domingo, 31 de outubro de 2010

Agostinho da Silva, filho pródigo

Escrito por Ernesto Palma




«O que é necessário ver e ver claro é que já há muito sinal e garantia de ser possível dar de comer a todos e a todos liberdade, desde que, mais ou menos habilmente, se ligue o que há de bom no comunismo, vida de corpo para todos, ao de que o capitalismo se reclama, a iniciativa privada, o que, na prática, tem sido bastante privar os outros de iniciativa. É a este ponto que tudo se tem de guiar, de fazer convergir e de se constituir em acordo. Não quereria Portugal experimentá-lo, ele que foi descobridor por combinar a ciência e a audácia, a realidade e o sonho? Não o quereríamos experimentar nós, os que nada podemos e nada governamos nem, sobretudo, queremos governar? Nós, os sem força, os voluntários pobres?».

Agostinho da Silva («Carta Vária»).



É, com Sant’Anna Dionísio, António Duarte, Azeredo Perdigão, Álvaro Cunhal, Miguel Torga, talvez mais algum, um dos patriarcas da cultura portuguesa. Cada um à sua maneira, naturalmente: Azeredo Perdigão tapando misérias com o ouro, que as põe mais à vista, Álvaro Cunhal veiculando por instituições universitárias e jornalísticas a propaganda da mediocridade de charra obediência moscovita, Miguel Torga em gesticulações terrunhas oferecendo o peito ao Nobel que nunca mais vem, António Duarte realizando um olímpico exemplo de liberdade artística, Sant’Anna Dionísio e Agostinho da Silva representando o escol de uma geração portuense que, só ela, assegura a sobrevivência da pátria portuguesa num mundo em que nada é eterno a não ser o próprio mundo.

De Agostinho da Silva reuniu e publicou agora o universitário Paulo Borges, os escritos dispersos nos quais o discípulo, malgré lui, de Leonardo Coimbra tem deixado dito o seu recado que, de outros modos além dos escritos, andou transmitindo pelos quatro cantos do mundo consoante lho deixaram transmitir os baldões da sorte em que tem feito viver seus vivíssimos 82 anos. Porque Agostinho da Silva não é manifestamente, e ele o diz, um escritor embora tenha passado grande parte da vida a escrever. Tão pouco é, também ele o diz, um político, embora a iluminar políticos tenha em vão terçado suas armas. Não é, abrenúncio, um divulgador, embora se haja dedicado, com fama e excelência, a fazer saber ignorados clássicos e outros. E insiste, com suspeita insistência, em negar que seja o filósofo que muitos vêem nele e lhe chamam. Agostinho da Silva é o que não é. Quer dizer: para sabermos quem é Agostinho da Silva torna-se necessário saber o que ele não é. Estamos, pois, perante um exemplo vivo da “razão bastarda” que Platão cultivou, com e sem ironia socrática.

Relendo, mas agora em grosso volume, os seus escritos dispersos, algumas constantes encontramos nos desvarios (em sentido clássico) do nosso Homem. Primeiro, uma constante hoje vulgaríssima por ter passado, de pedra de toque de gente superior, a pasto de toda a canzoada institucional: a admiração sem limites por Fernando Pessoa que Agostinho sempre razoadamente bastardo, diz não ser admiração pelo poeta, menos ainda pelo pensador, mas pelo homem que, como ele mesmo Agostinho, entregou a vida aos baldões da sorte não aceitando emprego certo com inscrição sindical, medicina para a doença e pensão para a velhice. Se assim na verdade fosse, quanta gente teria então de admirar Agostinho, desde os ricaços que vivem além dos empregos certos, como aqueles com quem Agostinho tão bem se entende, até à multidão de auto-marginais e auto-segregados, uns e outros, em geral, bem pobres de espírito. Os paradoxos nem sempre são felizes, e a verdade é que o que Agostinho admira em Pessoa é a riqueza de espírito que o fez ver, como a ele Agostinho, os símbolos da Pátria. Os símbolos, não o pensamento deles porque isso, desconfia Agostinho, já seria filosofia. E é conveniente anotar aqui que, em verdade ou em erro, só Sampaio Bruno pensou seriamente os símbolos da Pátria.

Mosteiro dos Jerónimos

Agostinho não se propõe, pois, pensar os símbolos. Propõe-se, sim, fazê-los passar à história. Não à história do passado mas à história do futuro. Agostinho é, afinal, um historiador.

Não, naturalmente, historiador à maneira de Herculano ou Oliveira Martins, para só nomearmos os significativos. Antes à maneira de Fr. Bernardo de Brito que, no século XVI, nasceu na terra onde, quatro séculos depois, Agostinho da Silva viria a nascer, terra suspensa das estrelas que desenham as muralhas de Almeida, coroada das ruínas do Castelo de Rodrigo, convulsionada pela judiaria de Pinhel, sacudida pelas profecias do de Trancoso e donde, em madrugadas sebásticas, parte a Barca de Alva. Terra mitológica, portanto. Mas por muito que tenha contribuído para a renascença de Portugal, Bernardo de Brito foi, e à luz do mais fiel catolicismo, um historiador do passado, e o passado, seja o do último minuto, é sempre mais remoto e distante do que o futuro mais longínquo. Tanto assim que, na história mitificada do cisterciense, o Portugal nascido com o mesmo Adão não chega aos tempos do seu primeiro Rei. De outro historiador, também ele clérigo mas suspeito de heresia como Agostinho gosta, se socorre então Agostinho. Do Padre António Vieira que, como ele, calcorreou os caminhos do Brasil e escreveu uma História do Futuro não tão sugestiva, ao ler-se, quanto o título promete.

Do passado, sublinhando seus enigmas e mistérios, escolhe e recolhe Agostinho os símbolos e os mitos – os mesmos de Pessoa – em que entende guardarem-se as chaves do futuro: a heresia joaquimita, a religião paracletiana e o Culto do Espírito Santo lhe basta. Basta-lhe porque está manifestamente referido ao que virá depois do Pai e do Filho, ao espírito que ordenará o futuro. E também porque anuncia a idade da abundância (há claros vestígios nos Dispersos de como Agostinho teve a ilusão de que o comunismo teria trazido a abundância aos povos que se lhe submeteram e hoje são alimentados a rações) E porque abre as portas aos presos das prisões, o que sobretudo agrada a este discípulo de Leonardo que reconhece ao menos ter sido com o mestre que aprendeu a liberdade. E porque, finalmente, senta no trono do Império, que sendo o do Espírito será o V da ordem bíblica, não um filósofo como queria Platão (Agostinho fala de Platão como fala de Pessoa: a sua filosofia nada lhe interessa), mas um Menino, quer dizer, a inocência, o não-saber, a vida fácil, em suma.

Insularidade açoriana

Um outro elemento, talvez o mais precioso, oferece o Culto do Espírito Santo ao patriota Agostinho da Silva. É que onde o culto persiste, embora reduzido a gestos e por preguiça dos costumes, é nos sertões brasileiros e nas ilhas açorianas. Se é assim em Portugal – Agostinho, quando diz Portugal, diz Brasil – que o culto persiste, é porque é Portugal que formará o V Império. O V Império será a história do futuro e tem já, em Agostinho, o seu cronista. Uma observação convém fazer aqui. Se há história do futuro é porque há conhecimento do futuro. Conhecer o que não há ainda e se dá como a haver necessariamente, é a expressão extrema da identidade entre conhecer e fazer ou, como só os filósofos explicam, (mas os filósofos são abomináveis) entre pensar e ser. O historiador do futuro é, então, o autor do futuro.

Dá-nos Agostinho da Silva uma imagem de si que é a imagem do filho pródigo antes de regressar a casa de seus pais. A casa que abandonou é a escola de Leonardo Coimbra, a Renascença Portuguesa, a mitologia de Pascoaes, a filosofia portuguesa de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Sempre a casa lhe esteve e está aberta, com o lume aceso e o pão na mesa. Amuos de Menino – ele é que é o Menino dos “Impérios” – prendem-no lá fora ao frio de um cientismo que deu o que não tinha a dar, à secura de um racionalismo sergista de que já se não vê o que ficou e coisas semelhantes que são o que mais há por esse mundo das universidades, das academias, das instituições, das teocracias sem Deus onde Agostinho parece dizer que gosta de fazer figura.

Da casa o viram a andar pelo Brasil e alegraram-se. Como os caminhos do Brasil passam perto da casa, esperam-no prestes, puseram mais um pão na mesa, mais uma acha ao lume. Em vão. Já velho, admirável velho, várias vezes passou à vista da casa, ouviu as vozes, parou, mas os amuos de menino foram mais resistentes. Álvaro Ribeiro ainda lhe demonstrou que o V Império, a ser coisa de Portugueses e do Espírito e se algum sentido tem, só pode ser a “filosofia portuguesa”. Inútil. Todavia, para ficar a meio caminho e ainda lhe chegar algum calor do lume, agarrou-se a Pessoa. Mas Pessoa está atirado à fama como um osso aos cães e é preciso esperar que, envenenados pelo osso, os cães o larguem. Teimou em retomar o blá-blá socializante da sua juventude sergista e, contentes, os dos poleiros dos galinheiros do Estado cobrem-no de flores, mostram-no na televisão, põe-no na capa de revistas, plebeízam-no.
Horóscopo da autoria de Fernando Pessoa

No fundo, porém, ainda o têm por suspeito. Por isso o querem atirar agora para os confins da África perdida. O que lhes é suspeito é “aquela luzinha no alto dos céus” que ele um dia nos disse ser donde lhe vem toda a filosofia. É o que o fez dizer que “ Portugal é um dos nomes de Deus”. É o patriotismo e a Pátria que nele dá pelo nome de V Império. É o que fez dele um dos nossos mestres. É o que o fará, inevitavelmente, regressar à casa de seus pais (in Leonardo, Ano I, n.º 4, Dez. de 1989, pp. 40-41).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O orgulho do fracasso

Escrito por Olavo de Carvalho






O Globo, 27 de dezembro de 2003


“O world, thou choosest not the better part!”

