização prospectiva da tradição filosófica nacional, o aparecimento de novos e inesperados pensadores da cultura nacional-humana. Por outras palavras, todo e qualquer carreirista universitário pago para produzir erudição livresca e quase sempre segundo os ditames ideológicos conformes à cultura dominante – no presente caso o da cultura socialista -, não é nem deverá ser confundido com o que a tradição clássica, baseada no modelo da sabedoria socrática, entendia ou caracterizava por filósofo.

A filosofia portuguesa não é a filosofia de um «grupo», como dizem os seus detractores. Dizê-lo simplesmente assim significa, uma vez desaparecido o alegado «grupo», poder dar finalmente por finda a filosofia de um povo que já muitos consideram como tendo «saltado para fora do tempo». Eis então, rigorosamente, o ponto da questão: o movimento da filosofia portuguesa, no que o distingue de outros movimentos culturais, científicos e literários, está no facto incontornável de ter assumido a tradição filosófica pátria contanto que despida de tudo o que, erudita e monograficamente, grassa nas academias e nas universidades ao sabor do neoglobalismo triunfante, nomeadamente sob a forma do positivismo francês, alemão e anglo-saxónico.

Deste modo se explica, aliás, que Orlando Vitorino repudiasse o suposto carácter «grupal» da filosofia portuguesa, não obstante a sua manifestação na concreta e situada tertúlia de Álvaro Ribeiro e José Marinho, irmãos espirituais em Leonardo Coimbra. Ou seja: a filosofia portuguesa não só irradiou a outras personalidades das mais diversas origens, ideários e matizes ideológicos como Almada Negreiros, Jorge de Sena e José Régio, como também lançou raízes mais fundas, singulares e originais que hoje permanecem e prometem doravante constituir a filosofia de todos os portugueses que pensam. Logo, como escrevera Orlando Vitorino, a filosofia portuguesa é um dos acontecimentos mais importantes da história de Portugal, afirmação que só estranhará quem não puder compreender a afirmação de N. Hartman de que os Discursos à Nação Alemã, de Fichte, foram um dos acontecimentos mais importantes da história universal.

Ora, a máquina universitária, dominada por inúmeros grupos de activistas – os mesmos que controlam ou tendem a controlar toda a acção cultural do Estado e são, além do mais, os queridinhos da Comunicação Social – essa, dizíamos nós, não pode nem quer reconhecer e perceber tão abissal diferença. Daí que surjam criaturas que, sob os efeitos contraditórios e estonteantes de uma propaganda gramsciana, declarem a morte alheia de tudo o que não compreendem, seja de Portugal seja da filosofia portuguesa.

Orlando Vitorino

Na verdade, tais criaturas, que nem sempre falam em nome próprio, deixam, por vezes, ressaltar ainda mais a sua burrice vazia sobre o que espiritualmente as transcende: o pensamento autêntico que não corre pelas vias consagradas da classe política, jornalística e universitária do nosso tempo. Um pensamento, para mais, que não é apanágio de técnicas e metodologias universitárias de pura e redutora análise linguística sobre a letra morta de textos manuscritos ou impressos, brochados ou encadernados. Tal não significa que a paleografia não seja uma actividade auxiliar ou necessária, mas tão-somente que ela ainda não é pensamento nos termos de um real e profundo movimento gerador de alta cultura.

Pinharanda Gomes é, na filosofia portuguesa, o exemplo paradigmático do obreiro paleográfico que, pairando acima das citações ornamentais e corporativas do mais insípido academismo, sabe decifrar, comentar e publicar documentos colhidos e investigados em arquivos e bibliotecas que nem sempre parecem estar ao serviço do património científico, artístico e filosófico português. Por isso, de muitos historiadores e paleógrafos existentes entre nós, ele é, sem dúvida, o primeiro e o mais abalizado de todos, pois percebe e compreende onde mora o valor de um paciente e laborioso trabalho que, como o seu, visa o «fundamento» sumológico das verdades eternas e principiais de uma filosofia da história norteada por e para Portugueses. Como tal, Pinharanda Gomes vale, no mínimo, mil universitários pela sua obra verdadeiramente monumental, e tanto mais valiosa porquanto inspirada no pensamento de Álvaro Ribeiro e José Marinho que foram, por certo, filósofos que promoveram aulas abertas e gratuitas de filosofia, coisa, aliás, impensável em "profissionais" pagos para dissertar no meio universitário.

