terça-feira, 29 de junho de 2010

Operação Saramago (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte






Entretanto, fiquemos novamente com o testemunho de Leonardo Coimbra:

«O esforço para a implantação [do comunismo] pode deixar em seu caminho doze milhões de mortos de fome, inegáveis casos de canibalismo, oito milhões de crianças vagabundas, raparigas de treze a catorze anos grávidas e sifilizadas, altares profanados – simbolicamente oferecidos ao Excremento -, milhões de camponeses fuzilados, médicos, padres, intelectuais, assassinados aos milhares: tudo isso nada prova aos olhos dum comunista. O Absoluto do Fim justifica e consagra todos os meios.

Para além do sofrimento, das crueldades e do horror, está a certeza da Terra Prometida.

Não foi Deus, que a prometeu; mas foi a Ciência pela voz infalível de Karl Marx, e seu altifalante Vladimiro Ulionov.

Com os comunistas, repetem esta atitude muitos homens incapazes de imaginação, que não realizam (no sentido forte do verbo inglês to realize) os horrores do caminho – como o burguês obtuso lê, com indiferença e porventura com a gulosa curiosidade do seu conforto em alto-relevo, as notícias dum ciclone, que varreu da Terra uma aldeia da Austrália.

E esses falhos de imaginação sensível, de coração, e esses surdos do amor-caridade, perdoam todos os horrores, porque agora lhes mostram uns hospitais modelos, ou sanatórios para repouso dos intelectuais ao serviço comunista.

Bem. Não falemos disso. O horror da Rússia é isso, e, mais e pior do que isso, é o que seria na benévola hipótese dos seus apologetas de fora e dos seus crentes do interior.

Suponhamos, pois, que se chega ao Fim. Não mais Deus, não mais Família, não mais arte repassada de metafísica, enevoada de mistério e transcendência» (in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre).

Kremlin (Moscovo).


Mas dir-se-á: os comunistas estão hoje perfeitamente integrados no sistema democrático, o que os impede de praticaram a violência, a crueldade e o morticínio perpetrados no passado. Ilusão. Eles apenas se adaptaram a uma nova fase da acção revolucionária, esperando o momento para transformarem violentamente o mundo. Aliás, todo este processo já vem na sequência de toda uma estratégia global que, tendo já sido aplicada na Rússia soviética para a destruição do Ocidente, virou agora num movimento subterrâneo que joga em várias frentes políticas nacionais e internacionais.

Em Portugal, a organização política começa por incluir "partidos políticos" extremistas, como o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Vêm depois os restantes partidos dominados pelo socialismo plutocrático, entre os quais sobressaem o Partido Social-Democrata e o Partido Popular. Logo, não há direita em Portugal. Nomeá-la é tão-só um artifício retórico para arrebanhar a maioria dos eleitores, assim como permitir que a esquerda proclame a existência de um inimigo neoliberal que ela própria forjou e imaginou, para então empreender a violência sobre os Portugueses por via da planificação económica e da destruição da cultura nacional.

Ora, o autor do Evangelho segundo Jesus Cristo é, no plano da cultura portuguesa, um caso claramente paradigmático. Basta ter ouvido o universitário Marcelo Rebelo de Sousa para se compreender como a suposta direita em Portugal colabora e alinha numa infraliteratura comunista capaz de fazer as delícias da lusofonia. Mas, afinal, o que disse tão arguto professor perante uma audiência televisiva que já só lê jornais e revistas do show business? Disse, para regozijo da esquerda triunfante, que na obra de Saramago perpassa como que uma espécie de «tensão espiritual» em que o autor, não obstante um declarado ateu com atitudes manifestamente polémicas, se debate com a procura de Deus.

Ateu é um eufemismo, para quem, na realidade, sempre se comportou como um cruel e ferrenho antiteísta, como, entre inúmeras passagens da sua obra, se mostra na seguinte:


Adão e Eva


«Este episódio [comer do fruto da Árvore do Bem e do Mal], que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, aí rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota extreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, são tão bons ou tão maus como os demais» (Caim, Caminho, 2009, pp. 14-15).

Temos assim, em Saramago, um antiteísmo explícito, até na forma como permutava, intencionalmente, a maiúscula pela minúscula, em palavras de horizonte infinito, como Deus, Adão e Eva. Todavia, na televisão e nos jornais parecia que tinha desaparecido um deus na forma de um homem bom e honesto, um bom escritor, um ser humano excepcional, um lutador… Mais: chegou mesmo a ser comparado, por via da propaganda marxista que intranha a comunicação social, a Camões e a Fernando Pessoa.

No plano da cultura, estamos perante a maior operação vermelhusca do princípio deste século. Até uma parte da Igreja portuguesa,  personificada pelo padre Carreira das Neves, caiu em tentação ao considerar Saramago como um crítico com quem até se podia dialogar. E o "mobil", mais uma vez, parece estar na «tensão espiritual» que, nas palavras evangélicas de Carreira das Neves, mostrava um Saramago entre Deus e o Diabo.