(George Santayana)


Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.

Mas, se esses elementos podem servir à humanidade, é porque serviram eminentemente ao povo que os criou; e lhe serviram porque não traduziam somente suas preferências e idiossincrasias, e sim uma adaptação feliz à ordem do real. A essa adaptação chamamos “veracidade” - um valor supralocal e transportável por excelência. As criações de um povo podem servir a outros povos porque elas trazem em si uma veracidade, uma compreensão da realidade - sobretudo da realidade humana - que vale para além de toda condição histórica e étnica determinada.

Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.

Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.




A França foi o centro cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderar dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo - com Kant, Hegel e Schelling - antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da prosperidade. Os escandinavos tiveram santos, filósofos e poetas antes do carvão e do aço. O poder islâmico, então, foi de alto a baixo criatura da religião - religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado da tradição poética, a língua poderosa e sutil em que se registraram os versículos do Corão. E não é nada alheio ao destino de espanhóis e portugueses, rapidamente afastados do centro para a periferia da História, o fato de terem alcançado o sucesso e a riqueza da noite para o dia, sem possuir uma força de iniciativa intelectual equiparável ao poder material conquistado.

A experiência dos milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que um povo de mentalidade estreita seja confirmado na sua ilusão materialista por uma filosofia mesquinha que tudo explique pelas causas econômicas. Acreditando que precisa resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito, esse povo permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas.

O pragmatismo grosso, a superficialidade da experiência religiosa, o desprezo pelo conhecimento, a redução das atividades do espírito ao mínimo necessário para a conquista do emprego (inclusive universitário), a subordinação da inteligência aos interesses partidários, tais são as causas estruturais e constantes do fracasso desse povo. Todas as demais explicações alegadas - a exploração estrangeira, a composição racial da população, o latifúndio, a índole autoritária ou rebelde dos brasileiros, os impostos ou a sonegação deles, a corrupção e mil e um erros que as oposições imputam aos governos presentes e estes aos governos passados - são apenas subterfúgios com que uma intelectualidade provinciana e acanalhada foge a um confronto com a sua própria parcela de culpa no estado de coisas e evita dizer a um povo pueril a verdade que o tornaria adulto: que a língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois.

As escolhas, dizia L. Szondi, fazem o destino. Escolhendo o imediato e o material acima de tudo, o povo brasileiro embotou sua inteligência, estreitou seu horizonte de consciência e condenou-se à ruína perpétua.

O desespero e a frustração causados pela longa sucessão de derrotas na luta contra males econômicos refratários a todo tratamento chegaram, nos últimos anos, ao ponto de fusão em que a soma de estímulos negativos produz, pavlovianamente, a inversão masoquista dos reflexos: a indolência intelectual de que nos envergonhávamos foi assumida como um mérito excelso, quase religioso, tradução do amor evangélico aos pobres no quadro da luta de classes. Não podendo conquistar o sucesso, instituímos o ufanismo do fracasso. Depois disso, que nos resta, senão abdicarmos de existir como nação e nos conformarmos com a condição de entreposto da ONU?



quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Categorias de Aristóteles (ii)

Escrito por Aristóteles

Ver aqui

4. Das locuções, umas exprimem-se ligadas, outras desligadas.

Umas ligadas como: o homem corre, o homem vence. Outras desligadas, como: Homem, Boi, corre, vence.

5. Das coisas umas dizem-se de algum objecto, mas não estão em nenhum objecto.

Exemplo: Homem diz-se de algum objecto, isto é, de algum determinado homem, mas não está em nenhum objecto.

6. Mas outras, sim, estão em algum objecto, mas não se dizem de nenhum objecto.

Exemplo: a Ciência gramatical de alguém está em algum objecto, que é a alma, mas não se diz de nenhum objecto. A brancura de algum determinado corpo está em algum objecto, isto é, nesse mesmo corpo, mas não se diz de nenhum objecto.

7. E outras não só se dizem de algum objecto, mas também estão em algum objecto.

Exemplo: a Ciência está em algum objecto, que é a alma, e diz-se de algum objecto como por exemplo, da Gramática.

8. Outras, enfim, nem estão em nenhum objecto, nem se dizem de nenhum objecto.

Exemplo: um determinado homem, um determinado cavalo, porque nenhum destes está em nenhum objecto, e contudo não se diz de nenhum objecto.


9. Em geral, tudo o que é indivisível, e um em número, não se diz de nenhum objecto, mas nada obsta a que algumas coisas possam estar em algum objecto.

Porque a ciência gramatical é daquelas coisas que se acham em um objecto, e contudo não se diz de nenhum objecto.

10. Quando se diz de um objecto que ele é compreendido em alguma categoria, tudo o que se diz da categoria, se há-de também dizer do objecto.

Exemplo: na categoria de Homem compreende-se um determinado homem. E na de Animal, compreende-se o Homem. Logo um determinado homem compreende-se na categoria de Animal, porque esse determinado homem é Homem e Animal.

11. As coisas que são heterogéneas entre si, e umas não são espécies das outras, também têm diferenças específicas heterogéneas entre si.

Exemplo: as de Animal e as de Ciências. Porque as diferenças de Animal são réptil, bípede, volátil e aquátil. Ora, as de Ciência não são estas, porque nenhuma Ciência difere de outra Ciência em ser bípede.

12. Mas naqueles géneros, que são subordinados uns aos outros, nada obsta a que tenham as mesmas diferenças.

Porque os géneros principais são categorias, que contém as subalternas.

13. Assim que quantas forem as diferenças da categoria, tantas serão as do objecto.

14. As locuções desligadas ou designam essência, ou quantidade, ou qualidade, ou relação, ou lugar ou tempo, ou estado, ou acção permanente, ou acção transeunte, ou paixão.

Essência, para o dizer com exemplos, é como Homem, Cavalo.

Quantidade. Exemplo: de dois cóvados, de três cóvados.

Qualidade. Exemplo: Branco, Gramático.

Relação. Exemplo: Dobrado, Metade, Maior.

Lugar. Exemplo: Na praça, no Liceu.

Tempo. Exemplo: Ontem, Anteontem.

Estar. Exemplo: Está recostado, Está sentado.

Acção permanente. Exemplo: Calçar-se, Armar-se.

Acção transeunte. Exemplo: Cortar, Queimar.

Paixão. Exemplo: Ser cortado, Ser queimado (ob. cit., pp. 37-38 e 55-57).




segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Problemática concreta da cultura portuguesa (iii)

Escrito por António Quadros




A Cultura Portuguesa perante a Crescente Valorização Económica do Ultramar

É este um tema de tão grande importância na sua projecção futura que, perante ele, empalidecem aqueles problemas culturais que hoje mais se agitam com bandeiras ou emblemas de inquietação.

Conhecemos a actividade que, com os melhores frutos, a Junta de Energia Nuclear vem desenvolvendo nas nossas províncias ultramarinas. Estamos a par das boas perspectivas mineiras e petrolíferas que ali se abrem.

Sem ir mais longe, bastariam estes dois factos para justificar, mais do que a esperança, a certeza de todos os portugueses no grande futuro que se abre aos pés da comunidade lusíada.

Mas o desenvolvimento económico, sabe-se, é uma moeda de duas faces: pode ser caminho de ascensão, e pode ser também o princípio de uma queda, quando se constrói sobre alicerces falsos, quando se olha a um futuro demasiadamente próximo, quando o material sobreleva o espiritual, a ponto de a valorização económica se transformar num mero jogo de interesses. Uma vez que se chegue a este ponto, a razão individual e a razão egoísta de um «trust» ou de uma classe ultrapassam a razão nacional, que sempre se identifica ou deve identificar com a razão espiritual. A Pátria realiza fins superiores e procura promover a ascensão, a dignificação e até a redenção do homem pelo concreto, isto é, respeitando as condições inerentes à natureza humana, que é histórica, situada e circunstancializada, e não abstracta, como queriam os teorizadores do século passado.

Se o conjunto das províncias europeias, africanas, asiáticas e oceânicas que constituem a Pátria Portuguesa não completar, pela radicação cultural a um mesmo tronco, a um mesmo ideal ou a um mesmo destino, aquela unidade cultural e espiritual de que deve partir a unidade política e económica, é de recear a dissolução, propiciada, aliás, pelas pressões das culturas estrangeiras, tanto mais insistentes quanto maior for o prémio material que possam obter.

É certo que as distâncias geográficas entre as províncias portuguesas de aquém e de além-mar necessariamente suscitarão, com o rodar dos tempos, diferenças culturais. Essas diferenças serão insignificantes, porém, se a cultura portuguesa principiar desde já a tomar consciência das suas enormes responsabilidades. A tradição das suas enormes responsabilidades. A tradição da irmandade das raças, dos continentes e das religiões sob o verde e o vermelho da bandeira nacional mantém-se, felizmente, pois a nossa política ultramarina afirmou expressamente, desde o seu início, no século XVI, o seu carácter oceânico e não exclusivamente europeu, universal e não imperialista, missionário e não conquistador.