Na realidade, foram esses mesmos "profissionais" parasitários do pensamento extra-universitário que, por entre as vestes dissimuladas da “Filosofia em Portugal”, jamais admitiram a existência da filosofia portuguesa por a considerarem, como refere Pinharanda Gomes, uma ideologia já feita para então recusá-la liminarmente (1). E a ironia perpassa pelo facto desses mesmos «profissionais» do intelecto alheio não terem o mesmo sentido supostamente crítico quando são pagos para ensinar as mais dogmáticas e dissimuladas ideologias que fazem da corporação universitária o maior foco de positivismo e materialismo do nosso tempo (2). De nada vale, portanto, a solenidade dos congressos, dos debates e das conferências se estas não visarem uma finalidade superior à mera ruminação do saber já feito e vertido em segunda, terceira ou quarta mão, como, aliás, o reconhece Afonso Botelho nos seguintes termos:

«A solenidade das conversas não é a solenidade dos Congressos. Os Congressos, de um modo geral, servem para dar aparência singular ao que é quotidiano e habitual. Com esta solenidade exterior só aparentemente se começará a consagrar a filosofia portuguesa, visto que, de tais reuniões, dirigidas predominantemente aos sentidos da vista ou do ouvido, apenas se deduz a visão e a audição do que já existia, ou do que não existia nem jamais existirá. São, portanto, reuniões do senso comum e da fantasia colectiva» (3).


Afonso Botelho


De facto, a filosofia portuguesa abre-nos as portas para a compreensão una e omnímoda, como diria o próprio José Marinho, do quanto podem e estão efectivamente minadas, sob o ponto de vista do ideologismo cientista, as instituições jurídicas, políticas e culturais da actualidade. De resto, essa coisificação saturnina, que Marinho designara por cisão extrema, teve aspectos verdadeiramente precursores no domínio do positivismo invasor, no momento em que este, a partir de meados do século XIX, se infiltrara na superficialidade cultural de medíocre mas nefasta aclimação no extremo ocidental ibérico. Daí, pois, ter Álvaro Ribeiro escrito para José Marinho o quanto considerava, não os marxistas, mas os positivistas como «os maiores inimigos do pensamento português».

Demais, diz-nos o autor d’Arte de Filosofar:

«Não está ainda perfeita a história do positivismo em Portugal, desde a primeira menção do nome de Augusto Comte nos escritos dos publicistas liberais e socialistas, monárquicos e republicanos, antes de o sistema filosófico ter sido exposto e divulgado pelas instituições intercambiais de cultura. Escritores racionalistas como Amorim Viana, Cunha Seixas e Sampaio Bruno estudaram, certamente, o Curso de Filosofia Positiva. Certo é, porém, que ao nome de Augusto Comte não podemos deixar de ligar o nome de Teófilo Braga, mestre inolvidável de professores, escritores e jornalistas que alertaram de unicidade a alma nacional com a confiança nas virtudes do povo português e com a esperança de que um novo sistema de educação seria capaz de fazer passar o espírito da potência ao acto.

A tese de que o positivismo português foi historicamente dependente do positivismo brasileiro não está ainda suficientemente fundada ou demonstrada. Em 1870, por um manifesto célebre fundou-se o partido republicano brasileiro, o qual só adoptou mais tarde os princípios positivistas em consequência da doutrinação de homens ilustres como Benjamin Constant, Miguel Lemos e Teixeira Mendes. A República Brasileira foi proclamada a 15 de Novembro de 1889, mas as notáveis leis do seu governo provisório oferecem impressionantes semelhanças com a letra e o espírito das leis do governo provisório da República Portuguesa, proclamada em 1910 (4).




