quinta-feira, 15 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (iii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








3. «Apenas os cegos incuráveis – bem mais cegos do que Saramago terá sido ideologicamente – e os medíocres mais desprezíveis se atrevem a negar» que o autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis foi «um dos maiores de toda a literatura portuguesa de todos os tempos». Aliás, «a intolerância política a que associamos Saramago revela-se quase inócua ao voltarmos a verificar, por ocasião da sua morte, o ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam, na miserável incapacidade de reconhecer a grandeza literária do escritor». Demais, num dos governos em que Cavaco Silva fora primeiro-ministro, a censura do livro O Evangelho segundo Jesus Cristo representou, qual espelho desse governo, «uma vergonha inédita em democracia», «impedindo-o de concorrer a um prémio internacional e invocando, para isso, a doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária. Um subsecretário de Estado da Cultura (!), que se distinguiu pelo analfabetismo mais boçal, foi o autor do crime». Consequentemente, Aníbal Cavaco Silva, bem como o Secretário de Estado que tutelava «directamente o ridículo censor», «deixaram que esse crime cultural se consumasse». De resto,  Cavaco Silva não estava «à altura de zelar pelo património mais valioso de uma nação: a sua Cultura»; e podendo na morte de Saramago «reparar simbolicamente a falta» enquanto Presidente da República, não o fizera por «total incapacidade de ultrapassar uma visão estreitamente economicista e contabilística do país». Depois, temia «desagradar novamente as clientelas católicas mais conservadoras que o tinham criticado pela promulgação da lei do “casamento gay”». Em suma: «um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional».


Refutação:

Quando alguém, alardeando a "grandeza literária" de Saramago, chama de “cegos incuráveis” a todos os que não perfilhem de suas afirmações ocas e vazias, é então que o feitiço se volta contra o feiticeiro. Seria então interessante saber como é que a cegueira e a militância comunistas de Saramago pudessem ser toleráveis quando comparadas com o inevitável «ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam» na hora da morte. Ou seria deveras interessante saber como a «doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária» não fosse algo de particularmente inerente à cegueira ideológica instilada por Saramago ao longo de toda a sua odienta e ressentida existência.

É, pois, uma veleidade teatral que se recorra ao fantasma da Inquisição para acusar de censura a tomada de posição de um subsecretário da Cultura relativa à internacionalização de um libelo que é, para todos os efeitos, um exemplo confrangedor e acintoso de inusitada ignorância religiosa. Por outras palavras, a reacção de Sousa Lara parece ter apenas representado uma reserva moral perante um ataque descabelado ao património católico dos Portugueses, e, por sinal, tão sintomático da esquerda institucionalizada.


António Ferro



Oliveira Salazar entrega "O Prémio Camões 1937" ao escritor suíço Conde Gonzague de Reynold, autor do livro "Portugal".


Mais: alegar simplesmente que se tratou de uma censura inquisitorial é também branquear o facto de, em Portugal, existir uma planificação da cultura que, nos últimos quarenta anos, constitui apanágio do socialismo triunfante. E, já agora, é igualmente branquear a cultura que já no tempo de Salazar fora, com o Secretariado da Propaganda Nacional e, depois, com o Secretariado Nacional de Informação, subsidiada e premiada no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura à sombra de uma legislação de que muitos escritores enviesados extraíram os seus dividendos. Este processo remonta, aliás, ao Marquês de Pombal, que foi quem determinou, entre nós, o fenómeno da estatização política, económica e cultural.

Ora, Sebastião José, rindo-se dos dominicanos e dos apóstolos de Loyola, conservara o Tribunal da Inquisição «sinistramente influenciado», ordenando até que o tratassem por Sua Majestade a Inquisição. Ou seja «O dominicano que não podia, sem ordem do marquês, queimar em público, despedaçava a ocultas o judeu e o herege. Pombal era indiferente aos processos recônditos, contanto que não houvesse o escândalo do auto-da-fé, que ele, na sua depravada estupidez, atribuía aos jesuítas. D. Luís da Cunha tinha escrito a D. José, quando lhe pedia que admitisse ao ministério Sebastião José de Carvalho, que os estrangeiros escarneciam o hediondo espectáculo do auto-da-fé; mas o marquês só vinte e nove anos depois entrou nas ideias do seu amigo e mestre» (9)

Entretanto, não há dúvida de que os livros de Saramago foram propositadamente escritos e utilizados como arma de arremesso contra uma tradição que, não obstante os seus erros seculares, continua a merecer o maior respeito pelo património espiritual legado à humanidade. Logo, atendendo à expressão «analfabetismo boçal», vejamos então esse livro intitulado O Evangelho segundo Jesus Cristo. E vejamo-lo partindo do princípio de que, se o ateísmo é um analfabetismo do qual decorre a não menos boçal, grotesca e perversa forma de propaganda anticristã que é a vida sexual de padres e freiras, quão boçal, lassa e superficial não será, por seu turno, a suposta vida sexual de Jesus com a primeira mulher a ver Cristo depois da Ressurreição?