É de prever, no entanto, que o desenvolvimento económico transforme por completo a paisagem humana do Ultramar, multiplicando o número dos seus habitantes, atraindo estrangeiros de todas as origens, seduzindo os centros internacionais de irradiação cultural, elevando as populações indígenas a um nível superior. Estará a cultura portuguesa, na sua relação com os problemas ultramarinos, preparada para fazer face a uma tão grande modificação do quadro actual de valores? Bem conhecemos a obra relevante que vêm realizando, não só a Agência-Geral do Ultramar, como a Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar.

Queremos apenas, nesta breve síntese das preocupações de escritor interessado, salientar a necessidade de reforçar cada vez mais os laços culturais entre todas as províncias portuguesas; de aumentar mais e mais o influxo da cultura original, que tem como base, origem e expressão a língua portuguesa; de levar aos pontos mais distantes a mensagem da nossa arte, da nossa literatura, do nosso pensamento; de preparar os portugueses, indistintamente, para a concorrência das culturas estrangeiras, vincando por todas as formas as características específicas e inconfundíveis da espiritualidade portuguesa; enfim, de promover de todos os modos, em todos os lugares, em todos os níveis, a solidificação da autonomia cultural, sem a qual não há autonomia política, social ou sequer económica. Uma tarefa ou uma missão como a que em breves palavras acabamos de sintetizar é obra para anos de ardoroso, de entusiástico, de persistente labor. A convicção de que a mensagem implícita da cultura portuguesa é, como poucas, libertadora, generosa e universal será, sem dúvida, o bordão de fé dos novos missionários que irão construir essa realidade nova, uma pátria autêntica, esparsa em quatro continentes, e, no entanto, unida em idêntica fé e idêntica esperança. Estamos no limiar de uma era sem precedentes na economia portuguesa. Saibamos estar também no limiar de uma era de superior afirmação cultural, quer no enriquecimento das ideias e das formas que exprimem o nosso génio quer na sua projecção para além das exíguas fronteiras do que antigamente se chamava a Metrópole. Hoje, a Metrópole é todo um Portugal cujo coração está no mar, para pertencer por igual a quatro continentes. E, ao nosso lado, o Brasil prepara-se para participar num movimento espiritual que será possivelmente a aquisição da sua voz nobre, singularmente experiente e ao mesmo tempo singularmente jovem, para o concerto fúnebre das nações que fizeram a nossa idade trágica.


Esfera Armilar

Temos o orgulho de, até aqui uma pequena nação, não termos participado na génese da tragédia. Temos a esperança de, possivelmente grande nação do futuro, contribuirmos para a transcensão da tragédia.

Deixamos aqui palavras de confiança que parecerão talvez estranhas aos olhos dos que não são capazes de viver na dimensão do futuro, antes vivendo, num passado que as novas gerações vão deixando para trás. Sabemos, no entanto, que estas palavras assumem a convicção, a esperança e o entusiasmo com que as camadas mais jovens se preparam para construir um Portugal diferente: um Portugal maior, se o desenvolvimento cultural e espiritual marchar ao ritmo da maturização política e do incremento económico, social e financeiro. Não são, pois, as palavras de um indivíduo, porque são as palavras de uma geração. O que lhes dá tanto maior relevo e acuidade, no momento decisivo que atravessamos.


Antropologia Ultramarina: Investigação e Formação

Ao abordarmos, há dias, o problema da cultura portuguesa perante a valorização económica do Ultramar, insistimos predominantemente, não nos modos da sua expansão, penetração e afirmação, mas apenas na própria dinâmica mútua entre os dois termos. Em face do prodigioso desenvolvimento demográfico, industrial e social que o nosso Ultramar dá sinais de poder vir a registar nos próximos vinte anos, a cultura portuguesa deve na verdade chamar a si o papel de mantenedora da unidade espiritual, virtualmente ameaçada no futuro por pressões de toda a ordem e a que dificilmente escaparemos.

Portugal é hoje uma pátria que tem as suas províncias colocadas em quatro continentes. Não é uma pátria de tipo continental, mas sim de tipo universal. Não deve julgar-se que as distâncias quilométricas que afastam as nossas províncias constituem hoje um gérmen real de separação. Assinalam sem dúvida diferenças rácicas e culturais. Mas diferenças também as há entre o Algarve e o Minho, entre o Alentejo e Trás-os-Montes. O progresso dos meios de transporte, mais assinalado ainda desde que a energia atómica possa começar a ser aplicada ao embaratecimento e rapidez das comunicações aéreas ou marítimas, tornou as distâncias factores infinitamente menos importantes do que o eram nos séculos XVII e XVIII. A própria morosidade das comunicações de então explicaria, sem mais, os desejos de independência de populações que viam a resolução dos seus problemas imediatos lenta e deficientemente encarada. Este factor «distância», agravado quando os mares se põem de permeio entre as províncias, caminha, pois, para se tornar cada vez mais insignificante. Não há também, na própria essência dos continentes, outros factores separativos que não possam ser transcendidos. A diversidade de raças e religiões, e até de línguas, não impediu, por exemplo, a formação do império russo por Catarina e Pedro, o Grande, império que se mantém como uma coexistência de raças, religiões e idiomas. Não impediu a formação das nações chinesa e indiana. Não impediu a formação da comunidade árabe. Não impediu também a formação dos Estados Unidos da América, onde se encontraram e aprenderam a mesma língua os indígenas peles-vermelhas, os negros africanos e os europeus de todas as nações, sem falar nos orientais que se fixaram na costa do Pacífico. Não impediu, não impede e não impedirá também a formação da Pátria Portuguesa nas suas verdadeiras dimensões. Pois tal é a grande, porventura única, diferença entre aqueles casos e o caso português? A separação das províncias pela distância e pelo mar - e já vimos como esse factor se torna cada dia menos importante.


Mas no seu processo de consolidação as pátrias defrontam sempre os obstáculos que os seus inimigos lhes preparam. Aqui, sim, reside o verdadeiro perigo. Perigo que aumentará à proporção do nosso desenvolvimento económico.

Quais serão as defesas naturais de uma pátria com as características da nossa? A coesão das ideias pela aprendizagem de uma língua comum, a coexistência harmoniosa e fraterna entre as raças, os cultos, os interesses locais, enfim, a integração de todos os seus filhos num comum ou afim projecto vital, quer dizer, num teleologismo que, em todas as ordens, desde as mais inferiores às superiores, nos irmane na mesma consciência da missão que ao homem cabe realizar neste mundo essencialmente dramático em que vive.

Se muito já se fez, é, no entanto, gigantesca a tarefa que falta ainda realizar. Ela pode dividir-se em dois aspectos diversos, mas estruturalmente ligados: de investigação e de formação.

Quanto ao primeiro, é óbvio que importa conhecer a fundo todas as parcelas dos nossos territórios ultramarinos, não só do ponto de vista antropológico, como do ponto de vista naturalista. Não se pode agir sobre o que não se conhece. Este trabalho tem sido notavelmente levado a efeito por algumas instituições credoras da nossa admiração, como a Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, a Sociedade de Geografia, a Agência-Geral do Ultramar ou o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. A investigação é, na verdade, fundamental e, sem ela, seria impossível radicar com profundeza qualquer acção formativa. A investigação tem dois aspectos: um, leva ao conhecimento dos homens, através de estudos antropológicos, com os seus aspectos etnográficos, artísticos, linguísticos e psicológicos; o outro, leva ao conhecimento da natureza sob os seus ângulos geográfico, botânico, zoológico, etc. Da investigação se parte, pois, para a formação do homem e para o aproveitamento da natureza.

Conforme dissemos, grande parte da tarefa está já realizada ou em vias de realização. Para comprovação, basta seguir atentamente a temática das Semanas do Ultramar que a Sociedade de
Geografia vem realizando todos os anos.

É no que se refere à formação, talvez, que o caminho a percorrer é mais longo. Ela exige uma irradiação constante, persistente e vasta da cultura portuguesa, quer através de organismos oficiais de ensino quer através dos meios modernos de expressão: o livro, a imprensa, a arte, a rádio, o cinema e a televisão. O ensino da língua portuguesa em todas as regiões das nossas províncias, e, mais do que o ensino, o seu uso quotidiano é ideal para que se tende irresistivelmente. Com o ensino e o uso da língua vêm todos os valores essenciais do espírito nacional, que deverá afirmar-se, em todos os recantos desta nação, que tem o seu centro, não num, mas em quatro continentes, pela realização artística, pelo direito, pela educação da sensibilidade e da inteligência. Consistente hoje, assim, a pátria portuguesa será cada vez mais consistente no futuro. Nesta faixa europeia da Península Ibérica estão apenas as províncias mais antigas. Pois a pátria, pois o coração da pátria bate igualmente em Angola, em Moçambique, em Goa ou em Macau. Gilberto Freyre distinguiu entre as nações teocêntricas, como as muçulmanas, e as nações etnocêntricas, como as anglo-saxónicas ou germânicas, em que se afirma o predomínio de uma raça. Mais próximo do primeiro caso do que o segundo, Portugal enriquece hoje o seu teocentrismo original com um pátrio-centrismo, que, irmanando raças, continentes e até cultos, contribui como poucos povos para a paz, para a compreensão dos homens, para a universalização nos seus termos mais válidos, para a final conciliação através da compreensão e da genorosidade, não de mera afirmação doutrinária, mas nas relações de homem para homem. Muito falta ainda percorrer neste sentido? Sem dúvida. Mas o que falta percorrer, percorrê-lo-emos (ob. cit., pp. 61-63).