É hoje evidente – prossegue Álvaro Ribeiro - que o positivismo foi um factor constitutivo da ideologia republicana em Portugal. Não se tem prestado maior atenção a que o positivismo também exerceu poderoso fascínio sobre a mentalidade dos políticos monárquicos, absolutistas e constitucionalistas, pelo que formou na opinião pública, - parlamentar, partidária e jornalística, - a premissa doutrinal que, ligada à crítica diária dos acontecimentos políticos, havia de exigir a conclusão necessária, previdente e conveniente de abolir a monarquia dinástica. A lei dos três estados era prudentemente invocada para a instalação definitiva do cientismo – sem Deus nem religião, - de modo a apartar os pensadores da obra filosófica de Augusto Comte, isto é, da obra realizada na ética, na moral e na política.

O positivismo serviu também, aos escritores republicanos e monárquicos, de barreira cultural contra a propagação das doutrinas socialistas, acolhidas por Antero de Quental e por Oliveira Martins, como de travão para o movimento operário, obreiro, ouvrier, o qual sagrava acima de tudo o trabalho manual e mecânico, contradizendo o espírito cooperativo de todas as profissões hierarquizadas na empresa própria da indústria moderna. Teófilo Braga, apesar do valioso e gigantesco labor de aplicar os métodos positivistas ao estudo étnico, folclórico, literário e histórico do povo português, não foi personalidade capaz de impedir que a desnacionalização cultural se projectasse na constituição política, redigida em 1911 sem ordem nem progresso. Tão certo é que, no nosso país, os partidos políticos mais parecem secções portuguesas de associações internacionais, lutando em prol de exóticas e peregrinas ideologias» (5).


Presentemente, o Brasil, correndo sob a divisa positivista da ordem e do progresso, está sendo, muito para além disso, uma plataforma de coordenação revolucionária para a implantação do neocomunismo no continente sul-americano. Prova disso é a resistência de alguns ilustres brasileiros que, como Olavo de Carvalho, se batem heróica e frontalmente por um Brasil que rejeite, denuncie e combata o terrorismo cubano e certas e bem identificadas organizações revolucionárias como o Foro de São Paulo, as FARC (6) e o MIR chileno (7). E tanto mais o fazem quando essa resistência se torna indispensável contra o establishment esquerdista imposto a todos os quadrantes da vida político-económica, jornalística e académica.


João Paulo II


Por isso, desde já nos consideramos naturalmente solidários com nossos irmãos de Vera Cruz em nome de uma língua e de uma Pátria que nos é, não obstante a cisão histórica na «coisa pública», bem como na origem e na acção de dois Estados diferentes, efectivamente comum. Na verdade, o abortismo ou a “cultura de morte” - na inequívoca expressão de João Paulo II -, a "liberalização das drogas", o multiculturalismo, o alarmismo ecológico, o feminismo, o “casamento” gay, enfim, tudo o que o socialismo progressista nos quer agora impor, encontrará da nossa parte a mais viva hostilidade. De resto, é um facto indesmentível de que a desproporção entre o esquerdismo - constituído por organizações sectárias e partidárias para destruir a Pátria, a Nação e a República -, e a direita abstracta e paradoxalmente inexistente, não passa, por sua vez, de um artificio de engenharia social que, além do mais, contribui sobremodo para o triunfo da Nova Ordem Mundial.

Também é verdade que a filosofia portuguesa, entendida nas suas mais distintas figuras de proa, como Álvaro Ribeiro e José Marinho, não se comprometeram, como Orlando Vitorino, a encarar de frente a táctica gramsciana enquanto via de instauração do comunismo no ensino e na cultura. Nesse sentido, brasileiros como Olavo de Carvalho estão, em muitos aspectos, bem mais preparados do que a massa amorfa e apática dos intelectuais portugueses, que já nem sequer olham de frente para a realidade que os tolhe e absorve num redemoinho de tagarelice oca e vazia nas academias e nos concentrados órgãos de comunicação de massas. Nisto, até os epígonos da filosofia portuguesa, alguns deles já em órbita universitária, quedam perdidos por entre auto-elogios, lamúrias e cultos de personalidade.