Ora, Saramago pinta essa mesma relação como um ensinamento sexual de Maria de Magdala a Jesus nos seguintes termos:

«Jesus calou-se e voltou a cara para o lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação, Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Gaalad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te…».






Enfim, este trecho só revela a mais cabal ignorância sobre o amor físico, anímico e espiritual. Como tal, é, na melhor das hipóteses, baixo e torpe erotismo na medida em que, da mera e simples relação entre corpos, apela tão-só para a manipulação do ser humano reduzido à mais pura animalidade. Saramago desconhecia assim que o verdadeiro amor, não obstante a sua manifestação física, sentimental e psicológica, é essencialmente logóico ao permitir a transição da sexualidade dos corpos e do erotismo das almas para o amor entre espíritos.

Depois, Saramago também desconhecia que a felicidade se sublima pela renúncia e não pela posse. E que esse é precisamente o grande ensinamento ocidental no âmbito da paixão mítica entre Tristão e Isolda, posto que, sem entraves ao romance, a simples consumação física põe fim à magia amorosa. E daí a consagração do amor platónico no sentido de que, estar ao lado de quem se ama, é estar em contacto e proximidade profunda com a sua natureza espiritual.

De resto, a suposta relação carnal entre Jesus e Maria Madalena não decorre exclusivamente do Evangelho de Saramago. Ela, de facto, surgiria na sequência de certos escritores e divulgadores que, no século XIX, se debruçaram sobre Jesus e as origens do Cristianismo, entre os quais sobressai, no sentido historiográfico positivista, o escritor francês Ernesto Renan com o livro intitulado A Vida de Jesus (Origens do Cristianismo). Ora, este livro criara polémica e discussão internacionais ao esvaziar o cristianismo de toda a aura sobrenatural que o caracteriza, mais particularmente nestes termos:

«Que os Evangelhos são em parte lendários, isso é evidente, porque estão cheios de milagres e de sobrenatural; mas há lendas de lendas. Ninguém duvida das passagens principais da vida de S. Francisco de Assis, embora a sua história apresente a cada passo o sobrenatural. Pelo contrário, ninguém tem fé na – vida de Apolónio de Tiana – porque foi escrita muito depois do falecimento do herói e nas condições de puro romance. Em que época, por que mãos e em que condições foram redigidos os Evangelhos? Tal é a questão essencial de que pende a opinião que é mister formar da sua credibilidade» (10).

S. Francisco de Assis perante o Sultão.


Entretanto, em 1916, o anglo-irlandês George Moore apresentaria a história romanceada de Jesus em The Brook Kerith, na qual o Filho de Deus logra sobreviver ao suplício da cruz em virtude da solicitude e dos cuidados prestados por José de Arimateia. Apareceria depois, em 1946, o romance de Robert Graves intitulado King Jesus, que também retrata a sobrevivência de Cristo ao martírio da cruz. E, em 1954, surgiria A Última Tentação de Cristo, do grego Kikos Kazantzákis, em que Jesus desce da cruz e encontra Maria Madalena (11).

A relação erótica entre Jesus e Maria Madalena seria finalmente explorada numa vaga avassaladora de livros publicados sobre o Código Da Vinci, de Dawn Brown. Conteúdo do mesmo: negar a divindade de Cristo, conforme já sugerido e preconizado por autores como Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln em livros sensacionalistas como O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982, ou A Herança Messiânica, de 1984.

Deste modo, retratado Cristo como uma figura revolucionária destinada a perpetuar a Casa de David mediante a linhagem sagrada proveniente de Maria Madalena, eis, pois, o engodo mediático urdido contra a Igreja Católica e assaz propício a uma Nova Ordem Mundial anticristã. De facto, trata-se de uma campanha subterrânea que nem sequer alude aos livros maçónicos de Robert Ambelain, tais como A Vida Secreta de São Paulo, Os Pesados Segredos do Gólgota e Jesus ou o Mortal Segredo dos Templários. De resto, tais livros não só rejeitam a divindade de Jesus, como ainda preconizam a sua crucificação quando já quinquagenário, a existência de um irmão gémeo e a sua relação com as mulheres.