Gilberto Freyre



sábado, 23 de outubro de 2010

Problemática concreta da cultura portuguesa (ii)

Escrito por António Quadros





É dentro desta orientação que tenho vindo a preconizar, como um dos aspectos essenciais da solução do caso português, a defesa e, mais do que a defesa, a afirmação de uma autonomia cultural que, partindo da filosofia e das artes, se exprima pela educação e tenha o seu desfecho nas formas políticas. Um nome quero evocar - e mais outros nomes não citarei -: o de um homem que realizou em Portugal uma obra cultural extraordinária e sem precedentes entre nós. Creio não haver subjectividade na citação isolada do seu nome, ao abordar um tema como o da Problemática da Cultura Portuguesa. Ele ficou-lhe ligado para todo o sempre. E a cultura portuguesa deve-lhe serviços inestimáveis. Nem por ser seu filho, posso aqui calar o nome de António Ferro, o iniciador e o criador em Portugal da Política do Espírito. Não vou aqui enumerar todas as aquisições definitivas que Portugal ficou devendo à Política do Espírito. Todas as conhecem. Todos sabem, tão bem como eu, a grande lacuna que António Ferro deixou atrás de si na vida portuguesa. É com orgulho que eu, seu filho, procuro continuar essa obra precursora, a partir da qual, na realidade, começa uma nova fase da cultura nacional, na sua expressão institucional e política.

E, se alguma nova contribuição trago à Política do Espírito, é a convicção de que ela deve transcender o âmbito de um só organismo, ela deve dar vitalidade às leis e às instituições, ela deve presidir a toda a acção legislativa e executiva sobre o homem português, ela deve dar conteúdo a todas as formas livres de expressão artística ou de divulgação cultural. Foi neste sentido que dirigi a tese sobre a «Unidade, autonomia e expansão da cultura portuguesa», que apresentei há meses ao IV Congresso da União Nacional.

Observando atentamente o fenómeno português - disse então - verifica-se um desequilíbrio cuja correcção é indispensável e urgente. Na verdade, ao esforço de incremento económico traduzido pela realização de planos de fomento e pela instalação de novas indústrias com larga participação do Estado, e à firmeza de um actuar político que procura coordenação harmoniosa e lógica das diversas actividades da vida nacional, não corresponde idêntica centralização cultural, capaz de tirar o máximo rendimento das virtualidades espirituais do nosso povo.

Temos uma cultura popular rica de originalidade, dando ao nosso folclore, à nossa poesia tradicional, à nossa arte campestre uma fisionomia inédita. Para além dos factores de descaracterização que hoje chegam a toda a parte, estas formas espontâneas e ingénuas por que o povo português exprime o sentido da sua espiritualidade dão-lhe o mais forte do seu carácter.

Passando ao nível da chamada cultura superior, o panorama oferece elementos negativos, apesar dos elementos afirmativos que justificam, no entanto, a nossa confiança e a nossa esperança.




A problemática da cultura portuguesa apresenta três grandes subdivisões. Correspondem elas ao problema da criação artística; ao problema da organização das actividades culturais; e ao problema da transmissão da cultura. As duas primeiras, embora distintas, têm, porém, ligações profundas, enquanto a terceira constitui nitidamente um problema à parte, problema que é o próprio nódulo da crise.

O problema da criação artística, tal como hoje se coloca, alarga-se à cultura ocidental europeia. A criação artística - e quando falo de criação artística refiro-me indirectamente a todas as artes, desde as artes da palavra às artes plásticas e musicais - perdeu pouco a pouco o seu lugar na realidade existencial.

As formas de arte não se apresentam hoje socialmente como necessárias. Os artistas da palavra ou da forma, que até certa altura criaram as suas obras obedecendo ao duplo imperativo da arte e da vida, isto é, de exprimir beleza e ao mesmo tempo de colaborar na dinâmica vital, abandonaram pouco a pouco esta segunda instância da arte, para se confinarem à realização do belo e, correlativamente, à afirmação das suas próprias personalidades. No extremo oposto dos artistas que ergueram as grandes catedrais medievais, anónimos, sim, mas tendo talvez, por isso mesmo, realizado obra de vasta penetração existencial - os artistas contemporâneos, num processo que começou com a renascença, desinteressaram-se desta penetração existencial, para se preocuparem quase exclusivamente em ostentar o seu valor, o seu talento ou o seu génio, para conquistarem a glória, numa palavra. A descrição é um pouco sumária, mas afigura-se-me fiel esta realidade. A criação artística é hoje feita por e para élites. A maioria dos homens vive afastada dos seus problemas, desprezando-os e considerando-os um luxo perfeitamente dispensável. Este facto deriva, é certo, de um vício estrutural de educação. Mas deriva ao mesmo tempo, devemos compreendê-lo corajosamente, da própria carência, das próprias lacunas que mancham a génese da criação artística moderna.

Entre nós, o fenómeno reveste-se de multiplicada gravidade. Confinados no seu personalismo extremo, no seu isolamento de criadores, muitos artistas portugueses seguem os caminhos mais fáceis, preferem integrar-se quase sem crítica nas modas e nas grandes correntes europeias vindas de França ou da Alemanha, desistindo de realizar obra original, obra ligada ao ineditismo da nossa cultura tradicional, obra capaz de ser elemento vivificante do destino nacional em que todos estamos empenhados.




A preponderância do lirismo entre as demais formas poéticas, isto é, o domínio da subjectividade isolada e desligada, seja da transcendência, seja de uma imanência vitalizadora; a decadência das formas epopeicas e dramáticas; a transformação da arquitectura de arte em técnica utilitária; o formalismo e o subjectivismo que invadiram a criação musical; o processo que fez da pintura e da escultura uma dialéctica entre o positivismo ou realismo plástico e o abstraccionismo, em ambos os casos desconhecendo o fim mediador e simbólico da arte; numa palavra, a irresponsabilidade que pouco a pouco invadiu os modos de criação cultural, divorciados e profundamente separados de qualquer finalidade superior, seja da ordem da acção sobre a história ou sobre a marcha existencial, todos estes factores contribuem para o desprestígio e para a real fragilidade que as artes revelam no mundo moderno.

Como poderá o Estado intervir na resolução de um problema semelhante? Não fixando regras aos artistas, evidentemente, pois a sua liberdade de expressão é elemento insdispensável e necessário à autêntica criação literária, musical ou pictórica. Mas do reconhecimento da alta importância da cultura no complexo nacional poderá nascer um esforço de consciencialização dos problemas da cultura em relação com os fins superiores do Homem e, no caso concreto que particularmente nos diz respeito, do Homem Português. Como já disse há pouco, a intensificação dos estudos portugueses, em todos os campos da cultura, a pesquisa dos valores genuinamente nacionais, muitas vezes ocultos ou pouco visíveis, o desenvolvimento de raízes, embriões, sementes que a falta de continuidade intelectual terá impedido de crescer, a conceptualização sistemática das nossas tradições, escritas, fixadas em imagens simbólicas ou apenas orais, não deixarão de criar, no nosso ambiente cultural, um foco cuja luz se projectará fortemente na sensibilidade e no espírito dos nossos artistas da palavra ou das formas, cujas excelentes virtudes tantas vezes não têm maior projecção e profundidade por um excessivo paralelismo com complexos culturais alheios.

O problema que acabei de enunciar depende formalmente desse outro problema que é a organização das actividades culturais portuguesas. Reconhece-se a excelência dos esforços e mesmo dos resultados alcançados por vários organismos oficiais, cujos dirigentes tudo têm feito para estimular e impulsionar a cultura portuguesa. Esses organismos, porém, ou se definem num restrito âmbito local, ou têm fins culturais particulares, nenhum deles abraçando e centralizando a totalidade das manifestações artísticas ou literárias. O resultado é uma multiplicidade de acções, meritórias sem dúvida, mas dispersas, insuficientemente coordenadas e por vezes até contraditórias.

Para mobilizar integralmente, para coordenar eficazmente as diferentes actividades de objectivos culturais, afigura-se-me indispensável, seja responsabilizar, alargar-lhe o âmbito e dotar de meios de trabalho e de poderes executivos um dos organismos já existentes, seja criar um organismo novo, encarregado de centralizar e de tomar sobre os seus ombros o conjunto dos problemas da produção cultural portuguesa. Em qualquer das alterantivas, este organismo - Ministério, Secretariado ou Instituto - teria predominantemente os seguintes fins, que aliás sublinhei já:

1 - A realização de um intenso e sistemático esforço de pesquisa e conceptualização dos valores tradicionais, literários ou artísticos portugueses;




2 - A coordenação das actividades culturais já existentes, de forma a que se harmonizem planificadamente e tirem o máximo rendimento de uma interinfluência mútua;

3 - A síntese e o diálogo das culturas de língua portuguesa, bem como o estudo das condições de expansão da cultura portuguesa no Mundo (in Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, Conferência proferida na sede do Centro de Estudos Político-Sociais, no dia 5 de Maio de 1957, pp. 25-31).

