quinta-feira, 1 de abril de 2010

Vida Conversável

Escrito por Agostinho da Silva






Sob o aspecto religioso, é evidente que o que aparece em Portugal é uma gente completamente subordinada ao que o cristianismo se tornou depois da Contra-Reforma e que poderíamos talvez definir assim: um cristianismo completamente ocidentalizado, perdendo tudo quanto tinha de oriental, com mais um ponto extremamente curioso, que é este: a primeira transformação que o cristianismo sofre na Europa, ainda na Idade Média, é a de passar de um neoplatonismo de pensamento para um aristotelismo de pensamento, isto é, quando os cristãos tiveram de explicar a um grego o que era o cristianismo, fizeram-no em termos filosóficos para que ele o entendesse. Se o cristão não tivesse por objectivo converter ninguém, era escusado explicar, dizia o que era, no que acreditava e não tinha de dar mais nenhuma explicação. Mas como a sua ideia era também a de converter o pagão, converter o grego, ele tinha de explicar o cristianismo de maneira que o grego pudesse entender. Ora, das filosofias que havia à disposição, aquela que estava mais próxima do cristianismo era realmente o platonismo, mas já não na forma antiga de Platão, que não era muito conveniente para o cristianismo. Porque Platão teve duas épocas nítidas na sua vida, uma quando jovem, poeta, dramaturgo, em que andava à procura de temas para o teatro, que estava ensaiando e que de repente encontrou uma figura mais cómica e mais trágica ao mesmo tempo do que qualquer outra figura do teatro grego, no qual os poetas ou tinham de escolher as figuras trágicas como, por exemplo, Édipo, ou de inventar comédias. Mas ele encontrou uma figura grega viva, sua contemporânea, que era ao mesmo tempo fácil para a comédia e para a tragédia. Quando viu Sócrates meter a ridículo os sacerdotes, os generais ou os filósofos perante os meninos que se riam da figura que os outros faziam, ele tinha ali um assunto de comédia como nunca houve; e ao mesmo tempo as acusações e a morte de Sócrates deram-lhe um assunto de tragédia como, provavelmente, só depois a de Cristo deu a outros. Excluídas as diferenças, naturalmente, de que Cristo se apresentou sempre como um enviado, um filho de Deus e Sócrates não ousou tanto, mas andou muito perto, porque quando tomava resoluções depois de ouvir o seu deus interior, ele estava muito perto do conceito cristão de ser o homem filho de Deus. De qualquer maneira, no platonismo, o mais interessante para Platão terminou quando fundou uma Academia. Quer dizer, Platão tinha recebido de Sócrates a lição suprema de que a filosofia não é para ensinar, mas sim para provocar, para fazer aos outros perguntas que os embaracem e os leve, pelo pensamento, a desembaraçarem-se tanto quanto possível.

Quando Platão se pôs a ensinar na Academia acabou com isso, ele fundou na Academia todas as academias do mundo no que elas têm de pior, com alguma coisa útil que pudessem ter. Então muitos dos seus discípulos afastaram-se da primeira parte de Platão, porque não tinham o génio teatral dele, mas ao mesmo tempo afastavam-se também da segunda, porque não estavam para se meter no que era já uma Universidade, no que era já uma Academia com todos os seus defeitos e preferiam estar à parte em pequenos grupos ou, individualmente, entrarem naquilo a que se chamou neoplatonismo.


