terça-feira, 13 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








O redactor da missiva adiantara ainda que O Ano da Morte de Ricardo Reis é, a seu ver, «um dos maiores da literatura portuguesa dos últimos tempos», superando «todas as reservas levantadas pela personalidade humana, política e até literária do seu autor». Ora, tal não passa de uma mera opinião sem nenhum valor literário que se preze, e a qual, no mínimo, seria preciso justificar, coisa, aliás, que o redactor não concretiza nem muito menos realiza.

De resto, Fernando Pessoa vem sendo «atirado à fama «como um osso aos cães», talvez para «que, «envenenados pelo osso, os cães o larguem» (2). A confirmá-lo está a Casa Fernando Pessoa entregue ao feitiço da cultura esquerdista dominante, por cuja direcção já transitaram feministas analfabetas como Clara Ferreira Alves e Inês Pedrosa, a quem, na sobredita casa, também se devem as "missas negras" em homenagem ao literato comunista, designadas por "maratonas de leitura". O que diria, entretanto, o próprio Fernando Pessoa que não podia suportar o que apodava por «vária horrorosa subgente sindicalística, socialística e outras coisas»?

Na verdade, Saramago jamais poderá vir a ser um escritor universal como é o caso de Camões, Pessoa, Padre António Vieira e Agostinho da Silva. E a razão é que jamais alcançou, como eles, aquela grandeza sublime, artística e pneumatológica que só os talentos mais sensíveis e abertos à transcendência logram realizar. Ademais, Saramago era não só um feroz, obsessivo e intransigente inimigo da civilização cristã, como também de toda e qualquer manifestação religiosa e espiritual. Desse modo, Saramago nem sequer passara da idade pueril ao fazer da literatura um instrumento ideológico ao serviço do comunismo, de que também O Ano da Morte de Ricardo Reis é um caso paradigmático em função da "personagem" projectada na pele de um ideólogo antifascista.

Não se pode separar a obra de Saramago do ideólogo fanático que ele era e ostensivamente protagonizou até ao último suspiro (3). Daí não poder ser uma “figura consensual” por lhe ter faltado a fé, a esperança e a caridade que formam os homens de “boa vontade” e recta inteligência. Nesse sentido, era um obstinado que explorava a credulidade dos fracos e dos ressentidos de espírito.

Mas dir-se-á: os grandes nomes da literatura mundial, como Camões, Pessoa e outros afins, poderão ser igualmente consagrados sem que a maioria das pessoas vejam e compreendam o conteúdo e a altitude espirituais a que puderam culminar. Sim, é verdade que nem toda a gente está à altura de os compreender, mas, por contrapartida, sempre podem inspirar e despertar o espírito de quem espiritualmente contemple a sua mensagem originária. Porém, já o mesmo não acontecerá com Saramago cuja “mensagem”, lesiva da natureza profunda e espiritual do ser humano, limita-se a uma falsa moral, a um falso erotismo e a uma falsa ideologia já comprovada e saldada na morte de centenas de milhões de seres humanos.

E perante tudo isto, ressalta ainda esta verdade espiritualmente expressa por Álvaro Ribeiro:

«A literatura, para não dizer a escritura, tem por missão revelar ao homem os acontecimentos de ordem preternatural e sobrenatural. Sabemos que a esta intenção correspondem os mais antigos textos literários, considerados sagrados, e sabemos também que o mesmo pensamento inspira as tradições orais que vão correndo de terra em terra. Cada obra literária está real ou virtualmente relacionada com uma tradição paradigmática, e na determinação da respectiva genealogia consiste o primeiro mérito da exegese e da hermenêutica.

Nenhuma obra literária exerceria qualquer efeito sobre o leitor, nenhuma obra literária seria de algum modo comunicativa, se não aludisse a uma relação entre o real e o possível, entre a aparência e a essência, entre o consciente e o inconsciente. O puro realismo das motivações egoístas no condicionalismo social, defendido por muitos historiadores da literatura, tende a decair na polémica ou na apologia, porque não pode manter-se na região superior da arte. A literatura de relações sintomáticas tem de ser aperfeiçoada na literatura das relações simbólicas.