Continua

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Problemática concreta da cultura portuguesa (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte






Introdução

Já tivemos oportunidade de ir à Fundação António Quadros para consultar, ainda que pela rama, a correspondência entre António Quadros e algumas das figuras ilustres da política e da cultura portuguesas, entre elas Oliveira Salazar, Henrique Veiga de Macedo, Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino. A Fundação, na pessoa de Mafalda Ferro, permite assim o acesso a testemunhos de ordem histórica susceptíveis de novos e variadíssimos elementos para a compreensão psicológica, artística e filosófica de diferentes personalidades constitutivas do escol português. E nisto nada melhor que a referida correspondência que esperemos seja o mais breve possível divulgada ao público interessado na relação objectiva e actuante entre o passado e o porvir da cultura portuguesa.


António Quadros

Conferenciando com Mafalda Ferro e António Quadros neto, puderam ressaltar, por um lado, as afinidades entre António Ferro e Oliveira Salazar, e, por outro, a funda relação entre António Quadros e a filosofia portuguesa. De modo que estamos, por certo, perante dois mundos tão claramente diferenciados que, por mais estranho que pareça, há sempre quem os confunda, ou queira confundir, nomeadamente Eduardo Lourenço e seus epígonos marxistas. A Fundação António Quadros pode, entretanto, contribuir para que essa diferença seja justamente assinalada, disponibilizando testemunhos e elementos valiosíssimos que permitam a investigadores livres e independentes verificar que assim é.

Nesta ordem, ou neste intercâmbio de ideias, cabe referir que António Quadros neto nos fizera chegar um livro significativo do avô, intitulado Problemática Concreta da Cultura Portuguesa. Ora, datado de 1961, aí se espelham as directrizes filosóficas susceptíveis de orientar, preservar e valorizar o património político, económico e cultural do povo português. Daí que, ao contrário do que falsamente possam apregoar as figuras labirínticas da cultura universitária em Portugal, nada do que a António Quadros se reporta significa, nem de perto nem de longe, uma adesão ao regime do Estado Novo, mas tão-só a sua fidelidade à missão teleológica de Portugal no mundo.

Todavia, António Quadros, se bem que não perfilhasse de razões históricas enquanto fundamento único e exclusivo da cultura nacional, compreendia que, nesse ano crítico de 1961, estava em causa a existência de Portugal enquanto Nação multirracial e pluricontinental. Por outras palavras, António Quadros compreendia que o que mais importa - a autonomia cultural de Portugal, sem a qual não é possível a verdadeira independência política - não se traduzia na desistência e muito menos no abandono da presença multissecular de Portugal em África, na Ásia e na Oceânia.

Na verdade, convém reconhecer que há hoje uma enorme dificuldade para a justa compreensão da presença multissecular de Portugal no mundo, até mesmo entre alguns portugueses. E também não é de admirar que se tenha escrito, por entre vicissitudes que atravessam a filosofia luso-brasileira, que António Quadros tenha sido «o primeiro a empreender a tentativa de instrumentalizar a filosofia», tal como a «Escolástica fez o mesmo a seu modo, atribuindo-lhe [à filosofia] a função de difundir o cristianismo» (1). Neste passo perpassa, pois, uma total incompreensão do pensamento de António Quadros, para quem a filosofia é, no mais perfeito acordo com Leonardo Coimbra, o órgão da liberdade relativo ao sentir e à visão de um povo cuja feição atlântica nunca se pautou, nem mesmo para Oliveira Salazar, pela simples imposição de factores geográficos ou territoriais (2).

Depois, se é um facto de que todo este processo implica uma capacidade intuitiva que foge e escapa à maioria das pessoas medianamente cultas, é não menos verdade que há sempre quem procure minorar a filosofia portuguesa, como é o caso de Eduardo Lourenço que, já em 1946, afirmara, entre outros disparates, ter Álvaro Ribeiro tomado «a filosofia como qualquer coisa que se aprende ou transmite tal e qual como a técnica de fazer o melhor parafuso» (3). Todavia, a filosofia portuguesa seguiria o seu curso até culminar na ideia de Pátria não condicionada por razões históricas, geográficas e territoriais (4). E assim foi porque, de facto, Portugal deixara de existir historicamente com a revolução comunista de 1974, que fora somente possível na sequência de uma premeditada traição político-militar operada no território da primitiva Nacionalidade.

















Hoje, Portugal, dominado por potências, poderes e organizações internacionais, é somente uma ideia, visto que, em termos patrimoniais, foi tudo praticamente vendido, cedido e destruído por uma oligarquia política que alargou os poderes do Estado à existência privada dos Portugueses. Daí serem sempre as mesmas figuras a quem ostensiva e repetidamente se dá direito de antena nos órgãos radiofónicos e televisivos, como por exemplo os Medina Carreira, os Silva Lopes e outros mais que apontam o dedo a tudo e a todos menos a eles próprios, como se fossem cidadãos de primeira água e sem culpas num passado próximo.

Além disso, é também verdade que António Quadros, pese embora a sua previsão de alguns aspectos do nosso trágico quão dramático destino, não imaginara até que ponto lastimável e degradante os Portugueses haveriam de chegar. Ainda assim, sempre mantivera um espírito positivo particularmente presente na sua vasta e reconhecida obra, a começar pela Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, no âmbito da qual a esperança ainda perdurava em virtude de um Portugal que, para todos os efeitos, e com todos os problemas inerentes, era, apesar de tudo, um Portugal histórica e politicamente existente. Logo, deixando bem clara a sua posição no plano das ideias, António Quadros não deixara, porém, de reconhecer e respeitar o caminho ideológico do pai e até o de Oliveira Salazar, a quem, efectivamente, cita em epígrafe do mesmo livro, a saber: «Estudar com dúvida e realizar com fé».

Curiosamente, também Álvaro Ribeiro tivera na devida conta uma tal epígrafe, sem que isso, por si só, signifique que o filósofo português solidarizasse a filosofia portuguesa com o salazarismo, coisa que nunca fez e só a perfídia ideológica de um Eduardo Lourenço e seus panegiristas podia perfidamente sugerir. Aliás, não é por acaso que José Marinho por vezes se referisse a Oliveira Salazar como «esse teimoso universitário», um pouco na esteira de Jaime Cortesão que fora, como se sabe, um forte e contumaz opositor a Salazar, a ponto de publicar «na imprensa estrangeira protestos contra a intervenção de Lisboa em favor dos nacionalistas» na Guerra Civil de Espanha (5). E mais adianta o biógrafo do último monarca perante a respectiva oposição de ordem ideológica e política:


«Mas correm boatos alarmantes: organizada pelo Grupo de Buda, sob o impulso de Moura Pinto, Jaime de Morais e Jaime Cortesão, e com desconhecimento dos exércitos nacionalistas, estava sendo preparada algures em Espanha uma invasão de Portugal; e na fronteira estariam mesmo alguns tanques. Roque de Aguiar escrevia ao chefe do governo, exprimindo as suas preocupações perante a ofensiva comunista; e, de Paris, Virgínia e Castro e Almeida informa Salazar das actividades dos budistas, que seriam coadjuvados pelos serviços secretos britânicos» (6).

De qualquer modo, o que permite distinguir Oliveira Salazar das insignes figuras da cultura portuguesa foi a singular intuição norteadora da sua acção pragmática que o levou, inclusivamente, a dizer, quando entrevistado por António Ferro, que o professor universitário não é, por natureza, um homem de acção. Ora, uma resposta deste teor vinda de quem fora professor universitário durante uma parte considerável da sua vida poderá conter uma flagrante contradição, e, no entanto, revela-se compreensível se considerada à luz das circunstâncias do caminho percorrido por quem se vira obrigado a substituir a leitura dos livros pela compreensão dos homens e da vida (7). E tudo isso não obstante a predilecção de Oliveira Salazar pelos professores universitários que, de um modo geral, constituíam a hierarquia civil do Estado.

Por outro lado, há ainda a questão da «Política do Espírito», em relação à qual António Quadros tecera algumas considerações na Problemática Concreta da Cultura Portuguesa. Como tal, com o devido respeito prestado à obra cultural do pai, considera, contudo, que uma nova fase da cultura nacional, sem desdenho e indiferença para com as realizações pretéritas, se deve traduzir na criação filosófica que caminhe a par da cultura popular espelhada no folclore e na poesia tradicional portuguesa. Nesse sentido, António Quadros propõe uma restauração da mentalidade lusa segundo directrizes científicas, artísticas e filosóficas que procurem ir além das preocupações de ordem económica, política e cultural do Estado Novo. E embora fale em «centralização cultural», não deve ser ela entendida no sentido de uma planificação centralizadora por parte do Estado, em certos aspectos presente no regime de então, mas no sentido de uma presença salutar e irradiante do Génio português em todas as actividades, leis e instituições relativas ao carácter fisionómico e espiritual do povo português.




Na sua obra intitulada Prémios Literários, António Ferro define a «Política do Espírito» como fundamental e estruturalmente oposta à política da matéria. Não se trata simplesmente de fomentar o desenvolvimento literário, artístico e científico do povo português, já que, no seguimento de Paul Bourget, em Le Disciple, a questão primacial reside em «estabelecer e organizar o combate contra tudo o que suja o espírito, fazer o necessário para evitar certas pinturas viciosas do vício que prejudicam a beleza, a felicidade da beleza, como certos crimes e taras ofendem a humanidade, a felicidade do homem» Enfim, defender «a Política do Espírito é combater sistematicamente, obra da vida ou obra da arte, tudo o que é feio, grosseiro, bestial, tudo o que é maléfico, doentio, por simples volúpia ou satanismo!» (8).