Academia de Platão


Então a Igreja o que encontrou mais perto de Cristo, dos Evangelhos, para pregar ao pagão foi exactamente o neoplatonismo. Mas o platonismo, mesmo no neoplatonismo, é muito difícil de entrar na cabeça do homem vulgar, do homem comum, do homem cuja vida se não faz meditando nessas coisas metafísicas, mas no físico da vida. E, de facto, a Igreja estava em crise perante as populações, quando foi salva pela invasão da Península. Paradoxalmente, o que salvou o cristianismo nessa altura foi os muçulmanos terem invadido a Espanha e trazido com eles Aristóteles, que tinha uma filosofia muito mais compreensível para o homem vulgar, ao passo que Platão a ideia que dava era a da filosofia do abstracto, do inexistente, do sonhado. Aristóteles dava a filosofia do concreto, eram as coisas que se passavam na Terra, era aquilo que toda a gente podia compreender e lhes dava até com a lógica um instrumento de trabalho extremamente simples: o silogismo foi a chave para abrir muita porta, que para outros estava fechada.

Por isso a Igreja passa do platonismo para o aristotelismo e é essa Igreja fortemente aristotélica que vem aparecer em Portugal, que por natureza não era aristotélico ou que era as duas coisas ao mesmo tempo. Aí talvez se pudesse dizer que o português - e é o exemplo de Camões - era um homem fadado para entender ao mesmo tempo as coisas do concreto e para poder levar uma vida de tal maneira que parecia que não podia atingir senão outra coisa além do concreto, do sensível, do facilmente apreensível aos sentidos. De repente, esse homem alçava-se para outras coisas, pairava por outras regiões, como no começo, que parecia incompatível no mesmo indivíduo. Isto é, assim como Joaquim de Flora tinha talvez pensado que em Deus havia, simultaneamente, o tempo e a eternidade, o português achava que eram simultâneos e com a mesma importância, o mundo do abstracto, o mundo do divino, digamos, e o mundo do concreto, o mundo humano. E coisa curiosa, é isso exactamente que vamos encontrar na Ilha dos Amores de Camões. Quando Camões ali pinta, descreve o verdadeiro lugar que se descobre, a epopeia - continuo a achar - não canta o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, aproveita a narrativa para dizer que o importante a descobrir não é o lugar de onde vem a pimenta e aonde se pode vender o veludo, que o ponto importante que os portugueses têm de descobrir é o tipo de vida que permita a um tempo mantê-los no abstracto e não descuidarem em nada o concreto, que aqui o português tem obrigação de ser duplo, não a obrigação de ser uno, e que talvez nessa duplicidade - veja-se como curiosamente a palavra duplicidade tomou o sentido pejorativo e nós achamos que aquele que tem duplicidade é o hipócrita, é um sujeito em que não se pode confiar, quando provavelmente duplicidade é a possibilidade de estar em dois terrenos ao mesmo tempo - é que podia estar um ideal para todo o homem.