Saragago



Ora,quem não se deixou cair em tentação foi a Igreja de Roma, que disse o mínimo que se podia dizer por respeito à verdade: que Saramago era um «populista extremista» e um «ideólogo antirreligioso», assim como um «homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma, aprisionado até o fim em sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo» (L'Osservatore Romano) (1). Contudo, em Portugal,veio logo a imprensa dizer tratar-se de um ataque, quando na realidade, a verdadeira vítima sempre fora, neste caso, a Igreja Católica. É, sem dúvida, uma inversão espantosa contra todo o senso das proporções, visto que já nem a Igreja parece ter a legitimidade de se poder pronunciar e defender dos seus maiores inimigos.

No Salão Nobre dos Paços do Concelho, disse, por sua vez, a ministra da Cultura que Saramago enfrentou dogmas, coisa, aliás, tão patética e desonesta se nos lembrarmos que ele foi, durante toda a vida, um dos mais fanáticos defensores do dogmatismo comunista, saneando, inclusivamente, jornalistas do Diário de Notícias na sequência da revolução comunista de 1974. Aliás, até o próprio Olavo de Carvalho também deixou patente o que significa esse dogmatismo em Discípulos de Saramago:

«Nunca se pode esquecer que, para a mentalidade socialista, os donos de uma empresa jornalística não são verdadeiros donos: são usurpadores temporários. Possuir uma editora de jornais por havê-la comprado ou herdado é imoral e ilegítimo: limpa, correcta, honesta, somente a posse obtida pela ocupação das redacções à força, como se deu em Portugal durante o reinado de terror midiático encabeçado pelo comissário-do-povo José Saramago.

Para os jornalistas criados nessa mentalidade, o reino da justiça só virá no dia em que cada um deles for um novo Saramago não nas listas de best-sellers, mas na cadeira da presidência da empresa, tomada a tapa em nome do processo histórico…»

Mas o melhor viria ainda pela boca da ministra da Cultura a propósito do autor do Evangelho segundo Jesus Cristo: «Não tinha fé em Deus, mas certamente Deus teve fé nele». E a ministra da Educação, quando interpelada em contexto de ritual satânico e idolátrico, foi ao ponto de dizer que a obra de Saramago constitui uma «referência literária e filosófica». Esquecera-se da teológica?





Em suma: quando Portugal, à beira do abismo, corre cada vez mais na direcção de uma sociedade totalitária ao ponto de, na actualidade, deparar com a imposição da maior operação revolucionária capaz de ensombrar de vez a cultura portuguesa, tal significa que continuamos a estar sob o jugo de um movimento altamente organizado no âmbito internacional. Aliás, caso fôssemos uma verdadeira democracia, jamais teríamos a legalização de partidos políticos extremistas que dizem personificar a justiça dos pobres em sofrimento, bem como lutar em nome de uma solidariedade que explora todos os complexos atávicos de ressentimento colectivo. De resto, perante a retórica comunista em prol da paz mundial, isso merece tanta credibilidade quanto a afirmação de Nikita Kruschev numa época em que o comunismo dava de si uma imagem pacífica só desmentida pelas palavras do líder soviético: «Todo aquele que pensa que abandonámos o marxismo-leninismo engana-se grosseiramente. Tal só sucederá quando os camarões assobiarem».


Notas: 

(1) Convém não esquecer de que também a Igreja Católica, aquando do Pontificado de Paulo VI na sequência do Vaticano II (1962-1965) -, encetou contactos e negociações com os governos comunistas a ponto de os reforçar ainda mais. Por outro lado, é um facto de que, já no passado, Paulo VI mantivera «contactos com os católicos comunistas e com alguns sectores do Partido Comunista italiano», além de manifestar simpatia pelas correntes progressistas e ficar, no ínterim, conhecido como o «Arcebispo dos Operários» (cf. José Carvalho, Salazar e Paulo VI, Zebra Publicações, 2013, p. 17).

Em 1970, Paulo VI receberia ainda os três chefes da guerrilha comunista de Angola, Moçambique e Guiné, traindo assim a confiança de Portugal que travava uma guerra nas três frentes do Ultramar instigada por forças e potências de grande influência no palco internacional. Não admira, pois, que o “Papa comunista” tenha descrito a ONU como o «ideal com que a humanidade sonha através da sua peregrinação no tempo» ou de que a ONU era parte do «desígnio de Deus». Aliás, «chegou a ouvir-se, inclusivamente, que o Papa queria entregar uma parte do Vaticano nas mãos da Unesco» (cf. ob. cit., pp. 25-26). Mais: Paulo VI, «aquando da sua viagem no Extremo Oriente, em Hong Kong, dirigiu uma saudação tão afectuosa e comprometedora [à “revolução cultural” chinesa] que o governador da cidade se viu obrigado a impedir a sua difusão» (cf. ob. cit., p. 35). Em suma: Paulo VI, que dizia ter «a sensação de que o fumo entrou dentro do templo de Deus por alguma fissura», era o mesmo Papa que não só dera apoio moral aos terroristas em África e aos partidos de esquerda na América Latina, como também considerara «benevolente a Cuba de Castro e permitiu Bispos e padres marxistas» (cf. ob. cit., p. 42).







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