Oliveira Salazar partilhava, naturalmente, desta definição, a avaliar pelo seguinte trecho:

«Quando Bourget pôs em Le Disciple a tese da responsabilidade do escritor pelos efeitos da sua obra na inteligência e na moral dos seus admiradores ou sequazes, parece ter-se operado um movimento de espanto, sobretudo nos que tendiam a formar da literatura e da arte mundos à parte, bastando-se a si próprios, tendo em si mesmos a sua finalidade e razão de ser, e não viam nelas manifestações humanas, integradas na vida e susceptíveis de a embelezar, de a melhorar, de ajudar o homem na conquista dos seus fins superiores. Estes desconheciam as profundas realidades humanas, perderam a rota das grandes certezas morais, criaram o amoralismo e a arte pela arte, como frutos lindos de ver-se mas inaproveitáveis ou nocivos. Na melhor das hipóteses desperdiçou-se o génio, em prejuízo da humanidade.

A tese da responsabilidade pode continuar a discutir-se teoricamente, abstractamente; mas aos homens que sentem sobre os ombros o peso da direcção dos povos ensinou-lhes a História, quando não a observação própria, coincidir a decadência com certas manifestações mórbidas das inteligências e das vontades, com a pretensa emancipação do jugo de regras superiores, impostas ao homem e oriundos da sua natureza e dos seus fins. Para elevar, robustecer, engrandecer as nações, é preciso alimentar na alma colectiva as grandes certezas e contrapor às tendências de dissolução propósitos fortes, nobres exemplos, morigerados.

É impossível, nesta concepção da vida e da sociedade, a indiferença pela formação mental e moral do escritor ou do artista, e pelo carácter da sua obra; é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas ou morais e os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.

Oliveira Salazar entrega «O Prémio Camões 1937» ao escritor suiço Conde Gonzague de Reynold, autor do livro «Portugal».

As literaturas costuma dizer-se que são o espelho das diferentes épocas; mas se tão fielmente as reflectem, é que ajudaram a criá-las. Neste momento histórico, em que determinados objectivos foram propostos à vontade nacional, não há remédio senão levar às últimas consequências as bases ideológicas sobre as quais se constrói o novo Portugal. Cremos que existe a verdade, a justiça, o belo e o bom; cremos que pelo seu culto os indivíduos e os povos se elevam, enobrecem, dignificam; cremos que ao alto sacerdócio de buscar e transmitir a virtude, é inerente a responsabilidade pelas devastações acumuladas nas almas e até pela inutilidade da obra produzida»(9).

Nisto, poder-se-á objectar, invocando as palavras de José Régio, de que há aqui uma tendência para o «sectarismo voluntarioso, o dogmatismo sufocante, o propagandismo brutal, o simplismo sistematizado (…) inculcados aos novos como virtudes indispensáveis e modernas» (10). Contudo, ficará sempre a possibilidade de podermos distinguir a «Política do Espírito» da infraliteratura comunista, também designada, à época, por neo-realista. E, de resto, ficará ainda a possibilidade defendida e particularmente vivida por José Régio, a saber: «não faço o mínimo empenho em ser do meu tempo».


Notas:

(1) Cf. António Paim, As Filosofias Nacionais, 3.ª edição revisada e ampliada, 2007, p.148.

(2) «... Aquela feição atlântica e imperial a que acima me referi não caracteriza a nossa História por simples imposição de factores geográficos mas pelo esforço construtivo que apoiado nesta os portugueses realizaram no mundo. A afirmação que da mesma temos feito não é tam pouco imagem de retórica para nenhum português de hoje, mas uma directriz de pensamento e um imperativo de acção...» (A Política Imperial e a Crise Europeia, Discurso pronunciado pelo Presidente do Conselho na sessão extraordinária da Assembleia Nacional, de 22 de Maio de 1939, reunida para dar o seu assentimento à viagem do Chefe do Estado, Edições SPN, pp. 27-28).

(3)  Cf. Vértice, Vol. II, f. 7, 1946, p. 157.

(4)  Cf. «Ainda temos Pátria», in Escola Formal, n.º 4, 1977, pp. 11-12.

(5)  Cf. Franco Nogueira, Salazar, Livraria Civilização Editora, Vol. III, p. 44.

(6) Ob. cit., p. 179. «Efectivamente - anota Franco Nogueira -, a Inteligence inglesa seguia as actividades dos emigrados portugueses em França, para junto dos quais destacara um agente de nome Wilkins; mas não encontrei documento ou indício de que Wilkins, além de colher informações, prestasse ao Grupo de Buda qualquer auxílio contra o governo de Lisboa».
(7) Oliveira Salazar, O Meu Depoimento, Edições SNI, 1949, p. 7.

(8) António Ferro, Prémios Literários (1934-1947), Edições SNI, 1950, p. 19.

(9) Ibidem, pp. 11-12.

(10)  Cf. José Régio, Em Torno da Expressão Artística, Editorial Inquérito, p. 9.

Continua

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um Fernando Pessoa

Escrito por Agostinho da Silva






Àqueles a quem, não querendo mal, também especialmente não amam concedem os deuses uma vida fácil e benigna, que os faz, a eles e aos restantes, acreditar em protecção celeste; aos outros, porém, àqueles cuja carreira se vê essencial aos destinos do mundo, vendem os deuses e bem caro, todos o dons de que os cumularam; e, porventura, o preço mais alto que reclamam de sua mercadoria é o de, a cada momento realmente importante da vida, nada disporem como que de maneira fatal, deixando que o seu amado possa, em plena liberdade, escolher o que mais é de seu agrado; e aqui a maior parte se perde: porque à chama que os tornaria celestes preferem a temperada medianidade que para sempre os prende à terra.

Começa logo a escolha pela Pátria. Para a maioria dos homens, se apresenta a Pátria apenas como um acidente ou um acaso físico: são de onde nasceram, e, a pouco e pouco, a convivência dos pais, de seus conterrâneos, mais tarde a Escola e o Estado, os dois grandes organismos encarregados essencialmente de não deixar escapar ninguém das malhas do exército social, os vão gradual e realmente convencendo de que não poderiam ter nascido noutro lugar e de que uma escolha futura que livremente pudessem fazer representaria sempre e de qualquer modo uma diminuição ou tradição. A outros, no entanto, e porque são amados dos deuses, se apresenta o caso de modo diferente: a vida, mostrando à superfície, como circunstância, o que é meditado e deliberado propósito de quem rege a História, os encaminha à escolha que decidirá de seus destinos: o de resplandecer num véu de glória, que é quase sempre, visto por dentro, um véu de lágrimas, ou o de ser jogado fora como um vaso de oleiro que mentiu, pela má qualidade do barro, à diligente regularidade da roda e à inventiva agilidade do gesto. Quem pode, em raro jogo, escolher o seu País por aí mesmo está escolhendo a sua vida: uma vida que dele mesmo se vai alimentar.

Para Fernando Pessoa, cuja existência se iria desenrolar, tanto quanto se poderia prever, no Portugal de seus tempos, isto é, no ponto mais baixo que poderia atingir a descendente curva da austera, apagada e vil tristeza, a alternativa apresentada foi a mais tentadora que se poderia imaginar: a da Inglaterra, e a de uma Inglaterra apreendida na sua história e na sua cultura. Por uma daquelas pequenas resoluções que movem depois as grandes molas, poderia Fernando Pessoa ter passado inteiramente ao domínio inglês e nele se afirmado como um homem de Império, já que o encontro se cumpria na África, ou como um homem de Universidade, já que o encontro era igualmente num ambiente à Walter Pater, com imaginários retratos de Inglaterra elisabeteana mascarando uma outra que apenas procurava colocar seus capitais e manter pela força os seus mercados. Numa ou noutra carreira, teria Fernando Pessoa sido célebre: as críticas a seus poemas ingleses seriam apenas o prenúncio do que os outros críticos viriam a escrever; um outro Conrad, noutro domínio, se incorporaria à literatura inglesa.

O que, no entanto, acontecia era que iam mais alto as ambições de Pessoa e penetrava a sua inteligência mais longe do que a dos estadistas ingleses. Era o mundo mais nobre, mais humano e mais divino, do que o supunha a Inglaterra e jamais se resignaria a aceitar como permanente, apesar de todas as excelências sobre os outros, apesar de não ter constituição escrita, apesar de tender já a uma Comunidade de nações livres, um império que, na base de tudo, mantinha as duas noções e invenções diabólicas da força e do lucro. No fim de contas, o melhor que a Inglaterra lançava sobre o universo já Portugal o fizera, muito antes dela; e Portugal porque não era de nenhuma Igreja reformada, porque se mantivera fiel a Roma e à fraternidade católica, porque nunca fora sequaz de uma ciência que tendia apenas a dominar, de uma economia que tendia apenas a explorar e de uma política que não era outra coisa senão de origem maquiavélica, deixara aberta, apesar de suas falhas, uma esperança para o futuro: a de que o seu império do mar fora apenas o primeiro passo, por isso mesmo ainda físico e político, de uma acção que depois a Europa, incompreensiva como sempre, lhe viria cortar: a de trazer para o mundo aquele Reino que milhões de homens quotidianamente imploram em vão.