Felizmente, a sabedoria, simbolicamente considerada, é mulher que prefere antes de mais os que a procuram e por ela se batem na melhor tradição socrática. Nós nem queremos imaginar, entretanto, o que seja o naufrágio do estudante universitário lançado às turvas águas da filosofia estrangeira, venha ela na forma de marxismo, pragmatismo, desconstrucionismo, ou ainda na forma de kantismo, nietzscheanismo, estruturalismo, heideggerianismo, e todos os demais ismos. Contudo, permanecerá sempre uma bóia de salvação lançada pela filosofia portuguesa, cujo horizonte superno ora atravessa as implicações últimas da visão unívoca e mística de José Marinho, ora atende ao aristotelismo modal e teleológico de Álvaro Ribeiro.

Assim, cabe-nos dizer que o movimento da filosofia portuguesa, no que verdadeira e espiritualmente significa, não deve, quanto a nós, ser equiparado a outros movimentos manifestamente cívicos, literários, políticos ou outros, como fazem certos universitários que só vêem, em termos lineares, o antes e o depois, histórica ou sociologicamente considerados. Se tudo fosse pautado nos tais termos lineares do antes e depois, permaneceria apenas a imagem temporal do que incessantemente se nega, altera e corrompe, onde nada por si mesmo subsiste ou permanece. Ora, entendida a filosofia portuguesa, não como o pensamento do já pensado, mas como o pensamento em acto, é o que nos permite dizer hoje, como ontem disse Álvaro Ribeiro, e amanhã o dirão outros ainda, que a interpretação portuguesa da filosofia de Aristóteles é superior à interpretação alemã.

Notas:

(1) Pinharanda Gomes diz, de um modo mais geral, embora surpreendentemente incorrecto para o filólogo abalizado que é, que os meios oficiais, constituídos já no tempo de Álvaro Ribeiro em «múltiplos quadrantes (Situação e Oposição, Estado e Igreja, Universidade e Intelectuais)», jamais admitiram «a reforma – entenda-se a «autonomização da Faculdade de Filosofia (que deixaria de constituir um sector departamental da Faculdade de Letras)» - aduzida pelo filósofo [Álvaro Ribeiro]» (cf. Pinharanda Gomes, «Álvaro Ribeiro (1905-1981): da “Renascença Portuguesa” à “Filosofia Portuguesa”, in A “Escola Portuense”, Edições Caixotim, 2005, p. 130). Surpreendentemente incorrecto porque Álvaro Ribeiro não se inibiu de, com toda a propriedade filológica, demonstrar que «o substantivo reforma encerra e encobre um conceito inaplicável a qualquer ordem de problemas administrativos, porque a mudança de forma implica a conservação da matéria, enfim, uma doutrina materialista, que só por convenção tolerável respeitará a identidade do mesmo ser. A correlação entre forma e matéria, entre escola formal e escola material, deverá estar na mente de quem discute problemas de educação, ainda quando de propósito se excluam as noções de causa eficiente e de causa final. Confundir a imaginação industriosa com a imaginação teleológica no mesmo lugar, ou no lugar-comum, é proceder contra as regras superiores da actividade da inteligência. Desejável seria que em qualquer projecto de sistema escolar vigorasse uma nomenclatura mais apurada, mais autêntica, mais sincera, para que os assuntos altamente sérios de educação nacional não caíssem nos lugares-comuns onde não é exigida mais do que a facilidade de palavra, no falar e no escrever» (cf. Álvaro Ribeiro, «Revolução Universitária», in Memórias de Um Letrado, III, Guimarães Editores, 1980, pp. 91-92). Noutra passagem, diz ainda o filósofo portuense: «O Marquês de Pombal pretendeu reformar a Universidade de Coimbra fora da filosofia de Aristóteles. Ignorava o Estadista, como também ignoravam os seus colaboradores, que a forma significa alma, princípio interno de actividade, porque a alma não é a figura exterior que delimita um corpo de maior ou menos beleza geométrica. Tal é a razão escolhida para atribuir à palavra reforma o sentido artificial de outra forma, e assim o reformado é o sujeito de morte civil, consoante a linguagem usada ou desusada no funcionalismo público» (cf. «Ensino Superior, Ensino Soberano», in ob. cit., pp. 87-88).