Por outro lado, está mais que visto que Saramago, política e religiosamente obtuso (12), era um caso perdido. Reduzia tudo ao aspecto demasiadamente humano: «… a transcendência é o olhar gerado pela consciência obsessiva da sua própria imanência» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 55). E ao «dizer que ninguém é mais tolerante que um ateu», persistia na sua pequenez mental, como, a propósito do seu Evangelho, torna patente na resposta a um crítico (José Felicidade Alves) que o acusara de ter descrito Jesus como «um imbecil, um indeciso»:

«Que demónio de leitura terá ele feito do romance para concluir que fiz de Jesus um "imbecil"? Indeciso, talvez, pelas mesmas razões que um qualquer de nós o poderá ser diante de circunstâncias que nos excedam – e que maior excesso que ver-se um pobre ser humano às voltas com Deus? Mas "imbecil"? Será "imbecil" o rapazinho que discute com o escriba no Templo? Será "imbecil" o homem capaz de viver e partilhar um amor como o de Maria de Magdala? Será "imbecil" o taumaturgo que renuncia a ressuscitar Lázaro porque essa ressurreição não seria mais do que um truque, uma prestidigitação, uma demonstração gratuita do poder de Deus? Será "imbecil" o agonizante que, espetado na cruz aonde Deus o levou, lucidamente grita "Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez"? Agradeço-lhe o escrúpulo, mas já agora permito-me sugerir-lhe, se tiver paciência para tanto, que o leia uma terceira. Com a condição, se me permite também, de ir olhando mais para o homem que se chama Jesus e menos para o "Filho de Deus" que se vai chamar Cristo…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 27-28).

Posto isto, vejamos agora a questão do genocídio praticado por regimes comunistas, tais como: China maoísta e nacionalista (Kuomintang), Vietname, Cambodja, Coreia do Norte, México, Cuba, Jugoslávia, outros mais. É pois caso para se dizer estarmos perante regimes desumanamente cruéis que já ultrapassam em muito os 100 milhões de mortos ou de vítimas indefesas. Aliás, Olavo de Carvalho, com base «no estudo mais completo já empreendido sobre assassinatos em massa no mundo» (13), relata-nos que o total de vítimas à conta dos governos revolucionários ronda, só no século XX, 205 milhões de mortos por contraste aos «episódios de democídio documentados desde o século III a. C. até o fim do século XIX», com um total aproximado de 133.147.000 vítimas. Quase o dobro em comparação com os 17 séculos anteriores, para só dar uma pequena imagem do sofrimento e do morticínio em causa.







Ora, face a tamanha evidência, Saramago limitava-se a rir e a proferir mentiras compulsivas e enormidades contraditórias como estas:

1. «União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política» (Expresso, 2 de Novembro de 1991).

2. «Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot [na televisão francesa] que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito…» (Público, 7 de Novembro de 2008).


Comentário:

Assim, das duas uma: ou se perfilha uma ideologia que matou mais de 200 milhões de seres humanos sob o pretexto de ter havido um desvio acidental de percurso, ou, para além desse falso pretexto, se parte para a defesa ostensiva dessa mesma ideologia e sua respectiva prática revolucionária. Os dois trechos de Saramago acima referidos parecem ir ao encontro do antecedente da disjunção, mas, como provaremos já de seguida, é ao consequente que dizem particularmente respeito.

3. «[A ETA] … Passou à luta armada em 1960 e adoptou a ideologia marxista em 1965. (…) Suponho que duas palavras andam a confundir algumas consciências portuguesas: que a ETA é "socialista", que a ETA é "marxista". A ingenuidade tem limites. A ETA não é nem marxista nem socialista. Ou será socialista na medida em que o nacional-socialismo também dizia sê-lo. A mentalidade nazi reencarnou nos militantes (dirigentes ou não) da ETA, e a julgar pelo seu comportamento habitual, não anda longe dos dirigentes HB» (Visão, 24 de Julho de 1997).