O jovem Fernando Pessoa


Vai, pois, Fernando Pessoa, deliberadamente, confirmar o acaso físico: vai nascer português porque tem a convicção de que Deus não pode abandonar seu outro povo eleito e de que, passado o domínio da Europa, quando a técnica tiver esgotado todas as suas possibilidades, quando a economia protestante se verificar plenamente anti-humana, quando a centralização estatal se revelar estéril, Portugal virá de novo construir o seu mundo de paz, por maior que tenha de ser o seu sacrifício: mundo de uma paz que não surja como a Romana ou a inglesa, do exterior para o interior, de um César para seus súbditos, dos tribunais para os corpos; paz que se realize antes de tudo nas almas, lei que seja inteiramente não escrita e, no melhor de si, informulada; Reino de Deus que surja pela transformação interior do homem.

É como uma justificação e uma explicação deste seu acto fundamental de vida que Fernando Pessoa, pacientemente, vai durante quase duas dezenas de anos escrevendo Mensagem, sem dúvida a mais importante de suas obras e plenamente emparelhando com Fernão Lopes, Os Lusíadas, D. João de Castro e a História do Futuro na compreensão do que verdadeiramente é Portugal; pela inteligência e entendimento fundamentais que enformam toda a obra e por ter posto mais a claro do que Camões na Ilha dos Amores a concepção de um verdadeiro Império Português ou Quinto Império, veríamos até Mensagem como de importância superior à dos Lusíadas: no total, o não é, porque inutilmente procuramos na obra de Pessoa traços daquela espantosa e eloquente vitalidade de Camões, daquela ígnea personalidade que em si ardendo destruía todos os círculos limitadores que ele próprio ou os outros tentavam traçar à sua volta; a diferença que há entre Camões e Pessoa é a diferença que há entre um homem e a sua inteligência: mas esta brilhava; foi mais compreensiva quanto ao Passado estático e ao Passado dinâmico, tão incisiva como a de Camões quanto ao Presente e muito mais aguda na previsão do Futuro.





A primeira ideia que nos dá Pessoa é a de que há um certo passado de Portugal que não é de natureza puramente histórica: é apenas uma revelação no passado do que é em Portugal uma perenidade; o apuramento dessa perenidade constitui o conteúdo da primeira parte do poema, aquilo a que Pessoa chamou justamente Brasão, mas que não é para ele brasão de túmulo, ou brasão daqueles palácios em ruínas que foram obsessão em Gomes Leal: o seu Brasão é a nobreza em cerne, é a essência do ser fidalgo de Portugal. Quando agir, será no Passado, a segunda parte do poema, Mar Português, e, no Futuro, a terceira parte, O Encoberto. Brasão terá como lema Bellum sine bello: é a potência sem o acto, a energia sem a matéria, a História sem o tempo: Deus, vendo Portugal em Si eterno, escreveria Brasão. Mar Português é o acto que não esgota a potência, a matéria que não apaga a energia, o tempo que não liquida a História: por isso é apenas a Possessio Maris que o Poeta lhe deu por lema: é Portugal podendo apenas uma mínima parte do que pode; não se entregando todo e, portanto, apenas possuindo; em Mar Português, Portugal Tem, não É. Em O Encoberto, porém, toda a sua grandeza se revela: e o descerramento desta sua glória é quase a renovação, agora de homens para homens, do clamor antigo dos anjos, quando o Céu fez, por uma Terra que dele se desaviera, o sacrifício supremo de si próprio: Pax in excelsis; paz nas alturas em que o homem, indo além de si mesmo, se faz Santo; não a paz em que o homem, rendendo-se, organiza, explora e defende a sua própria baixeza.

Em Brasão, Portugal é o rosto com que a Europa fita um Ocidente que, ao plenamente ser, justificará todo o passado de miséria que a humanidade tiver atravessado; a missão de Portugal não poderá ser outra senão a de resgatar o que a Europa fez e de a salvar a seus próprios olhos; por isso o seu campo, o dos Castelos, é o que serve de base ao das Quinas, o das Chagas de Cristo, este o campo de Portugal: é expirando na cruz, esgotando-se no seu sangue e na sua piedade, que Portugal poderá salvar o mundo.

Castelo de Guimarães

No dos castelos, porém, Portugal porá, como seu alicerce, o que de mais fundamental a Europa poderá ter dado ao mundo: com Ulisses, a ideia de que o mito é mais importante do que a realidade, de que o poder vir a ser é o substracto do que é, de que as coisas morrem à medida que são; com Viriato, a de que a verdadeira força propulsora da vida não é a inteligência, mas a reminiscência, e de que o ponto criador não é a definição, mas o pressentimento; com o Conde D. Henrique a de que a acção, se Deus é o agente, se faz para além das intenções e das possibilidades do herói, consistindo o heroísmo apenas em se não recusar o que se não compreende; com D. Tareja, juntamente com a da contemporaneidade do temporal e do eterno, a de que o dever perante a obra consiste em a ela se dedicar com a bruta e natural certeza com que a Mãe amamenta a seu filho; com D. Afonso Henriques, a de que para se vencerem infiéis, só vale uma indefinível arma, que, espinosianamente, tenha como um dos aspectos o da espada e como outro o da benção, como um, o do corpo, como outro, o do espírito; com D. Dinis, a de que a intuição poética vale mais do que o plano; com o sétimo castelo, o que junta D. João e D. Filipa, o que se afirma é que a história, ao ser, toma dois aspectos: o do homem e o da obra, sendo as modificações de qualquer desses o reflexo das modificações do outro; e ainda, que o milagre da concepção humana consiste em que cada filho, sendo de seus pais, não tem ao mesmo tempo nada que ver com eles: a cada nova geração reafirma o Espírito Santo a liberdade de criar. A Europa em que Portugal assenta não é, felizmente, a Europa cartesiana.

Se a força de alicerce de Portugal vem de ter afirmado a existência de uma Europa que duas vezes se perdeu a si própria, primeiro na Idade Média grega, depois na Idade Média Ocidental, a sua força de salvação virá de, voluntariamente, ter incluído em seu brasão as chagas de Cristo, não pintando-as apenas, mas consubstanciando-as em gente sua: primeiro em D. Duarte, o mártir do dever; depois em D. Fernando, o mártir da grandeza de alma, superior sempre a seu destino; e em D. Pedro, o mártir da fidelidade a uma ideia claramente pensada e claramente sentida; e em D. João, o mártir de não querer senão o todo, ou o seu nada; e, finalmente, em D. Sebastião, o mártir do sonho de grandeza que está para além das circunstâncias históricas. Coroando os campos, a santidade activa de Nuno Álvares, a sua pureza guerreira, o halo que no céu gravam suas acções terrestres; e, numa afirmação final da energia que a tudo subestá, o Grifo com sua cabeça de águia adivinhando o mundo como um perfeito globo, ou melhor, obrigando o mundo a ser o globo que pensava; com uma de suas asas rasgando o firmamento num sulco de vontade, com a outra das asas o rasgando num sulco de poder.

Estátua de D. Nun'Álvares Pereira (Mosteiro da Batalha).

Sobre a base teórica de que a vontade de Deus desperta o sonho do homem e de que o sonho do homem provoca o surgimento da obra, e afastando por aí, para explicar a História, tudo o que sejam causas espirituais ou materiais limitadas ao círculo humano, e pondo nitidamente, logo no primeiro poema, que a história que vai contar, a da Possessio Maris, não é a história de Portugal, mas apenas o seu interrompido prólogo, Pessoa dá o que foi o encantamento máximo dos navegadores, o de transformar o abstracto em concreto; o que foi basilar em sua actividade, a convicção de que só em Deus, como último ponto, encontrariam o porto de repouso; a vontade de um rei de carácter sacramental que, faz, ao mais humilde dos homens, poder mais do que todos os medos do mundo; a glória de ter mostrado que o mar é sempre o mesmo e que a sua posse nada significa de vital; o sentimento de que o que vale na empresa de buscar é a busca e não o encontro; o mérito de ter sido o corpo da vontade de Deus, de ter sido o Tempo da Eternidade a revelar; o impulso que irá conduzir a história para além dos que o lançaram; a consciência de se ter realizado, no mundo físico, e sem nisso estar verdadeiramente empenhado, a mais alta façanha de que os homens se podem orgulhar; o ter ensinado que toda a descoberta se faz apenas quando se tem a coragem de passar além dos domínios da alegria e da dor; por fim, em Última Nau e Prece, a certeza de que, embora tenha vindo a noite e seja vil a alma, Deus ainda reserva para o seu povo Distância a conquistar.

É essa Distância como distante, é essa conquista como inconquistável o que, em O Encoberto, se anuncia pelos Símbolos, pelos Avisos, o último dos quais é o do próprio Fernando Pessoa, e se afirma triunfantemente através do negrume dos Tempos. Portugal, completando a sua obra, dará ao mundo o seu íntimo Império feito de anseios, de lonjuras, de Reinos ilocalizáveis em tempo ou espaço, o seu reino de alma humana continuamente sendo e continuamente ansiosa de mais ser, tendo-se inteiramente desprendido das ilusões de uma afirmação puramente pessoal e de uma pessoal felicidade; o mar bate nas costas do Império, mas, se o escutarmos, pára; decerto, porém, um dia, desistindo de nos opormos ao mundo, não mais o quereremos escutar; então, através de todo o nevoeiro, pelo próprio nevoeiro, terá surgido a Hora; o Encoberto, em milagre supremo, se descobrirá.