(2) Este foco desnacionalizante continua bem patente nas formas recicladas do estruturalismo, da etnologia moderna, do historicismo revisionista, das doutrinas existencialistas, ateias e igualitárias, do marxismo e dos círculos supostamente “liberais” da cultura anglo-saxónica. Quem, entretanto, deseje verificar até que ponto a hegemonia gramsciana se espelha na bibliografia universitária corrente, comece pelos departamentos nominalmente responsáveis por «áreas» ou «domínios» tão aparentemente díspares como a “Filosofia”, a “Psicologia”, a “Sociologia” e as “Ciências Sociais e Políticas”.

(3) Cf. Álvaro Ribeiro, «Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa», in As Portas do Conhecimento, com nota prefacial de Afonso Botelho, IAC, 1987, p. 132). Por outro lado, existe, na Fundação António Quadros, uma carta deveras interessante de Álvaro Ribeiro para António Quadros, na qual se valoriza a aproximação por este encetada em prol das relações culturais luso-brasileiras. E dizemos interessante porque, também aí, a misantropia de Álvaro Ribeiro, não obstante essa valorização, deixa entrever o quanto essas relações tendem à evanescente rotina de um acto de superficialidade cultural do que propriamente a uma aproximação profunda e aprofundada das raízes filosóficas abscônditas em jogo. Outra carta, num contexto caracterológico diferente, mas ainda assim analogamente convergente, é a de Orlando Vitorino para António Quadros, na qual é lançado um apelo ao destinatário para que procure revelar o seu pensamento numa base mais propriamente especulativa do que simplesmente erudita e «pedagógica», quando não, por vezes, sociológica.


António Quadros


(4) João Camilo de Oliveira Torres, O Positivismo no Brasil, 2.ª edição, revista e aumentada, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, R. J. 1957.

(5) Álvaro Ribeiro, «Augusto Comte», in As Portas dos Conhecimento, pp. 355-356.

(6) Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, organizadas em 1964 sob a forma de estrutura armada do Partido Comunista Colombiano.

(7) Movimento Revolucionário de Esquerda, fundado em 15 de Agosto de 1965 e accionista maior da indústria brasileira de sequestros.


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O socialismo montou cerco a Portugal

Entrevista a Orlando Vitorino



Mosteiro dos Jerónimos

O Homem português é, actualmente, uma ilha de pensamento rodeada de socialismo por todos os lados, existindo a possibilidade, não remota, da Pátria se afundar no mar poluído do Marxismo, diluída em qualquer organização ou império.

Esta é uma das conclusões que o leitor atento poderá retirar da abordagem de hoje, a última de uma trilogia subordinada ao tema «Em busca da identidade nacional através da Filosofia Portuguesa», abordagem que consiste na publicação da segunda parte da entrevista feita ao Dr. Orlando Vitorino, filósofo e candidato independente às últimas eleições para a Presidência da República.

Para quem não leu o trabalho anterior, aqui deixamos uma síntese das ideias expressas.

Desde sempre o Pensamento português teve inimigos, sendo um dos primeiros o próprio infante D. Pedro que pretendeu influenciar seu irmão, o Rei português D. Duarte, para que os Descobrimentos não se fizessem e Portugal se virasse para a Europa.

Outros «delegados» da «CEE desse tempo» insistiram na ideia europeia, como sucedeu com Damião de Góis, opositor ideológico de João de Barros, este representando a linha filosófica portuguesa e feitor da Casa da Índia.

Essa linha de ataque contra o Pensamento português desenvolveu-se durante a decadência de Portugal, iniciada no século XVI, com os «estrangeirados» do século XVIII e até António Sérgio, seu último representante.


A Filosofia Portuguesa resiste e as suas origens podem ser encontradas em D. Duarte, com maior desenvolvimento no presente século, através da obra de Sampaio Bruno, de Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho.


Brasão do Infante D. Henrique


Actualmente, a escola de Filosofia Portuguesa possui um número suficiente de pessoas com grandes capacidades intelectuais, a ir desde jovens estudantes até aos discípulos directos de Álvaro Ribeiro.

Feita a síntese, entremos na última parte da entrevista
[publicada a 6.12.86] ao dr. Orlando Vitorino, tão suculenta como a primeira...

Uma cabala bem urdida

Correio da Manhã – Em que diverge a actual acção política em Portugal do Pensamento político português?

Orlando Vitorino – Em primeiro lugar, o pensamento da actual acção política é, todo ele, socialista.