É um manifesto absurdo começar por afirmar que a ETA adoptou a ideologia marxista para tão logo se negar tal facto por conta do suposto nazismo reencarnado nos «militantes (dirigentes ou não) da ETA». E assim é porque, em termos históricos, é um facto comprovado que o nacional-socialismo representou uma combinação de nacionalismo e internacionalismo, isto é, os nazis são, em grande parte, a versão dissidente do marxismo-leninismo, uma vez que, desde os anos trinta até ao pacto germano-russo (1940), os comunistas e os nazis trabalharam em conjunto para levarem a cabo uma cultura de genocídio. Mais: foram os nazis que adoptaram os campos de concentração criados pelos comunistas, assim como foram eles que, como já vimos, se inspiraram nas organizações e nos movimentos totalitários orquestrados pelos comunistas do Leste europeu e, só depois, transferidos para a Europa central, como é o caso da Alemanha, ou para o Sul mediterrânico, como é o caso da Itália. Logo, separar nazismo e comunismo, como faz Saramago, é, no mínimo, ou pura ignorância ou pura propaganda com vista a uma desinformação generalizada.

4. «Leio nos jornais que Do Muoi, secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, declarou, na abertura do congresso da associação de escritores de lá, que a arte e a literatura devem permanecer sob a orientação do Partido, que "a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política". Pergunta minha, urgente: não há por aí ninguém que vá explicar a este homem que acaba de precipitar-se, cabeça, tronco e membros, no mesmo fatal engano em que tropeçaram e se afundaram outros dirigentes comunistas, com as conhecidas consequências? A revolução vietnamita, será inútil dizê-lo, é merecedora de toda a admiração e de todo o respeito [o negrito é nosso], mas não é assim que a defenderão. Diz Do Muoi que as artes são um factor importante na guerra que o Vietname mantém "contra as forças hostis que tentam desunir-nos para acabar com o nosso regime". Como vivo neste mundo, não duvido nada da existência de tais forças hostis, nem de que seja esse o seu objectivo, mas verifico, uma vez mais, que a História, por muito que se esforce, não encontra quem seja capaz de receber-lhe as lições a tempo e horas. O resultado destes e semelhantes comportamentos tem sido perderem-se as literaturas e as revoluções» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 62-63).


Comentário:

A revolução vietnamita é tão «merecedora de toda a admiração e de todo o respeito», apregoa Saramago omitindo o número de mortos que causou, a saber: 1.670.000 mortos entre 1945 e 1987. Ora, coisa ínfima para um comunista como Saramago, pois, como dizia Lenine, fazendo sua a sentença de Heraclito: «Não esqueceis que a guerra é a rainha do universo!» Ou ainda aquela sentença que, de sua lavra, o próprio Lenine preconizara perante quem censurara o sacrifício inaudito de milhares de vidas para triunfo do império russo: «Que importa! Racha-se a lenha: saltam cavacos! Ainda que fosse preciso empregar dez milhões de corpos humanos na edificação do comunismo, sobejariam os suficientes para povoar o nosso território». Por fim, quanto à existência de forças hostis ao regime comunista do Vietname, convém não esquecer como os activistas contra a guerra do Vietname também foram efectivamente mobilizados no plano interno dos Estados Unidos por agentes de infiltração subversiva em prol do comunismo.


Che Guevara



5. «Não importa que retrato. Um qualquer: sério, sorrindo, de arma na mão, com Fidel ou sem Fidel, discursando nas Nações Unidas, ou morto, de tronco nu e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisesse acompanhar o rasto do mundo que teve de deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas crianças que estavam por nascer. Sobre cada uma destas imagens poder-se-ia discorrer profusamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objectividade prosaica do historiador ou simplesmente como quem se dispôs a falar do amigo que percebe ter perdido porque o não chegou a conhecer.

Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e de vermelho, que se tornou em imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto férteis que nunca haveriam de murchar em rotinas e cepticismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o injusto, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou seguro à parede por meios precários, esse retrato assistiu a debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, minorou desânimos, acalentou esperanças. Foi olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água com que se matariam todas as sedes e transformar essa mesma água no vinho com que se beberia ao esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 448).


Comentário:

Este trecho constitui a prova cabal da defesa directa e ostensiva, por parte de Saramago, do comunismo em sua essência assassina. O guerrilheiro cubano, «olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade», é algo que só o satanismo de Saramago poderia acalentar, embora prontamente desmentido pela natureza vil de um dos assassinos mais mediáticos e romantizados pela esquerda mundial. Aliás, as suas afirmações falam por si:

a) “Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até à morte.” (Discurso na Assembleia-Geral da ONU, em 11 de Dezembro de 1964);



Che Guevara na ONU



b) “O ódio intransigente ao inimigo (…) converte (o combatente) em uma efectiva, selectiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim.” (Revista cubana Tricontinental, em Maio de 1967).