(...) Todas as obras literárias que contenham narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural hão-de pela crítica iluminista, positivista ou socialista ser julgadas como destituídas de valor de verdade, pelo que será considerada impostura a declaração em que o autor afirme ter sido testemunha do acontecimento e de que a obra vale de documento histórico. O crítico literário nunca admitirá que o autor da obra de arte seja um homem superior, inspirado por um génio, ou agraciado por Deus. A história da literatura pretende, em consequência, reduzir a actividade artística às dimensões humanas, limitando a psicologia aos dizeres elementares e comuns, analisando os textos pela exegese positivista, justificando os valores por imitação cultural» (4).

Não há de facto na produção infraliterária de Saramago narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural. O que há são inversões ensombradas e perversamente caricaturais de uma realidade religiosa e espiritualmente assente em símbolos alegóricos e anagógicos. Assim, ressaltam apenas as trevas da ignorância furiosamente expressas numa permanente e recalcitrante revolta contra o Espírito.

Mas voltemos à suposta obra-prima que é O Ano da Morte de Ricardo Reis, e que o redactor da missiva preconiza conter «algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Refere-se, pois, aos extensos períodos "gramaticais" sem fim à vista, pautados pela escassez de vírgulas e pontuação, em que as palavras não podem sequer alcançar o domínio inteligível dos conceitos e das ideias. Mas fiquemos com uma curta amostra dessa infraliteratura transformada em pura burla mediática:

«… é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavra de honra, qualquer pessoa sabe que é esta a verdade, Adeus mundo, cada vez a pior. Mas os deuses de Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes, para quem o mal e o bem são menos que palavras, por as não dizerem eles nunca, e como as diriam, se mesmo entre o bem e o mal não sabem distinguir, indo como nós vamos no rio das coisas, só deles distintos porque lhes chamamos deuses e às vezes acreditamos. Esta lição nos foi dada para que não nos afadiguemos a jurar novas e melhores intenções para o ano que vem, por elas não nos julgarão os deuses, pelas obras também não, só juízes humanos ousam julgar, os deuses nunca, porque se supõem saber tudo, salvo se tudo isto é falso, se justamente a verdade última dos deuses é nada saberem, se justamente não é sua ocupação única esquecerem em cada momento o que em cada momento lhes vão ensinando os actos dos homens, os bons como os maus, iguais derradeiramente para os deuses, porque inúteis lhes são. Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos» (5).

Que farfalhudas maravalhas, como diria Camilo Castelo Branco. De facto, o heterónimo de Fernando Pessoa surge aqui como uma figura evanescente de nenhum valor espiritual. É, no fundo, uma imagem larvar: («…uma coroa mortuária com as suas flores de pano cada vez mais pálidas…) que se olha ao espelho e não se vê, e que, qual sombra, anda entre os vivos (6).








Fora disso, Fernando Pessoa procurava ser e sentir tudo de todas as maneiras por via de um «eu» que, quanto mais unificadamente diverso e dispersamente atento estivesse, melhor realizaria a existência excedente e omnímoda do Universo. Daí a heteronímia vivida e experienciada não como pluralidade social de um «nós», mas como unidade individual na convergência do uno e do múltiplo, ou do mesmo e do outro em que ninguém poderá dizer o que vem antes e o que vem depois, nem onde começa e onde acaba a circunferência de um círculo. Deste modo, sublimar-se-iam todas as contradições lógicas por virtude de intuições paradoxais como Deus «é tudo / e fora d’Ele há só Ele», ou «Tudo para Ele é pouco».

Demais, Ser e sentir tudo de todas as maneiras extravasa todo e qualquer ecletismo decorrente dos extremos que atravessam a história do pensamento, sejam eles o espiritualismo e o materialismo, o idealismo e o realismo, o teísmo e o panteísmo. Por outras palavras, Fernando Pessoa ia trilhando todos os caminhos e nenhum. Porém, há um ponto fundamental a reter: o Poeta tivera por horizonte último um Tudo-Universo para Deus, em que a alma se excede num processo que vai do uno ao múltiplo, ou do mesmo ao outro sem deixar de ser o que é, ou sem nunca se perder enquanto alma capaz de atravessar todos os contrários permanecendo uma e a mesma.