Como sabe, as doutrinas políticas exprimem-se, primeiro, através da Constituição e, segundo, através dos partidos.

Ora, a Constituição diz, claramente, que a política portuguesa é socialista. Quanto aos partidos, ou se dizem socialistas, que é o caso do Partido Comunista, do Partido Socialista e do Partido Social-Democrata, ou não se dizem socialistas, como é o caso do CDS que, afinal, tem uma prática rigorosamente socialista, até mais eficaz para a implantação do socialismo do que os outros três partidos.

Lembro-lhe que o actual presidente do CDS sempre disse não ser liberal. E recordo-lhe que o fundador do CDS, ao candidatar-se à Presidência da República, este ano, fundamentou as suas propostas num livro em que diz ser sua finalidade aperfeiçoar o sistema socialista existente...

Durante as últimas eleições para a Presidência da República o sistema apresentou quatro candidatos: Freitas do Amaral, Mário Soares, Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo, todos eles afirmando-se como socialistas.


Orlando Vitorino


CM – Estamos, pois, rodeados de socialismo por todos os lados, desde a fórmula clássica até a outras mais moderadas. Como domina o socialismo o país?

O.V. – O socialismo exerce em Portugal, como em toda a parte onde se instala, um controlo muito grande da vida da população, tem nas mãos os poderes do Estado, não permitindo sequer o aparecimento de partidos ou candidatos que não sejam socialistas.

CM – Essa situação foi implantada no nosso país rapidamente. Antes do 25 de Abril o socialismo possuía pouca expressão política entre a população. Como se passou essa tomada de Poder?

O.V. – Durante o século passado existiu, em Portugal, um regime que se dizia liberal mas seguindo o modelo francês, o qual não foi mais do que uma preparação para o socialismo.

A partir de 1870 o socialismo introduz-se em Portugal pelas vias mais eficazes, as do ensino e as da cultura oficial, formando quadros mentais socialistas.

República das Janelas

CM – Dentro dessa linha de pensamento, como podemos analisar a República, que surge em seguida?

O.V. – A Primeira República afirmou-se liberal mas insistiu no modelo francês, até nas coisas mais simples, como foi o caso do célebre imposto das janelas, copiado das leis francesas.

O imposto das janelas, extremamente ridículo mas claramente socialista, obrigava o cidadão a pagar determinada quantia por cada janela que a sua casa tivesse, a mais de um número determinado...

Mesmo esse falso liberalismo da Primeira República demorou, apenas, uns dezasseis anos.

Quando Oliveira Salazar subiu ao Poder continuou com esse falso liberalismo, por ver que era o sistema liberal que lhe podia dar melhores resultados económicos. Foi ao emprego do sistema liberal que ele ficou a dever a grande façanha da restauração das finanças.


Oliveira Salazar


Uma vez restauradas as finanças, Salazar começou a fortalecer o Estado e esse fortalecimento do Estado é já uma característica socialista. Fortalecido o Estado, passou a dirigir toda a vida nacional e a política económica transformou-se numa política dirigista.

CM – Mas seria Salazar o dirigente absoluto dessa política dirigista?

O.V. – Não era tanto ele a ter a iniciativa mas, sim, uma classe formada nessa altura, a que podemos chamar de plutocracia. Toda a gente sabe que os ministros de Salazar eram os que interessavam à classe dirigente ou plutocrata e demitidos pelas mesmas razões.

Com um Estado forte e uma plutocracia a comandar esse Estado, temos uma situação análoga à da implantação do socialismo. A diferença consiste, apenas, na substituição dos plutocratas – portanto homens de negócios e não políticos – por homens políticos. Aliás, os homens políticos de hoje estão-se transformando em plutocratas.

Foi isto que efectivamente sucedeu com o 25 de Abril e essa substituição teve lugar com o predomínio do Partido Comunista e do Partido Socialista, este último a arrogar-se, na altura, também de marxista.

CM – Qual o papel histórico de Marcello Caetano? Teria sido uma charneira entre a plutocracia e o socialismo?

O.V. – Marcello Caetano nutria uma grande admiração pela União Soviética e pela organização soviética.