(...) Ora bem, falemos agora dos estrangeirados. Então os portugueses conservadores no século XVIII são aqueles que receberam todo o país modificado pelas ideias europeias, mas as dos séculos XV ou XVI. Simplesmente, no resto da Europa essas ideias tinham proliferado, tinham avançado, tinham conseguido adiantar-se até, curiosamente, servindo-se do que fora trazido pelos portugueses e pelos espanhóis. A Europa adianta-se exactamente com os Descobrimentos. Eles haviam parado em Aristóteles e estavam bem contentes com isso. Simplesmente, o nosso amigo Aristóteles tem pelo menos duas coisas na sua filosofia: a metafísica e a física. A metafísica poder-se-ia discutir sempre e as grandes discussões nas universidades eram sempre à volta dela. Mas a física é de difícil discussão, porque há a experiência, o visível, o observável e ele está certo ou não, ou está de acordo ou não com o que diz Aristóteles. E o que aconteceu com os Descobrimentos é que o mais analfabeto, o mais inculto dos marinheiros portugueses era capaz de encontrar nas viagens, testemunhos, factos reais que liquidavam completamente o que Aristóteles havia afirmado. Porque ele raríssimas vezes havia feito uma experiência pessoal. É muito frequente encontrar na obra de Aristóteles uma expressão que de uma forma ou de outra quer dizer que alguém viu mas não ele, «dizem», «sabe-se», etc. Não «eu vi», «eu afirmei». E coisa curiosa, quando lemos, por exemplo, Camões, os seus marinheiros dizem «eu vi», «vi claramente visto!», diz um deles. E o que é que eles viram claramente visto? Uma porção de coisas que Aristóteles declarava que não existiam. Assim, o que primeiro se desmanchou foi a física de Aristóteles. E se há uma metafísica que se baseia numa física, o que acontece é que a metafísica começa a ficar abalada. Na Europa, o que se considerou importante foi que se averiguasse a física para ver como depois ficaria a metafísica. E logo os melhores espíritos se lançam em duas linhas diferentes: na experiência da física vamos pôr Galileu, a sua gente lá da Polónia, o seu Copérnico, para ver exactamente como é que as coisas se passavam , na observação cuidadosa da natureza. Mais ainda: o emprego, não da lógica aristotélica, mas da matemática, sobretudo da álgebra, que também tinha sido introduzida pelos árabes através da Península. E, depois, quando se passou para a outra interrogação, se toda a física estava errada o mesmo acontecia à metafísica. Começaram então a avançar com todo o cuidado, com toda a cautela, Montaigne, Bacon, e depois, por exemplo, Descartes, procurando qual a coisa mais simples que podia declarar que estava certa, até que veio com aquela história do «penso, logo existo», como algo de fundamental e que eu acho que não o é, porque, como já disse, ele não pode declarar que é ele quem pensa e que vai além de existir como pensado e não na existência no sentido talvez em que ele próprio tomou.

Bom, isso é outra questão. Então, como a Europa não tinha a pressão religiosa que havia em Portugal, os espíritos podiam pensar mais à vontade, exactamente porque tinha havido a Reforma e porque havia uma grande variedade de gente e uma outra dimensão. Quer dizer, Portugal era muito pequeno em comparação com o resto da Europa e até a Espanha o era. E havia gente que avançava muito mais. Assim, os estrangeirados eram conservadores não detidos no tempo. De facto, os conservadores do século XVIII, os reaccionários, são estrangeirados antigos, e os estrangeirados são conservadores mais modernos, porque achavam que o que se devia fazer era aceitar as coisas das Europa, não no sentido de avançar, mas no sentido de que se tinha chegado ao máximo possível - exactamente como entendiam os conservadores.




Quando um homem chega à ideia que aquilo que sabe, que vê e que pensa é o melhor que se pode atingir, é a coisa definitiva, esse homem, por muito revolucionário que pareça, é no fundo um conservador, um conservador apenas de coisas mais recentes, mas não é de maneira nenhuma um revolucionário. O revolucionário é aquele que acha que aquilo também é duvidoso e que procura avançar, mesmo para coisas que também sejam duvidosas, mas que procura sair dali com novas experiências, novas aventuras e de nenhuma maneira se rende às ideologias que já tomaram posições de governo. O revolucionário é aquele que acha que desde que uma coisa passou a dirigente está atrapalhada da saúde e é capaz de aí a uns tempos já estar inteiramente superada e, portanto, ser reaccionária.

Então em Portugal, o conflito de estrangeirados e conservadores não tem importância nenhuma, porque os verdadeiros revolucionários foram os portugueses que não conseguiram submeter-se aos primeiros e muitos outros aos segundos, e por isso trataram de ir-se embora para onde mais à vontade pudessem avançar por caminhos novos. O que deu como resultado que, por exemplo, o Brasil feito pelos portugueses está a avançar em relação a Portugal, não no sentido de se ter chegado a melhores coisas, mas no de estar disposto a não se deixar prender por nenhuma espécie de prisão e avançar sempre e nunca dizer «não» a uma proposta válida. O verdadeiro conservador é aquele que diz não a tudo o que lhe propõem e que se recusa a fazer uma experiência (in Vida Conversável, Assírio & Alvim, 1998, pp. 89-94).


Nenhum comentário:

Postar um comentário