Depois, há ainda, da parte de Che Guevara, aquelas afirmações capitais sobre a instrumentalização da cultura e dos intelectuais, tais como:

a) “Um dos grandes deveres da Universidade é implantar suas práticas profissionais no seio do povo”;

b) “A culpa de muitos dos nossos intelectuais e artistas reside em seu pecado original; não são autenticamente revolucionários.”

Aí estão, pois, dois dos deveres revolucionários que, apregoados por um assassino comunista glorificado por Saramago, permitem desmentir a sua pseudo-crítica dirigida ao Partido Comunista do Vietname, o qual, como vimos, pressupunha que «a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política». Enfim, tudo contradições da mentalidade revolucionária ante as quais Saramago não desarmava ou sequer mesmo se importava.

6. «Até aqui cheguei. A partir de agora, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico onde estou. Dissentir é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Diseentir é um acto irrenunciável de consciência.

Pode suceder que dissentir conduza à traição, mas isso terá sempre de ser demonstrado com provas irrefutáveis.

Não creio que se tenha actuado sem deixar lugar a dúvidas no recente julgamento em que foram condenados a penas desproporcionadas cubanos dissidentes. E não se compreende que, se houve conspiração, não tenha sido já expulso o encarregado da Secção de Interesses dos Estados Unidos em Havana, a outra parte dela.

Agora chegam os fuzilamentos. Sequestrar um barco ou um avião é crime severamente punido em qualquer país do mundo, mas não se condenam à morte os sequestradores, sobretudo tendo em conta que não houve vítimas.

Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu a minha confiança, ofendeu as minhas esperanças, defraudou as minhas ilusões. Até aqui cheguei» (in Visão, 17 de Abril de 2002).


Comentário:

Quer dizer: Saramago mostrara-se ofendido por a ditadura genocida de Fidel Castro mandar fuzilar três terroristas responsáveis pelo sequestro de barcos e aviões, mas nem uma palavra de indignação e pesar proferira para as 17 000 vítimas inocentes do regime comunista de Cuba, sem contar os cerca de 60 000 ou mais assassinados no Peru, na Nicarágua e na Colômbia por tropas treinadas e financiadas pelo governo de Havana. E aí tendes a duplicidade cúmplice de Saramago com o comunismo ateu, também capaz de surpreender até o próprio Diabo, mormente quando diz: «Provavelmente sou um homem bastante religioso. Bom, para se ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade» (in Visão, 6 de Novembro de 2008).



Fiódor Dostoiévski






Contudo, não faltarão certamente intelectuais a promover um Saramago para quem «as obras dos grandes criadores do passado, de Homero a Cervantes, de Dante a Shakespeare, de Camões a Dostoievski, apesar da excelência do pensamento e fortuna de beleza que diversamente nos propuseram, não parecem ter originado, em sentido pleno, nenhuma efectiva transformação social…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 309). Um desses intelectuais, Francisco José Viegas, ex-director da Casa Fernando Pessoa, vimo-lo já na televisão dissertando sobre o comunismo de Saramago para, desse modo, ficarmos a saber que, no caso da ditadura cubana, o Prémio Nobel se demarcara na questão dos três terroristas supramencionados. E perante tamanha burrice, eis senão a prodigiosa nata da intelectualidade em Portugal.

De resto, foi-nos possível deparar, no site da Fundação José Saramago, com expressões sinistras do tipo:

«Los saramaguianos, una especie autóctona que se produce em vários continentes y en todos los terrenos…».

«Poderíamos dar um milhão de razões para sermos um milhão de Saramagos, mas não vamos dar nenhuma: quem queira ser Saramago, que se revele, que se junte. Ser Saramago é bom, ser um milhão de Saramagos é melhor…».

Bem, só resta dizer a todos eles:


Vade retro, Satana


Notas:

(9) Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês de Pombal, Lello & Irmãos Editores, 1982, pp. 197-198.

(10) Ernesto Renan, A Vida de Jesus, Lello & Irmãos Editores, p. 17.

(11) É com Marta que Jesus se casa e forma família após a morte de Maria Madalena. Por fim, Jesus desperta da sua visão e retorna ao Calvário para terminar a sua Paixão.

(12) No «fundo - como dizia -, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade (cf. «Penso que não merecemos a vida», in O Globo, de 17 de Outubro de 2009).

(13) O autor do estudo é um professor de Ciência Política da Universidade do Havai, chamado Rudolph J. Rummel. Este estudo valeu-lhe o Lifetime Achievement Award da American Science Association em 1999.






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