Corpo de Heitor (Guerra de Tróia).


Tomada a primeira decisão e aceite o dom dos deuses, encontram-se eles no pleno direito de exigir a paga, tanto mais pesada quanto menos qualidades intrínsecas apresentava aquele que se resolveu à escolha; se a dádiva foi a quem, de certo modo, menos a merecia, mas se decidiu onde outros porventura hesitaram, só poderá ele redimir-se do pecado de ter roubado fogo do céu sofrendo na sua carne e no seu espírito. Nenhum autor de verdadeiras epopeias o deixou de saber; nem Homero nem Camões, nem Milton se eximiram ao preço; não poderia outra coisa ter sucedido com Pessoa. Há, porém, quanto a ele, uma diferença importante: as outras epopeias surgiram da inteira personalidade de seus autores e eram eles heróis como os de seus poemas, heróis apenas traídos pela diferença dos tempos, a diferença de resto necessária para que a perspectiva épica lhes fosse possível; Homero poderia ter-se batido em Tróia, Camões tem o entusiasmo da primeira viagem, Milton, não podendo estar com Lúcifer, esteve com Cromwell. Mas Fernando Pessoa criou a epopeia com a compreensão que lhe davam inteligência e sensibilidade, numa união religiosa; faltaram-lhe, no entanto, a vontade e a acção. Tiveram os outros todos os sofrimentos que vêm da presença e da participação; caíram sobre ele os que surgem de se recusar e estar ausente.

Nenhum dos autênticos poetas épicos, e daqui se excluirão muitos dos que estilisticamente escreveram epopeias, incluindo-se muitos dos que trabalharam outros géneros, nenhum deles foi primacialmente um literato; foram, na essência, homens de acção que, nos intervalos, a escreviam. Deste caminho desviaram a Pessoa ou o erro ou a fatalidade ou, mais de acordo com a ideia sua de que vendem os deuses quando dão, a fatalidade de errar.


Infante D. Henrique (quadro de Malhoa).


Foi sua primeira manifestação a de confundir o Portugal que teve a posse do Mar com o Portugal que o Encoberto deveria, ressuscitando, conduzir às novas e supremas aventuras. O primeiro Portugal foi o Portugal continental, o da defesa contra a Espanha, ou melhor, contra Castela, e, porventura, sobretudo o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal lírico e guerreiro das cantigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram as raízes mais profundas da nacionalidade e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade que caracteriza Portugal como grei política; e é porque Deus faz a História e gosta, poeticamente, de jogar com seus símbolos, que o Infante D. Henrique nasce no Porto e no Porto se bate o Rei D. Pedro. Terminada, porém, a fase de expansão, outro Portugal entrou em jogo e muito mais adaptado à sua tarefa do que o Portugal do Norte, demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, da tessitura económica e do nomadismo que não reconheceria limites e, no entanto, firmaria fronteiras: é esta a vez do alentejano, andarilho de estepa, do algarvio, barqueiro de porto a porto, ambos já, por súbditos mouriscos, colonos e crioulos. Também, por símbolo, Raposo Tavares nasce no Alentejo, e vão das Ilhas, com raízes alentejanas e algarvias, os casais do Sul do Brasil.

É a esta acção mais directa de um segundo Portugal que se deve a estabilização e a conservação do que o primeiro conquistara e se deve, portanto, a possibilidade de ter surgido, como palco para a grandiosa acção, o Portugal de nossos dias, que já não é, de modo algum, o continental, mas o Portugal dos cinco continentes, de que o outro é, apenas, a dependência ou província europeia. Portugal está hoje em toda a parte e, porque os territórios da América, da Ásia, da África e da Oceania sofreram muito menos a opressão da Europa de Carlos V e conexos, o Portugal mais autêntico e de maior vitalidade não é o País cuja capital é Lisboa, mas o do Brasil, ou o de Angola, ou o da Índia. É um Portugal que não tem seu centro em parte alguma e cuja periferia será marcada pela da expansão de sua língua e da cultura de Pax in excelsis que ela levar consigo; é um Portugal que se não importará com a definição de regimes políticos, de regimes económicos ou de instituições religiosas, porque esse será o problema de cada uma de suas unidades, só ficando, por essência e definição do próprio conceito - Portugal, totalmente excluídas aquelas formas institucionais que vão, como o autoritarismo político, o liberalismo económico ou a negação do Espírito Santo, contra o que há de estrutural no próprio homem: o Portugal da Hora, o Portugal de Bandarra, de Vieira e da Mensagem; não é de modo algum o Portugal do Minho ao Algarve, culturalmente tão provinciano e tão acanhado: é, mas já expandido a todo o mundo, o Portugal que ainda vive no coração e na acção de seus pescadores e de seus montanheses, o Portugal cujo Rei jurava as Ordenações como qualquer outro cidadão, o Portugal das terras comunais, o Portugal de Santa Maria. Só para este Portugal ressuscitarão os mortos de Alcácer, porque só para ele vale a pena alguém viver. O outro só pode trazer a quem nele se aferra, e por mais heróicas que sejam as suas razões, o desânimo, a amargura, ou o imaginar, o puro imaginar, da evasão; Portugal porque a História passou, se ultrapassou.




Para o Fernando Pessoa que concebera a Mensagem ia o drama ser muito profundo. Se, para o surto poético, ele soubera distinguir e tivera a coragem de escolher entre a Inglaterra de Isabel e o Portugal do Bellum sine bello, que é apenas outra forma de expressar o Pax in excelsis, dando neste a plenitude do que no outro é a semente, quando se chegou ao terreno da prática o único Portugal que ele viu foi o da Europa, viciado por trezentos anos de ocupação estrangeira; o erro foi mais longe, porque de Portugal se restringiu a Lisboa, mais viciada ainda, porque lhe tem cabido, como sede de governo, o papel de impor o estrangeiro ao resto do País; e em Lisboa escolheu para conviver o pior meio que se pode imaginar, o dos cafés de literatos. A sua existência, como Fernando Pessoa, vai ser a de se mover dentro de um círculo estreito que não ousa romper e de que apenas se evade pela leitura e pela conversa, pela bebida e pelo fumo; o que poderia ter sido a violenta, arrastadora, despertadora corrente, lentamente se pantaniza entre quem o não valia, e ele próprio se não valendo a si. Nem os impulsos do carácter, como a de um Espinosa, nem os impulsos de temperamento, como a de um Camões, o salvaram do tédio de se ver ao espelho; pisando, no mesmo círculo se afundou, e afinal, como outros portugueses que, tendo a alavanca de mover mundos, lhe procuraram ponto de apoio em Portugal, teve de se resignar ao suicídio: e ao pior dos suicídios, o que vem de se deixar morrer.

Quando se entrega aos planos de Deus, como na Mensagem, a sua inteligência atinge o plano da genialidade generosa; o que acontece é que a adesão a Deus é sempre nele um acto que a cada passo se tem de renovar: Fernando Pessoa era incapaz de fazer votos perpétuos; então, nos intervalos, o Diabo espreita, e com a tentação da inteligência, que é, além de tudo, por ser ele próprio inteligente, a tentação que o Diabo melhor maneja. Tão mefistofelicamente inteligente se torna então Fernando Pessoa que inteiramente lhe desaparece a faculdade de amar; que, num pobre sucedâneo da conjugação dos tempos na Eternidade, elabora a subtileza, puramente intelectual, de ser feliz, se ser feliz outrora agora; que se sente contente ao imaginar a beleza das paisagens descortinadas através das janelas de lares que nunca terá; que, finalmente, ao contrário do novelo divino, que é eternamente um novelo desenrolando-se no espaço e no tempo e um novelo a si mesmo eternamente voltando, se transforma num novelo embrulhado para o lado de dentro.

Só que a natureza do homem não é diabólica e é seu último fim a santidade; pode o Diabo não querer, por demoníaca obstinação, livrar-se de seu beco, mas nem orgulho nem preguiça formam à volta de coração humano muralha tão espessa que a esperança não a rompa: ao passo que o que perde o Diabo é ter perdido a esperança; ou não querer ter esperança. O problema seguinte a resolver é naturalmente o de a vontade se seguir à imaginação que sempre a esperança arquitecta, o de ter quem espera o carácter suficiente para persistir no caminho entrevisto. Mas o que se punha em primeiro lugar, para Pessoa, era a questão de saber como haveria possibilidade de se não suicidar, tendo caído no meio em que caíra e não vendo maneira de dele se livrar, pelo tal preço dos deuses ou por circunstâncias de feitio puramente histórico. Não uma, mas várias foram as soluções concebidas: e tão grave era a questão para Pessoa, tão vital a sua resposta, que as soluções, como por um novo baixar do Espírito, não surgiram, como seria natural num escritor, sob a forma de ensaio ou poesia: surgiram encarnadas, surgiram como gente, e, como indivíduos autónomos, puderam, independentemente da vontade de Pessoa, não da sua vontade criadora, anunciar o que eram como solução e, até, travar polémicas entre si ou com o próprio Fernando Pessoa. O que havia de feminino em Pessoa, e nele tanto importa, se paria em poetas (in Um Fernando Pessoa, Guimarães Editores, 1996, pp. 11-35).