Ora, Saramago, falho de espírito, não soube senão distorcer o pensamento assistemático de Fernando Pessoa, conforme se segue:

«Talvez Fernando Pessoa lhe responda, como outras vezes, Você bem sabe que eu não tenho princípios, hoje defendo uma coisa, amanhã outra, não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei, talvez acrescente, porventura justificando-se, Para mim deixou de haver hoje e amanhã, como é que quer que eu ainda acredite, ou espere que os outros possam acreditar, e se acreditarem, pergunto eu, saberão verdadeiramente em que acreditam, saberão, se o Quinto Império foi em mim vaguidade, como pode ter-se transformado em certeza vossa, afinal, acreditaram tão facilmente no que eu disse, e mais sou esta dúvida que nunca disfarcei, melhor teria feito afinal se me tivesse calado, apenas assistindo» (p. 120).



Antiga sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (R. António Maria Cardoso).




Outras passagens sugerem, por sua vez, o teor ideológico retorcido de Saramago, tal como a que descreve Ricardo Reis a ser interrogado na Rua António Maria Cardoso, sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (pp. 157-160). Uma outra passagem não menos retorcida associa politicamente Hitler e Salazar por terem nascido em 1889 «com pouca diferença de dias» (p. 250). Essa identificação também é, de certo modo, sugerida e ampliada na descrição de um comício nacionalista na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde, por entre a saudação romana e entusiásticos vivas ao Estado Novo, se reúnem, respectivamente, os camisas negras, castanhas e azuis do fascismo italiano, do nazismo alemão e do falangismo espanhol (pp. 333-339).

Essa identificação, pura e simples, não corresponde de todo à verdade histórica. E, assim, o primeiro aspecto a esclarecer é o de que tais movimentos jamais caracterizaram a direita propriamente dita, pois revelam uma visão do mundo originada e propagada por socialistas cujos instrumentos de doutrinação os nazis e os fascistas vieram depois a utilizar. É o que diz, aliás, Frederico Hayek, Prémio Nobel em 1976:

«Na Alemanha e na Itália, os nazis e os fascistas já não tinham efectivamente muito que inventar. A invasão de todos os aspectos da vida pelos movimentos políticos tinha já sido lançada, em ambos os países, pelos socialistas. Foram os socialistas que pela primeira vez puseram em prática a concepção de um partido que abrangesse todas as actividades de um indivíduo desde o berço até ao túmulo, um partido que se propusesse orientar as opiniões de todos sobre todas as coisas, que traduzisse todos os problemas em termos de uma welthanschaung partidária. Um escritor socialista austríaco [G. Weiser], referindo-se ao movimento socialista no seu país, dizia com orgulho que era "sua característica ter criado organizações especiais para todos os sectores da actividade dos operários e assalariados". E embora os socialistas austríacos tenham ido mais longe neste sentido, a situação não era muito diferente nos outros países. Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem começou a levar as crianças de tenra idade para as organizações políticas a fim de estarem seguros de que elas se formariam como "bons proletários". Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem primeiro tentou a organização de jogos e desportos, de futebol e exercícios pedestres em clubes partidários onde os seus membros estariam ao abrigo do contágio de ideias diferentes. Foram também os socialistas quem primeiro estabeleceu maneiras de cumprimentar e formas de saudação com as quais os membros dos seus partidos se distinguiriam dos outros. Foram ainda os socialistas quem, através da sua organização em "células" e dos seus planos de supervisão permanente da vida privada, criaram o protótipo do partido totalitário. Balilla e Hitlerjugend, Dopolavoro e Kraft durch Freude, uniformes políticos e formações partidárias militares fascistas e nazis, pouco mais são do que imitações de instituições anteriores…» (7).