Houve, nos anos trinta, um congresso de certos monárquicos em Condeixa-a-Nova, no qual participou Marcello Caetano. Nesse congresso, disseram-me que por proposta de Marcello Caetano, saiu uma conclusão com a legenda ou «slogan»: «O Rei e os Sovietes».

Depois, Marcello Caetano abandonou a Monarquia mas não deixou de ter admiração pelos sovietes. Aliás, a reforma administrativa de Marcello Caetano, com o seu código, parece inspirada na organização soviética.


Temos aí o corporativismo

Henrique Veiga de Macedo (Ministro das Corporações e da Previdência Social - 1949-55).


CM – E nessa substituição da plutocracia pelo socialismo, acontecida a partir do 25 de Abril, como foram substituídas as estruturas corporativas do Estado Novo?

O.V. – Ainda há pouco tempo me disse um dirigente político, aí de um partido, que o corporativismo, não conseguido totalmente por Salazar, está hoje a ser realizado. Basta ver a existência dos chamados parceiros sociais.

CM – Considera o socialismo como uma doutrina ainda com força ou já esvaziada?

O.V. – Trata-se de uma doutrina falida em todo o Mundo. Aliás, existe um pensador liberal [Frederico Hayek] que marcou a data do fim do apogeu do socialismo no ano de 1946.

O socialismo dominou, durante um século, o Governo de grande parte de povos, mas em 1946 estava completamente falido. Fracassara no desenvolvimento económico e na cultura, mas continuava dominando o Estado. Então, para sobreviver, passou a rodear as suas medidas de governação socialista de processos liberais.

Foi com esta mistura de aparente socialismo mas efectivo liberalismo – mas não de liberalismo total, pois isso iria destruir a aparência socialista – que conseguiu e consegue ainda hoje, perdurar.

CM – De que forma o socialismo tem sido funesto para a cultura portuguesa?

O.V. – Existe uma cultura oficial socialista, composta pelas universidades, onde dominam as ideias socialistas, e pela Comunicação Social, quase toda estatizada ou dominada pelo Estado, segregando uma cultura autenticamente portuguesa.

Poderá dizer-se que os elementos mais conscientes da cultura nacional, que são os filósofos portugueses, vivem como exilados no seu próprio país.

CM – Poderá dar-nos um exemplo dessa forma de procedimento anticultural?

O.V. – Ainda há pouco tempo existiam vinte e seis mil inéditos de Fernando Pessoa «escondidos» numa arca, guardados por «dragões» universitários que só vão publicando, de vez em quando, aquilo que entendem.

Depois fazem-se edições do Fernando Pessoa com textos seleccionados ao sabor de determinada pessoa que transitou de ferveroso salazarista para ferveroso socialista, uma delas com um prefácio no qual se chega ao ridículo de dizer que Fernando Pessoa era um grande conhecedor de literatura, mas seria melhor conhecedor se fosse marxista...

Vazio caracteriza vida dos portugueses

CM – A hostilidade ao pensamento português assumiu procedimentos muito gravosos para a integridade dos filósofos portugueses?

O.V. – Chegou a fazer perigar a integridade física. Temos o caso de Afonso Costa, político da Primeira República, que foi ao Porto, acompanhado de vários sicários, para assassinar Sampaio Bruno, um pensador português.


Sampaio Bruno


Além dos documentos existentes sobre esta tentativa de assassínio pessoal, há o próprio testemunho de Fernando Pessoa.

CM – A maior parte dos que tentam destruir a cultura portuguesa age por ignorância ou por convicção?

O.V. – Existem os quadros mentais, formados desde há dois séculos, a levar essas pessoas a ter uma noção socialista dos problemas e da solução desses mesmos problemas.

Se colocarmos um problema à maioria das pessoas elas atribuem a sua origem e a necessária solução ao Estado. O Estado já surge, pois, como uma entidade vaga, abstracta mesmo, os «eles» indefinidos, mas que são uns eles muito concretos... isto demonstra, tipicamente, a existência de uma mentalidade socialista.

Semelhante forma de pensar cria uma inércia e uma irresponsabilidade total, um vazio a caracterizar a vida actual dos portugueses, pois ela não passa de oito horas de emprego, mais oito horas de cama e ainda mais oito de televisão, não possuindo, sequer, um momento de afirmação.