Por conseguinte, a existência de tais movimentos em Portugal só indiciam que o regime salazarista já continha em si os germes e as estruturas socializantes que, nalguns aspectos, haveriam de dar lugar, na sequência do 25 de Abril de 1974, ao novo regime e à nova Constituição socialista. Porém, nem Salazar era Hitler nem muito menos se assumia como um caudilho de tipo fascista ou falangista, como, aliás, Franco Nogueira, referindo-se ao ano de 1935, deixa transparecer no seguinte trecho:

«Sem desperdício de tempo, Salazar cuida da frente interna. Assegurada no possível a vigilância das fronteiras, terrestre e marítima, são reforçadas as medidas de ordem pública. Por outro lado, são exaltados, para que se revigore o ânimo português, os grandes valores do patriotismo e da nacionalidade. Fora ponto básico da União Nacional, recolhido e consagrado pelo Estado Novo, o enquadramento da mocidade, de modo a valorizá-la física, moral, espiritual e fisicamente. Não se dera ainda execução a esse projecto, todavia. Mas agora Carneiro Pacheco, na Educação Nacional, toma a iniciativa de o fazer, e Salazar aprova-a. E é lançada a Organização Nacional da Mocidade Portuguesa. Esta vai abranger mais de duzentos mil jovens de ambos os sexos, e é instrumento para culto de um nacionalismo de raiz, acima de governos e regimes. Suscita a Mocidade Portuguesa entusiasmo entre a juventude; mas a Igreja Católica encara a organização com alguma reserva, no temor de que a divinização de ideais terrenos possa afastar dos caminhos de Deus os que se abrem para a vida. Fica preocupado o cardeal Cerejeira; e Carneiro de Mesquita, servindo de intermediário, intervém junto de Salazar. Este, todavia, já se dera conta dos perigos possíveis; e assegura a Carneiro de Mesquita que não será totalitarista a orientação a seguir» (8).

Mas para que não fiquem dúvidas de maior, vejamos ainda nova passagem de Franco Nogueira atinente ao aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial:

«No plano político-social, o ano de 1944 fecha-se na acalmia. (…) No terreno político, correm novas especulações. Pelo facto de ser monárquica a maioria dos membros do novo governo, acreditam alguns, mais uma vez, que Salazar se prepara para restaurar o trono em Portugal; seria uma forma de preservar as conquistas e a estrutura do regime e de tornar este aceitável no após-guerra. Mas Salazar não dá um passo nesse caminho; e os mais íntimos sabem que o chefe do governo nada fará que ponha em risco a unidade nacional ou que ressuscite divisões partidárias e paixões entre monárquicos e republicanos. De momento, os monárquicos confiam e esperam; e os republicanos estão tranquilos porque a figura de Carmona, venerada pela sua idade e permanência e cujo republicanismo não sofre mácula, constitui garantia de que não será alterada a ordem republicana. Por outro lado, insensivelmente, gradualmente, Salazar transfere as suas bases de apoio político. Combate com igual veemência o extremismo da esquerda, o comunismo, o socialismo, e o Diário da Manhã acentua que não é possível a neutralidade na luta entre o Ocidente e a Rússia; mas limita o poder e a influência dos mais exaltados, dos que se haviam identificado com o fascismo e o nazismo; e, sem prejuízo dos princípios doutrinários do regime, procura uma linha de moderação, de tolerância, de apaziguamento. Fundada num momento de perigo, a Legião Portuguesa tornara-se um símbolo que muitos, fora e dentro do país, consideravam totalitário; e agora Salazar põe em surdina as actividades da Legião, e desvia-as para objectivos cívicos e caritativos» (ob. cit., pp. 558-559).






Notas: 

(2) Cf. «Agostinho da Silva: o filho pródigo», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, n.º 4, p. 41.

(3) Saramago, além de comunista, era um grandíssimo hipócrita por nos querer convencer de que não era de modo nenhum um fanático (cf. Cadernos de Lanzarote, Círculo de Leitores, Diários III e IV, p. 419).

(4) Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2009, p. 209-211.

(5) José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Colecção Mil Folhas, 1984, pp. 47-48.

(6)  Ob. cit., pp. 65-66 e 169.

(7)  Frederico Hayek, O Caminho para a Servidão, Teoremas, 1977, pp. 185-186.

(8) Franco Nogueira, Salazar, Livraria Civilização Editora, 1983, Vol. III, pp. 20-21.

Continua


Nenhum comentário:

Postar um comentário